Êxodo 24.12-18

Auxílio Homilético

03/02/2008

Prédica: Êxodo 24.12-18
Leituras: Mateus 17.1-9 e 2 Pedro 1-16-21
Autor: Valdemar Lückemeyer
Data Litúrgica: Último Domingo após Epifania
Data da Pregação: 03/02/2008
Proclamar Libertação - Volume: XXXII


1 Introdução

O último Domingo após Epifania encerra um período do calendário eclesiástico, a saber, o período entre Natal e Quaresma. O calendário eclesiástico quer-nos ajudar ao lembrar que o tempo da luz, iniciado com o nascimento de Jesus Cristo, continua brilhando. É o tempo entre o nascimento, a manjedoura e a morte de Jesus, a cruz.

A comunidade certamente não tem clareza sobre o conceito “Epifania”. Natal e Quaresma são épocas e datas do calendário eclesiástico bem claras para a grande maioria. Por isso, entre outras, convém lembrar a comunidade desse período, seu significado, seu específico: Deus revela-se, apresenta-se, veio ao mundo em Jesus, o nascido em Belém. Ele é o Messias, o Salvador. “Ouçam-no!”

Jesus é o Senhor. Nele Deus se revelou – disso falam as duas leituras bíblicas deste domingo.

2 Pedro 1.16-21 ressalta que o senhorio de Jesus Cristo não é algo in- ventado ou sonhado por algumas pessoas, por alguns fanáticos seguidores seus, mas é realidade que se baseia no testemunho ocular dos apóstolos. Eles estão falando e anunciando o que viram e ouviram: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”.

O senhorio de Jesus estava sendo questionado e não aceito por alguns. A eles Pedro, em sua segunda carta, responde não com argumentos racionais, mas usa apenas o testemunho ocular como argumento: “Nós vimos e ouvimos”. Nós não temos outras garantias, apenas a palavra, o testemunho apostólico. E assim como os apóstolos, também as profecias apontam para Jesus: ele é o Deus conosco, que traz luz (epifania), que afasta as trevas, que vem trazer a verdade que salva.

Mateus 17.1-9 sublinha o que já se ouviu por ocasião do batismo de Jesus (Mt 3.13-17): “Este é o meu Filho amado, em que me comprazo”. Este Jesus, incompreendido por alguns, não aceito por outros, é o enviado de Deus. Deus revela-o nesse encontro extraordinário, divino, incomum no alto de um monte. A Bíblia privilegia montes como o lugar onde Deus se manifesta e se comunica (Gn 19, 22 e 24, entre tantos outros).

2 Considerações exegéticas

É muito provável que em Êxodo 24 encontramos relatos de duas fontes literárias distintas: uma, a mais velha, relata a caminhada, a peregrinação do povo de Deus pelo deserto após a saída do Egito. A migração em direção à Terra Prometida tem sua tradição conhecida e fixada. A outra fonte, a mais nova, é o bloco que descreve os acontecimentos do Sinai, deserto e monte do Sinai. Moisés recebe orientações de Deus quanto às celebrações, à preparação e ao local do culto. Os v. 12-18 formam a introdução para o momento extraordinário do encontro de Deus com Moisés, quando esse recebe as tábuas da lei. Curiosa é a dupla menção de que Moisés subiu ao monte (v. 13 e 15). Provavelmente se trata de inserção posterior, é “montagem” de vários blocos outrora isolados e separados.

Moisés sobe ao monte, onde deve ficar por um longo período. Ali recebe as tábuas de pedra. Essas contêm, conforme acréscimo e informação posterior, a lei e os mandamentos (v. 12b). Moisés leva seu ajudante, seu servidor Josué junto e deixa como zeladores e protetores do convívio do povo dois representantes, dois presbíteros: Arão e Hur. Muito pouco é dito sobre suas funções, além de ajudarem na busca de soluções em casos de dúvida e de conflito.

Com o v. 15b inicia um bloco novo da fonte do Escrito Sacerdotal (P): inicia em 24.15b e vai até 31.18, onde é descrito detalhadamente que Moisés recebe todas as orientações para organizar e regularizar o local santo para as celebrações, para o culto. Esse bloco está ligado ao cap. 19.1 e 2.

A glória de Deus revela-se na nuvem – a nuvem e o monte evidenciam a presença de Deus. Para a teologia deuteronomista, Deus mora no céu; na terra Ele colocou seu nome no local do culto, local sagrado – posteriormente no templo. A “glória de Deus”, isto é, sua grandeza, sua excelência, sua majestade, sua imponência, é exclusiva, propriedade apenas de Deus, embora ela preencha toda a criação (Is 6.3) e esteja presente nas revelações de Deus. A tradição do Sinai contrasta também com a tradição do Êxodo no que se refere à compreensão de Deus. São duas teologias, duas maneiras diferentes de falar de Deus: “O culto a Javé realiza-se, inicialmente, num determinado local. Peregrina-se para adorar esse Deus. Javé distingue-se, pois, do culto do Deus dos pais. O Deus paterno comemora uma divindade acompanhante; Javé comemora um Deus local. Não é um Deus que vem. A gente é que vai a certa localidade para encontrar-se com Deus. O local da celebração é um monte. ‘Javé é uma divindade de montanha.’ Ao estar vinculado a um lugar, o divino como que requer que o crente peregrine a um local específico, onde se dá a manifestação, a teofania. A teofania de Javé está relacionada a fenômenos da natureza, como no-lo atestam diversos textos” (Milton Schwantes, em História de Israel – local e origens, polígrafo editado em 1984, p. 156s.).

