Êxodo 14.8-16, 21-23,26-31

Prédica

Êxodo 14.8-16, 21-23,26-31 - 4º. DOMINGO APÓS EPIFANIA

Prezada comunidade!

I

Os senhores todos conhecem uma certa história, muito milagrosa e impressionante, do Antigo Testamento. Todos certamente já a ouviram mais de uma vez: na aula de religião, na escola dominical, no ensino confirmatório, seja onde for. É a história que narra a sarda dos israelitas do Egito, sob a perseguição das tropas do Faraó, com a passagem pelo mar. Pois é sobre esta história que vamos falar hoje. Ela se encontra no capítulo 14 do livro de Êxodo: 

O Senhor endureceu o coração de Faraó, rei do Egito, e ele saiu a perseguir os israelitas, que saíram destemidamente. E os egípcios foram em sua perseguição - todos os cavalos e carros de batalha de Faraó, e os seus cavalarianos e o seu exército - e os encontraram acampados junto ao mar, perto de Pi-Hairote, defronte de Baal-Zefom. Ao aproximar-se o Faraó, os israelitas ergueram os olhos e viram que os egípcios vinham atrás deles, e ficaram apavorados. Aí os israelitas gritaram ao Senhor, e disseram a Moisés: Foi por não haver túmulos no Egito que você nos tirou de lá, para que morramos aqui no deserto? O que foi que você fez conosco, levando-nos a sair do Egito? Não te dissemos ainda no Egito: Deixe-nos em paz! Queremos servir aos egípcios!? Pois para nos seria melhor servir aos egípcios do que morrer no deserto! Então falou Moises ao povo: Não temam! Fiquem parados (firmes) e vejam o auxílio, que o Senhor lhes fará hoje. Porque assim como vocês estão vendo esses egípcios hoje, vocês nunca mais os verão. O Senhor lutará por vocês; quanto a vocês, apenas fiquem quietos. Disse o Senhor a Moisés: Por que clamas a mim? Ordena aos israelitas que se ponham a caminho. E tu, ergue a tua vara e estende a tua mão sobre o mar, e divide-o, de modo que os israelitas possam passar pelo meio do mar em seco. Então Moisés estendeu sua mão sobre o mar e o Senhor fez retirar-se o mar toda aquela noite por meio de um forte vento oriental, e transformou o mar em terra seca, e as aguas se dividiram. Assim os israelitas entraram pelo meio do mar em seco, e as aguas ficaram a sua direita e a sua esquerda, como um muro. Os egípcios os perseguiram e entraram atrás deles - todos os cavalos de Faraó, seus carros de batalha e seus cavalarianos - pelo meio do mar. E disse o Senhor a Moisés: Ergue a tua mão sobre o mar para que as aguas retornem, sobre os egípcios, sobre os seus carros de batalha e seus cavalarianos. Então Moisés ergueu sua mão sobre as aguas e o mar retornou, pelo romper da manhã, ao seu lugar. Ao fugirem, os egípcios foram de encontro a ele; e o Senhor fez sair os egípcios no meio do mar. As águas retornaram e cobriram os carros de batalha e os cavalarianos, todo o exército do Faraó, que os perseguira pelo mar; nenhum deles sobreviveu. Os israelitas, porém, tinham passado em seco pelo meio do mar, enquanto as águas ficaram a sua direita e a sua esquerda, como um muro. Assim, o Senhor salvou naquele dia os israelitas da mão dos egípcios. E Israel viu os egípcios mortos na praia do mar. Israel viu a mão grande que o Senhor baixara sobre os egípcios; então o povo temeu o Senhor e confiaram (creram) no Senhor e em Moisés, seu servo. 

