Viver vigilante, na prática de fé e serviço ao próximo - Mateus 25.31-46

Autoria P. Me. Alexander Busch

31/12/2019

Estimada comunidade, irmãs e irmãos em Cristo,

Nesta época, durante as festividades de natal e fim de ano, as pessoas se sentem mais propensas a atos de generosidade e gestos de solidariedade. Existe muito de positivo nesta época em que se anuncia o amor de Deus revelado no menino Jesus, neste tempo favorável para o serviço ao próximo. De fato, fazer bem ao próximo, ofertar alimentos a quem necessita, doar tempo para quem carece de atenção são gestos que ajudam tanto a pessoa que recebe como a pessoa que está doando. Nestes gestos que aproximam as pessoas umas das outras, tanto as pessoas que se dispõem a ajudar como as pessoas que são ajudadas experimentam sentimentos de realização e gratidão.

Os textos bíblicos indicados para nossa reflexão no culto Véspera de Ano Novo querem olhar para além do tempo de Natal e Fim de Ano. São palavras que querem mover nossa fé em direção ao próximo no decorrer do próximo ano. O texto em Eclesiastes, por exemplo, indica que é sinal de sabedoria aproveitar bem o tempo que nos é dado, “o que a pessoa pode fazer é procurar ser feliz e viver o melhor que puder. Todos nós devemos comer e beber e aproveitar bem aquilo que ganhamos com o nosso trabalho. Isto é presente de Deus” (Ec 3.12-13).

Como administrar bem o nosso tempo também é o tema do Evangelho que ouvimos. Aqui Jesus nos fala sobre o Juízo Final, um ensino que tem despertado a imaginação dos mais diferentes artistas, sendo que a pintura de Michelangelo na Capela Sistina é uma das mais famosas. A pintura de Michelangelo retrata o que as palavras de Jesus anunciam. Chegará o tempo em que o Filho do homem, Cristo Jesus, retornará como rei juntamente com seus anjos. Ele vai sentar-se no trono para conduzir o juízo Final. Todas as nações da terra serão reunidas diante dele. E então ele vai separar as pessoas umas das outras, assim como o pastor separa as ovelhas das cabras. O critério do julgamento e separação são os gestos de cuidado e serviço ao próximo. Consequentemente, algumas pessoas irão herdar o Reino de Deus, enquanto outras pessoas irão para o castigo eterno.

E agora? Diante destas palavras de juízo o que podemos falar? Como reagir? Estamos preparados para ficar perante o justo juiz, Jesus Cristo? Onde você se enquadra nesta história? Será que Jesus fala estas palavras para provocar desespero? Numa avaliação honesta e pessoal alguém poderia cair em desespero por causa das suas omissões, sentimento de culpa, desamor ao longo do ano que se passou? Ou será que Jesus fala estas palavras para alimentar o ativismo? Como igreja, como pessoa cristã, vamos se engajar intensamente em boas obras que venham garantir nossa entrada no Reino de Deus? A salvação, porém, é em virtude das boas obras que as pessoas praticam? Ao falar estas palavras, o que Jesus quer despertar em nós?

Para responder estas perguntas é bom lembrar que a palavra sobre Juízo final faz parte de um grupo de ensinos de Jesus que inicia no capítulo 24 de Mateus. Os discípulos perguntaram a Jesus, “como e quando será o fim dos tempos?” (Mt 24.3). Jesus então lhes oferece uma longa resposta registrada nos capítulos 24 e 25. Ao falar do fim dos tempos e de sua segunda vinda, Jesus destaca que nem ele, nem ninguém sabe quando isto irá acontecer, a não ser Deus o Pai. Por isto, Jesus estimula as pessoas a vigiar e estar atento. Jesus fala para colocar a fé em prática e continuar investindo nos dons e aptidões para servir na igreja e sociedade. É dentro deste contexto maior que Jesus traz o seu ensino sobre o Juízo Final. 

E ao falar sobre o Juízo Final, um detalhe importante ganha destaque: a surpresa das pessoas. Todas as pessoas trazidas a julgamento, tanto as que foram separadas para o lado direito como para o lado esquerdo, estão surpresas. “Senhor, quando foi que vimos o senhor com fome, ou com sede, ou como estrangeiro, ou sem roupa, ou doente, ou na cadeia?” é a pergunta que os dois grupos fazem a Jesus. Tanto as pessoas da direita como da esquerda se identificam como pessoas que afirmam que Jesus é o Senhor e rei de suas vidas. 

Entretanto, o grupo criticado e impedido de herdar o reino de Deus é, conforme Jesus, as pessoas que tiveram a oportunidade de expressar a fé em gestos concretos de amor ao próximo, mas não o fizeram. “Todas as vezes que vocês deixaram de ajudar uma destas pessoas mais humildes, foi a mim que deixaram de ajudar” (Mt 25.45). São pessoas que afirmam confiar em Jesus, mas que infelizmente não entenderam as implicações da sua fé. Não compreendem que confiar em Jesus diz respeito ao meu bem-estar, mas também têm consequências práticas na maneira como trato as outras pessoas.

