Teatro popular com crianças, adolescentes, jovens e adultos na periferia de Belém

Artigo

04/12/1990

Apresentação

O trabalho de evangelização através da arte popular é a experiência que aqui queremos partilhar com vocês.

Falar a língua do povo simples e traduzir textos bíblicos para a concretude da vida desse povo tem sido um grande desafio para nós aqui em Belém.

A população que mora nas baixadas (áreas alagadas) geralmente tem muitos filhos. Para essas crianças a sociedade está literalmente fechada. Poucas sabem ler e escrever. Cedo começam a trabalhar para auxiliar na sobrevivência da família. O trabalho realizado por essas crianças acontece fora do mercado formal. Uma coisa porém elas aprendem desde cedo: quem não é esperto o suficiente para ler os sinais de perigo morre antes da hora.

Os perigos são muitos: a fome. A carência generalizada. As pontes esburaca¬das, podres e sem qualquer proteção, sobre a água da preamar, ou lixo, pau, pregos, latas, ferros, etc., quando é maré...

A polícia que vem batendo, atirando, prendendo, sequestrando, roubando ou matando.

As brigas de homens enciumados ou alcoolizados...

O pai que chega em casa descarregando a repressão absorvida durante o dia...

A mãe que, desesperada, não consegue mais aguentar as frustrações, os medos, as angústias, o dinheiro pouco, a doença, a morte, o marido, a vizinha etc. e desa¬ba seu desespero sobre o elo mais fraco, na cadeia da submissão...

Além desses perigos, dos quais cada pequeno morador de favela tem consciência, existe o perigo da perda irreversível da própria identidade. Exemplo disso são a maioria dos policiais, que, apesar de oriundos da mesma camada social, comportam-se como seres superiores investidos de todo o poder sobre vida e morte de seus semelhantes.

Há mais de dez anos estamos perguntando e buscando respostas:

Como eliminar o dominador que mora dentro de cada ser dominado?

Como anunciar a Boa Notícia num meio de tanto sofrimento, alienação, fatalismo, reprodução dos mitos e mecanismos de dominação e discriminação?

O que sabemos nós de fato sobre a extensão e a profundidade do sofrimento das pessoas condenadas a uma vida de não-gente?

Os artistas populares do Nordeste

Foi também na periferia urbana que tivemos o primeiro contato com artistas populares oriundos do Nordeste, onde o teatro popular — inclusive com bonecos, grandes e pequenos — é muito difundido. A comunicação utilizada nesses espetáculos é muito eficiente, pois dirige-se não apenas ao intelecto, mas envolve a pessoa toda e na situação em que ela vive.

Entre os artistas nordestinos logo se espalhou a notícia de que na Igreja Luterana em Belém a arte popular é recebida com alegria e interesse. Com algumas doações financiamos várias oficinas. Antes ou durante os cultos os artistas-mirins se apresentam, sendo bem recebidos por grandes e pequenos. Num culto de Natal para crianças, a cena do menino Jesus (boneco feito de frasco e pano) mijando sobre a plateia ficou gravada para sempre. A partir daí, todos os anos o Natal é atualizado novamente. Em 1989 Jesus, filho de migrantes, acaba nascendo na fila do INAMPS.

Quem organiza o teatro

Atualmente a Paróquia de Belém conta com dois artistas populares, Bibi e Nilton. O primeiro, paraense, começou aos dez anos e o segundo veio do Ceará com 19 anos. Ambos são da segunda geração de membros da paróquia. Mais importante do que saber ler ou escrever muito bem é o fato de serem da mesma camada popular. Falam a mesma linguagem e conhecem o anseio pela libertação misturado com o medo de assumi-la.

Nas escolinhas de arte do Guaíra e da Vila da Barca, Bibi e Nilton coordenam o processo de multiplicação da arte popular. Com o auxílio das equipes de Educação e/ou Pastoral, bem como nas reuniões mais amplas, os dois artistas ensinam e aprendem, num processo contínuo, como se combina prática-teoria-prática.

