Concílio da Igreja



ID: 2273

Prédica do Bispo Dr. Munib Younan

XXIX Concílio Geral da IECLB - Celebração Ecumênica

16/10/2014


      الكنيسة الإنجيلية اللوثريـــــة في الأردن والأراضي المقدسة
The Evangelical Lutheran Church in Jordan and the Holy Land

A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com vocês.

Tema: Jeremias 29: 7

Brasil, 16 outubro 2014

Prédica pelo Bispo Dr. Munib Younan

Bispo da Igreja Evangélica Luterana na Jordânia e Terra Santa
Presidente da Federação Luterana Mundial

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Jeremias 29: 7
Mas procurai a paz da cidade, onde eu te enviei para o exílio, e orar ao Senhor, em seu nome, porque na sua paz você vai encontrar a sua paz.

Queridos irmãos e irmãs em Cristo,
Eu gostaria de transmitir as minhas saudações da Federação Luterana Mundial e das 144 igrejas-membro que representa. Saudações também de Jerusalém, minha casa, e sua casa espiritual. Estou muito feliz por estar aqui com vocês, neste Concílio da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. Obrigado por me convidarem para compartilhar as Boas Novas com vocês hoje. Esta é a força da nossa comunhão luterana: o fato de nos acompanharmos mutuamente no caminho de Emaús, como os dois discípulos. É somente na Santa Mesa da Eucaristia, que Cristo se revela a nós e nos comissiona para a missão holística, incluindo diaconia profética.

Deixem-me expressar minha gratidão de estar entre vocês da IECLB durante o seu Concílio. É a primeira vez que eu estou entre vocês, mas não é a primeira vez que encontro vocês. Personalidades extraordinárias do passado me vêm à mente: meu antecessor nos anos 1990, ex-presidente da FLM, Dr. Gottfried Brakemeier e P. Huberto Kirchheim, ex-vice Presidente da FLM. Também quero mencionar aqui meu irmão P. Dr. Walter Altmann que tem trabalhado muito pela FLM. Somos muito orgulhosos em tê-lo tido como Moderador do Conselho Mundial de Igrejas. A IECLB tem sido generosa em compartilhar pessoas valoráveis com o escritório da Comunhão FLM, neste momento a Pa. Dra. Elaine Neuenfeldt e o Dr. Carlos Bock. Da mesma forma, como membros do Conselho da FLM a Pa. Ma. Marcia Blasi e a Pa. Cibele Kuss.

Mas permitam-me compartilhar também com vocês que eu tenho encontrado a IECLB através de comentários positivos que tenho ouvido. Sendo a maior igreja membro da FLM na região, vocês jamais fizeram do seu tamanho um fator de privilégio no trabalho conjunto com outras igrejas irmãs. Ao contrário, vocês trabalham junto, em pé de igualdade, trazendo seus dons de forma que eles são bem-vindos e bem recebidos. Obrigado por este testemunho de mutualidade. Assim, hoje, vocês estão desenvolvendo o Instituto Sustentabilidade, uma parceria FLM/IECLB/EST: com e em nome da Região, gerando importantes processos de reflexão e prática entre as igrejas da região.

Também gostaria de expressar minha profunda gratidão pela maneira na qual a IECLB respondeu no ano passado ao pedido da FLM por apoio às igrejas irmãs na Namíbia e Angola, em um momento em que estavam passando por uma terrível seca. Nós valorizamos sua resposta rápida e o seu compromisso de amor em colocar-se ao lado das pessoas que sofrem, mesmo que muito distantes. Assim, a vitalidade das relações de comunhão na FLM têm sido expressas de maneiras maravilhosas.

O texto que temos para hoje é problemático. Na verdade, quando eu estava me preparando para esta prédica, eu tive que me perguntar: Por que a Igreja Luterana no Brasil escolheu esse texto? Quando eu leio esta passagem de Jeremias, eu vejo luzes e sinais que anunciam um aviso Perigo adiante!

