Êxodo 34.29-35

05/03/2000

Prédica: Êxodo 34.29-35
Leituras: 2 Coríntios 3.12-4.2 e Marcos 9.2-9
Autor: Norberto da Cunha Garin
Data Litúrgica: Último Domingo após a Epifania
Data da Pregação: 05/03/2000
Proclamar Libertação - Volume: XXV
Tema: Epifania


Conversando contigo

Desde o primeiro domingo da Epifania, a reflexão que se faz no culto é sobre a manifestação de Deus. No contexto do Evangelho, Jesus faz Deus aparecer em si, em seus atos e palavras. É domingo de carnaval. Boa parte das pessoas está envolvida com um outro tipo de festa que não o culto do Senhor.

No êxodo, Deus se manifesta de maneira inequívoca nas novas tábuas que entrega a Moisés (Êx 34.29). Esta manifestação também pode ser contemplada pelo povo de Israel no brilho que aparece na face de Moisés.

Na Epístola aos Coríntios o autor contrapõe a fé dos cristãos à cegueira dos incrédulos, que não conseguiam vislumbrar a glória de Deus, brilhando na face do Senhor.

Em Marcos, a visão que os apóstolos têm de Jesus, ao contrário da visão de Aarão e dos israelitas do Êxodo, que causa temor, é prazerosa ao ponto de sugerirem ao Senhor a construção de tendas para eternizarem aquela comunhão.

Mas o desafio chega: posicionar-se sobre as múltiplas manifestações de Deus no nosso tempo. A expectativa para os cristãos é encontrar o divino, que atravessa a realidade dos seres humanos, descortinando-lhes o sentido.

Conversando com o texto

O texto de Êx 34.29-35 não possui uma origem conhecida. Narra uma cena de brilho na face de Moisés, expresso pelo verbo qrn. O som da palavra original em hebraico é semelhante a ter chifre de carneiro (mqrn). Esta é a razão por que aparece em algumas traduções a alusão a chifres na face de Moisés. A Vulgata traduziu por o seu rosto tinha chifres (Noth, 1962, p.267)

É um texto dividido em duas partes: os vv. 29 a 33 narram a forma como Moisés foi recebido pelos líderes de Israel ao descer da montanha. Ele fora buscar a segunda cópia da Lei. Os vv. 34 e 35 relacionam o brilho do rosto de Moisés a Tenda da Congregação (Êx 33.7-11). Pode-se notar uma quebra entre estas duas porções de texto. Isto levanta a suspeita de que ambos não pertençam ao mesmo tempo e ao mesmo espaço. Pode tratar-se de tradições distintas. A primeira parte ligada à tradição da outorga da lei por Yahweh e a outra, relacionada com o papel mediador de Moisés, o liga à Tenda da Congregação (Childs, 1974, p. 617).

Quem sabe esta seja uma forte razão pata se crer que o presente texto data do período pós-exílico. A proximidade dele com as narrativas a respeito do uso da tenda, como local de encontro entre Moisés e Yahweh, parece estar evidente, lista tenda pode ser uma retroprojeção do Templo de Salomão em tamanho médio (Gottwald, 1985, p. 202).

Poderia ser também um acréscimo sacerdotal. Entretanto, a passagem como um todo não favorece esta possibilidade. Contudo, não pode ser inserida na fonte Javista ou noutra fonte (Noth, 1962, p. 267). Childs (1974, p. 609) é de opinião que diferentes frases deste texto levam à conclusão de que a influência sacerdotal é clara. Cita como exemplo as tábuas da lei (v. 28) e a Tenda da Congregação (v. 31).

Por se falar em tenda, é importante ressaltar a sua função no Oriente Próximo. O tabernáculo era utilizado como habitação pelos povos nômades e seminômades, notadamente nos assentamentos mais ou menos estáveis. Os antepassados dos israelitas utilizavam a tenda, como de resto outros povos do Oriente (Gn 13.3). O povo de Israel, no entanto, não armava tendas para moradia, mas convivia com este contexto de peregrinações e habitações provisórias. Na verdade tratava-se de um local sagrado onde se realizava o encontro com Yahweh. A Tenda se constituía num local sagrado, intimamente ligado à concepção de acampamento. O escritor sacerdotal, cuja tradição é mais recente, usa a palavra habitação para se referir ao local onde Yahweh habitava (De Vaux, 1964, p. 389). É provável que esta concepção tenha surgido a partir do fato de que mesmo depois de Israel ter se tornado sedentário, continuou conservando o elemento sagrado da Tenda, até o décimo segundo ano do reinado de Salomão, quando o Templo foi inaugurado.

