Jornal Evangélico Luterano

Ano 2016 | número 791

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2021

Porto Alegre / RS - 13:54

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

Libertados para cuidar do Brasil

   Quando olhamos para o símbolo da IECLB, nos deparamos com a cruz sobre o globo terrestre, ambos contornados pelos traços arquitetônicos do Palácio da Alvorada, em Brasília/DF. A explicação sobre o símbolo da Igreja, disponível no Portal Luteranos, expressa que a mensagem de Cristo quer ser vivida no Brasil e quer nos ajudar a enfrentar diariamente os problemas nacionais. Já no preâmbulo da Constituição da IECLB, o mesmo compromisso é assumido: somos Igreja de Jesus Cristo Brasil

   A pergunta pela relação entre a nossa fé evangélico-luterana e o nosso país nos reporta aos idos de 1500, quando o Brasil e a Reforma Protestante nasciam, com uma diferença de 17 anos. Assim, o nosso compromisso com os problemas nacionais brasileiros nos leva a perguntar pelo significado da Reforma articulada por Martim Lutero desde os seus primórdios, pois os nossos problemas nacionais não nasceram no século XX. Certamente, os reformadores do século XVI não tinham uma percepção daquilo que veio a ser o continente americano, mas aqui a mensagem da Reforma chegou de diversas formas, entre elas pela formação da nossa Igreja, a partir da imigração alemã.

   A primeira pergunta para quem anuncia que, Pela graça de Deus, [somos] livres para cuidar, Tema do Ano da IECLB para 2016, exige que nos reportemos à escravidão de negros, índios e às formas modernas de violência contra as pessoas no Brasil. Não podemos ignorar a escravidão como marca cruel na vida de povos vindos da África por quase 400 anos. Se não olharmos para esta história cruel, não compreenderemos os nossos problemas nacionais na relação entre liberdade e cuidado, pois renegamos um povo escravizado e que produziu a riqueza nacional. Como viver, pois, a liberdade da fé em um país marcado por quase 400 anos de escravidão? Esta pergunta deve nos perseguir nestas páginas, pois, como disse Lutero, na fé, somos senhores e, no amor, servos/escravos.

   Quando eram apresadas na África, por conta dos mercadores da carne negra aliados a lideranças locais, as pessoas eram obrigadas a dar um número x de voltas em torno da ‘árvore do esquecimento’, para esquecer a vida comunitária na África. Aquelas pessoas que sobreviviam às péssimas condições nos navios, eram batizadas sem catequese e distribuídas em fazendas. A Igreja cristã de então servia ao projeto de escravidão, abençoando as formas mais cruéis de vida. Era mais barato comprar um escravo dos mercadores das nações cristãs da Europa que oportunizar a negros e negras ter filhos no Brasil. A família, pois, era desmantelada sob a escravidão. Se, hoje, confessamos, como subtema do Tema 2016 que As pessoas não estão à venda, isto ainda não se tornou verdade para a maioria da população brasileira, que é negra e parda, mas também para os pobres brancos. Escravos, como mercadorias, eram comprados e vendidos. Tudo isto fora abençoado pelas Igrejas cristãs, que batizam os negros e as negras – não para a liberdade para a qual Cristo nos libertou, mas para a escravidão. A cruz tornou-se símbolo de negação da vida e não de libertação do pecado e da morte, como testemunhamos no Batismo.

   Estudiosos do Brasil, como o conservador Gilberto Freyre, disse que o senhor branco católico tinha três mulheres. A branca era para casar e constituir família ‘puro sangue’, a fim de garantir a herança para as futuras gerações, de uma terra doada pelo governante português, extraída pela força dos índios. A mulher negra servia para o trabalho. Já a mulata era usada para os prazeres impostos pela força. Se ficasse grávida, sempre tinha um feitor para eliminar os herdeiros e as suas mães indesejadas. Assim, as capitanias hereditárias chegam até nossos dias, promovendo o cativeiro da terra. Assim, seres humanos continuam à venda, como no passado. Assim, a cruz continua o sendo para os escravos e para os seus descendentes um instrumento de tortura e não de libertação. Quanto à salvação? Esta continua sendo vendida no mercado de igrejas e religiões, transformando, assim, a graça em desgraça.

   Recentemente, ouvimos de uma Intelectual negra que o chicote de hoje sobre o nosso povo vem pela demonização das religiões de matriz africana por parte de lideranças evangélicas, anunciadoras do Evangelho pago com dízimos que enriquecem pastores. A escravidão continua pelo evangelismo da prosperidade, esquecendo tais pregações das palavras fundamentais de Jesus no Sermão do Monte: Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro (Mt 6.24)  

Cruzes e árvores

   Na prédica de Natal, quando o templo encheu por três vezes, o Pregador foi muito feliz ao resgatar os sonhos das três árvores sobre um monte. Um delas queria ser um baú de joias raras em um palácio. A outra queria ser um navio para transportar reis e rainhas. A terceira queria crescer mais alto, para que as pessoas, ao olharem a sua altura, vissem os céus. Todas foram cortadas por lenhadores que nada entendiam de sonhos nem de árvores. A primeira virou um cocho de estrebaria, onde Maria colocou o menino Jesus. A segunda foi transformada em um barco de pobres pescadores, que Jesus usou para atravessar o mar com os seus discípulos. Enquanto Jesus dormia, veio um temporal e o temor tomou conta de todos. Então, Jesus acalmou a tempestade e questionou o medo como falta de fé. A terceira, jogada em um canto, foi transformada na cruz de Jesus.