II

Para nós, uma história familiar, mas ao mesmo tempo um tanto fantástica e, por isso mesmo, também estranha. Sobretudo, cheia de milagres, que fogem totalmente às leis da natureza. Mas vejamos: O que pretende o povo de Israel ao passar adiante essa história, de geração a geração? Contar um causo cheio de traços extravagantes? O que quis cada geração dizer à seguinte, com essa história? O seguinte: H5 muito tempo nossos antepassados eram escravos no Egito; quando já não suportavam mais a escravidão, eles clamaram a Deus, ele lhes deu um líder, e eles fugiram. Mas o rei dos egípcios mandou uma tropa bem treinada, equipada com armas ultra-modernas, ao seu encalço. Essa tropa alcançou a caravana dos nossos antepassados, e quando já estavam prestes a aniquilá-los, Deus entrou em cena, de forma inexplicável, milagrosa; eliminou os egípcios por completo e salvou nossos antepassados. Naquele dia nós, os israelitas, aprendemos duas coisas, que são tremendamente importantes para nós até hoje: 1º.- O nosso Deus é um Deus poderoso, que entra em ação de maneira bem concreta, em favor do seu povo, interferindo diretamente na história, nas ações, nas empreitadas dos homens; 2º.- Por que Deus teria protegido exatamente a nós, e não aos egípcios, por exemplo? Certamente porque ele nos escolheu, porque ele nos quer bem de modo especial, porque nos quer como seu povo. 

Assim, prezada comunidade, podemos compreender como foi fundamental, essencial para a fé de Israel aquela história da saída do Egito. Foi a partir daquele ato que o povo de lsrael passou a entender a sua relação com Deus. 

Bem, e daí? E nós com isso? O que me interessa Israel? O que me interessa esse episódio da saída do Egito? Como mero fato histórico, de fato não me interessa muito. Existem outros acontecimentos bem mais fascinantes. No entanto, é enormemente importante e elucidativo para nós observarmos o vai-vem entre o povo e Deus, desde a rebelião, no inicio, até o final, onde é dito que o povo confiou no Senhor e em Moisés, seu servo. Qual foi o trajeto percorrido de um extremo ao outro? Como foi que Israel chegou a confiar, a crer, naquele momento? Isso é o que interessa a nós, nesta história! 

III

Se olharmos bem, vamos perceber que esses israelitas, na sua atitude inicial, são o protótipo de nós mesmos. Nós somos uma cópia fiel deles. Vejam bem: Ao aproximar-se Faraó, os israelitas ergueram os olhos e viram que os egípcios vinham atrás deles, e ficaram apavorados. Ar os israelitas gritaram ao Senhor, e disseram a Moisés: Foi por não haver túmulos no Egito que você nos tirou de lá, para que morramos aqui no deserto? O que foi que você fez conosco, levando-nos a sair do Egito? Não te dissemos ainda no Egito: 'Deixa-nos em paz! Queremos servir aos egípcios!'? Pois para nós seria melhor servir aos egípcios do que morrer no deserto!' 

Então, não és verdade? Não somos uma cópia fiel deles? Nós compreendemos muito bem esses israelitas, não mesmo? Como os compreendemos! Um perigo á vista, uma ameaça, e pronto! O medo nos assalta, perdemos as estribeiras. E a confiança, que talvez tínhamos em Deus, se transforma em dúvida, em negação, em rebelião. 

Não é isso o que acontece conosco, quando a vida nos aplica seus golpes, grandes e pequenos? Como os israelitas, geralmente não colocamos em dúvida, então, a existência de Deus. O que colocamos em dúvida é o seu poder, a sua capacidade de intervir e ajudar. Os israelitas não duvidaram da existência de Deus. Eles duvidaram de que Deus fosse mais forte que os egípcios, donos das mais modernas técnicas de guerra. 

Não se clã o mesmo conosco? Um jovem que não passa no vestibular; um Pai que não consegue entender-se com seus filhos; uma esposa que perde o marido; um homem de negócios que vai á falência; uma garota que perde o namorado: Um golpe, a vida nos coloca entre a faca e a parede! O medo nos assalta, desdobramo-nos em preocupações, os nervos à flor da pele. E lá no fundo chegamos á surda e desesperadora convicção: Esse negócio de Deus pode ser muito bom e bonito, talvez ajude um outro, mas o meu galho ele não quebra. Ele pode ser muito legal, mas quando a coisa aperta, ele não resolve. Melhor seria viver sem Deus - melhor seria servir aos egípcios - do que ter um Deus que no da pra nada - do que morrer no deserto! 

