Jornal Evangélico Luterano

Ano 2017 | número 808

Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 19:02

Unidade

Série Especial Lutero - Reforma: 500 anos

Liberdade Cristã

Fomos criados e criadas para a liberdade, maior presente de Deus ao ser humano e maior sinal do quanto somos dignificados e dignificadas por Ele. Deus não criou o ser humano para ser seu escravo, mas para ser seu companheiro. Ele nos criou para uma relação de amor e confiança, por isso nos fez livres e não nos obriga a nada.

Deus nos cria conforme a sua própria imagem e semelhança. Desde o início, Deus nos mostra os nossos limites, mas nunca nos obriga a permanecer dentro destes limites. Apenas nos adverte sobre as consequências negativas. Deus se oferece para ser o centro da nossa vida, mas não nos impede de nos tornarmos o nosso próprio centro. Ele nos respeita como a sua imagem e espera ser amado por nós em liberdade e espontaneidade.

É na diversidade da vida que a Igreja caminha e aprende a ser família cristã, integrando em sua comunhão os mais diversos modelos de família que se formam e querem viver sob a Palavra e a orientação de Deus.

O jardim da liberdade

A história contada no segundo capítulo do livro de Gênesis nos fala sobre o plano de Deus para nós. Deus colocou o ser humano em um mundo que já estava pronto, cheio de vida e de recursos. O ser humano recebeu do Criador a mais alta honra e o mais alto posto entre os seres vivos: o de ser seu colaborador no cultivo e no cuidado do planeta (Gn 2.15). A primeira palavra de Deus ao ser humano é a garantia da sua liberdade: De toda árvore do jardim comerás livremente (v.16). Temos livre acesso a tudo o que precisamos para viver bem.

O único limite da nossa liberdade está no centro do jardim: as árvores da vida e do conhecimento do bem e do mal. Estas duas árvores simbolizam o próprio Deus. Como Criador, Ele está no centro. Ele é a fonte da vida e de todo o bem. Enquanto o ser humano deixar Deus no centro da sua vida, confiando nele, esperando o bem somente dele e reconhecendo a sua infinita sabedoria, nada lhe faltará para se desenvolver em plena liberdade. O limite da nossa liberdade é reconhecermos que somos criaturas.

Diz a Bíblia (Gn 3) que o ser humano não se contentou com a liberdade concedida por Deus. Teve dúvidas a respeito da bondade de Deus. Cobiçou algo que estava na esfera divina, teve apetite de saber mais do que precisava, quis ele próprio estar no centro da sua vida, quis ser mais que mera criatura, quis ser igual ao Criador (cf. Gn 3.5). Ao invés de confiar na boa vontade de Deus e de receber o bem das mãos dele, pensou que poderia decidir sozinho o que é o bem e o que é o mal. Decidiu ser independente de Deus, senhor da sua própria vida, assim como o filho pródigo, que pegou a ‘sua’ parte na herança e rejeitou a orientação, o amor e o cuidado do Pai (cf. Lc 15.11-32).

Essa é a nossa história e esses somos nós. Criados para sermos livres, não aceitamos que toda a liberdade tem limites. Não aceitamos que esses limites existem justamente para proteger a nossa liberdade e que, quando ultrapassamos os limites, não nos tornamos mais livres. Pelo contrário, nos tornamos escravos e não conseguimos mais nos libertar sozinhos.

Liberdade ilimitada?

Apenas o Criador pode ser completamente livre e independente. Ele possui poder infinito, ou seja, o seu poder não é limitado pela existência de outros iguais a Ele, mas nós convivemos com outros seres iguais a nós. Aí a nossa liberdade e o nosso poder precisam ser limitados para o bem de todas as pessoas. Se cada pessoa quer ter a liberdade de decidir o que é o bem e o que é o mal, o que é certo e o que é errado, o conflito e o caos estão programados, pois cada uma decidirá que bom é somente aquilo que lhe beneficia. Assim, cada uma se torna o centro do mundo e a medida de todas as coisas. O resultado é o contrário do que se esperava: instala-se o mal no mundo criado por Deus, todas as pessoas querem ser como Deus e lutam umas contra as outras. Atualmente, temos 7 bilhões de pequenos ‘deuses’ e pequenas ‘deusas’ tentando impor às outras pessoas a sua vontade! Isso pode dar certo?

Esse é o motivo da advertência: Da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gn 3.17). Foi o que aconteceu. Tornamos a vida nesse mundo extremamente perigosa. Não é para menos que a próxima história narrada pela Bíblia (Gn 4) é a do assassinato de Abel pelas mãos do seu irmão Caim.

