Paróquia do ABCD

Sínodo Sudeste



Rua Almirante Tamandaré , 550 - Bela Vista
CEP 09040-040 - Santo André /SP - Brasil
Telefone(s): (11) 4436-5496
paroquiadoabcd@luteranos.com.br
ID: 369

Lucas 14.25-33

Prédica

08/09/2013

Prédica Bispo Dr. Heinrich Bedford-Strohm

Texto: Lucas 14.25-33

Caras irmãs e irmãos

Essas palavras do Evangelho de Lucas mexem conosco, nos inquietam, nos deixam inseguros. Dificilmente se pode descrever o discipulado cristão de maneira mais radical do que Jesus o faz nessa passagem. Será que isso é realmente seguimento de Jesus? Odiar a mãe, odiar o pai, odiar a mulher, odiar os filhos, odiar as irmãs e os irmãos e, ainda por cima, odiar a si mesmo?

Se quiséssemos levar essas descrições do discipulado cristão ao pé da letra, teríamos de perder a esperança em relação a elas, pois teríamos de aceitar como orientação programática algo que, hoje em dia, só pode ser visto como descrição de sintomas de um transtorno psiquiátrico grave.

Sob esse ponto de vista, nossa comunidade de igrejas parceiras – igrejas que fizeram do seguimento de Jesus o conteúdo central de sua vida – teria de ser tachada de uma associação que constitui um perigo público, por conclamar as pessoas a odiarem umas às outras e a si mesmas. Se assim fosse, seria recomendável que as pessoas responsáveis pela segurança pública do país vigiassem muito bem nossa consulta, onde se reúne esse bando de pregadores do ódio.

Não vejo aqui, em lugar algum, homens com fones nos ouvidos que estivessem vigiando esta reunião. E, felizmente, eles também não são necessários, pois quem está reunido aqui não são pregadores do ódio, e sim arautos do amor. São pessoas comprometidas com a incumbência de proclamar ao mundo todo a mensagem do amor. Pessoas que lutam por um mundo em que o amor defina as palavras e ações humanas. Pessoas que buscam sua inspiração em Jesus. Pessoas que querem testemunhar com sua vida hoje o discipulado que Jesus exige de seus discípulos com palavras tão incisivas.

O discipulado de Cristo hoje não é a mesma coisa que o seguimento de Jesus naquela época. Jesus vivia como um pregador itinerante. Reunia ao seu redor pessoas que se decidiram totalmente por ele e, por isso, deixaram suas famílias de origem. E foi muito franco com elas: Vocês devem saber com o que estão se envolvendo. Quem quiser me acompanhar precisa fazer um corte em sua vida. E que assume esse compromisso tem de contar com todas as possibilidades, com a perseguição, com a cruz, talvez até com a morte. Qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se assenta primeiro para calcular se com 10 mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com 20 mil? Caso contrário, estando o outro ainda longe, envia-lhe uma embaixada, pedindo condições de paz. O mesmo se aplica a todo aquele ou aquela entre vocês que não renuncia a tudo quanto tem. Portanto, pensem bem no que estão se envolvendo!

Hoje nós sabemos o quanto essa advertência de Jesus era justificada. Jesus seguiu o caminho da cruz. E alguns de seus discípulos também foram mortos por serem seus seguidores.

Mas Jesus ressuscitou! Essa boa notícia se espalhou em toda parte no mundo. E, 2 mil anos depois, nós conhecemos formas diversificadas de seguimento de Jesus nos mais diversos contextos do mundo. Em todo caso, ninguém que possa ser levado a sério afirma atualmente que só se poderia ser cristão vivendo como pregador itinerante.

Ninguém pode nos substituir na tarefa de esclarecer sempre e de forma nova, para nossa respectiva época e nosso respectivo contexto, o que significa seguimento. A atualidade da referência à cruz feita por Jesus nesse texto é mostrada pela situação de pessoas cristãs que sofrem perseguição hoje em dia porque dão testemunho de sua fé. Alguns e algumas de vocês sabem, por experiência própria em seu país de origem, do que estou falando.

Onde isso não acontece, como, por exemplo, no meu país, na Alemanha, só podemos ser extremamente gratos por isso. O sofrimento por causa da fé sempre é uma situação-limite. Nunca se deve desejar esse sofrimento. Ninguém sabe isso melhor do que as pessoas que passam por esse sofrimento na própria pele. Quem vincula o caráter inequívoco do discipulado de Cristo com a medida do sofrimento e o deseja para evidenciar a força do testemunho de fé transforma a cruz num fim em si mesma e, assim, perverte o sentido dela.

Jesus jamais quis dizer algo assim. O que se visa no seguimento de Jesus é a vida. O que se visa é que se dê de comer a quem tem fome, que se dê de beber a quem tem sede, que se vista a quem está nu, que não se deixe sozinho quem está preso, que se visite quem está enfermo, que se hospede quem é forasteiro. E o que se visa é que a violência seja vencida! A violência que leva Jesus à cruz é expressão do pecado humano. Jesus venceu o pecado. E por isso todas as pessoas que o seguem se engajam para que a violência, como consequência do pecado, também seja superada.