Para o Escrito Sacerdotal, é importante o fato de que no evento do Sinai Deus transmitiu todas as orientações para estabelecer o culto. É preciso observar todos esses detalhes, todas as descrições para que Deus possa ser adorado corretamente. Ele mesmo ordena e orienta todos os detalhes para a perfeita celebração. Isso legitima o culto, isso o fundamenta, pois é ordem divina.

Interessante que a descrição do local do culto e todos os seus pormenores aqui no deserto estão orientados claramente no futuro templo em Jerusalém. Para o Escrito Sacerdotal, o local sagrado, por excelência, é o templo em Jerusalém. Ele detém e contém todas as orientações do evento do Sinai.
Dois números simbólicos aparecem nesse relato da apresentação (teofania) de Deus: no sétimo dia, Deus chamou Moisés e este ficou 40 dias e 40 noites no alto do monte.

3 Meditação

Último Domingo da Epifania – É tempo de celebrar a presença gloriosa de Deus em nosso meio. Ele revelou-se. Disso ouvimos no Natal. Disso fomos lembrados nesta época de Epifania, que se encerra neste domingo. Deus revela-se a seu povo. Vem a seu encontro e deixa as suas orientações e recomendações para que sejam ensinadas e obedecidas. O pacto que Deus fez com o povo por ocasião da libertação da escravidão tinha justamente como fundamento o compromisso mútuo: “Eu sou o vosso Deus, vós sois o meu povo” (Êx 6.4,6; 19.5 e outros), se “diligentemente ouvirdes a minha voz, guardardes a minha aliança” (Êx 19.5). Deus revela-se através de manifestações miraculosas, extraordinárias. A manifestação, embora quase indescritível, é descrita da forma como foi experimentada e vivenciada. Assim Deus se comunica, assim Ele age para vir ao encontro de seu povo, a fim de ajudá-lo. Na revelação no monte Sinai, Moisés recebeu a lei e os mandamentos para que servissem de orientação para o povo da aliança. E, como não poderia deixar de ser, também são ressaltadas com ênfase a grandiosidade, a majestade e a extraordinária beleza desse Deus único, que exige exclusividade: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim” (Gn 20.2s.). Ao descer do monte, Moisés repassou e ensinou o que havia recebido. Ele testemunha a respeito da vontade e do projeto de Deus.

Esse testemunho é transmitido por Tiago e João quando regressaram da experiência extraordinária, miraculosa que presenciaram “no alto de um monte” (Mt 17.1): Jesus, o filho de José e Maria, é o Messias, é o Filho de Deus, é o Emanuel, o Deus-conosco! “A ele ouvi” (17.5) é ressaltado de forma enfática. Os discípulos, pois, não foram presenteados com uma visão ou com uma experiência fantástica em suas vidas, mas lhes foi afiançado: “Este é o meu Filho amado, a ele ouvi”. Ele anuncia a vinda do reino de Deus e aponta para a nova aliança que Deus quer fazer com seu povo. Ele lança as bases dessa nova aliança e chama para o discipulado. Chama para o discipulado e aponta para a cruz, pois este é o caminho.

“O escândalo da cruz era uma pedra de tropeço muito grande para a evangelização dos judeus (cf. 1 Co 1.23). Como fazer com que acreditassem que um homem, condenado por dois tribunais e morto escandalosamente numa cruz, fosse aceito como Messias? Só mesmo podendo provar que o sofrimento e a cruz entravam no plano de Deus, descrito no Antigo Testamento. A transfiguração respondia a esse problema e fazia ver que, conforme o Antigo Testamento, a cruz era o caminho do Messias para a glória... A narração confirmava a autoridade de Jesus Cristo: Ele era lei e norma para o cristão: Escutai-o!” (Carlos Mesters, em Deus, onde estás?. Editora Vega, 1974, p. 184).

O relato da transfiguração procura, pois, clarear a verdade a respeito desse Jesus: ele, filho de José e Maria, é o Filho de Deus, o Messias. “Há nele um escândalo que não foi eliminado pela Páscoa e que persiste até hoje, também na igreja cristã. Consiste no que o apóstolo Paulo chamou de ‘tolice da palavra da cruz’ (1 Co 1.18s.). Uns enxergam nele um segundo João Batista, outros a reaparição de Elias, outros ainda crêem na volta de um grande profeta. O juízo do povo, pois, revela estima e alto grau de apreço. Mas ele fica claramente aquém do limiar da fé” (G.Brakemeier, em O ser humano em busca de identidade. Editora Sinodal e Paulus, 2002, p. 29).