Este texto forma a ponte, na literatura do Êxodo, entre a outorga da nova lista de proibições (Êx 34.10-28) e a construção e levantamento do santuário (Êx 35ss.). Este ponto vem corroborar a tese de que se trata de um texto pós-exílico.

É possível entender as particularidades do texto a partir de algumas considerações:

V. 29: O brilho da face de Moisés serve para sinalizar o reatamento da aliança. É o mesmo que caracterizava as sessões de oráculos oferecidos aos filhos de Israel (Macho, 1965, col. 260). As tábuas haviam sido quebradas (Êx 32.19), mas, desta vez, novas tábuas tinham sido confeccionadas e a glória de Deus sobre a lace de Moisés ratificava a autenticidade da nova lei (Wendland, 1984, p. 252). Como diz Fretheim (1991, p. 311), isto dá uma proeminência ao mediador da palavra de Deus na comunidade de fé. Há um reflexo do brilho da glória de Deus na face de Moisés.

Este versículo faz a ponte entre a teofania de Yahweh, quando concede a Moisés as novas tábuas, e a forma de chegada no acampamento do povo de Israel; parece ser concebido como um prelúdio para a construção do santuário (Êx 35ss.).

V. 30: Esse brilho que há na face de Moisés tem sido interpretado como o reflexo da glória de Deus. Dessa forma Yahweh estaria mostrando ao povo que Moisés é o seu enviado para anunciar a nova lei. O medo que o povo tem de se aproximar dele é semelhante ao receio que o povo tinha de se aproximar de Yahweh. Quem visse a face de Deus corria risco de vida.

V. 31: Mais uma vez a figura de Aarão aparece como líder importante do povo. No episódio da fuga do Egito foi o porta-voz de Moisés. Aqui ele desempenha a função de aproximação.

V. 32: Este versículo desempenha a função de introduzir a fala de Moisés, que deve comunicar as palavras de Yahweh.

V. 33: É possível que toda esta história tenha sido introduzida aqui para explicar a presença do véu, sendo que a palavra hebraica mswb ocorre apenas aqui. Pode-se dizer que sacerdotes utilizando máscaras são comuns na história das religiões. No mundo contemporâneo do Antigo Testamento as máscaras são encontradas especialmente no Egito, onde os sacerdotes as vestiam para assumirem' ' a face de sua divindade. Dessa forma passavam a noção de identificação plena, ou seja, de não haver distinção entre o sacerdote e a própria divindade. Entretanto, neste versículo, o texto não menciona nada sobre a aparência de Moisés usando o véu. É possível que esse véu tenha sido adotado para que o povo pudesse olhar para ele, já que a sua face refletia o brilho divino (Noth, 1962, p. 267). Enquanto Moisés falava ao povo, não usava o véu. O véu cobria a face de Moisés somente durante os períodos em que ele não estava desempenhando seu papel sacerdotal, tanto no que se refere aos momentos em que dialogava com Yahweh quanto àqueles momentos em que comunicava a sua vontade ao povo. Isto faz pressupor que o povo deveria perceber o brilho da glória de Deus em sua face. Da mesma forma, quando estava na presença de Yahweh permanecia sem véu. Ele só o colocava quando assumia o papel de homem comum. Porém o texto não deixa isso inteiramente claro.

V. 34: Além do encontro que Moisés teve com Yahweh sobre a montanha, as conversas com Deus continuavam mesmo depois de ele ter descido da montanha (Childs, 1974, p. 618).

V. 35: Como o v. 34, este ratifica a percepção de que os encontros de Moisés com Yahweh continuam após a descida de montanha. O texto retrata uma tradição em que a proximidade do povo com Deus é fundamental e a mediação é feita por Moisés.

Misturando as conversas

Este é um texto que aponta para a tão conhecida proximidade de Yahweh com o povo de Israel. É um momento de contato com Moisés, sinalizando a intervenção direta de Deus na história do povo. Um ponto a ser ressaltado é o fato de que quando Moisés chega da montanha, não é o centro das atenções, mas sim o brilho que está em sua face (Fretheim, 1991, p. 310). Esse brilho ocupa o espaço da moldura ritual da segunda lista de proibições, os chamados Dez Mandamentos, que para alguns estudiosos é o Decálogo Ritual. Ele confere a Moisés legitimidade, e à lista de mandamentos, credibilidade. Mais do que um orador, Moisés encarna a palavra de Deus que está pronunciando. O brilho evoca a força e o esplendor da palavra de Deus. A palavra vem com brilho e luminosidade. Evoca ardor, zelo, vigor e vitalidade.

Pode-se relacionar isso à bênção de Aarão (Nm 6.25), onde o brilho é entendido como a presença divina sobre a vida c o trabalho das pessoas. O brilho da face de Moisés antecipa o enchimento do tabernáculo com a glória de Deus em Êx 40.34 (Fretheim, 1991, p. 312).

