Zacarias 9.9-10

Auxílio Homilético

27/03/1994

Prédica: Zacarias 9.9-10
Leituras: Filipenses 2.5-11 e Marcos 14.3-9 ou Marcos 15.1-15(16-21)
Autor: Haroldo Reimer
Data Litúrgica: Domingo da Paixão - Ramos
Data da Pregação: 27/03/1994
Proclamar Libertação - Volume: XIX

 

1. Humilde e justo

Celebramos, neste domingo, a entrada do Messias em Jerusalém. Pregação, leituras e liturgia devem apontar para a figura desse rei que vem. Os textos propostos enfocam-no sob diversas perspectivas. No seu conjunto, os textos destacam, por um lado, as características de humilde e justo e, por outro lado, de pacifista e servidor.

A leitura da epístola, Filipenses 2.5-11, destaca com o hino cristológico o caráter da liberdade cristã do messias, o seu despojamento, a sua humildade e engajamento até a morte em favor do seu povo, de todos nós. O início da leitura convida, admoesta, pede que a comunidade tenha esse mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus. O final é uma exaltação, uma doxologia a esse humilde Senhor, ao qual todas as pessoas devem prestar honra e louvor.

A leitura do evangelho, Marcos 15.1-15, enfoca o julgamento de Jesus perante Pilatos. Destaca-se aí a reação que pode haver tanto das autoridades quanto do próprio povo com relação às práticas do justo e humilde. Nesse contexto litúrgico, o texto do evangelho ressalta o caráter inocente = justo de Jesus.

O texto de pregação, Zacarias 9.9-10, tematiza o motivo entrada triunfal. A parte inicial é um convite ao júbilo e à alegria. O motivo é a vinda e entrada do Messias justo, vitorioso e pobre (v. 9). A segunda parte (v. 10) apresenta os propósitos da vinda desse Messias. Destacam-se três elementos: a) a eliminação dó arsenal militar, b) o anúncio de paz entre as nações e c) o estabelecimento dos domínios do seu reino. Vejamos o texto com mais detalhes:

2. O texto

O livro de Zacarias divide-se em duas partes. A primeira, organizada em torno de sete visões, Zc 1-8, costuma ser datada por volta de 520 a.C., na época persa. Contemporâneo do profeta Ageu, Zacarias atuou na época da reconstrução do templo. A segunda parte do livro, comumente designada de Dêutero-Zacarias, Zc 9-14, provém da época helenista (séc. 4 a.C.). Dentro dessa segunda parte, Zc 9.1-11.3 forma um bloco próprio, estruturado de forma simétrica.

O texto de Zc 9 começa com uma descrição de ações guerreiras contra cidades estrangeiras. Os alvos de destruição são primeiro algumas cidades ao norte da Palestina, em especial o poderio fenício, representado por Tiro (cf. Hadraque, Damasco, Sidão, mas também Damasco, vv. 2-3). A seguir, a atenção se dirige contra o reino filisteu, ao sul e sudoeste de Israel (cf. Ascalão, Gaza, Ecron, Asdode, vv. 5-6). Historicamente, tanto os fenícios quanto os filisteus constituíam estruturas políticas relativamente autónomas no final da época persa. No momento da queda do império persa e do advento do domínio grego, Alexandre Magno teve que quebrar, em 332 a.C., a resistência dessas duas potências para, assim, abrir caminho para a conquista da Palestina e do Egito. O seu itinerário de guerra na Palestina coincide com as alusões de nosso texto (cf. também l Macabeus 11.1-9). Possivelmente, o texto de Zc. 9.1-8 vê essas conquistas de Alexandre Magno como sinal da ação de Deus e como ponto de referência para esboçar a esperança de uma reconstituição do reino israelita.

O texto, porém, não se limita a depositar todas as esperanças em Alexandre. É verdade que, nos vv. 1-8, ação humana e ação de Deus se misturam e até se confundem. Mas uma novidade permeia a descrição dessas conquistas: Javé, o pastor e atalaia de Israel, acompanha, por um lado, todo esse processo, mas, por outro lado, está acampado nas fronteiras da casa de Israel para defendê-la e impedir nova opressão. Isso é destacado sobretudo em Zc 9.8. Esse versículo servi-como filtro, como divisória para o ápice que vem em Zc 9.9-10.

