Jornal Evangélico Luterano

Ano 2015 | número 789

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2021

Porto Alegre / RS - 13:41

Unidade

-Lutero - Reforma: 500 anos

   Uma das muitas coisas que nos chamam a atenção quando lemos a história da Criação em Gênesis 1.1 até 2.4a é que tudo vai sendo criado por Deus a partir do nada, apenas por meio da sua Palavra. Deus diz e o que ele diz acontece.

   Disse Deus: Haja luz; e houve luz (1.3).
   Disse Deus: Haja firmamento... (v 6) E assim se fez (v 7).
   Disse também Deus: Ajuntem-se as águas... e apareça a porção seca. E assim se fez (v. 9).

   Sem pretender recontar todo o texto bíblico, aponto para o fato de que essa formulação: E disse Deus... e assim se fez acontece também nos versículos 11, 14-15 e 20 (onde falta a afirmação assim se fez, substituída pelas palavras criou, pois, Deus), 24 e 26 (ocorre aí o mesmo que no v. 20, como se pode ver no v. 27: Criou, pois, Deus...).

   Oito vezes se repete, com duas pequenas variações, essa frase: Disse Deus... e assim se fez. Oito vezes, Deus cria apenas por meio da sua Palavra.

   Ao interpretar o v. 3 de Gênesis 1, Martim Lutero aponta corretamente para o fato de que a língua hebraica dispõe de dois vocábulos diferentes para indicar o que nós traduzimos por ‘dizer’ ou ‘falar’. Trata-se dos vocábulos amar e dabar. No hebraico, a diferença entre os dois está em que amar significa apenas ‘dizer’, ‘falar’ ou, como escreve Lutero, ‘apenas e estritamente a palavra proferida’. O termo dabar vai além. Não é apenas um verbo. É também um substantivo, ou, como escreve Lutero, ‘dabar também denota uma coisa’. Quando se quer falar em ‘Palavra de Deus’, usa-se dabar. Quando se quer expressar que Deus falou, usa-se amar.

Em Gênesis 1, no relato sobre a Criação, o texto apresenta apenas o verbo amar. Nas oito vezes em que o texto afirma E disse Deus, é utilizado o vocábulo amar. Isto significa que é simplesmente a fala de Deus, ‘apenas e estritamente a Palavra proferida’ por Deus, que cria todas as coisas no céu e na terra. Deus diz e já acontece. Ele fala e o que Ele falou já está aí. É, sem dúvida, importante ressaltar que este dizer, falar de Deus é um dizer, falar imperativo. Cada vez que Deus diz ou fala, Ele está, de fato, dando uma ordem, está mandando que algo aconteça. Haja luz! – Ele diz e, em seguida, a luz acontece, começa a existir.

   Não é difícil de deduzir daí que a fala de Deus, o dizer de Deus – a Palavra de Deus – é um acontecimento. A Palavra de Deus acontece na História.

   É exatamente assim que a profecia entende a Palavra de Deus. Um exemplo interessante é Jeremias 1.4: A mim me veio, pois, a Palavra do Senhor, dizendo: Onde lemos ‘a mim me veio’, o texto original, em hebraico, diz: ‘a mim aconteceu, pois, a Palavra do Senhor...’.

   Isto se pode perceber em uma série de outras passagens nos livros proféticos. Veja, por exemplo, Isaías 38.4, Ezequiel 33.1 e Jonas 1.1. Os profetas entendem a Palavra de Deus como algo que lhes acontece. Ela acontece na vida do profeta: ela o chama, ela o envia, ela coloca as palavras que deve anunciar na sua boca, ela lhe dá forças para falar.

   A Palavra de Deus acontece na Criação. É uma fala imperativa que traz algo à existência. Ao acontecer, a Palavra cria.  Deus fala e a luz e todas as outras coisas acontecem, até mesmo os vegetais, os animais e os seres humanos. Em seguida, essa Palavra acontece como orientação, especialmente para os seres humanos. Deus diz aos seres humanos como quer que eles dominem sobre a Criação e recriem, transformando-a, como colaboradores de Deus (Gn 1.28). A Palavra de Deus cria orientações.

   Quando tais seres humanos erram o alvo, seguindo por caminhos equivocados, cometendo injustiças em relação a pessoas e à Criação, Deus deixa novamente a sua Palavra acontecer na boca dos seus profetas, para que corrijam os seres humanos ou lhes anunciem o castigo. A Palavra de Deus cria a justiça.