Há uma proximidade entre a teofania do chamamento de Moisés e este momento quando a Aliança está sendo restaurada (Êx 3.2). E assim que acontece quando está sendo preparada a celebração da aliança com a escrita das duas primeiras tábuas (Êx 19.9).

Tratando-se de um texto de tradição sacerdotal ou não, tratando-se de uma retroprojeção do Templo de Jerusalém ou não, o fato é que ele focaliza o brilho na face de Moisés. Este brilho é entendido como a manifestação da presença da glória de Deus sobre ele enquanto cumpridor de um papel de intermediação entre Yahweh e o povo de Israel.

Conversando com a comunidade

Há certas emoções que marcam as nossas vidas indelevelmente. Uma delas foi quando minha filha conseguiu o seu primeiro emprego. Ela foi fazer a entrevista final e quando retornou não apenas os seus olhos brilhavam, mas toda a sua face estava radiante. Sua felicidade era tão grande que quase não cabia em si mesma. Sua alegria brotava de cada uma das suas expressões.

As manifestações de Deus estão por toda parte. É mais comum olharmos para as dificuldades, os dissabores, as frustrações que todos temos. As coisas ruins chamam muito mais nossa atenção. Certa vez uma professora chegou na frente da classe e mostrou uma folha de cartolina, clara, de 50 por 60 cm, com uma pequena mancha escura sobre o canto direito da folha. Perguntou aos alunos o que eles viam ali. Todos responderam: uma mancha escura. A professora deu sua aula sobre as pequenas manchas da vida que chamam nossa atenção. Nenhum aluno viu a imensa folha de cartolina clara, que estava na mão da professora — o que chamou a atenção foi um pequeno ponto escuro, quase invisível, no canto da página.

O povo de Israel atravessara imensas dificuldades para se libertar do poder imperial do faraó. Caminhara longos anos pelo deserto. Em muitos aspectos estava perdido. Desorganizado. Necessitava de um estatuto, uma lei que lhe desse identidade e direção. Esta lei veio de Yahweh, num encontro reservado com Moisés. Quando ele retornou da montanha, foi possível ver o brilho em sua face. Era a garantia de que Deus estava do lado do povo, porque se manifestava em Moisés enquanto ele transmitia a lei ao povo. O brilho significava a manifestação de Yahweh através da outorga de uma lei, que lhes possibilitaria a caminhada orientada, segura e confiante. Representava uma bênção de Deus ali, no meio do deserto.

Difícil é levantar a cabeça e celebrar as alegrias que Deus nos proporciona nas pequenas realizações. É comum ficarmos aguardando grandes eventos para celebrar. Passamos boa parte da vida esperando esses momentos. Esquecemos que a cada instante Deus nos mostra um perfil da sua face. Precisamos limpar nossos óculos da fé para perceber o brilho de Deus nos diferentes momentos da história. São realizações da comunidade, pequenas vitórias de seus membros, acontecimentos litúrgicos, conquistas de direitos, possibilidade de denúncias contra faraós modernos, enfim, a lista pode ser grande.

Conversando no culto

Promova uma reflexão com a comunidade sobre as pequenas coisas nas quais Deus tem manifestado o brilho da sua face. Marque com ela uma data para celebrar essas conquistas. I «aça com todos uma grande festa, com a participação de cada um. Monte um mural à entrada do templo para pregar os bilhetinhos com o registro das realizações comunitárias e/ou das pessoas da comunidade. Faça uma festa para celebrar o brilho da face de Deus, refletido em todos e todas.

Bibliografia

CHILDS, Brevard S. The Book of Exodus. Philadelphia : Westminster, 1974.
FRETHEIM, Terence E. Exodus —Interpretation. Louisvile : John Knox, 1991.
GOTTWALD, Nonnan K. Introdução socioliteráría à Bíblia Hebraica. São Paulo : Paulinas, 1988.
MACHO, R. P. Alejandro Diez. Enciclopédia de la Bíblia. Barcelona : Garriga, 1963. NOTH, Martin. Exodus. Philadelphia : Westminster, 1962.
VAUX, R. de. Instituiciones del Antiguo Testamento. Barcelona : Herder, 1964. WENDLAND, Ernest H. Exodus. Milwaukee : Northwestern, 1984.


Proclamar Libertação 25
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Norberto da Cunha Garin
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: Último Domingo após Epifania
Testamento: Antigo / Livro: Êxodo / Capitulo: 34 / Versículo Inicial: 29 / Versículo Final: 35
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1999 / Volume: 25
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 12796
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