Começando pelas situações narradas pelas próprias crianças, elabora-se a devolução dos acontecimentos em forma de dramatização. Ao dramatizarem essas situações existenciais, ocorre naturalmente uma reflexão. Enquanto no mundo do adulto há uma constante tentação de fugir da realidade dura, os participantes do teatro popular mergulham fundo nessa realidade. As contradições são explicitadas, vividas, sentidas com corpo, cabeça, sentimentos, emoções... Não há script, nem textos para serem decorados. O cotidiano fornece sempre novos temas e o espectador é convidado a participar. A identificação com um ou mais personagens é inevitável. O debate que normalmente segue o espetáculo favorece a conscientização em níveis crescentes. A criança que antes era disciplinada apanhando agora aprende e ensina brincando. O sério, o engraçado e o lúdico estão presentes no teatro popular. O conteúdo varia de acordo com o processo de conscientização de seus participantes. A repetição de uma apresentação traz sempre novos elementos e re-elaborações como contribuição das próprias crianças.

Exemplo prático com um texto bíblico, apresentado em forma de dramatização

1a ETAPA:

1. Situação que se quer evidenciar: assassinatos em conflitos pela posse da terra.

2. Escolha de um (exto bíblico: A vinha de Nabote, l Rs 21.1-29.

3. No dia, hora e local combinado encontram-se:

uma pessoa que entende de Bíblia;

duas pessoas que entendem de teatro.

3.1. Leitura de texto.
3.2. Tradução das palavras difíceis.
3.3. Reconstituição verbal popular do fato narrado.
3.4. Explicação sobre os personagens, sua origem cultural e status social (l Reis 16.29-33 e l Reis 17.1-3; 18; 19).

4. Questão teológica central: a terra.

4.1. O que é a terra para o povo de Israel? Lv 25.23 e Dt 15.4
4.2. O que é patcha-mama para os povos ameríndios?
4.3. O que é a terra para o caboclo amazônida?
4.4. O que é a terra para Jezabel?

5. A questão política do texto: o poder.

5.1. Acabe é rei de Israel. O povo de Israel sabia que era preciso respeitar as leis para garantir as relações sociais justas. As leis, tipos de sucessivas constituições, foram feitas para que o povo nunca mais caísse na escravidão. Também o rei deveria respeitar leis e normas de conduta (conforme Dt 17.14-20, por exemplo). Enquanto os reis dos países vizinhos exerciam o poder absoluto, os reis de Israel (Norte e Sul) não deveriam esquecer-se de sua função de serviço. Eles eram ungidos de Deus para prestar serviço ao povo, zelando pelo exercício da justiça.

5.2. Situação de conflito:
Nabote sabe que a terra é herança. Esta é uma lei divina que protege as pessoas, por isso não pode ser violada. Acabe também conhece a lei, mas ela o incomoda, pois limita o seu poder e a expansão do seu património. Jezabel é de outro país, que tem outras leis e outra religião. Para Jezabel rei é rei e todos devem respeitá-lo como autoridade suprema. Coitado de seu marido, ele está sofrendo tanto por bobagem. Afinal, é simples resolver a questão. O casal real é a fusão perfeita do poder político e religioso. Nesse caso Jezabel assume a decisão política da execução de Nabote e a aquisição de sua vinha. Tudo resolvido, e agora o rei toma posse. Caminhando sobre os limites da terra que pertencia a Nabote, o rei Acabe torna pública a legitimidade jurídica e religiosa. Jezabel, a fiel esposa, por amor a seu marido, tirou-lhe das costas o peso do conflito. Ela mesma cuidou da parte suja do negócio. Agora Acabe estava feliz e abençoado pelo deus Baal...

5.3. Intervenção de Javé:

O Deus vivo, do qual fala a Bíblia, era chamado de Javé. Ele sempre se manifesta para inverter os planos dos poderosos. Neste caso ele intervém por intermédio do profeta Elias (que já era velho conhecido de Acabe e Jezabel). Javé permitiu que Acabe permitisse que Jezabel mandasse executar Nabote. Agora, ao iniciar o desfrute, a glória do poder e da posse, Elias aparece para estragar tudo. Acabe chama-o de inimigo. No versículo 20 do capítulo 21 de l Reis, vemos Acabe flagrado pelo profeta Elias. Acabe tem o poder de rei. Elias tem a autoridade concedida por Javé. Nesta história, o rei, ao invés de matar o profeta, arrepende-se. Teria ele sacado finalmente que não adianta fugir de Javé?