Eu sou um palestino que vive sob ocupação. Em 1948 e novamente em 1967, muitas pessoas do meu povo foram para outras terras, buscando refúgio em várias partes do Oriente Médio. Ainda hoje, em lugares como Líbano, Síria e Jordânia, meus irmãos e irmãs palestinas vivem ainda como refugiadas. Sua situação nunca foi resolvida. Nunca receberam uma cidadania, a não ser a de pessoas refugiadas. A questão das pessoas refugiadas palestinas é, desde 1948, antes de tudo, uma questão nacional. O movimento nacional palestino contemporâneo é, em grande parte, o produto de seu desejo de reverter sua espoliação.

Eu também sou um refugiado de Beer Sheva. Eu ainda tenho um cartão UNRWA (Agência de Auxílio e Palavras das Nações Unidas). Sempre foi um sonho poder voltar. Esta é a razão do porquê de nenhum país árabe normalizar a integração. Querem manter a esperança do direito ao retorno. As pessoas palestinas estão pedindo o reconhecimento da injustiça cometida contra elas. Quando este reconhecimento for afirmado, em seguida será encontrada uma solução política. Quando eu visito meus compatriotas e minhas compatriotas, eu vejo o quanto anseiam retornar. Será que Jeremias, neste texto da escritura, lhes diria: Desfrutem da sua estadia no campo de refugiados? Ou vivam uma vida normal na diáspora?

Hoje vemos que as nossas irmãs cristãs e nossos irmãos cristãos no Oriente Médio continuam a fugir por causa da situação de desespero econômico, crescimento do extremismo, e falta de qualquer vislumbre de paz no horizonte. Esta é a realidade que enfrentamos hoje, e isso me faz questionar o profeta Jeremias, que parece pronunciar um oráculo de exílio para as pessoas que ama. O próprio Jeremias era um nacionalista. Ele próprio havia sofrido. Ele próprio foi perseguido. E, no entanto, lemos que ele diz a seu povo, que tinha sido exilado: Construam casas fora do seu país. Plantem jardins e criem famílias fora de Jerusalém. Vivam e trabalhem e orem fora do lugar onde o nome de Deus está.

E não apenas isso. Há um desafio maior: Procurai a paz da cidade, onde Deus lhe enviou para o exílio, e orai ao Senhor, em seu nome, porque na sua paz você vai encontrar a sua paz Esta deve ter sido uma grande dificuldade para aquelas pessoas enviadas para o exílio de Jerusalém para Babilônia, e é uma grande dificuldade para mim hoje. Como posso eu, cristão, palestino e refugiado, ler este texto?

Certa vez eu estava falando para um grupo de crianças em idade escolar, na Alemanha, sobre a emigração das pessoas cristãs para fora do Oriente Médio. Uma menina levantou a mão e me disse: Querido Bispo, por que você está preocupado com isso? Hoje, os jovens estão felizes em serem livres! Somos livres para ir onde podemos encontrar o nosso futuro, onde podemos viver melhor. Nós podemos ir para onde queremos ir!

Tentei argumentar com ela: Isso é verdade. Mas quando as pessoas saem da Terra Santa, especialmente as pessoas cristãs, quem permanecerá? Quem vai estar lá para manter a fé, na terra onde nasceu a nossa fé?

Eu estou realmente em conflito comigo mesmo, e com Jeremias, quando eu leio e prego sobre este texto. Eu me vejo chorando junto com o salmista: Como podemos cantar a canção do Senhor em terra estrangeira? (Salmo 137.4). Como podemos cantar pela paz em lugares onde nós experimentamos a injustiça, o extremismo, ou o abuso de poder? Como podemos orar pela paz daqueles que ocupam nosso território, ou que nos enviaram para o exílio? Como podemos confiar que a mão de Deus está agindo, mesmo neste capítulo da nossa história?

Este é um texto difícil para mim; é uma mensagem desafiadora para o nosso tempo. Jeremias era um profeta, entregando notícias difíceis e impopulares, tanto para o seu povo como para quem estava no poder. E ele sofreu grandes consequências por causa disso. Nosso desafio hoje é que não encontramos tais líderes proféticos que conhecem a vontade de Deus e falam dela com ousadia. Muitos dos nossos líderes políticos têm padrões duplos. Eles falam de justiça, mas querem o primeiro lugar para si. Eles falam de liberdade e independência, mas apenas para os seus próprios países e povos. Eles querem a paz, mas desejam também manter seu próprio poder e privilégio. Hoje, eu pergunto: Onde está a voz profética da Igreja, ainda que possa ser impopular como a voz de Jeremias?

