Jornal Evangélico Luterano

Ano 2017 | número 803

Sábado, 19 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 18:25

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

Responsabilidade com a Criação

Atribui-se a Lutero a frase Se o mundo acabasse amanhã, ainda hoje eu plantaria uma árvore. Talvez a frase seja uma atribuição de autoria, como provavelmente de outras frases que podemos encontrar nas Tischreden (Anotações à mesa) feitas por seus discípulos nas rodas de conversa na casa do mestre. A frase indica duas dimensões importantes: a esperança em face da crise (fim do mundo) e a determinação da ação com perspectiva de longo alcance (plantar uma árvore). Nas duas dimensões se misturam elementos de ordem teológica e filosófica.

A esperança constitui elemento fundamental da fé cristã. Está ligada ao núcleo do cristianismo. Com a ressurreição de Cristo, se celebra a consumação das primícias, que, em fé que é esperança, se tornarão plenas na plenitude dos tempos. Com este núcleo, a fé cristã supera as propostas de realização que se limitam ao horizonte da história humana. O limiar aberto pela fé na ressurrei- ção abre espaço para a esperança vivida na fé no horizonte da história – sempre com o olhar nas possibilidades que ainda não aconteceram, a ‘certeza das coisas que ainda não se veem’. Lutero foi um egrégio intérprete desta esperança já tecida nos textos sagrados e relidos no calor da intensidade dos tempos e dos desafios do seu tempo.

Atribui-se a Lutero a frase Se o mundo acabasse amanhã, ainda hoje eu plantaria uma árvore, que indica duas dimensões importantes: a esperança em face da crise e a determinação da ação com perspectiva de longo alcance.

Esperança e determinação na ação são dois elementos teológicos que deveriam, em si, ter a capacidade de levar as pessoas a se posicionar e a agir de forma mais eficaz para a preservação do ambiente, isto é, os lugares nos quais nós habitamos, o oikos, a casa. Um dos elementos que atrapalha esta recepção é a ideia de céu e a esperança de ser rapidamente arrebatado para fora da realidade em que se vive. Nesta linha de pensamento, que deita as suas raízes ao longo da história do cristianismo, vive-se uma dicotomia com a realidade histórica, com o ambiente. A realidade da vida, o mundo e a história passam a ser vistos em perspectiva negativa, projetando-se a esperança para o além, em uma rota de êxodo para fora da realidade em que se vive. Nesta perspectiva, a esperança pela ressurreição, que deveria abrir para a plenitude no horizonte da vida e da história, sem a sua negação ou marginalização, opera como força alienadora das demandas do respectivo tempo histórico.

A ideia da criação do mundo por Deus, conforme está expresso nos textos iniciais da Bíblia e recepcionada, por exemplo, no Credo Apostó- lico, situa o ser humano como parte integrante deste universo criado. Ao ser humano, são atribuídas feições especiais, como a de ser imagem e semelhança do Deus criador. Este Deus criador, por sua vez, é apresentado como um Deus jardineiro, um zelador. Transformar este Deus cuidador do ambiente em um ser todo poderoso foi uma lamentável herança, especialmente a partir do momento em que o cristianismo se tornou religião do império romano e Deus passou a ser descrito e pregado como representação do imperador. Dificilmente um imperador cuidaria de algum ambiente da mesma forma que senhores capitalistas ou mesmo socialistas tendem a não ter cuidado com o ambiente. Resgatar e fomentar a noção de que o Deus criador é um Deus cuidador do ambiente é um elemento teológico que pode, talvez, ir quebrando o monólito dessa imagem do Deus todo poderoso que foi sendo assentada ao longo do tempo. A noção de imagem e semelhança da pessoa com Deus deve ser traduzida não no binômio ‘dominar e sujeitar’, mas muito mais no ‘trabalhar e cuidar’ e também no exercí- cio da misericórdia. O ‘jardim’ da Cria- ção não é um parque turístico, mas o espaço de trabalho e realização das pessoas, algo que se dá também com muito suor. O trabalho sobre e na terra, porém, deve incluir os tempos de pausa, tanto para pessoas, animais quanto para a própria terra.