Se pode haver situações – por exemplo, assassinatos em massa como por ocasião do genocídio ocorrido em Ruanda – em que, também do ponto de vista da ética cristã, o emprego de violência possa ser visto como inevitável, se pode haver situações assim é uma questão difícil. Na assembleia geral do Conselho Mundial de Igrejas em Busan, no início de novembro, vamos discutir intensivamente sobre essa questão. Mas todos e todas estão de acordo de que a superação da violência faz parte das dimensões essenciais da missão da qual o evangelho incumbe as igrejas. A assembleia mundial das igrejas em favor da superação da violência que teve lugar em Kingston, na Jamaica, há dois anos, apresentou muitos exemplos impressionantes de como as igrejas podem contribuir para isso com projetos concretos.

O engajamento da igreja pela superação da violência é apenas um campo no qual precisa ser comprovada hoje a validade daquilo que Jesus diz sobre o discipulado usando a imagem do sal: “O sal é certamente bom; caso, porém, se torne insípido, como restaurar-lhe o sabor? Nem presta para a terra, nem mesmo para o monturo; lançam-no fora. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”

Como podemos ser sal hoje? Em todo caso, não simplesmente papagueando o que o mundo diz, abrindo mão do perfil teológico para não exigir nada de ninguém. Abrindo mão da verdade para permanecermos importantes. De fato, um sal insípido não tem serventia nem para a terra nem para o monturo, mas será jogado fora!

Mas também não podemos ser sal construindo um “contramundo” e, por fim, deixando sozinho o mundo que queremos transformar. De que serve uma porção de sal que simplesmente fica consigo mesma? Os grãos de sal até podem se achar extremamente salgados, mas se não entrarem em nenhuma outra coisa para salgá-la, não servirão para nada. O sal ficará jogado sozinho e vai acabar se estragando a uma certa altura. Critérios morais que são tão elevados que se pode escapar deles com facilidade não transformam absolutamente nada. E um discurso supostamente profético que se eleve acima das outras pessoas e simplesmente ignore como elas se debatem em meio a seus dilemas acabará se revelando, no fim das contas, apenas como vaidade e presunção [Marie: “presunção” aqui é “self-righteousness” em inglês] disfarçadas com muita habilidade.

Ser sal hoje em dia significa outra coisa. Significa, antes de mais nada, um amor profundo pelo mundo no qual se pretende ser sal. Significa sentir o coração arder pelas pessoas que vivem nesse mundo, independentemente do lado em que elas se encontrem. Significa servir às pessoas que necessitam especialmente de apoio, cuja dignidade está sendo violada. Significa erguer a voz e falar com clareza se com isso se pode fazer com que as pessoas reflitam e transformações sejam desencadeadas.

Para receber constantemente força para essa incumbência, precisamos de comunhão e comunidades. Precisamos da grande comunhão e comunidade da Igreja. Ela nos liga com as pessoas, ao longo dos tempos, que foram portadoras da mensagem do amor de Deus em Jesus Cristo desde aquela época até o presente. Sem elas, nem teríamos conhecimento dessa mensagem. E ela nos liga com as pessoas que, hoje em dia, voltam sempre a se reunir em torno de Cristo e sentem a força dele entre elas. É bom estar ciente dessa comunhão da igreja e senti-la, mesmo que as pessoas que fazem parte dela vivam muito longe umas das outras. E é bom que também possamos vivenciar bem diretamente, através da comunhão de nossas igrejas parceiras, a unidade em Cristo que ultrapassa limites nacionais e culturais. Por isso, esta consulta é uma grande dádiva. Por meio da amizade que sentimos juntas, por meio das discussões que temos umas com as outras, por meio da oração que nos une com Deus e também, no fundo da alma, umas com as outras, Cristo está entre nós.

É isso que podemos celebrar no dia de hoje. Louvamos a Deus por termos umas às outras. Agradecemos a Deus por, através de seu Espírito, nos abrir sempre o coração umas para as outras e para o mundo. Pedimos que Deus nos fortaleça no amor.

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guarde o seu coração e a sua mente em Cristo Jesus. Amém.
 


Autor(a): Heinrich Bedford-Strohm
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: ABCD (Santo André-SP) / Instância Nacional: Presidência / Organismo: Igreja Evangélica Luterana na Baviera - Alemanha
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 14 / Versículo Inicial: 25 / Versículo Final: 33
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 24500

AÇÃO CONJUNTA
+
tema
vai_vem
pami
fe pecc

A vida cristã não consiste em sermos piedosos, mas em nos tornarmos piedosos. Não em sermos saudáveis, mas em sermos curados. Não importa o ser, mas o tornar-se. A vida cristã não é descanso, mas um constante exercitar-se.
Martim Lutero
EDUCAÇÃO CRISTÃ CONTÍNUA
+

REDE DE RECURSOS
+
Procuremos sempre as coisas que trazem a paz e que nos ajudam a fortalecer uns aos outros na fé.
Romanos 14.19
© Copyright 2020 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br