Nos últimos anos, temos visto no Oriente Médio algumas mudanças que a princípio pareciam profetizar um futuro novo e melhor. E, de fato, a centelha da chamada Primavera Árabe era genuína. O impulso para a dignidade, a justiça de gênero, a liberdade de expressão, a liberdade de religião e oportunidades iguais de emprego, era certo e bom. Mas é claro que o que descobrimos foi que aqueles que provocaram estes movimentos não chegaram ao poder. Extremistas têm líderes e programas políticos que dominam as eleições democráticas, e por este motivo o extremismo tem nos feito reféns no Oriente Médio.

Diante dessa realidade, bem como do meu contexto social, é possível para mim, ler esses versos de Jeremias e ouvi-lo dizer aos meus irmãos e às suas irmãs do Oriente Médio: Não se preocupem! Fiquem quietos. Vivam suas vidas, plantem jardins, criem famílias, mas confiem no Deus de justiça.”

É possível interpretar o pedido de Jeremias de orar pela paz como sendo, Deus quer que vocês apoiem o status quo. Deus quer que vocês se contentem em viver como exilados. Mas isso, como sabemos, não é a vontade de Deus.

O teólogo alemão [Joaquim] Jeremias escreve que a mensagem central do Antigo Testamento é a justiça. E nós sabemos que o anseio por justiça nunca será extinto do coração humano, mesmo em meio à opressão. Esta é a boa notícia que temos ouvido ser proclamada corajosamente a partir da América Latina, a casa da Teologia da Libertação. A voz da libertação nunca cessou. O anseio pela justiça de Deus nunca diminuiu. Porque vocês não acreditam em ditadura ou opressão, mas apenas em um Deus de justiça, que liberta e une a humanidade na justiça e dignidade, assim como o povo no exílio.

A partir daqui, no Brasil, ouvimos a voz de Leonardo Boff, que disse: O que é necessário é uma espiritualidade de resistência e de esperança renovada para trazer sempre volta para a luta em face das derrotas dos oprimidos. (Apresentando a Teologia da Libertação). A partir de El Salvador, Oscar Romero nos ensinou, Libertação que causa grito nas outras pessoas não é libertação verdadeira. Libertação que significa revolução do ódio e da violência e tira vida de outras pessoas ou humilha a dignidade dos outros não pode ser verdadeira libertação (The Violence of Love). Do Peru, Gustavo Gutierrez proclamou: A construção de uma sociedade justa significa superar todos os obstáculo para a criação de uma paz autêntica. (A Teologia da Libertação).

É verdade que em um determinado momento, a Teologia da Libertação foi acusada de ser uma ideologia marxista-leninista-comunista. Aqueles que se opõem à justiça vão usar qualquer nomenclatura, rotulo ou estigma para assustar as multidões. Mas onde quer que as pessoas tenham como objetivo a justiça e a vida, as teologias da libertação foram importantes como guias no caminho da liberdade e da dignidade.

Gutierrez, Boff, Romero, outros e outras, são os profetas que, como Jeremias, ousaram falar a verdade ao poder, e resistiram a todas as formas de opressão. Como uma chama no capim seco, o seu poderoso testemunho aqueceu os corações das pessoas e inflamou movimentos que não aceitam menos do que justiça. A partir da teologia da libertação da América Latina, nós, no Oriente Médio, aprendemos que, em face da injustiça, da prisão, da ocupação, do imperialismo, ou da conquista, a vontade de Deus é que nós nunca desistamos. O coração humano nunca vai desistir da ideia de libertação para todos os filhos e todas as filhas de Deus.

