Prédicas e Meditações



ID: 2931

Domingo da Esperança | 1 Tessalonicenses 3.9-13

1º Domingo de Advento

28/11/2021

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Amados irmãos, amadas irmãs,


Nada do que estamos vivendo é permanente; tudo é provisório! Hoje nós estamos iniciando um novo tempo litúrgico. A temporada do Advento abre um novo ano eclesiástico, enfatizando a memória do cumprimento da promessa quando o Messias nasceu em Belém e o aguardo do cumprimento da sua volta no final da história. De um lado, lembramos que Jesus já veio; de outro, aguardamos a sua volta gloriosa e definitiva.

Entre a primeira e a segunda vinda de Cristo está o Tempo da Igreja que já somam mais de dois mil anos. De um lado, temos a memória da feliz noite de Belém onde dentro de um humilde paiol o próprio Deus entrou para dentro do nosso mundo; de outro lado, aguardamos o seu retorno definitivo para pôr fim à história e instaurar definitivamente o Reino de Deus.

Porém, ainda vivemos em um mundo que não vive o fundamento, os valores do Reino de Deus e que não reconhece o reinado de Cristo (como vimos no último culto). Como cristãos, exercemos o nosso sacerdócio servindo a Deus por meio do próximo através da nossa profissão. Porém, a grande verdade é que todos nós somos como o povo de Israel rumo à terra prometida. Estamos em peregrinação. Deus não nos criou para morrermos e permanecermos neste “deserto”, mas para habitarmos eternamente na terra prometida onde há abundância de leite e mel.

Assim, como podemos ser constantes e firmes nesta peregrinação até a vinda do Senhor? Não são poucas as tentações que procuram nos afastar da presença e da Palavra de Deus. Como humanos, somos pecadores. Nós erramos constantemente o alvo. Inclusive, muitas pessoas distorcem a Palavra de Deus para que ela diga o que elas querem ouvir e não o que precisam ouvir. Vivemos em um mundo que – a todo custo – procura nos afastar dos fundamentos e dos valores do Reino de Deus, bem como do próprio Rei Jesus. Em meio às tantas tentações, como se manter de maneira constante e firme quando toda a realidade que nos cerca está contra nós e quer nos derrubar? Como esperançar se vivemos em um mundo desesperado? A comunidade de Tessalônica pode nos dar algumas dicas.

A chegada do Evangelho em Tessalônica é inegavelmente uma obra de Deus. Paulo e seu companheiro tinham a intenção de pregar o Evangelho no Oriente, especialmente na Ásia. Porém, nos diz Atos 16.7 que “Chegando perto de Mísia, tentaram ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu.” A Bitínia seria a entrada para a Ásia. Mas Paulo e Timóteo são impedidos pelo próprio Espírito de Jesus. Em seguida “Paulo teve uma visão na qual um homem da Macedônia estava em pé e lhe rogava dizendo: - Passe à Macedônia e ajude-nos”. (Atos 16.9). Adivinhem: qual cidade era a capital da Macedônia? Tessalônica. Na sequência, Paulo e Timóteo chegam a Filipos onde acontece a conversão de Lídia (cf. Atos 16.11-15) que veio a ser a líder da comunidade dos filipenses. A pregação do Evangelho em Filipos fez muitos cidadãos abandonarem práticas pagãs e superstições. Porém, havia quem obtinha lucros com as vãs superstições dos filipenses. Por isso, Lucas nos diz em Atos 16.19-21: “Quando os donos da jovem [adivinhadora] viram que se havia desfeito a esperança do lucro, agarraram Paulo e Silas e os arrastarem para a praça, à presença das autoridades. E, levando-os aos magistrados, disseram: - Estes homens, sendo judeus, perturbaram a nossa cidade, propagando costumes que não podemos aceitar, nem praticar porque somos romanos.” De fato, onde a luz entra, as trevas precisam sair; porém, havia quem queria que as trevas permanecessem e que a luz fosse embora.

