Jornal Evangélico Luterano

Ano 2015 | número 787

Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2020

Porto Alegre / RS - 10:21

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   Nesta exposição, abordarei o tema do título a partir das ‘falas de mesa’ de Lutero. As falas de mesa são ditos de Lutero anotados por seus discípulos. Na sua maioria, surgiram em conversações mantidas à mesa. Uma importante coleção publicada na Alemanha reúne 7.075 falas de mesa, em uma série autônoma de seis volumes. Comum a praticamente todas elas é o fato de não representarem dissertações teológicas redigidas e rigorosamente elaboradas, mas manifestações do momento, espontâneas, provocadas pelo comentário ou pela pergunta de algum interlocutor. Tal circunstância lhes empresta um caráter de autenticidade bem particular.

   Encontramos nelas o Lutero pessoa: o batalhador agressivo, firme, irredutível, escarnecedor, implacável, mas também o cura de almas, compreensivo, afável, meigo até, o companheiro solidário, o gozador capaz de rir dos outros e de si próprio, o servo de Deus, entusiasmado com o seu Ministério e capaz de incutir entusiasmo, o servo de Deus, frustrado com os seus fracassos e capaz de ajudar os seus colegas a venceram a frustração. Lutero, enfim, que, na sua vida religiosa e pastoral, assumia posições claras, mas também assumia a sua fragilidade e se entregava, no melhor sentido, ao Deus dará.

   O que segue são alguns extratos do capítulo 11 do meu livro Rudimentos de Homilética, publicado pela Editora Sinodal:

   Para Lutero, o conteúdo da pregação só pode ser Cristo: ‘Bem, se pregamos Cristo, irritamos o mundo, a carne e o sangue; se, porém, pregamos o que agrada à carne e ao sangue, irritamos a Cristo e desviamos muitos milhares de almas para o abismo do inferno. É melhor irritar o mundo do que aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo, como diz Cristo em Mateus 10’ (1,504).

   A tarefa da pregação exige, antes de tudo, que o Pregador anuncie uma doutrina pura e sã: ‘Aqueles servos da Palavra que, ainda que não levem uma vida muito perfeita, pregam uma doutrina pura e sã, devem ser honrados, estimados e considerados, embora fosse melhor que ambas as coisas, vida e pregação, andassem juntas, mas um falso mestre, cuja doutrina seja impura, desvia uma, duas mil e até mais pessoas, por isso, caros irmãos, oremos em favor de ambos, desse grande Ministério e das pessoas que o ocupam [...]. Orem diligentemente, para que Deus comprove e mantenha o seu poder e a sua força na fraqueza. É altamente necessário que se ore’ (5,6398). A tarefa da prédica é condicionada decisivamente pelos dois tipos de pessoas que compõem os seus ouvintes: ‘Pois isso é o que Deus quer e ordena: que, aos orgulhosos, se pregue o fogo do inferno e, aos piedosos, o paraíso; que se repreenda aos maus e console aos piedosos’ (1,868).

   A atuação do pregador diante de tais ouvintes é descrita por Lutero com uma comparação. ‘Uma abelhinha é um animalzinho que faz o mel, que é doce e, mesmo assim, tem um ferrão. Assim, um sacerdote tem os mais agradáveis consolos; mas, quando for irritado e enfurecido por razões insignificantes, morde e fere os culpados’ (3,3293). Para ficarmos na mesma linha, vejamos outra comparação zoológica com que Lutero descreve o trabalho do pregador: ‘O Doutor Martinus olhava o gado andando pelo pasto e então falou: ‘Aí vão nossos pregadores, os carregadores de leite, carregadores de manteiga, carregadores de queijo, carregadores de lã, que diariamente nos pregam a fé em Deus, levando-nos a confiar que ele, como nosso Pai, cuida de nós e nos alimenta’ (4,4000).

   Segundo Lutero, um bom pregador deve ter as seguintes qualidades e virtudes: primeiro, deve saber ensinar direito e corretamente; segundo, deve ter boa cabeça; terceiro, deve ser bem articulado; quarto, deve ter boa voz; quinto, boa memória; sexto, deve saber parar; sétimo, deve estar certo do que fala e ser aplicado; oitavo, deve investir na sua tarefa o corpo e a vida, os bens e a honra; nono, deve saber aturar o desprezo de todos.

