Igreja e Sociedade



ID: 2797

Marcos 12.13-17

Prédica

07/09/1970

Marcos 12.13-17 - DIA DA PÁTRIA

Caros presentes! 

I

Abrindo o jornal, no decorrer desta última semana, vamos encontrar notícias e convites referentes a desfiles, paradas, solenidades, fogo simbólico, festejos, hasteamentos da bandeira, presença de autoridades, missas comemorativas, cultos, discursos, bandas, etc. E tudo isso vem culminar no dia de hoje: 7 de setembro, dia da Independência, Dia da Pátria! 

E, como parte destas comemorações todas, aqui estamos nós, reunidos neste culto, (dedicado de modo especial ao Dia da Pátria). Talvez há quem pergunte: Mas, afinal de contas, é justificável a comemoração do dia da Pátria, desta — data puramente cívica, dentro da Igreja? Eu creio que sim: nós vivemos e atuamos, como cristãos, dentro de uma unidade política, dentro da nossa Pátria; por isso, o que se passa com esta nossa Pátria é importante para nós e deve ser focalizado à luz do Evangelho. E não pode haver melhor ocasião para fazê-lo, do que neste 7 de setembro - neste nosso Dia da Pátria.
Hoje e aqui dentro, prestamos, como cristãos, à nossa maneira, o nosso tributo à Pátria: vamos falar sobriamente sobre este dia; vamos deixar de lado e esquecer por um momento a grandiloquência, que grassa nos discursos deste dia, sem dizer muita coisa. Nada de: azul do céu e de Cruzeiro do Sul abençoando nossos vales e florestas verdejantes, como se costuma ouvir. Vamos perguntar friamente: Qual é o nosso dever de cristãos para com a nossa Pátria ? Com isso estaremos servindo melhor ao Brasil do que com palavras bonitas, pomposas, grandiloquentes. 

E nesse sentido, gostaria de ler para os senhores um trecho, que se encontra no Evangelho de Marcos, capitulo 12, versículos 13 a 17: 

Então, foram mandados alguns fariseus e partidários de Herodes a Jesus para apanhá-lo com uma pergunta. Professor, disseram eles, estamos convencidos de que tu só te importas pela verdade. Tu não tens medo de ninguém tu ensinas a vontade de Deus, sem te impressionar com a importância ou posição das pessoas. Então, responde-nos: Permite a lei de Deus que paguemos imposto a César, ou não? Devemos pagar ou não devemos? Jesus, porém, percebeu sua falsidade e disse: Vocês só querem me por à prova! Tragam-me uma moeda de prata, para que eu a veja. Eles lhe trouxeram uma e Jesus perguntou: A quem pertence esta efígie e a inscrição? A César, responderam eles. Pois bem, disse Jesus, então doem a César o que lhe pertence, e doem a Deus o que pertence a Deus! E se admiraram muito dele. 

II

O panorama histórico, dentro do qual localizamos este trecho, é de todos conhecido. A Palestina encontra-se sob ocupação do Império Romano. E a pergunta, que deveria comprometer Jesus é esta: Permite Deus que paguemos impostos a esses invasores pagãos? A resposta de Jesus, todos conhecem. 

É evidente que hoje, no Brasil, não vivemos sob uma tal ocupação por uma força estrangeira. Mesmo assim, esta palavra de Jesus deve servir de diretriz para nós aqui hoje. Pois ela não se refere meramente ã atitude de um cristão diante de uma ocupação estrangeira, mas da' uma diretriz fundamental, um princípio para a conduta do cristão diante das autoridades civis, no Estado em que vive: deem a César o que lhe pertence, e deem a Deus o que pertence a Deus! 