É claro que não podemos ignorar que a voz dos libertadores era tão poderosa porque emanou primeiro da Igreja. Esta chama é forte, porque ela veio da luz de Cristo, que na cruz sofreu em solidariedade com todas as pessoas que sofrem, e cuja ressurreição libertou o mundo do império do pecado e da morte. Enquanto a Igreja continuar a erguer a sua voz, despertando nas pessoas o poder de sua dignidade de filhas de Deus, criadas à imagem de Deus, essa chama não se extinguirá. As pessoas que conhecem a Cristo sabem que já estão libertas. Elas são livres, não por causa da vontade dos políticos, mas por causa do poder da cruz. A cruz de Cristo capacita a Igreja a nunca aceitar o que o mundo aceita, mas a levantar a nossa voz contra qualquer poder ou principado que oprime qualquer ser humano.

Ouçamos novamente a voz do profeta Jeremias, que disse ao seu povo, enquanto eles estavam na Babilônia: Procurai a paz da cidade, onde Deus lhes enviou para o exílio, e orai ao Senhor, em seu nome, porque na sua paz vocês vão encontrar a sua paz.

Estas não eram palavras ditas para acalmar as massas, para acalmar os instigadores, ou para incentivar a apatia diante da opressão. Em vez disso, lembro-me de outro grande teólogo, Dom Helder Câmara, que disse: Sem justiça e amor, a paz sempre será uma grande ilusão. Disto nós aprendemos que a luta pelos direitos humanos, pela liberdade e pela dignidade, nunca está em oposição à paz, mas está lançando as bases para a paz. Quando a Igreja prega a paz, sem levantar a sua voz profética para a justiça, torna-se como aqueles sobre quem o profeta Jeremias lamentou: Eles têm tratado a ferida do meu povo, de qualquer jeito, dizendo: Paz, paz, quando não há paz (Jeremias 6.14). Mas uma Igreja que fala e age corajosamente se une à melodia do Salmo 85, cantando junto com todos os santos: amor e fidelidade se encontram; a justiça e a paz se beijam.

Do Brasil, eu apelo à Igreja de Deus para ser profética. O poder da Igreja não está em sua prosperidade, no número de seus membros, na sua conta bancária ou nas suas boas obras. O poder da Igreja está em transmitir a vontade de Deus e o amor de Cristo para seu povo e para o mundo. O poder da Igreja é profético quando proclama a igualdade, a dignidade e a vida abundante para todas as pessoas.

Em outubro passado, o Secretário Geral da FLM Martin Junge, e eu, como presidente, juntamente com uma delegação dos vice-presidentes, tivemos a oportunidade de visitar Sua Santidade o Papa Francisco, em Roma. Enquanto estávamos lá, nós lhe presenteamos com algo que não era nem prata nem ouro: um bule velho e enferrujado de um campo de refugiados da Somália, em Dadaab, no Quênia (um acampamento que recebe auxílio financeiro da Federação Luterana Mundial). Quando o Papa Francisco recebeu este bule, ele ficou tão emocionado que ele pulou de sua cadeira e nos disse: O que precisamos hoje é uma martyria ecumênica.

Aquelas palavras do meu irmão em Cristo calaram fundo em mim. Ele nos lembra que a questão hoje não é o quanto uma pessoa ou uma Igreja se empenha pela justiça ou compartilha o Evangelho do amor. A questão é como podemos fazer isso juntos e juntas, como irmãos e irmãs em Cristo. Estamos dispostas, como igrejas, a trabalhar em conjunto para a justiça? Se a voz de um profeta, Jeremias, foi ouvida durante milhares de anos e ainda está nos influenciando hoje, imaginem se as pessoas cristãs se tornassem uma voz profética unida para a justiça? Juntos e juntas podemos nos tornar uma Symphonia da justiça. Juntos e juntas, essa voz vai perturbar os poderes da injustiça e da opressão e vai criar as bases de uma paz verdadeira e duradoura. Juntos e juntas, podemos levar a esperança em muitas situações desesperadoras. Esta martyria ecumênica de que o Papa fala é o nosso chamado evangélico em um mundo globalizado e quebrado. O mundo nada exige de nós, como igrejas, a não ser a nossa unidade para a justiça, paz e reconciliação.

Que Deus nos dê a força para levantar a nossa voz em conjunto. Uma martyria ecumênica para a justiça e a paz, para o bem de nosso Senhor Jesus Cristo. E que a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guarde os vossos corações e mentes em Cristo Jesus. Amém.

Tradução para a língua portuguesa: P. Mauro Souza


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