6. Os dois artistas decidem que em outra oportunidade lemos que retomar a questão da mulher. A figura de Jezabel entrou nas histórias populares onde se compara Jezabel a Eva e, assim, todas as mulheres são lidas como culpadas de todas as maldades.

7. Coleta de ideias, como fazer a dramatização.
7.1. Deixar as crianças citar eventos de acontecimentos recentes e locais para atualizar a história.
7.2. Deixar claro quem os quatro personagens representam.
7.3. Todas as crianças podem participar. Quem não é um dos quatro é parte do tribunal, testemunhas e povo.
7.4. O conflito de consciência de Acabe será representado por duas figuras, sendo uma a voz da consciência que conhece as leis de Deus e a outra a voz da própria cobiça, desejo de ter e mandar.

2a ETAPA:

1. Os dois artistas discutem com as crianças a proposta de fazerem uma peça sobre uma história bíblica.
2. As crianças logo querem saber a história.
3. Os dois contam, de modo resumido. As crianças decidem convidar outros. Os dois artistas também convidam outros para ver, criticar e auxiliar.
4. Com apenas dois ensaios a peça é apresentada no culto. Antes do culto, novos participantes aparecem, outros não puderam vir. Não tem problema, todas as crianças sabem o papel de cada um. Aqui a improvisação é fundamental. Não há script. Há um roteiro na cabeça de cada um, e os dois artistas controlam a sucessão da entrada em cena dos artistas-mirins. O contendo foi entendido, agora é só devolver com as próprias palavras. A plateia se envolve e participa. É o verbo se fazendo carne entre nós.

Apêndice

No último acampamento Repartir Juntos, Bibi e Nilton incentivaram 35 participantes a fazerem uma experiência de teatro popular.

O texto bíblico foi o mesmo que aqui descrevemos. Escolhemos este texto para mostrar que a cada grupo de participantes corresponde um método diferente de trabalho.

Entre pastores, estudantes de Teologia e membros ativos de comunidade não há dificuldade com leitura. A dificuldade colocada por eles foi: Mas como decorar tudo isto aqui para apresentar daqui a pouco?

Com menos de uma hora, os interessados leram o texto, escolheram voluntários para os personagens, distribuíram as tarefas e só se encontraram rapidamente antes da apresentação para os últimos acertos.

A apresentação da peça aconteceu no culto de ordenação e foi filmada em VT.

Considerações finais

Quem está habituado ao teatro clássico e à teologia acadêmica certamente terá muitas objeções a fazer, especialmente quanto à erudição.

A utilização do teatro popular no trabalho de conscientização, seja ela cultural ou teológica, possibilita o envolvimento de todas as pessoas: as que dominam o saber e a arte erudita e aquelas que dependem fundamentalmente de seu corpo para aprender, assimilar e devolver.

A cada reprise do texto, lido, falado, esmiuçado, refletido e devolvido em palavras ou gestos conhecidos, os raios de expansão vão se propagando. Os corpos que participam nesse agitar do espírito jamais deixam o cérebro esquecer a mensagem materializada.

Mediante os exercícios práticos de atualizar eventos recuados na distância histórica, é possível também encurtar a distância que separa o real do idealizado. O dualismo importado da civilização ocidental também vai sendo superado quando a cabeça tem que pensar sobre a realidade na qual vive o corpo.

E, finalmente, no teatro popular todas as remanescências culturais dos grupos sociais subjugados são estimuladas a ressurgirem na fala, atitude e gesticulação dos personagens. A identificação da plateia com personagens ou conflitos sempre acontece. Daí ser relativamente fácil estabelecer o debate durante e após a dramatização

Acreditamos que o nascer de novo implica assumir a própria identidade. O teatro popular é um dos exercícios que auxiliam a descobrir não apenas a própria identidade mas também a consciência coletiva.

Equipe pastoral — Paróquia de Belém (Rosa Marga Rothe)


 


Autor(a): Rosa Marga Rothe
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1990 / Volume: 16
Natureza do Texto: Artigo
ID: 13876
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Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria nem o forte na sua força nem o rico nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que Eu sou o Senhor e faço misericórdia.
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