Sonhador, o jumentinho

01/12/1997

Sonhador, o jumentinho

Marta Bruch

Numa fria noite de inverno nasceu um jumentinho numa humilde estrebaria. Mamãe jumenta estava feliz e orgulhosa. Era seu primeiro filhinho e como toda mãe coruja achava o seu filho o mais lindo do mundo.

O jumentinho recebeu o nome de Sonhador, e quanto mais ele crescia mais justiça fazia ao seu nome. Sonhador era um sonhador. Vivia no mundo da lua. E enquanto sonhava seus olhos enchiam-se de luz. Eles brilhavam de tal forma que mamãe jumenta erguia os olhos para o céu, a fim de certificar-se de que as estrelas ainda estavam lá. Muitas vezes, ela tinha a impressão que todas tinham se precipitado lá do céu para vir enfeitar os olhos do jumentinho.

E Sonhador sonhava com a pastagem linda que havia perto de sua estrebaria. Mas essa pastagem estava cercada. Nela só pastavam cavalos de raça. Também havia um lindo potro que corria e saltava sobre aquele pasto verde e vistoso. Ele relinchava, convidando Sonhador para brincar com ele. Mas entre Sonhador e o potrinho havia uma cerca. Sua mãe também aconselhava:

— Sonhador, Sonhador, não sonhe... este mundo não é para você. Nós estamos do lado de cá da cerca. Enquanto nós carregamos fardos pesados nas costas, eles passeiam com lindos adornos e arreios; enquanto nós puxamos os arados que rasgam a terra onde será lançada a semente, eles exibem-se em desfiles luxuosos; enquanto nós levamos o relho no lombo, eles recebem afagos e cubinhos de açúcar; enquanto nós recebemos um punhado de feno que mal nos sustenta de pé, eles recebem ração, feno e milho à vontade. Sonhador, as farpas da cerca são para nos manter afastados.

Mas Sonhador, com ar sonhador, sonhava grandes glórias.

— Um dia levarei o maior Rei entre todos os que já existiram e virão a existir, sobre o meu lombo.

Todos riam de seus sonhos e comentavam:

— Logo, logo o relho do patrão e o peso das cargas que terá que carregar vão lhe tirar as forças de sonhar.

Sonhador não se importava com o riso de troça dos outros, e não havia cansaço e relho que lhe arrancassem os sonhos e o brilho do olhar.

Um dia tudo seria diferente. Não haveria cercas para separar pastagens e haveria feno, ração e milho para todos. E ele haveria de carregar sobre o seu lombo o Rei dos reis em honra e glória.

Sonhava o Sonhador.

— Carregar um Rei? Essa honra só é dada para cavalos de raça e não para nós jumentos, os burros de carga. Afirmavam os outros.

Numa linda manhã houve grande alvoroço nas redondezas. Um Rei, o maior de todos, segundo se comentava, procurava uma montaria.

Os cavalos de raça já ensaiavam seu trote majestoso na verde pastagem. Naturalmente os escolhidos seriam eles. Para um Rei, um cavalo de raça.

Sonhador tremia de emoção. Será agora o momento de realizar o meu sonho?, pensava ele.

Sua mãe chegou afobada, gaguejando de tão nervosa:

— Sonhador... dois senhores vieram te buscar para que tu carregues em teu lombo um grande Rei. Ele vai visitar uma cidade e quer entrar triunfalmente por seu portões, para que todos saibam que ele é o Rei dos reis.

Sonhador não cabia em si de tanta alegria e emoção.

Os animais conversavam entre si:

— Que Rei é esse afinal, que escolhe um jumentinho para sua montaria? Se ele quer poder deveria ostentar riqueza e montar um cavalo de raça e não um jumento de carga.

Sonhador foi feliz e realizado para sua tarefa. Carregou em seu lombo aquele Rei de olhar doce e manso, de fala bondosa e repleta de amor.

Por onde passavam, as pessoas jogavam flores, estendiam ramos e cantavam de alegria.

O coração de Sonhador dava cambalhotas no peito de tanta emoção. Ele trotava com cuidado para não tropeçar e machucar esse maravilhoso Rei.

Quando voltou ao seu humilde estábulo todos riam de Sonhador e brincavam dizendo:

— Como vai o jumentinho real? Onde estão os ricos adornos e arreios? Parece que você voltou igual como saiu, até o cheiro de estrume é o mesmo.

Sonhador não se importava com as gozações, ele sabia que em seu lombo carregara o Rei, o Senhor, e seu nome era Jesus.


Ver ìndice do Anuário Evangélico - 1998
 


Autor(a): Marta Bruch
Âmbito: IECLB
Área: Celebração / Nível: Celebração - Ano Eclesiástico / Subnível: Celebração - Ano Eclesiástico - Ciclo da Páscoa
Título da publicação: Anuário Evangélico - 1998 / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1997
Natureza do Texto: Vários
Perfil do Texto: Conto
ID: 33119
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