Êxodo 19.2-8a

Auxílio Homilético

23/06/1996

Prédica: Êxodo 19.2-8a
Leituras: Romanos 5.6-11 e Mateus 9.35-10.8
Autor: Nilton Giese
Data Litúrgica: 4º. Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 23/06/1996
Proclamar Libertação - Volume XXI

1. Por que Pregar sobre Este Texto?

O ambiente do nosso texto é o deserto. Para cruzar o deserto é preciso olhar para a areia e para o céu, para a frente e para trás. É preciso interpretar sinais — estrelas, sol, cheiros. É preciso aproveitar bem os poucos recursos que existem — oásis. No deserto a gente se engana facilmente. Muito do que parece, não é.

A história da travessia do povo de Deus pelo deserto nos ensina que, para cruzá-lo, o fundamental é o compromisso com o Deus da vida. Esse compromis¬so sustenta a caminhada. Por isso, é preciso reafirmá-lo constantemente. Daí a importância do espaço celebrativo e reflexivo. Celebração e reflexão a respeito da reafirmação da fé no Deus da vida.

Êxodo 19.2-8a introduz o Sinai (v. 2). O povo passará dois anos ao pé desta montanha. Para esses dois anos o Pentateuco reservou 64 capítulos, isto é, de Êx 19.1 até Nm 10.10.

2. Conversando sobre o Texto

A espiritualidade do povo de Israel se nutre das experiências do deserto (v. 4). O deserto não tem instituição, mas tem tradição. Exegetas afirmam que o Sinai reúne diversas tradições sem nenhuma relação interna, de qualquer proce¬dência, lugar ou data. Essas diferentes tradições fazem parte de uma grande celebração, da festa de renovação do pacto entre Javé e o seu povo (vv. 5-6).

A memória e a afirmação do Sinai acontecem no exílio. Aí o Sinai se torna importante. Institucionaliza-se. Trata-se de reconstruir um povo aniquilado e esmagado pelos babilônios (587 a.C). No exílio o povo cruza as diferentes tradições de fé, passando-as pelo centro do Deus libertador, que fez um pacto, uma aliança com o seu povo. A reafirmação desse pacto do Deus libertador com o seu povo é a expressão de resistência cultual e teológica em meio a um mundo
dominado pelos assírios e babilônios. Essa teologia nutre-se de diferentes expres¬sões da espiritualidade popular, de tradições particulares como a observância do sábado, a circuncisão, o ensino religioso na família, a resistência aos sacrifícios, etc.

No entanto, a opressão religiosa exercida pelo templo durante o reinado e denunciada pelos profetas volta a apresentar-se em novas formas. Antes lhes pesava o templo. Agora se abre o campo para a dominação da lei, presente na teologia do pacto. A lei inclui e exclui (v. 5). Obediência à lei salva, inclui. Desobediência atrai maldições (Dt 28.15ss.). A lei regulamenta a expressão da fé em Javé (v. 8a). A lei aprisiona Javé dentro dos espaços institucionais.

3. Da Lei para a Fé

Do exílio até Jesus a lei se impõe cada vez mais na teologia oficial. Daí a briga de Jesus com os fariseus e escribas. A teologia do pacto, que no exílio era expressão de resistência à dominação, tornou-se ela mesma dominação. Obediência à lei salva. Desobediência à lei exclui, atrai maldições (Dt 28).

Jesus questiona o absolutismo da lei. Questiona inclusive a presença dos legalistas no povo de Deus. Afirma que antes deles estão os pobres, as viúvas, as prostitutas. Jesus resgata os caídos e excluídos pela lei como membros do povo de Deus.

O apóstolo Paulo retoma essa linha e abre espaço para os estrangeiros no povo de Deus. Paulo transfere a eleição de Israel como povo de Deus para Cristo e, através dele, a todos/as os/as cristãos/ãs. A lei já não é condição para pertencer ao povo de Deus, porque graças a Jesus Cristo a participação se dá por meio da fé. O apóstolo entende fé como solidariedade e compromisso com os que andam no caminho da cruz. Dessa maneira, afirma Paulo, Cristo amplia o povo de Deus, pois são incluídos todos os que nele crêem, não apenas os judeus de nascimento. Através de Cristo, não pela lei, somos parte do povo de Deus. Paulo liberta a fé das amarras institucionais, colocando um novo critério para ser membro do povo de Deus: a fé em Cristo Jesus e a consequente solidariedade com os pobres.