   A tarefa do pregador é dificílima, porque exige serviço e retribui com a ingratidão e o desprezo dos ouvintes, por isso o seu exercício só é possível se realizado por amor a Deus. ‘Ser um bom Pastor e pregador é uma grande coisa; e se o próprio Deus, nosso Senhor, não fosse a força propulsora desse Ministério, ele não daria em nada. Deve ser uma grande pessoa quem se dispuser a servir os outros em corpo e alma, bens e honra, e ainda assim sofrer o maior perigo e ingratidão por causa disso. Foi por isso que Cristo falou a Pedro [...], como se quisesse dizer: Se quiseres ser um bom pastor e cura de almas, é preciso que tenhas amor por mim, que me ames, do contrário, será impossível, pois quem é que está disposto e em condições de sofrer ingratidão, de permitir destruição da sua saúde e seus bens e de acabar se expondo ao maior perigo? Por isso, Jesus diz: É muito necessário que tu me ames (6,6799).

   Quais são as qualidades que essa tarefa ingente exige da pessoa que exerce tal Ministério? Reproduzimos quatro comentários de Lutero, cada qual enfocando certo aspecto da questão: ‘Um bom pregador deve ter as seguintes qualidades e virtudes. Primeiro, deve saber ensinar direito e corretamente. Segundo, deve ter boa cabeça. Terceiro, deve ser bem articulado. Quarto, deve ter boa voz. Quinto, boa memória. Sexto, deve saber parar. Sétimo, deve estar certo do que fala e ser aplicado. Oitavo, deve investir na sua tarefa o corpo e a vida, os bens e a honra. Nono, deve saber aturar o desprezo de todos’ (6,6793) – ‘Um pregador, sim, até mesmo todo cristão, deve estar seguro do seu ensinamento, não se basear em ilusões ou lidar com presunções humanas, mas estar certo daquilo que fala [...], pois, em questões divinas, não se deve manejar com o inseguro, mas com o seguro’ (6,6735).

   ‘Não há nada mais vergonhoso em um pregador do que ficar escondido atrás da moita, sem dizer abertamente o que pretende e qual a sua opinião, especialmente quando está no cumprimento do seu Ministério. A ambos, Príncipes e Teólogos, Deus faz de bobos, pois atribui-lhes uma tarefa que é impossível; uma tarefa que ninguém aceitaria, se soubesse, de início, o que implicaria; uma tarefa que ninguém pode abandonar de boa consciência, depois de tê-la recebido e aceito’ (6,6951) – ‘Um Pastor fiel e piedoso deve reunir dentro si o alimentar e o combater. Se não souber combater, o lobo comerá as ovelhas e o fará com tanto mais prazer, uma vez que estarão bem alimentadas e gordas. [...] O pregador tem que ser um guerreiro e um pastor. Alimentar é ensinar e esta é a arte mais difícil; depois, é preciso que tenha dentes na boca para poder defender e lutar’ (1,6489).

   O Reformador também estava perfeitamente ciente de que a grande maioria dos leigos não compartilhava a sua visão da tarefa da pregação e as suas exigências, por isso, certa vez, com boa dose de ironia, formulou a seguinte receita: ‘O pregador, como o mundo agora o quer, deve ter as seis seguintes características: 1. ser erudito; 2. ter boa pronúncia; 3. ser eloquente; 4. ter boa aparência, para ser amado pelas mocinhas e senhoritas; 5. não aceitar, mas, ainda por cima, distribuir dinheiro; 6. falar aquilo que o pessoal quer ouvir’ (5,5388).

