Jornal Evangélico Luterano

Ano 2017 | número 807

Domingo, 20 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 18:22

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

Amparo na enfermidade

Dame Cicely Saunders, Médica inglesa, dizia que ‘o sofrimento humano só é intolerável quando ninguém cuida. Maria Luiza Rückert, ex-Pastora da IECLB, afirmava que ‘se o sofrimento é inevitável, podemos evitar que as pessoas sofram sozinhas’! M. S., paciente oncológico do Hospital de Câncer de Mato Grosso, ao ser perguntado sobre o que mais lhe angustiava, respondeu: ‘não tenho medo da doença nem medo da morte... Tenho medo de ter que lidar com essas duas coisas sozinho’. Em outras palavras, o ser humano é capaz de lidar com tudo aquilo que a vida lhe reserva, desde que possa contar com a presença amável de pessoas!

Desde tempos remotos, as pessoas podiam contar com a presença e com o cuidado de alguém na enfermidade. Além de amor e apego entre os seres, era uma questão de preservação da espécie. Tudo isso acontecia em uma perspectiva e em um contexto totalmente religioso. No Egito e na Índia, por exemplo, civilizações muito antigas, os templos religiosos eram os locais onde pessoas enfermas eram acolhidas e assistidas por Sacerdotes. Uma mistura de ervas e minerais seguida de oração e conselhos compunha a terapêutica necessária para a recuperação. Tudo era compreendido como ação divina em favor das pessoas.

Na era cristã, o cuidado para com as pessoas enfermas veio a se tornar uma das principais tarefas das primeiras Comunidades. A motivação vinha da prá- tica e dos ensinamentos de Jesus. A história conta que, em tempos de epidemias, os pagãos abandonavam as pessoas contaminadas. Muitos chegaram a deixar membros da própria família à beira da estrada para que ali morressem. Os cristãos, por sua vez, tiveram comportamento diferente. Aquelas pessoas que estavam bem cuidavam daquelas que estavam mal. O cuidado prestado era marcado pela atenção às necessidades físicas básicas e às necessidades de ordem espiritual. Havia alimentação, higiene, medicação, mas também oração, ensino e leitura bíblica.

O século XXI é marcado por um movimento de humanização hospitalar. Esse movimento signifi ca devolver ao ser humano a condição de ser um só corpo e não mais só um corpo ou um corpo só.

A perseguição à cristandade nos três primeiros séculos impediu a construção de qualquer tipo de abrigo coletivo para pessoas enfermas. Famílias as acolhiam e cuidavam em sua própria casa. Muitas destas famílias foram infectadas e também perderam a sua vida cuidando de pessoas, mas, para elas, estava claro que perder a vida terrena obedecendo a Cristo significava ganhar a vida eterna. Essa era bem mais importante!

Lutero, no século XVI, recomendou à sua Comunidade religiosa a prática do amor às pessoas necessitadas e oferecer sempre amparo às pessoas desprotegidas. Partindo da compreensão da Igreja como um Corpo, ele insistia que as partes mais fracas deste Corpo precisavam receber maior atenção. Quem se destaca nesta tarefa é a sua esposa, Catarina. Ela possuía habilidades no cuidado a pessoas doentes, preparava remédios caseiros e tinha uma pequena farmácia em casa. Atendia a sua família e quem quer que precisasse. A história conta que ela chegou a faltar Cultos conduzidos pelo esposo para atender pessoas idosas, doentes e enlutadas. Também acolheu e cuidou de pessoas doentes em sua própria casa.

A Igreja Cristã, por meio de homens e mulheres, leigos, leigas e líderes, esteve presente em contexto de enfermidade por 18 séculos. Foram 1800 anos cuidando do corpo e da alma das pessoas. Cuidar de pessoas enfermas era prática divina realizada por pessoas religiosas – e prática religiosa desenvolvida por pessoas divinas.

Nos dois últimos séculos, especialmente, corpo e alma ‘foram separados’. Os avanços da Ciência e da Medicina, a importância da saúde e da força física humana para alimentar um sistema capitalista, a substituição dos cuidadores hospitalares religiosos por profi ssionais da saúde formados e ainda outros elementos separaram corpo e alma, ficando o corpo com a Medicina e a alma com a Igreja. O ser humano, que, por séculos, era um só corpo e várias partes, tornou-se um corpo só, desprovido de relacionamento, e só um corpo, puramente biológico. Este novo cenário hospitalar fracionou o ser humano e o seu cuidado, dando início a um processo de desumanização.