III

Deem a César o que lhe pertence! Eis aí o termo de compromisso do cristão com o Estado, com a Pátria e com as autoridades que a regem. O cristão deve dar-lhes o que lhes e devido - caso contrário estará desobedecendo a vontade de Deus. Acontece que as autoridades estão ai porque Deus assim o quer; sua finalidade, outorgada por Deus, é providenciar que haja ordem. E, de fato, é o que as autoridades fazem de maneira mais ou menos correta: elas mantêm a ordem. Isso começa desde o nascimento do cidadão, quando o recém - nascido é registrado, e vai até a morte, quando a autoridade fornece o atestado de óbito. E ao longo da trajetória compreendida entre esses dois polos, o cidadão estará em constante contato com a ação ordenadora das autoridades: recenseamentos, carteira de identidade, título eleitoral, alistamento militar, carteira de trabalho, etc. Pois bem, Deus reconhece e legitima as autoridades dentro desta sua função ordenadora da vida pública. E, enquanto se movimentarem dentro desta sua função, para que possam cumprir — seu dever, nas, cristãos, devemos-lhes obediência e apoio. Obediência e apoio, que se expressarão em atos concretos como: pagamento de impostos (sonegação, portanto, é afronta a Deus); votar nas eleições; obedecer às determinações ordenadoras, em todos os setores (transito, trabalho, registros civis, saúde, habitação, etc.). Assim o cristão dá a César o que lhe pertence. 

IV 

E deem a Deus o que pertence a Deus! Por que Jesus acrescenta essa frase? Afinal, os fariseus só tinham perguntado sobre o que se deve dar ao Estado. Aparentemente como corretivo. Ao que tudo indica, o cristão não pode falar do seu compromisso com o Estado e as autoridades, sem falar ao mesmo tempo do seu compromisso com Deus. Porque, como disse Pedro perante as autoridades: Antes importa obedecer a Deus do que aos homens. Isto é, a obediência ao Estado, as autoridades, deve ser medida pela obediência que devemos a Deus. Portanto, se hoje, neste dia da Pátria, perguntamos: Qual é o nosso dever de cristãos para com a nossa Pátria?, precisamos ouvir primeiro essa outra sentença: Deem a Deus o que pertence a Deus! 

Afinal, o que pertence a Deus? A César, à autoridade, pertence a moeda (por isso, ela deve ganhar o imposto), pertence a função ordenadora (por isso, deve ser obedecida nesta sua função). Mas o que é que pertence a Deus? O que é que pertence a Deus ? TUDO! Absolutamente tudo! Por isso, dar a Deus o que pertence a Deus é uma exigência infinitamente maior do que dar a César o que lhe pertence. 

A Deus pertence tudo: começando pela vida, que ele nos deu emprestada; e vem depois a família, dentro da qual nascemos; as capacidades de que nos dotou: capacidade de estudar, de pensar, de organizar, de trabalhar com as nossas mãos, de criar obras de arte; vêm dele os amigos, a família que constituímos; afinal, TUDO, TUDO, sem restrições lhe pertence; tudo o que eu sou e tenho vem dele e lhe pertence. Eu sou apenas o administrador, o capataz de todos esses empréstimos. E, como tal, sou responsável diante de Deus pelo que faço com aquilo que lhe pertence (assim como o cidadão é responsável perante o Estado na observância de sua função ordenadora). 

Mas a responsabilidade diante de Deus não fica por aí. Deus fez mais do que nos dar dons e capacidades. Ele nos presenteou algo que é mais importante ainda: a salvação por meio de Jesus Cristo; a salvação unicamente à base da confiança, da fé; a salvação que eu não preciso comprar, mas que me é dada.
Meus caros amigos, tudo isso Deus me deu. Tudo isso lhe pertence. E a pergunta agora é a seguinte: Como é que eu posso dar a Deus o que pertence a Deus? Já vimos antes como deve ser cumprido o compromisso com o Estado. Pois bem, como deve ser cumprido, agora, o compromisso com Deus? Deem a Deus o que pertence a Deus! 

Para o cristão a resposta é fácil. Ele deve orientar-se pela conduta de Jesus Cristo, Em Jesus Cristo, o cristão verá que só pode dar a Deus o que pertence a Deus, se olhar para fora de si, para longe do seu prestigio, da sua posição social, da sua segurança, em direção ao outro, em direção aos meus pequeninos irmãos, como disse Jesus As capacidades nossas, que pertencem a Deus e que ele nos o emprestou, serão restituídas ao seu dono, se as empregarmos em favor do semelhante; e isso quer dizer: em favor do menos favorecido.

V

E esses menos favorecidos, prezada comunidade, esses semelhantes, são os nossos compatriotas, são aqueles que conosco formam a Pátria. Esta Pátria, cujo dia hoje estamos comemorando. 