   Hebreus são escravizados por faraó, no Egito. Têm que trabalhar duro, sob a imposição do chicote. Já não aguentam mais e gritam, clamam a Deus, pedindo por socorro. Então Deus aparece a Moisés, em meio à sarça ardente, e lhe diz: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel (Êxodo 3.7-8).

   É aí também que Deus revela o seu Nome a Moisés: Eu sou o que sou (Êxodo 3.14). É muito difícil compreender e traduzir corretamente esse Nome. O verbo hebraico aqui utilizado e que traduzimos por ‘ser’ é o mesmo verbo utilizado quando se refere à Palavra que vem ao profeta, ou, como vimos, a Palavra que acontece ao profeta. Neste caso, talvez fosse melhor traduzir o Nome de Deus por Eu sou aquele que acontece.

   Sim, na narrativa sobre a Saída do Egito, Deus acontece, entrando na história daqueles escravos, descendo até eles e, por meio da liderança de Moisés, tirando-os do Egito e levandoos para a Terra Prometida. Quando Deus acontece, Ele cria a liberdade! A sua Palavra cria a liberdade, uma liberdade não apenas das ideias, mas uma liberdade que dá acesso ao pão de cada dia em uma terra livre.

   Ainda em meio ao deserto pelo qual aqueles escravos libertos têm que passar, por meio da sua Palavra, Deus faz uma aliança com eles, tornando-os o seu Povo. Deus diz a Moisés que fale aos escravos libertos: Agora, pois, se diligentemente ouvirdes aminha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade particular dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êxodo 19.5-6). A Palavra de Deus cria um Povo.

   Em sua aliança, Deus dá mandamentos, orientações a este seu povo de escravos libertos. Dez são os mais lembrados (Êxodo 20.1-17 e Deuteronômio 5.6-21). Muitos outros, porém, orientam no caminho da liberdade, como o Mandamento de amar a Deus sobre todas as coisas (Deuteronômio 6.5) e o do amor ao próximo (Levítico 19.18).

   Apesar disso, porém, o povo de Deus desobedeceu e foi castigado. A sua elite foi levada para o exílio na Babilônia. Novamente, sofreu, até que Deus, mais uma vez, ouvisse o seu clamor e a sua Palavra criasse um novo Êxodo: Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. [...] Voz do que clama: No deserto, preparai o caminho do Senhor... (Isaías 40.1 e 3).

   Muito embora a Palavra criadora de Deus sempre se fizesse presente nos momentos difíceis da história de seu povo, este continuava a abandonar a sua aliança. Deus permaneceu unilateralmente fiel a seu povo, até tomar a decisão definitiva: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (João 1.14).

   Que é o Verbo? É logos em Grego; dabar, em Hebraico. É a Palavra, aqui, a Palavra Criadora de Deus. Esta Palavra Criadora se torna carne, corpo, pessoa. A Palavra vira gente, pessoa. Para João, este Verbo que se fez carne é o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! (João 1.29). Para Marcos, é o filho amado em quem o Pai se compraz (Marcos 1.11). Para Mateus, é Emanuel, Deus-conosco (Mateus 1.23). Para Lucas, é a criança da manjedoura (Lucas 2.7). Para os quatro evangelistas, é o Crucificado (Mt 27.33ss, Mc 15.22ss, Lc 23.33ss e Jo 19.17ss). É também o Ressurreto (Mt 28.1ss, Mc 16.1ss, Lc 24.1ss e Jo 20.1ss). Ambos, crucificado e ressurreto, também para Paulo (1Co 1.18 e 15.3-5). É este para todo o Novo Testamento.

   Assim, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós é Palavra Criadora de Deus, feita ser humano, na pessoa de Jesus Cristo. É Deus mesmo feito ser humano, que cria perdão dos pecados, salvação da morte e vida plena para todas aquelas pessoas que nele creem.

   Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3.16).

   É este Filho unigênito, Verbo que se fez carne, que, por sua morte e ressurreição, nos salva e cria a Igreja, a comunhão dos santos, a comunhão daquelas pessoas que foram santifi cadas por Jesus Cristo, Palavra Criadora de Deus.

   Como no Antigo Testamento, 1Pedro 2.9-10 entende a Igreja como resultado da Palavra Criadora de Deus: Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia. 

 

   P. Dr. Carlos Arthur Dreher, Doutor em Bíblia - Antigo Testamento e Pastor da IECLB em processo de aposentação

 

 

 

 

 

 

 

 

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