Resumindo a história, Paulo e Silas são presos e logo depois são soltos novamente. E então, o historiador Lucas nos diz: “Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, Paulo e Silas chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga dos judeus.” (Atos 17.1). Como já dito, Tessalônica era a capital da Província da Macedônia e já naquela época possuía uma população de cerca de duzentas mil pessoas. Tessalônica era uma cidade florescente onde viviam muitos estrangeiros, além de ser uma cidade forte e influente. Nela, ficava um dos mais importantes portos da época. Assim, compreendemos a estratégia do Espírito Santo na vida do apóstolo Paulo. Se a cidade de Tessalônica fosse alcançada pelo Evangelho, dela o Evangelho poderia se espalhar por todas as outras regiões, haja visto o enorme trânsito de estrangeiros na cidade. Tessalônica seria apenas o “pontapé inicial” de uma comunidade que enviaria missionários para várias regiões do mundo. E assim aconteceu! Paulo tinha elaborado a estratégia de ir para o Oriente, a Ásia; porém, o Espírito de Jesus o impeliu para o Ocidente, a Europa. O pastor anglicano John Stott diz: “Foi da Europa que, no seu devido tempo, o evangelho se espalhou pelos grandes continentes: África, Ásia, América do Norte, América Latina e Oceania, alcançando assim os confins do mundo”1. Tessalônica foi usada por Deus como ponto de partida para o espalhamento do Evangelho pelo mundo inteiro.

O que, então, Paulo fez em Tessalônica? Lucas nos diz em Atos 17.2-3: “Paulo, segundo o seu costume, foi procurá-los e, por três sábados, discutiu com eles a respeito das Escrituras, expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos. Paulo dizia: - Este Jesus, que eu anuncio a vocês, é o Cristo.” Isso significa: Este Jesus é o Ungido de Deus. Assim nos diz o pastor presbiteriano brasileiro Hernandes Dias Lopes:

O apóstolo Paulo prega Cristo a partir das Escrituras. Ele não prega filosofia grega nem política romana. Ele não prega a tradição dos anciãos nem ensina sobre os dogmas dos rabinos fariseus. Ele expõe as Escrituras e a partir delas apresenta Cristo.2

O que Paulo pregou? Cristo! Somente Cristo! Nada mais! E, quando Cristo está verdadeiramente no centro, uma grande obra espiritual acontece: “Alguns deles foram persuadidos e se juntaram a Paulo e Silas. O mesmo aconteceu com numerosa multidão de gregos e piedosos e muitas mulheres importantes.” (Atos 17.4).

Porém, nem tudo são flores. Os judeus ficaram com inveja de Paulo e Silas. Através das autoridades locais, parte da população inicia uma caçada aos missionários ao ponto deles precisarem fugir à noite para Bereia (cf. Atos 17.10-15) seguindo, logo após, para a cidade de Atenas (cf. Atos 17.16-34). A comunidade cristã dos tessalonicenses foi gerada no útero do sofrimento e nasceu no berço da perseguição, recebendo hostilidade desde o seu início. Entretanto, mesmo que Paulo houvesse pregado por apenas três semanas naquela cidade e que enfrentassem tantas dificuldades, as perseguições só aumentaram o seu processo de crescimento.

Agora, Paulo está fora da cidade de Tessalônica. A única maneira de se comunicar com ela é através de cartas (se fosse hoje, poderia usar o WhatsApp). A Carta de Paulo aos Tessalonicenses é o escrito mais antigo do Novo Testamento, escrita por volta de 50 e 51 d. C., apenas 18 anos após a morte de Jesus.

Paulo gostaria muito de visitar aqueles irmãos. Sentimos a saudade do apóstolo Paulo nas suas próprias palavras que dizem: “E nós, irmãos, estando separados de vocês por breve tempo, ficando longe dos olhos, mas perto do coração, com muito mais empenho e com grande desejo procuramos ir vê-los pessoalmente.” (1 Tessalonicenses 2.17). Como Paulo não pode ir, Timóteo foi enviado para fortalecer e animar aqueles irmãos na fé. Então, Paulo escreve: “Agora, porém, com o regresso de Timóteo, vindo do meio de vocês, trazendo-nos boas notícias a respeito da fé e do amor que vocês têm, e, ainda, de que sempre guardam grata lembrança de nós, desejando muito nos ver, como, aliás, também nós temos vontade de ver vocês, sim, irmãos, por isso, ficamos animados a respeito de vocês, pela fé que vocês têm, apesar de toda a nossa necessidade e tribulação”. (1 Tessalonicenses 3.6-7). Quais são as notícias trazidas por Timóteo? Muito boas. Mesmo que aquela comunidade tivesse enfrentado dificuldades e perseguição e mesmo que tivessem ouvido o Evangelho por apenas três anos, a obra realizada por Deus naquela comunidade frutificava e muito. Não era uma obra humana, mas espiritual! Era o próprio Deus quem estava agindo naquela comunidade.