No final do século XX, algumas vozes foram levantadas em favor de uma reaproximação entre as dimensões. Estava certo que, na enfermidade, tanto Medicina quanto Igreja têm espaço de atuação. Dame Cicely descreveu o sofrimento de um ser humano gravemente enfermo a partir de um conceito de ‘dor total’. Segundo Dame, a pessoa, quando enferma, não sofre apenas fisicamente, mas também emocional, social e espiritualmente. O dever cristão é reunir todas as habilidades possíveis para cuidar de todas essas dimensões. Ao mesmo tempo, Howard Clinebell, Pastor de Aconselhamento Pastoral, entendia que promover ‘vida em abundância’ a uma pessoa enferma requer o cuidado das dimensões física, psíquica, social, institucional, ecológica e espiritual.

A voz que mais clama em favor da presença da Medicina e da Igreja na enfermidade é a dos próprios pacientes e familiares. Harold Koenig, Médico Psiquiatra, grande estudioso da relação entre espiritualidade e saúde, realizou uma pesquisa que apontou que 90% dos pacientes hospitalizados afirmam que as crenças e práticas religiosas são importantes para enfrentar e aceitar as doenças. Em uma pesquisa feita com familiares, 43% entendiam que a religião estava sendo muito importante para lidar com o estresse causado pela doença e 45% disseram se sentir mais próximos de Deus e da Comunidade. Nos últimos 20 anos, foram publicadas centenas de pesquisas apontando para a relação possível e necessária entre Medicina e Espiritualidade, corpo e alma, hospital e Igreja.

Reaproximar Medicina e Espiritualidade, corpo e alma, hospital e Igreja, passa pela reaproximação das pessoas. A humanidade precisa de Reforma. A Igreja que queremos ser investe no relacionamento entre pessoas.

O século XXI é marcado por um movimento de humanização hospitalar. Esse movimento significa devolver ao ser humano a condição de ser um só corpo e não mais só um corpo ou um corpo só. Em pouco tempo, já é possível perceber estruturas e profissionais da saúde se curvando à espiritualidade, corpo e alma sendo cuidados em um mesmo leito, hospitais abrindo as suas portas para a Igreja. O cenário indica uma grande possibilidade de Medicina e Espiritualidade atuarem juntas, ocuparem um mesmo teto/templo e fazerem do exercício de ambas prática divina e um Culto a Deus. O tempo é de oportunidade!

Algumas considerações:

- Em toda a sua história, a IECLB sempre esteve presente na enfermidade, especialmente para os da família da fé. É uma Igreja atenta à voz daquelas pessoas que clamam pela sua presença. Inspirada na prática e nos ensinamentos de Jesus, ela permite que pessoas e famílias in firmus sintam o amor e o cuidado de Deus por elas. Grupos de visitação, OASE, visitas pastorais, Capelanias da Saúde, Pastorais da Saúde e ainda outras são apenas alguns exemplos: motivo para, alegres, jubilar! A Igreja que queremos ser cuida dos seus membros e não os deixa sozinhos.

- Segundo o Plano de Ação Missionária da IECLB (PAMI), ‘uma Comunidade missionária que serve é aquela que se aproxima das pessoas, que luta pela sua vida digna, não só na sua Comunidade, mas também no mundo... O seu serviço ultrapassa fronteiras’. Em se tratando de cuidado a in firmus ‘estrangeiros e desconhecidos’, bem como suas famílias, percebe-se certa timidez por parte das Comunidades da IECLB. O tempo é oportuno e ainda são poucas as iniciativas missionárias desinteressadas. Aqui precisamos de Reforma. A Igreja que queremos ser cuida para além dos muros.

- Em tempos pós-modernos, também existem epidemias. O Sociólogo Zygmunt Bauman falava sobre uma modernidade líquida, na qual as relações eram frágeis, impermanentes e se desfaziam rapidamente. Vive-se um tempo em que pessoas foram substituídas por coisas e o cuidado para com o outro foi substituído pelo cuidado consigo mesmo. Pessoas estão caídas e machucadas à beira do caminho... A regra é dar a volta. Reaproximar Medicina e Espiritualidade, corpo e alma, hospital e Igreja, passa primeiro pela reaproximação das pessoas. Aqui a humanidade precisa de Reforma. A Igreja que queremos ser investe no relacionamento entre pessoas.

- Os hospitais são, hoje, espaços nos quais pessoas e famílias vivem os seus momentos mais importantes: nascer, manter e morrer. A Igreja que quer participar destes momentos terá que ter em seu horizonte de atuação o contexto hospitalar. O acesso às pessoas em seus momentos mais importantes se dará pela recepção de um hospital. Aqui precisamos de Reforma. A Igreja que queremos ser ‘circula’ pelos hospitais.  

P. Deolindo Feltz, Capelão Hospitalar do Sínodo Mato Grosso e do Hospital de Câncer de Mato Grosso, em Cuiabá/MT

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