Jesus, noutra ocasião, se referiu a estes seguidores como pessoas que chamam Jesus de “Senhor, Senhor”, mas não vivem conforme a vontade de Deus (Mt 7.21). São pessoas que confiam mais em si mesmas, do que na graça de Deus. Ou, dizendo em outras palavras, são pessoas que confiam numa graça barata que não transforma atitudes e posturas perante o próximo. Um famoso pastor e teólogo, que se posicionou contra a ideologia nazista durante a Segunda Guerra Mundial, escreveu, “A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma comunidade, é a Ceia do Senhor sem confissão de pecados, é a declaração do perdão sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado”. Palavras de Dietrich Bonhoeffer, que pagou com sua própria vida o preço de confessar Jesus como Senhor.

Voltando nosso olhar para a palavra de Jesus sobre o Juízo Final, Jesus fala sobre outro grupo de pessoas que também é tomado de surpresa. A surpresa aqui, todavia, se deve ao fato das pessoas não perceberem que ao servir o próximo elas estavam servindo Jesus. “Senhor, quando foi que vimos o senhor com fome, ou com sede, ou como estrangeiro, ou sem roupa, ou doente, ou na cadeia?” e Jesus lhes responde, “quando vocês fizeram isso ao mais humilde dos meus irmãos, foi a mim que fizeram”.

Estas são pessoas que compreendem o valor da fé e as implicações práticas da fé para o dia a dia no cuidado para com as outras pessoas. São pessoas que confessam Jesus como Senhor de suas vidas e de uma forma natural, espontânea querem compartilhar a fé e o amor com as pessoas em sua volta. Não são pessoas vítimas de uma mentalidade calculista e mercenária, que pergunta “o que eu ganho com isto?”. Pelo contrário, são pessoas que se sentem tão acolhidas pela graça de Jesus, que naturalmente desejam servir o próximo em amor. Cativadas pelo perdão e reconciliação de Jesus, querem compartilhar com outras pessoas a preciosa graça que receberam.

Mais uma vez cito Dietrich Bonhoeffer, que arriscou sua própria vida em favor do próximo, organizando fugas de famílias judias durante a guerra. Bonhoeffer escreveu, “Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar pessoas para seguirem Jesus Cristo . . . essa graça é, sobretudo, preciosa por ter custado a Deus a vida de seu Filho e porque não pode ser barato para nós aquilo que para Deus custou tão caro. A graça é graça, sobretudo, por Deus não ter achado que seu Filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida, antes Deus deu seu filho por nós”.

Palavras de Dietrich Bonhoeffer que, no meu entender, são bastante apropriadas para descrever pessoas que confiam plenamente em Jesus Cristo. São pessoas que confiam em Jesus a ponto de não se preocuparem com o Juízo final, mas o centro de suas vidas é confiar em Jesus como Senhor e rei e viver conforme a vontade de Deus. São pessoas que procuram administrar bem o seu tempo, cuidando de si e suas famílias, e, respectivamente, reservando tempo para gestos de cuidado e serviço a outras pessoas em necessidade. São pessoas que vivem assim a partir da precisa graça de Deus, estampada no rosto de uma humilde criança nascida numa manjedoura, que, ao crescer, anunciou em gestos e palavras o cuidado de Deus; uma criança, que anos mais tarde, ao morrer, derramou seu sangue em favor do próximo, e, ao ressuscitar, promete vida eterna, vida que permanece às pessoas que nele confiam.

Estamos às vésperas de 2020. Que a fé em Jesus possa continuar movendo nossas vidas em direção a outras pessoas, para atos de generosidade e gestos de solidariedade. Que possamos entrar em 2020 confiantes de que as dádivas e bênçãos de Deus não são tanto as conquistas pessoais e bens materiais que venhamos a adquirir, mas sim a oportunidade de servir ao próximo. Finalizo com outra frase de Bonhoeffer: “se queres que as dádivas de Deus permaneçam contigo, então sirva o próximo, pois nele encontras para ti o próprio Deus”. Amém.

Véspera de Ano Novo. Textos bíblicos Ec 3.1-13 e Mt 25.31-46 

Citação do livro Discipulado de Dietrich Bonhoeffer.     


Autor(a): P. Me. Alexander R. Busch
Âmbito: IECLB / Sinodo: Rio Paraná / Paróquia: Maripá (PR)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Natureza do Domingo: Silvestre/Véspera de Ano Novo

Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 25 / Versículo Inicial: 31 / Versículo Final: 46
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 54854
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