A fé também deve dialogar com a ciência. Dos estudos da história natural podemos aprender que o ser humano tem uma presença de milhões de anos na face da Terra. De outras ciências, podemos aprender que o ser humano é um ser integrado ao conjunto do ambiente e que realiza constantes trocas com este ambiente. Há uma relação vital entre os dois. Como humanos, nós nos alimentamos da Terra, dos animais, do ambiente.

Pela intensidade das formas de organização dos humanos, essa presença pode ser diferentemente dosada. A partir da revolução industrial e com o crescimento acelerado da população mundial, a presença humana organizada tem sido de muita intervenção no ambiente, de modo a, hoje, configurar um desequilíbrio crônico. A humanidade retira mais elementos do ambiente do que este consegue reproduzir dentro das suas bases de sustentabilidade. Essa intervenção desenfreada foi acelerada com a globalização capitalista e nem mesmo a alternativa socialista foi capaz de agregar qualidade à relação do homem com o ambiente, pois ambos os sistemas estão na mesma matriz industrial. O que precisa haver é uma mudança de paradigma para uma relação cada vez mais ecológica com o ambiente, que se expressa bastante em tendências como ‘economia verde’, superando perspectivas meramente antropocêntricas e caminhando para uma perspectiva mais ecológica ou holística.

Esperança e determinação são elementos teológicos que deveriam ter a capacidade de levar as pessoas a agir de forma mais efi caz para a preservação do ambiente, os lugares nos quais nós habitamos, o oikos, a casa.

A fé sempre de novo é alimentada pelo ouvir da Palavra reinterpretada para o momento vital. A Bíblia apresenta um conjunto de tradições de sabedoria que deveriam ser reforçadas na proclamação e na reinterpretação. A ética protestante é muito carregada pela grande estima ao trabalho. Contrabalançar o intenso trabalho com tempos de pausa é salutar para a existência e para o ambiente como um todo. A tradi- ção bíblica indica que o shabat, o descanso, é o ponto de chegada da vida da Criação, assim como a ressurreição é o fundamento da esperança. O ritmo da Criação se dirige e se abre para o descanso em meio ao trabalho.

É importante lembrar que a presença do ser humano no ambiente/ Criação é de longa duração. A histó- ria natural traz este ensinamento e as análises sobre os impactos desta presença humana nos tempos modernos demandam cada vez mais a dimensão de cuidado e de responsabilidade. Teologicamente, ao ser humano foram dadas prerrogativas de domínio que derivam da própria capacidade reflexiva do ser humano. Quando o Salmo 8.7 afirma que fizeste-o domínio sobre as obras da tua mão, e sob seus pés tudo lhe puseste, isso deve ser traduzido para a tarefa da responsabilidade. Às pessoas compete a tarefa do cuidado com a Criação/ambiente, nos diversos níveis – macro, meso e micro. É importante cuidar do ambiente no espaço da casa, da rua, da cidade, mas incluindo gradativamente os empreendimentos econômicos e a forma de consumo e de destinação dos resíduos da atividade humana.

A perspectiva de longa duração indicada na frase de Lutero ou atribuída a Lutero tem o seu fundamento na esperança por meio da fé, mas também do campo da reflexão éticofilosófica podemos aprender muito com as lições do Filósofo judeualemão Hans Jonas, que, na sua obra O princípio responsabilidade, assinala que, nos tempos modernos, o homem passou a ter uma relação de domínio com a natureza/Criação. Por meio do uso intenso de tecnologia, é capaz de subjugar toda a natureza, com efeitos de longo alcance. É por isso que as decisões éticas não podem mais simplesmente olhar a relação imediata, mas devem incluir as futuras gerações. Incluir as futuras gerações no arco reflexivo das ações é um movimento que demanda sabedoria e discernimento. Na tradição bíblica, essa perspectiva de longo alcance se expressa no aprendizado da sabedoria divina, que possibilita a bênção no sentido de você vá bem e viva tempo sobre a terra.  

P. Dr. Haroldo Reimer,
Professor e Reitor da Universidade Estadual de Goiás

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