Assim como Deus outrora se revelou a Moisés, agora ele se revela em Jesus, ou seja, Jesus revela o mesmo Deus que se revelou ao povo de Israel como Deus libertador e salvador. Disso os discípulos são testemunhas, disso os discípulos dão testemunho em todos os tempos e lugares. Sim, esse mesmo que toma o caminho da cruz.

4 A caminho da prédica

Um comentário de Jörg Zink (Die Urkraft des Heiligen. Christlicher Glaube im 21. Jahrhundert. Stuttgart, 2003): “O que distingue a fé cristã de todas as demais formas de piedade humana não é nada além de uma simples e mera figura da história. É a pessoa do homem simples de Nazaré, e ninguém mais, e o que ele disse com palavras simples para as pessoas pobres e exploradas da Galiléia. Ele sempre ficará um pouco distante. Nós não temos nenhuma frase escrita por ele, nenhuma descrição de sua aparência ou de seu caráter. Nós não sabemos de nenhuma palavra dele que nos foi transmitida, se ele realmente a disse. O que nós temos são apenas confissões (testemunhos) de pessoas que conviveram com ele ou que dele ouviram. Eles relatam o que esse Jesus operou neles, o que ele mudou neles, o que deles resultou após o encontro com ele”.

O que Deus fez com seu povo da primeira aliança, o que Deus fez e continua fazendo com seu povo da segunda aliança, na qual nos incluiu por sua graça e bondade, até pode ser uma afirmação que vale para toda a mensagem bíblica, mas com certeza é o tema do nosso texto em estudo.

“Quando dizemos o que cremos, nós estamos dando um testemunho de nossa fé. No Antigo Testamento, o povo de Deus experimentou, por diversas vezes, que Deus é fiel e não abandona as pessoas que o temem. A saída da escravidão no Egito foi o sinal mais forte da presença de e da força de Deus. Também a proteção no deserto foi muito importante. Durante todo esse tempo, os israelitas tiveram contato com outros povos, que acreditavam em outros deuses. A partir daí surgiu a pergunta: Será que nosso Deus é igual aos deuses dos outros povos? Para falar de sua fé, o mais importante não era dizer como Deus era, mas o que Deus fez e faz em seu favor” (Passos na Fé, Ensino Confirmatório, 2º ano, fascículo 6, Editora Sinodal, 2001, p. 4).

A prédica abordará o que Deus fez:
– revelou-se a Moisés, incumbindo-o de ensinar ao povo as suas leis e seus mandamentos;
– revelou-se em Jesus Cristo, frisando “a ele ouvi!”;
– os discípulos revelam, através de seu testemunho, “o que viram e ouviram”.

5 Subsídios litúrgicos

Versículo de acolhida:
“Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei” (Sl 2.7). “Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos ante o seu santo monte, porque santo é o Senhor, nosso Deus” (Sl 99.9).

Kyrie:

No mundo há muito sofrimento e dor causados por falsos deuses. Por

todas as pessoas que sofrem sob a tirania e a opressão de falsos deuses que- remos clamar ao Deus libertador: “Tem, Senhor, piedade”.

Glória:

Em Jesus Cristo Deus mostrou ao mundo a sua proximidade; mostrou que acompanha e serve aos seus, oferecendo-lhes perdão, dignidade, vida. Por isso vamos louvar esse grandioso e glorioso Deus, cantando alegremente: “Glória”.

Confissão:

Misericordioso Deus, nosso único Senhor. Chegamos diante de ti para te confessar que somos como teu povo de outros tempos, pois também nós somos um povo de “dura cerviz”, um povo teimoso e desobediente. Mas tu vens e revelas o teu projeto. Tu vens para nos ajudar. Tu queres nos guiar por teus caminhos, caminhos de vida, de amor e de solidariedade. Entregaste a nós os teus mandamentos. Nós não os cumprimos. Eles justamente nos re- velam a nossa fraqueza. Perdão, Senhor, que não te amamos acima de tudo e em primeiro lugar. Perdão, Senhor, por termos sido preguiçosos e até omissos na prática do amor ao nosso próximo. Seja bondoso conosco mais uma vez e, em nome de Jesus Cristo, pedimos por teu perdão. Amém.
Oração de coleta:
Amado e bondoso Deus. Tu és fiel e não abandonas o teu propósito de caminhar com o teu povo. Obrigado que tu vens a nós, animando-nos para a vida de fé, fortalecendo-nos para toda a boa obra. Que a tua santa Palavra nos oriente para nosso testemunho claro e corajoso. Em nome de Jesus Cristo, teu Filho, nosso Senhor e Salvador, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo para todo o sempre. Amém.


Autor(a): Valdemar Lückemeyer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: Último Domingo após Epifania
Testamento: Antigo / Livro: Êxodo / Capitulo: 24 / Versículo Inicial: 12 / Versículo Final: 18
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18565
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