   Com a teologia do sucesso e da prosperidade, tão atraentes, nos equivocamos ao pensar que Deus atende os nossos desejos. Pelo contrário, cremos em um Deus que olha para as nossas necessidades. Os desejos das árvores foram renegados pelo crime ecológico, mas Deus os transformou em sinais de salvação. Esta é a nossa esperança como povo.

   Quando olhamos para o símbolo da IECLB, nos deparamos com a cruz sobre o globo terrestre, ambos contornados pelos traços arquitetônicos do Palácio da Alvorada, em Brasília/DF: a mensagem de Cristo quer ser vivida no Brasil e quer nos ajudar a enfrentar diariamente os problemas nacionais. 

A gente se acusa de pecador

   A nossa violenta história do Brasil e do seu povo foi marcada pelo ferro em brasa dos senhores nos corpos escravizados, como se fosse uma circuncisão. É possível olhar para este passado e para o presente, ainda com as marcas das cicatrizes do mal, com o olhar da graça que nasce da cruz e que abraça a todos os crucificados de ontem e de hoje? Estou convicto que devemos para o Brasil a mensagem da Reforma Luterana, embora ela esteja presente de forma velada no meio do povo, sob as cinzas da verdade detida pela injustiça (Rm 1.18).

   No verão, li pela terceira vez Guimarães Rosa. Em Grande Sertão: Veredas, há um personagem estranho, Riobaldo, que se encanta com a mensagem protestante em meio a conflitos violentos. Ele próprio diz que em todos nós há um sertão. Vejam apenas algumas frases dele, que mostram o espírito protestante no meio do povo do sertão, como linguagem que buscamos para viver a nossa fé nos sertões do Brasil:

   - O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente... Divêrjo de todo mundo... Eu quase que não sei, mas desconfio de muita coisa. Não estaria aí o espírito protestante de vertente luterana?

   - Eu podia ser padre sacerdote, se não fosse chefe de jagunços: para outras coisas não fui parido. Nestas duas vocações estranhas, Riobaldo não vive a ideia de que somos, ao mesmo tempo, justos e pecadores?

   - Todo mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas, por isso que se carece principalmente de religião: para ‘desdoidecer’, ‘desdoidar’. Reza é que salva da loucura. Vida de fé baseia-se na oração, que nos liberta da loucura.

   - Quando posso, vou no Mindumbim, onde um Matias é crente, metodista. A gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me aquieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca, mas é só muito provisório. [...] Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégio. Riobaldo aprende do crente metodista a se acusar de pecador. Nada mais próximo da vida de Lutero e dos seus ensinamentos.

   - Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Aqui se atualiza a parábola do joio e do trigo.

   Assim, poderíamos mostrar a confessionalidade evangélico-luterana em muitos lugares da sua obra. Tais frases poderiam ser encontradas com outras palavras nos escritos de Lutero. Dentre elas, portanto, destaco uma que curaria o mar de corrupção e o dilúvio de rejeitos de minério de ferro do nosso Brasil: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia. Quando o pecado é privatizado ou escondido dos outros, a corrupção passa a ter espaço. Os pecados precisam se tornar públicos, os meus, os seus e os nossos. Imagino um culto no qual nos acusamos de pecadores, sem nada a esconder. Seríamos curados da nossa corrupção e das nossas loucuras.

   Lutero acusou o pecado da Igreja da época, reconheceu que de si não alcançaria a graça e não poupou críticas a governantes. Para ele, um governante justo seria uma ave rara. Também criticou a usura, os juros. Hoje, seria um ferrenho crítico dos lucros do sistema financeiro e não adotaria uma visão de liberdade de mercado, porque fomos libertados para amar. Acusaria tanto a corrupção do mercado como a do Estado, sem ignorar o pecado individual.

   No momento em que fecho o texto, nos primeiros dias do novo ano, chega a triste notícia de um crime de racismo. Um menino indígena, de dois anos, é degolado por um homem no colo da sua mãe, à luz do dia, em uma rodoviária, repetindo, assim, a história de milhões de mortes ao longo de 500 anos. Por que tal crime de racismo? Porque ainda se vende a salvação, se compram a natureza e os seres humanos. No entanto, como dizem Lutero e Riobaldo, tudo é muito provisório, por isto cantaria com a mãe e o pai daquela criança indígena morta:

O Verbo eterno vencerá as hostes da maldade.
As armas, o Senhor nos dá: Espírito, Verdade.
Se a morte eu sofrer, se os bens eu perder:
que tudo se vá! Jesus conosco está.
Seu Reino é nossa herança.
(HPD 97)

 

   P. Dr. Oneide Bobsin, graduado em Teologia (Pastorado) pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, Mestre em Ciências da Religião (Pentecostalismo: Prática e Representação), Doutor em Sociologia da Religião (Trabalhadores protestantes urbanos: religião e ética do trabalho), ambos pela Pontifícia Universidade Católica - PUC/SP, foi Reitor da Faculdades EST (2007-2014) e integrou a Comissão da Verdade/RS. Atualmente, é Professor titular da EST em Ciências da Religião, coordena o Núcleo de Estudo e Pesquisa do Protestantismo (NEPP), edita o veículo ‘Protestantismo em Revista’, além de realizar pesquisas e estudos sobre as relações das manifestações do Protestantismo com outros fenômenos religiosos brasileiros e globais

 

 

 

 

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