Se os versículos anteriores (Zc 9.1-8) vêem a ação de Deus no avanço militai grego, Zc 9.9-10 poderia perfeitamente pretender uma identificação do messias esperado com Alexandre Magno. O teor da fala do arauto (fala dirigida para Jerusalém/ Sião) poderia estar querendo dizer que o messias que vai entrar em Jerusalém seja o próprio Alexandre. Seria esse o motivo para o júbilo? Não é bem assim! As esperanças messiânicas esboçadas no texto são mais profundas. Transcendem a figura histórica em questão. Vejamos suas qualificações:

a) Justo e protegido — Após anunciar a entrada do messias, o v. 9ad coloca as duas primeiras qualidades do mesmo. Ele será justo. O termo hebraico em questão (saddiq) designa uma pessoa que vive de acordo com a justiça comunitária. Prover e zelar pela justiça era uma das atribuições principais da figura ideal do rei em Israel (cf. l Sm 23.3s.; Jr 22.3,15; SI 72.1-4). Faz parte das características do messias (cf. Is 9.6; 11.4; Jr 23.5). Como a segunda qualificação do messias é expressa na voz passiva (particípio nifal), também a primeira poderia ter um sentido passivo: aquele que é justificado, que recebeu a justiça de Deus. Mas creio que é melhor permanecer com o sentido ativo: justo. A segunda qualificação, contudo, é passiva. O termo hebraico designa alguém que foi ajudado, que passou por experiências duras e foi auxiliado, alguém que foi para a batalha e saiu vitorioso. Trata-se, em suma, de alguém protegido pelo próprio Deus.

b) Pobre e nobre — O v. 9b acrescenta mais dois atributos. Primeiro se afirma que o messias virá pobre, humilde. O termo hebraico em questão (uni) nos remete para os profetas, que apresentam as pessoas social e economicamente oprimi das como pobres (cf. p. ex. Am 2.7; Is 3.14-15; Sf 3.12, etc.). Ou também somos lembrados da tradição dos pobres nos Salmos (Sl 10.2; 14.5; 22.25, etc.), nos textos de sabedoria (Pv 15.15; 22.22) e textos legais (Ex 22.24; Dt 15.11; 22.11). Aqui é tentador resgatar toda essa tradição da dignificação dos pobres por Deus e afirmar que o messias será pobre. Sem dúvida, ele incorpora esse sentido. Mas acho que aqui o termo pobre deve ser entendido em sentido circunstancial: ele virá pobre. Isto é, sua vinda e entrada não estará cercada de pompa e exibições de poder, mas será humilde. Num contexto onde cavalo e carro de guerra serviam como demonstração de poder, vir montado num jumento é demonstração de humildade e crítica ao poder. Alexandre Magno certamente viria montado em cavalo! A menção de que o messias virá montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta conecta com tradições antigas e aponta para o caráter de nobreza daquele que vem. Andar de jumento era, em tempos antigos, sinal de distinção, de nobreza (cf. Gn 49.11; Jz 5.10; 10.4; 12.14). O messias que vem, portanto, virá pobre, mas nobre, assim como são os seus propósitos.

c) Pacifista e universal — O v. 10 indica os propósitos do messias. Em si, no texto hebraico, o v. 10 inicia na 1a pessoa do singular: e eu eliminarei (assim também Almeida, diferente a Bíblia de Jerusalém: ele), passando logo para a 3a pessoa. A fala inicial da 1a pessoa poderia ser do messias, mas também do próprio Deus (cf. 9.1). A Deus caberia a tarefa de eliminar o arsenal bélico. Carros de guerra, cavalos e arco designam as armas mais modernas da época e também simbolizam todas as possibilidades de armamento. Em Jerusalém e no Reino do Norte desaparecerão as armas. O messias que virá humilde e montado num jumento já não traz nenhuma conotação de poderio militar. Com a sua vinda, a guerra não será mais um objetivo político. Seu propósito é desarmamentista, pacifista. Isso se evidencia também na frase (do messias): E ele falará (repetidamente) paz para as nações. Poder-se-ia logo pensar em acordos e tratados de paz, como os que acontecem em nossos tempos. Mas aqui o texto procura sublinhar o poder da palavra, talvez como força capaz de persuadir e de convencer para a paz. Isso evoca as qualidades messiânicas apresentadas em Is 11.4: Com seus lábios 'matará' o perverso. O objetivo dessa ação pacifista é a libertação (cf. v. 11).