Escravidão disfarçada de liberdade

Criamos a ilusão que somos livres para fazer tanto o bem como o mal, mas o fato é que escolhemos o mal já no próprio instante em que tomamos em nossas mãos esta liberdade. Não há bem que não venha de Deus. Só podemos fazer o bem se deixarmos a vontade de Deus dirigir as nossas decisões. Quando pensamos que podemos ser independentes de Deus nas nossas decisões, já escolhemos o mal, por melhores que sejam as nossas intenções.

Ao pensar que podemos escolher entre o bem e o mal, sem precisar ouvir a voz de Deus, terminamos nos tornando escravos e escravas de forças que não podemos controlar nem vencer. Ao não seguirmos a voz de Deus, seguimos os nossos instintos, que são totalmente egoístas, ou nos deixamos guiar pelo medo e pelas preocupações, pois somos ameaçados e ameaçadas por todos os lados. Baseamos o nosso valor pelos nossos feitos e pelas nossas realizações e nos tornamos dependentes da opinião alheia. Pessoas que se tornam independentes de Deus terminam se tornando escravas de si mesmas, de outras pessoas ou de coisas das quais esperam a felicidade. Passam a ser dirigidas pela pressão social, pelo sentimento de culpa, pela raiva ou pelo rancor, pelo desejo de sucesso, pela necessidade de aprovação, pela vontade de possuir coisas ou controlar pessoas ou inúmeras outras emoções e inclinações.

O Apóstolo Paulo diz que nos tornamos escravos ‘da lei do pecado’: Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto... Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço (Rm 7.15,17-19).

A liberdade só é completa quando ela nos liberta dos nossos próprios conceitos e das nossas próprias opiniões. Se Deus não nos impõe a sua vontade, quem somos nós para impor a nossa visão às outras pessoas?

A libertação

O Novo Testamento descreve a obra de Jesus Cristo como um ato de libertação. Ele próprio afirma: Se o filho [de Deus] vos libertar, verdadeiramente sereis livres (Jo 8.36). O Apóstolo Paulo constata: Para a liberdade foi que Cristo vos libertou (Gl 5.1). De quê? Martim Lutero especifica: fomos libertados e libertadas ‘de todos os pecados, da morte e do poder do diabo (Catecismo Menor), ou seja, daquilo que nos escraviza e dirige a nossa vida quando tentamos nos tornar independentes do nosso Criador.

Ao sermos libertados ‘de todos os pecados’ nos tornamos livres do nosso passado. A nossa vida não é mais dirigida pela nossa origem familiar, social ou étnica. Também não somos mais determinados pela nossa formação, pelas nos sas conquistas ou pelos nossos fracassos nem por nossas opiniões. Libertação ‘da morte’ significa não ser dirigido, dirigida pela preocupação com a própria vida. A vida deixa de ser uma luta pela sobrevivência, em que as outras pessoas são vistas como concorrentes e ameaças. Somos libertados e libertadas ‘do poder do diabo’ quando deixamos de ser dirigidos e dirigidas pelos nossos instintos e interesses, pelas nossas necessidades e opinião das outras pessoas.

Livres para servir

Segundo Martim Lutero, a fé em Jesus Cristo nos torna pessoas ‘livres de tudo, a ninguém sujeitas’. Isso quer dizer que a verdadeira liberdade só pode ser alcançada na mais completa dependência de Deus. Mais: essa mesma fé opera outra transformação radical em nosso coração. Ela faz com que ele se torne ‘um servo dedicado a tudo, a todos sujeito’. A fé nos une a Jesus Cristo, aquele que a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo (Fp 2.7). Ela nos ajuda a dizer junto com Paulo: sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos (1Co 9.19).

Liberdade, aos olhos da fé em Jesus Cristo, não significa fazer e dizer tudo o que se tem vontade. Somente Deus tem essa liberdade. Liberdade cristã significa, em última análise, tornar-se livre de si mesmo e da sua vontade de ser o centro do mundo e a medida de todas as coisas. Pela fé que opera em nós, somos livres para seguir a Jesus Cristo na busca por ‘vida e salvação’ (Lutero) para as outras pessoas.

Fomos libertados e libertadas para servirmos de instrumentos para a libertação de outras pessoas, mas não se liberta ninguém tentando impor a nossa própria opinião, pois isso é um sinal de que caímos novamente na escravidão do nosso egoísmo. A liberdade só é completa quando ela nos liberta dos nossos próprios conceitos e das nossas próprias opiniões. Se Deus não nos impõe a sua vontade, quem somos nós para impor a nossa visão às outras pessoas? Deus nos conquista para o seu lado e para a liberdade demonstrando o valor que temos para Ele – apesar das nossas opiniões erradas. Nunca ajudaremos outras pessoas atacando a sua integridade e a sua honra. É possível e necessário discordar de ideias, mas sem ferir a liberdade e a dignidade daquelas pessoas de quem discordamos.

P. Dr. Michael Kleine, Ministro na Paróquia de São Pedro do Sul/RS

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