4. A Reafirmação da Fé no Século XVI

Como herdeiros da Reforma protestante do século XVI afirmamos que Jesus Cristo é o princípio organizativo de toda a Bíblia. Também afirmamos que a Igreja não deve dizer como é a palavra de Deus, e sim que a palavra de Deus diz como deve ser a Igreja. A Igreja não faz a Palavra, mas a Palavra faz a Igreja. Isso nos ensinaram os reformadores.

Deixando-nos mover pelo mesmo Espírito, podemos dizer que seremos mais fiéis a aqueles que deram forma ao nosso passado se, ao invés de repetir o que eles fizeram, tomássemos suas vidas e seus pensamentos como exemplo para responder de forma criativa aos desafios que estes tempos nos apresentam. Aprender o Catecismo é bom, mas não salva ninguém.

No tempo da Reforma protestante, a Igreja espiritualmente decadente tentou salvar-se ai uives da sacralização da instituição eclesiástica, fazendo dela um ídolo e mantendo o povo sujeito a ela. Diante disso, Lutero e Calvino acentuaram que a essência do protestantismo não é tanto uma nova doutrina, e sim uma nova forma de ser Igreja no mundo, especialmente uma nova concepção do que significa sei Igreja e suas implicações na sociedade civil. Quando se quer salvar a instituição sacralizando as suas estruturas, acaba-se bloqueando a ação redentora de Deus no mundo, ao invés de participar dela.

Assim, ao invés de dar testemunho da ação do Deus da vida, as instituições religiosas negam esse Deus da vida ao dedicar a maior parte dos seus esforços à autopreservação, convertendo-se em vítimas do estancamento e da paralisia que surgem da repetição. A comunidade cristã, que nasceu de uma explosão de energias criativas, é utilizada com frequência para impedir a re-invenção da forma de ser Igreja de que se necessita nesta nova realidade.

Um Deus que nos encontra em situações novas e que nos desafia a participar de novas formas de vida somente pode ser servido por uma Igreja que olha mais para o futuro do que para o passado. A Igreja vive mais da re-criação do que da repetição. (R. Shaull.)

Assim, ter estruturas alternativas não é algo somente possível, mas também necessário para superar o estancamento. Ter espaço para novas formas de cele¬bração, dar oportunidade a diferentes expressões de fé desafiam a Igreja como instituição a criar espaços para essa vida nova dentro de suas estruturas.

5. A Necessidade de Reafirmação hoje

A situação de estancamento, de paralisia de nossas comunidades reclama mudanças, coisas novas. Em que inovar, sem que o remédio seja pior do que a doença?

Nestes tempos de neoliberalismo a gente é enganado facilmente, como no deserto. Nem tudo o que brilha é ouro, diz o velho ditado. Hoje, quando se volta a perguntar pelo papel das igrejas na modernidade, a angústia pode levar ao engano. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, propõe que as igrejas assumam a função de redes de segurança para os que caem da corda bamba do capitalismo. Isto é: o capitalismo não é tão eficaz como se autoproclama. Muitas pessoas não podem competir. Não têm espaço e nem condições. Por isso, para a credibilidade do circo e a manutenção do espetáculo são necessárias redes de segurança.

O FMI desafia as igrejas a trabalharem nas periferias, entre os pobres, pois elas são necessárias principalmente nessas áreas onde o índice de acidentes no circo do mercado é muito maior. Nesse sentido, trabalhar com os pobres, fazer missão nos bairros populares sem questionar a existência do circo pode ser mais útil ao capitalismo do que ao povo pobre ou à Igreja. Por isso, mais do que dogmatismos confessionais, o importante é manter-se em constante processo de autocrítica e avaliação. Antes de criar grupos confessionais, parece-me que, em primeiro lugar, trata-se de criar grupos comprometidos com o Deus da vida. Antes de ensinar o Catecismo, é mais importante despertar as pessoas para o amor pela vida. Não importa tanto se somos luteranos, católicos, pentecostais, muçulmanos. Importa que estejamos comprometidos com o Deus da vida neste reino da morte.

Assim, é preciso ter muito cuidado. O compromisso com os que sofrem é uma exigência evangélica. Ser evangélico/a implica estar comprometido/a com os pobres. É lá que Deus está. Se queremos encontrar Deus devemos ir onde ele está. No entanto, o diabo também sabe disso e tenta aproveitar o amor dos cristãos em seu próprio benefício. E sabemos que hoje já existem muitas comunidades, organizações filantrópicas, organizações não-governamentais, etc. que estão fazendo o papel de Marta, isto é, servindo mais ao capitalismo do que a Jesus.