IV 

E então Deus interfere, por meio de Moisés: Não temam! Fiquem parados e vejam o auxílio que o Senhor lhes fará hoje... O Senhor lutará  por vocês: quanto a vocês, apenas fiquem quietos e vejam...! Os israelitas entre a faca e a parede, entre o inimigo e o mar, não há mais tempo a perder, e Moisés diz: Fiquem parados, não façam nada, não se mexam, Deus vai dar um jeito! Meus amigos, é esta uma das maiores lições da história. Deus exige que os israelitas não mexam um dedo, não depositem o mínimo de confiança em si mesmos, mas joguem todo o problema por cima dele. Foi o que aconteceu. E, então, os israelitas VIRAM, viram o auxilio de Deus, viram a fuga maravilhosa, que ele lhes proporcionou. 

Os israelitas somos nós. Nós somos, tão frequentemente, os que estão entre a faca e a parede. Nós somos os que sempre achamos os problemas que nos atacam mais potentes do que o poder de Deus. É preciso que alguém nos diga: Fiquem parados, fiquem quietos, e vejam o auxílio de Deus. Justamente aí é preciso parar, ficar bem quieto, ver... Sim, porque esse ato de parar, de ficar quieto não significa desistência, falência; significa, isto sim, confiança naquele que é o poderoso e que nos quer bem, naquele que atua dentro da nossa vida cotidiana. 

Caros presentes, eu não estou falando de outros. Estou falando de nós. Deus age na nossa vida, podem estar certos. O problema é que nós no nos damos tempo de parar e ver. Confiamos demais em nós. Não nos damos tempo para uma conversa com ele, para uma oração profunda, sincera, lá no fundo. E não nos damos tempo de ver como ele reage. (Não sempre como nas queremos, é certo! Mas sempre da maneira que melhor nos convém.) 

Para os israelitas, o que ocorreu naquele dia foi o fundamento, a base para a sua relação com Deus desde então. Eles viram e confiaram. Também para nós, cristãos, existe um naquele dia. Também para nas, Deus num determinado dia entrou na história dos homens e mudou o rumo dos acontecimentos. Foi o dia de Jesus Cristo. Foi seu nascimento, sua morte, sua ressurreição em favor de nós. Lá a grande mão de Deus interferiu e nos salvou - não dos pobres egípcios, mas de coisa muito pior, da morte eterna, da decadência absoluta, do pecado.

E aquele acontecimento tornou-se a base, o único fundamento para a nossa relação com Deus. É por causa daquele acontecimento que nós podemos, quase dois mil anos depois, parar, ficar quietos e VER o auxilio de Deus. É verdade que Deus não é quebra-galho, pau para toda obra. Ê verdade que a vida continua nos aplicando golpes. Mas também é verdade que aquela intervenção de Deus na história, aquele acontecimento-base em Jesus Cristo faz tudo isso aparecer sob outra luz. Ele nos faz ver que, aconteça o que acontecer, Deus nos quer bem. E tudo o que nos ocorre, por mais adverso que seja, esta sob este seu bem-querer. Muitas vezes os acontecimentos parecem indicar o contrário; parecem indicar que Deus se demitiu. Então, amigos, então é preciso PARAR, FICAR QUIETOS e VER! E orar! E nesta procura silenciosa e profunda e bem intensiva, nós vamos encontrar o auxilio que o Senhor nos faz hoje. Vamos encontrar a sua mão poderosa, que interfere para o nosso bem na nossa história bem particular e concreta. Basta PARAR, FICAR QUIETOS! Que ele nos permita VER sua mão em ação no nosso destino! Amém.

Oremos: Senhor, nosso bom Deus, tu que tiraste Israel do Egito, tu que interferiste na nossa história, dando-nos Jesus Cristo, ajuda-nos a parar, a ficar quietos, a confiar inteiramente em ti e não em nas; dá que vejamos a tua mão derramando bondade em nossa vida, mesmo nas situações mais adversas. Por teu Filho Jesus Cristo. Amém.

Veja:
Nelson Kirst
Vai e fala! - Prédicas
Editora Sinodal
São Leopoldo - RS

 


Autor(a): Nelson Kirst
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Epifania
Testamento: Antigo / Livro: Êxodo / Capitulo: 14 / Versículo Inicial: 8 / Versículo Final: 31
Título da publicação: Vai e fala! - Prédicas / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 20300
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