   Lutero não suportava pregadores que fizessem muito palavreado vazio: ‘O Doutor M. L. disse: há muitos pregadores que são eloquentes, mas que não dizem nada, só palavras; sabem fazer muito palavrório, mas não ensinam nada direito’ (3,3637). – ‘[...] acontece com frequência que muitos sabichões obscurecem um assunto intencionalmente, com palavras estranhas, curiosas e pouco usuais, inventam novas maneiras de falar, que são tão dúbias, ambíguas e sofisticadas a ponto de se poder interpretá-las à vontade, de acordo com a ocasião e as circunstâncias, assim como fazem os hereges’ (2,2199). – ‘Quando Moerlin, Medler e o Magister Jacob pregam, é como tirar o tampão de uma pipa cheia: jorra pra fora tudo o que tem dentro’ (5,5199).

   Assim como não gostava de muita conversa vã, Lutero também não simpatizava com gesticulação exagerada na prédica: ‘Conversava-se sobre maneiras e gestos curiosos, utilizados por certos pregadores; dizia-se que alguns, na Itália, se portavam como doidos e idiotas, correndo pra cá e pra lá, berrando e fazendo gestos curiosos e feios. Então, falou o Doutor Martim Lutero: ‘O mundo quer ser enganado e por isso se precisa de gesticulação’ (4,4619).

   Lutero sabe muito bem do sentimento de frustração que pode assaltar a pessoa que prega, mas conhece também a força capaz de sustentar o pregador no cumprimento do seu Ministério. Em torno dessa questão, temos a narração do seguinte episódio: ‘Certa ocasião, encontrando-se o Dr. Martim debaixo do pé de pera, no seu quintal, perguntou ao M. Anton Lauterbach como estava se dando, como pregador. Lauterbach lamentouse, então, mencionando as suas dificuldades, tentações e fraquezas, ao que o Dr. Martim replicou: Ora, meu caro, comigo aconteceu a mesma coisa. Eu tinha muito medo do púlpito, assim como vocês, mas, mesmo assim, tive que continuar, me obrigaram. Para começar, tive que pregar aos frades, no refeitório. Ah, eu tinha um medo tremendo do púlpito, mas você, em breve, será um mestre, será mais entendido do que eu e outros que já têm experiência. Você talvez procure buscar a sua própria honra e, assim, será tentado.

   O importante é que pregue a Deus, nosso Senhor, e não dê atenção para o que o pessoal possa pensar e julgar. Se alguém reclamar, que o faça melhor; quanto a você, preocupe-se apenas em pregar Cristo e o Catecismo. Essa sabedoria há de elevar você acima de qualquer juízo humano, pois trata-se da Palavra de Deus, o que é mais sábio do que os homens. Deus há de lhe dar o que você deve falar e Ele não se importa com o juízo, o louvor e a infância das pessoas. Se você pensa que eu vou louvar você, está enganado. Quando eu ouvir uma prédica sua, vou avaliá-la rigorosamente, pois vocês, meus caros, têm que ser colocados nos seus devidos lugares, para que não se tornem ambiciosos e orgulhosos’. [...] Você deve ter certeza de que é vocacionado para a pregação; Cristo precisa de você, para que você ajude a louvá- lo. Apoie-se firmemente nisso; quem quiser que aplauda ou xingue, você não têm nada a ver com isso. Pra mim, as suas desculpas não valem nada. Eu devo ter recitado uns quinze argumentos diante do Dr. Staupitz , aqui debaixo deste pé de pera, quando tentei rejeitar a minha vocação, mas não adiantou nada. Por fim, falei: ‘Dr. Staupitz , o senhor acaba me matando; nesse Ministério eu não aguento vivo nem um quarto de ano’. Ao que ele respondeu: ‘Pelo amor de Deus! Deus, nosso Senhor, tem muito o que fazer lá em cima, e anda precisando de gente inteligente por lá também’ (3,3143b).

   Para concluir, uma palavra sobre a pedagogia de Deus em relação aos seus pregadores. A pregação representa ‘muito esforço e trabalho, o que nos é ordenado é muito, mas pouca coisa acontece. Não conseguimos nada! Deus, nosso Senhor, faz isso para que só Ele permaneça como o sábio e poderoso e conserve a glória’ (6,6951). 

 

   P. em. Dr. Nelson Kirst, formado em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, foi Professor na instituição durante cerca de 30 anos. Atua na militância pela efetivação dos direitos das pessoas com autismo e das suas famílias, bem como na disseminação de conhecimentos nessa área

 

 

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