Para a nossa missão no mundo como comunidade cristã podemos dizer que o caminho para fora do estancamento e paralisia de nossas comunidades passa:

a) Pelo reconhecimento de que a doutrina, a liturgia e a ordem da Igreja podem representar de maneira fiel a Jesus Cristo unicamente se forem recriadas em resposta a novas situações históricas. Quando conferimos um valor absoluto a qualquer conquista histórica nesse campo, o que antes era uma resposta criativa ao movimento do Espírito Santo acaba impedindo o movimento desse mesmo Espírito Santo hoje.

b) Pela importância de criar espaços para motivar e escutar as vozes proféticas. É verdade que o povo de Israel apedrejou seus profetas, mas também reconheceu que Deus lhes havia dado um lugar entre o povo de Israel e honrou isso com a preservação dos seus escritos nas Sagradas Escrituras.

c) Por um desejo da Igreja de aceitar o seu verdadeiro lugar no mundo, permanecendo em solidariedade com os mais pobres e marginalizados.

d) Pelo reconhecimento de que a Igreja institucional só pode cumprir o seu chamado de ser semper reformanda se a memória subversiva do evangelho produzir com frequência movimentos em seu seio, movimentos que lhe mostrem o que está chamada a ser.

6. Reafirmando Nossa Fé no Deus da Vida

Somos chamados/as ao trabalho na comunidade. Somos chamados/as a servir. Somos chamados/as a ser trabalhadores/as para o Deus da vida. Isso não significa apenas trabalhar na Igreja. O sacerdócio geral de todos os crentes se refere principalmente à atuação fora dos muros da Igreja (no trabalho, na família, na associação de moradores, no grupo de reflexão bíblica, etc.). Para isso é necessário pedir capacitação do/a pastor/a. Trata-se de ampliar o entendimento do que significa a seara do Senhor.

Nesse sentido, sugiro um gesto litúrgico de reafirmação do compromisso com o Deus da vida. Ele pode ser usado no culto ou então em alguma celebração com menos gente. Para tanto, são necessários os seguintes elementos:

— Um vaso de barro que esteja quebrado. O vaso pode ser quebrado durante a celebração (em pedaços grandes, não muito pequenos).

— Um pouco de cola ou, então, um pouco de argila mole para reconstruir o vaso quebrado.

O vaso quebrado significa a vida quebrada, as esperanças rompidas com o Deus da vida, com as necessidades sociais, comunitárias, familiares ou, então, consigo mesmo/a. Significa o desespero diante dos nossos projetos que foram por água abaixo. Essas vidas quebradas devem ser reconstruídas em esperança viva. Destacar que todos/as somos chamados/as a reconstruir nossas vidas, nossos projetos pessoais e comunitários.

A argila ou a cola representará tudo aquilo que é necessário para reconstruir nossa esperança, nossos projetos, nossas vidas (o respeito, o amor, a dignidade, a auto-estima, a fé no Deus da vida, etc.). É importante convidar as pessoas para que expressem suas opiniões nesse momento.

Em seguida, convidar algumas pessoas para que reconstruam o vaso em pedaços. Enquanto o vaso é reconstruído, é bom cantar. Depois da reconstrução, destacar a fragilidade do vaso reconstruído, que necessita de muito cuidado. As coisas reconstruídas são sempre frágeis.

Em seguida, tornar claro aquilo que se quer reafirmar/reconstruir (matrimônio, padrinho/madrinha, participação na comunidade, compromisso em algum serviço social, organização popular, testemunho profético — de denúncia — e apocalíptico — de esperança —, etc.). Mais uma vez, é importante dar oportunidade para intervenções espontâneas.
Depois da reafirmação dos compromissos, orar em gratidão pela possibilidade de poder recomeçar, e cantar (Momento Novo?).

7. Bibliografia

- SHAULL, Richard. La Reforma y la Teología de la Liberación. San José, DEI, 1993.
- TAMEZ, Elsa. La Justificación por la Fe en Pablo — una Teología Liberadora. In: Contra Toda Condena. San José, DEI, 1993. pp. 51-131.


Autor(a): Nilton Giese
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Êxodo / Capitulo: 19 / Versículo Inicial: 2 / Versículo Final: 8
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1995 / Volume: 21
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14225
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