Aderindo a esse messias justo e protegido, pobre e nobre, que constitui uma revelação do Deus vivo, os outros povos talvez baixem as armas e entrem na ciranda do desarmamentismo. Assim, esse messias poderá ser o príncipe da paz, o messias dos pobres, que não mais serão atropelados pela máquina da guerra. E assim o seu reinado poderá ser universal. As frases e o seu domínio se estenderá de mar a mar, e do rio até os confins da terra não precisam ser entendidas no sentido de uma restrição geográfica limitada à Palestina. A pretensão é universal. Conforme a cosmovisão da época, a terra era concebida como uma superfície chata circundada pelo mar. O termo rio pode ser entendido em sentido central (o Eufrates como região central), a partir do qual os domínios se estendem em sentido radial, abrangendo todo o universo da terra (cf. Sl 72.8, onde se postula para o rei-messias um domínio universal nos mesmos termos).

3. Para a pregação

Já a leitura do texto e certamente também a pregação evocarão nos ouvintes a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Não há como escapar dessa associação. Os evangelhos justamente retomam esse texto de Zacarias para descrever a entrada de Jesus.

Porém, talvez fosse bom, para manter a proposta hermenêutica de pregar toda a Bíblia, buscar pincelar a situação e os propósitos do próprio texto de Zacarias.

A aplicação a Jesus é evidente e fácil no sentido de que ele é o messias esperado. Na pregação, eu destacaria como a qualidade de protegido se aplica à prática de Jesus. Mesmo humilhado, rebaixado, perseguido e morto, ele saiu vitorioso de sua luta pela vida. Foi protegido por Deus e salvo na ressurreição. Aí reside a maior esperança.

A aplicação para nós como comunidade poderia ser feita através da concepção do discipulado da cruz (a respeito veja Wehrmann em PL X). Em tempos de tanta falta de ética e ostentação dos poderosos, quem entrar humilde na luta pela vida c pela paz não escapará dos reveses humanos, mas certamente terá a vitória de Deus.

4. Subsídios litúrgicos

1. Intróito: Jesus Cristo diz: Eu sou um rei. Para isso eu nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Toda a pessoa que é da verdade ouve a minha voz.

2. Confissão: Deus da vida! Sabemos que és um Deus bondoso e misericordioso. Que te mostras em humildade. Que em ti os fracos se tornam fortes. Nós confessamos, Senhor, que tantas vezes vivemos em ostentação e falta de humildade. Em nossas próprias casas e comunidades vamos para dominar. Tornamo-nos como os poderosos que, pela força e autoridade, submetem os outros a si mesmos. Agindo assim, participamos do poder que gera a morte, a pobreza, a opressão, a discórdia, o desamor. Deus da misericórdia e da vida! Perdoa-nos! Tem piedade de nós!

3. Oração de coleta: Vem a nós, ó Senhor bendito. Dá-nos do teu Espírito. Cria em nós a humildade perante ti. Entra em nós e permanece conosco. Capacita nos, pela tua palavra, para a luta pela paz e pela vida plena. Por Jesus Cristo, amém.

5. Bibliografia


Importantes subsídios e detalhes exegéticos podem ser obtidos no estudo de GÜNTER K. F. WEHRMANN sobre o texto de Zacarias 9.9-10, sob o enfoque antiarmamentista, em Proclamar Libertação, vol. 10, pp. 91-105.

Veja, além disso: GILBERTO GORGULHO, Zacarias. A vinda do Messias Pobre (Série: Comentário Bíblico AT), Petrópolis/São Leopoldo/São Bernardo, 1985, esp. pp. 76-107.

Importantes dados podem ser obtidos no comentário de WILHELM RUDOLPH, Haggai, Sacharja 1-8, Sacharja 9-14, Maleachi (Série: Kommentar zum Alten Testament, vol. XIII/4), Gütersloh, 1976.


 


Autor(a): Haroldo Reimer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: Domingo de Ramos
Testamento: Antigo / Livro: Zacarias / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 9 / Versículo Final: 10
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1993 / Volume: 19
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13290
REDE DE RECURSOS
+
Deus é um forno ardente repleto de amor, que abraça da terra aos céus.
Martim Lutero
© Copyright 2019 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br