Àquela comunidade possuía três características bem importantes que encontramos em 1 Tessalonicenses 1.3: a fé operante, a dedicação no amor e a firmeza da esperança. Mesmo em meio aos sofrimentos, a comunidade de Tessalônica é modelo de evangelização à toda a região (cf. 1 Tessalonicenses 1.7-8). Aconteceram coisas tremendas e maravilhosas naquela comunidade. Eles não acolheram a Palavra como palavra humana, mas como Palavra de Deus (cf. 1 Tessalonicenses 2.13). Eles, de fato, se converteram ao Senhor mesmo que isso trouxesse perseguição a eles. A comunidade dos Tessalonicenses é um modelo bíblico importante de como uma comunidade cristã deve viver a sua fé.

Entretanto, havia também problemas naquela comunidade. O “engraçado” é que o principal problema dos tessalonicenses está relacionado com algo que não é um problema: a esperança. Aquela comunidade vivia diariamente na expectativa da volta do Senhor dos céus. Acreditavam que isso aconteceria muito em breve. Os tessalonicenses tinham pressa para a volta de Cristo. Então, o que eles fizeram? Pararam de trabalhar. “Se Jesus voltaria logo, então todo o seu trabalho era inútil”, pensavam eles. Por isso, Paulo diz a eles: “se empenhem por viver tranquilamente, cuidar do que é de vocês e trabalhar com as próprias mãos, como ordenamos, para que vocês vivam com dignidade à vista dos de fora, e não venham precisar de nada.” (1 Tessalonicenses 4.11-12); a primeira carta não adiantou muito, então, mais tarde, Paulo escreveu sua segunda carta aos irmãos, onde ele diz: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma.” (2 Tessalonicenses 3.10). Assim, a esperança no advento (chegada) de Cristo não pode nos paralisar. A verdadeira esperança é aquela que nos coloca em movimento para que a igreja influencie o mundo. O Tempo da Igreja precisa ser vivido com liberdade e responsabilidade diante de Deus e do próximo, até a vinda do Senhor.

Amados irmãos, amadas irmãs,

qual é o desejo de Deus para a nossa igreja hoje? O que Deus está falando às comunidades Bom Pastor e Vida Nova nesta manhã? Na oração do apóstolo Paulo encontramos três ideias principais sobre o que Deus espera de uma Igreja que espera por Deus. Isso mesmo: O que Deus espera de uma Igreja que espera por Deus? Dito de outra forma: o que Deus quer da Igreja enquanto esperamos a volta de Jesus?

1. Fé madura: “Oramos noite e dia, com máximo empenho, para que possamos ir vê-los pessoalmente e suprir o que ainda falta à fé que vocês têm.” (1 Tessalonicenses 3.10). A fé que não é exercitada certamente sofrerá de “muscular”. A fé cresce e se torna madura com seu exercício. Uma fé madura não se vive apenas nos domingos ou apenas de casa, mas na vontade de conhecer cada vez mais a Palavra de Deus, na disposição à oração e na comunhão pessoal com os irmãos e irmãs. Uma fé verdadeira colocará sempre Cristo no centro como único fundamento e sentido à vida possível. Sem esses elementos, corremos o risco de envelhecermos em idade, mas morrermos “verdes” (ou infantis) na fé;

2. Amor fraternal: “E o Senhor faça com que cresça e aumente o amor de uns para com os outros e para com todos, como também o nosso amor por vocês.” (1 Tessalonicenses 3.12). A fé é individual, mas não pode ser vivida apenas individualmente. É preciso encontrar irmãos e irmãs que também fundamentam suas vidas na centralidade de Cristo para que todos possam viver a comunhão através do vínculo do amor fraternal de todos para com todos, ao mesmo tempo em que, com seu amor, atingem aqueles que estão fora para que sejam convidados a virem para dentro da comunidade. Porém, uma igreja em que um quer devorar o outro não tem como se manter ou crescer. É preciso muito amor fraternal. Hernandes Dias Lopes diz: “A igreja é uma família onde devemos construir pontes de amizades e não muralhas de separação. A igreja é a comunidade do amor, da aceitação, do perdão, da restauração”3.