Dissemos de inicio que a melhor maneira de comemorarmos o Sete de Setembro seria perguntando friamente: Como cumpriremos nosso dever de cristãos para com a nossa Pátria? A resposta é esta: dedicando-nos aos nossos compatriotas menos favorecidos; ou seja: devolvendo a Deus o que lhe pertence, aplicando-o em favor do nosso semelhante, do nosso irmão Brasileiro, em nome de Cristo. Assim estaremos cumprindo, aqui e agora, o compromisso: Deem a Deus o que pertence a Deus! 

Quanto aos detalhes, cada qual terá que decidir por si próprio como cumprira o compromisso. A Igreja no fornece padrões de comportamento, nem recomenda partidos ou sistemas políticos, econômicos e sociais. Cada cristão deverá decidir por si próprio em que tipo de engajamento ele cumprirá o seu compromisso com Deus, dentro da Pátria. 

O cristão sabe a respeito de Jesus Cristo. Ele sabe como Jesus Cristo viveu, como Jesus Cristo amou, sem jamais pensar nos seus interesses, sem medir esforços, não olhando para a posição social, para o prestígio das pessoas. Ele sabe que Jesus Cristo chegou ao ponto de se entregar, de morrer pelos outros. 

E ele sabe mais, que Jesus Cristo abriu a possibilidade para uma nova vida, sem rancores, sem ódio, sem egoísmo. Uma vida em que haverá perfeita e total afinação entre os homens e Deus e entre os homens entre si. 

Partindo deste seu saber, prezada comunidade, o cristão sempre estará na oposição. Por favor, me compreendam bem. Isso não quer dizer que se a Arena está no governo, ele tem que ser do MDB. A oposição do cristão, a que me refiro tem que ser muito mais profunda. 

O cristão tem que ser uma constante e eterna força de contestação. O cristão nunca se dá por satisfeito com o estado de coisas. Começando por si próprio. Eu, como cristão, preciso ser o mais ferrenho contestador de mim mesmo. Pois eu sei, graças a Jesus Cristo, como eu deveria viver e como vivo de fato; sei que sou pecador, que sou falho, que não amo a Deus nem ao próximo como deveria. Por isso, eu me contesto, para procurar agir de acordo com o amor de Cristo. 

E assim como o cristão sempre contesta a si próprio, assim ele também nunca se da por satisfeito com o estado de coisas no meio em que vive: no lugar de trabalho, na escola, no lar, na sociedade, na política. O cristão sabe que não só ele, mas também os outros homens são pecadores e não amam a Deus e ao próximo como deveriam; ele sabe, portanto, que há muito por melhorar. Por isso, não pode ser conformista, mas tem que contestar, tem que apontar as falhas, tem que ser porta-voz dos que não têm vez, tem que ser incômodo. E isso tudo, não por pessimismo. Pelo contrário: o cristão cumprirá seu compromisso com Deus na certeza de que todo esforço não é vão, mas levara sempre mais perto ao Reino de Deus que ele almeja. 

VI 

Com isso chegamos ao final. Estamos celebrando, como cristãos, o Sete de Setembro, o dia da Pátria. E esta é a maneira cristã de fazê-lo: lembrando que aqui, nesta Pátria, devemos dar a Deus o que pertence a Deus: no empenho, na entrega pelos compatriotas menos favorecidos, em nome de Cristo; no apoio ao que esta certo, na contestação honesta e franca, em nome de Cristo. 

É neste sentido que nos cabe comemorar hoje o Dia da nossa Pátria amada, habitada por 90 milhões de compatriotas, amados, irmãos nossos em Jesus Cristo! Amém. 

Oremos: Senhor, nosso Deus, que sejamos bons administradores daquilo que te pertence: é o que pedimos. Bons administradores da nossa inteligência, das nossas capacidades, para que tudo seja devolvido a ti, através do nosso semelhante. E que assim sirvamos à nossa Pátria. Amém.


Veja:
Nelson Kirst
Vai e fala! - Prédicas
Editora Sinodal
São Leopoldo - RS
 


Autor(a): Nelson Kirst
Âmbito: IECLB
Área: Missão / Nível: Missão - Sociedade
Testamento: Novo / Livro: Marcos / Capitulo: 12 / Versículo Inicial: 13 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Vai e fala! - Prédicas / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 20334

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