3. Santidade: “a fim de que o coração de vocês seja fortalecido em santidade, isento de culpa, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos.” (1 Tessalonicenses 3.13). A pergunta aqui é: se Jesus voltasse hoje, como ele encontraria a nossa vida? O que ele veria de nós? Veria em nós uma vida que agrada a Deus – mesmo com as tentações contra nós – ou nos veria vivendo os padrões do mundo que não combinam com seus ensinamentos? A palavra santidade significa “separado”. Você foi separado por Deus para viver para Deus. Isso não significa “deixar de ser pecador”. Somos Justos e Pecadores até o dia da nossa sepultura. Diariamente, nós lutamos contra a “velha criatura”. Por isso, é tarefa de todos os membros da comunidade cristã que vivam diariamente uma vida que agrada a Deus, não para serem salvos, mas para que o mundo os reconheça – pelo seu testemunho – como pessoas salvas.

Portanto, enquanto esperamos a vinda do Senhor, sejamos Igreja que:

a) age pela evangelização: A tarefa missionária não é apenas do/a ministro/a da Igreja, mas de todos os cristãos. Portanto, se queremos que essa igreja cresça, precisamos através do nosso testemunho e das nossas ações falar de Deus a um mundo que não quer saber de Deus;

b) se avalia pelo arrependimento: A palavra “pecado” está excluída de muitas pregações da nossa IECLB como se ele não existisse ou fosse apenas algo relacionado à moralidade ou justiça social. Porém, o pecado é aquilo que nos afasta completamente de Deus, separando-nos dele. Jesus veio para eliminar essa separação para que através de sua morte substitutiva na cruz pudéssemos ser salvos. Portanto, vivamos arrependimento diário diante de Deus;

c) questiona o que não agrada a Deus: A volta de Jesus significa o juízo de Deus ao mundo. Portanto, questionemos aquilo que não faz jus ao fundamento e aos valores do Reino de Deus através da prática da justiça e da verdade. É aqui que entra a justiça social.

Nada do que estamos vivendo é permanente; tudo é provisório. Amém.


1º DOMINGO DE ADVENTO | VIOLETA | CICLO DO NATAL | ANO C

28 de Novembro de 2021


P. William Felipe Zacarias


Outras pregações da série Advento é tempo de preparação:

 

#2: Domingo da Notícia

Link: https://luteranos.com.br/textos/domingodanoticia

 

#3: Domingo da Justiça

Link: https://luteranos.com.br/textos/domingodajustica

 

#4: Domingo da Paz

Linkhttps://luteranos.com.br/textos/domingodapaz


1 STOTT, John R. W. A mensagem de Atos. São Paulo: ABU Editora, 2005. p. 291.

2 DIAS LOPES, Hernandes. 1 e 2 Tessalonicenses. São Paulo: Hagnos, 2008. p. 17. Edição do Kindle.

3 DIAS LOPES, 2008. p. 78.


Autor(a): P. William Felipe Zacarias
Âmbito: IECLB / Sinodo: Rio dos Sinos / Paróquia: Sapiranga - Ferrabraz
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Área: Missão / Nível: Missão - Coronavírus
Área: Celebração / Nível: Celebração - Ano Eclesiástico / Subnível: Celebração - Ano Eclesiástico - Ciclo do Natal
Testamento: Novo / Livro: Tessalonicenses I / Capitulo: 3 / Versículo Inicial: 9 / Versículo Final: 13
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 65324
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Ninguém sabe o que significa confiar em Deus somente, a não ser aquele que põe as mãos à obra.
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A Comunidade cristã deve ser reconhecida, sem sombra de dúvida, na pregação do Evangelho puro
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