Jornal Evangélico Luterano

Ano 2012 | número 747

Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2020

Porto Alegre / RS - 10:21

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   Martim Lutero: encontros e confrontos com o Evangelho - Em 2017, será comemorado em todo o mundo o jubileu de 500 anos da Reforma. A contagem regressiva já iniciou em vários lugares. Também a IECLB faz parte desta celebração, por isso uma das iniciativas é trazer ao leitor do Jorev Luterano uma série de reflexões em torno de Lutero e da Reforma. Neste primeiro artigo, queremos nos aproximar um pouco do Reformador, conhecer mais a sua vida, a sua família, bem como alguns aspectos do processo da Reforma, que deu origem à Igreja Luterana. Quem foi Martim Lutero? Esta pergunta, por mais óbvia que possa parecer, nem sempre encontra uma resposta tão fácil. Uma biografia de Lutero pode ser escrita a partir de vários pontos de vista, contemplando diversas facetas da sua vida e atuação. Nestas breves linhas, queremos nos concentrar apenas em alguns contornos da vida de Lutero, destacando os seus principais encontros e confrontos.
   Martim Lutero nasceu no dia 10 de novembro de 1483, em Eisleben, na Alemanha. Os seus pais, Hans e Margaretta, eram humildes Agricultores, oriundos do vilarejo de Möhra na Turingia e se mudaram para Mansfeld, a fim de trabalhar nas minas de cobre. Lá, o seu pai se tornou um Mineiro bem sucedido, razão pela qual Lutero pôde ir à escola e, mais tarde, estudar na universidade. Em 1488, com 5 anos, Lutero iniciou o seu período escolar. Na escola em Mansfeld aprendeu Latim e os fundamentos da fé e da vida cristã. Tanto em casa como na escola, a sua educação foi rígida, marcada por castigos e muita disciplina. Contudo, Lutero desenvolveu boas qualidades e agradeceu até o fim da vida dos seus pais pela educação recebida. Com 14 anos, em 1497, ele é enviado para a escola monástica na cidade de Magdeburg, conhecida por sua disciplina e seu rigor. Lá, Lutero é confrontado, pela primeira vez, com o que poderia se chamar de um grande centro urbano da sua época.
   Um ano mais tarde, ele se mudou para a cidade de Eisenach, onde, na escola, durante quatro anos, se preparou para os estudos na universidade, aprendendo Gramática, Dialética e Retórica. Apesar dos muitos parentes que lá moravam e que o ajudavam, Lutero, assim como os demais alunos, fazia serenatas para ajudar a custear os seus estudos. Em Eisenach, Lutero morou na casa das famílias Schalbe e Cotta. Heinrich Schalbe foi Prefeito de Eisenach durante os anos de 1495 a 1499. Uma das tarefas de Lutero era levar o filho do Prefeito, Caspar, à escola e ajudá-lo com as tarefas. A irmã mais velha de Caspar, Ursula, era casada e morava com o seu marido, da família Cotta, na mesma casa. Os Schalbe eram muito piedosos, gostavam de leitura e de música. De Eisenach, Lutero vai para Erfurt.
   Em 1501, ele ingressou na universidade. Lutero era um jovem muito curioso. Constantemente, era confrontado com perguntas centrais, pelo sentido do mundo e da vida. Na universidade, Lutero era chamado, por isso, de o filósofo, mas havia uma pergunta ainda mais importante, que lhe confrontava sempre de novo Como posso encontrar um Deus misericordioso? Em 1502, ele se torna Bacharel em Artes e, em 1505, Mestre em Artes. Agora, ele estava diante da escolha do que continuaria a estudar: Teologia, Direito ou Medicina. Para corresponder ao desejo do pai, Lutero se decidiu pelo estudo do Direito, mas, certo dia, voltando da casa dos seus pais, em Erfurt, Lutero foi surpreendido por uma grande tempestade, que mudaria para sempre o rumo da sua vida. Ele promete tornar-se um monge. No dia 17 de julho de 1505, Lutero, então, abandona, contra a vontade do seu pai, os estudos de Direito e ingressa no Convento dos Eremitas Agostinianos em Erfurt.
   No convento, a busca por um Deus gracioso se intensifica. O cumprimento dos votos monásticos parecia confrontá-lo cada vez mais somente com um Deus juiz. Dois anos mais tarde, em 4 de abril de 1507, Lutero é ordenado sacerdote na catedral de Erfurt e, semanas mais tarde, celebra a sua primeira missa, que contou com a presença do seu pai, mesmo que esse não aprovasse o caminho seguido pelo filho. No convento, Lutero é confrontado com as Escrituras, ocupação na qual permaneceu até o fim da sua vida. Foi esse confronto com a Palavra de Deus que fez com que Lutero encontrasse o Deus misericordioso, revelado em Jesus Cristo. A partir daí, ele reconhece que a salvação não é obtida por meio de obras. O justo viverá pela fé (Rm 1.17). O pecador é justificado por Deus através de Jesus Cristo. Esta foi a tônica de toda a vida de Lutero a partir deste momento. Viver pela fé e pelo Evangelho foi a marca singular de Lutero, que o fez refletir sobre a sua vida pessoal com Deus, a vida da Igreja da sua época e dos seus semelhantes.
   A salvação por graça e fé foi o ‘fio vermelho’ do seu estudo de Teologia, das suas prédicas, como Pastor e Pregador em Wittenberg, onde morou desde 1508 até a sua morte, em 1546, foi o centro do seu ensino como Professor de Teologia na universidade de Wittenberg, pela qual se tornou Doutor, em 1512. O encontro com o Evangelho foi a razão de todo o confronto que Lutero teve com a Igreja da sua época. No dia 31 de outubro de 1517, Lutero publicou as suas 95 Teses contra as indulgências, um simples papel no qual estava escrito a promessa de perdão dos pecados e livramento do inferno daqueles que o compravam por dinheiro. Este evento é conhe-cido até hoje como o marco fundador da Reforma. A partir destas Teses, Lutero tem encontros e confrontos com diversas autoridades eclesiásticas e com várias pessoas que se colocaram ao seu lado, mas também com diversas que se opuseram veemente contra ele.
   Lutero foi um homem que viveu a partir da Palavra e se baseou na Palavra para tornar público os seus ensinamentos. Em 1520, Lutero escreve três textos que vieram a se tornar os assim chamados escritos reformatórios: Da Liberdade Cristã, Do Cativeiro Babilônico da Igreja e À Nobreza Cristã da Nação Alemã. Ao serem confrontadas com os escritos de Lutero, as autoridades eclesiás-ticas ficaram indignadas. O Papa Leão X escreveu uma bula, ameaçando a sua excomunhão, fato que veio a acontecer no ano seguinte, em 3 de janeiro de 1521. Acima de tudo, Lutero foi um homem convicto. Ao ser interrogado pelo Império, no dia 17 de abril de 1521, na Dieta de Worms, Lutero não teve dúvidas: ao ser questionado se confirmaria ou rejeitaria os seus escritos, responde Se eu não for convencido por meio do testemunho das Escrituras e por argumentos absolutamente racionais [...] em vista das passagens das Sagradas Escrituras que acabei de citar, eu me sinto dominado pela minha consciência e prisioneiro da Palavra de Deus. Por isso mesmo, não posso e não quero revogar nada, pois fazer algo contra a consciência não é seguro, nem saudável. Deus me ajude, amém.
   De fato, Deus lhe ajudou! A convicção e a determinação de Lutero lhe colocaram sob risco de vida. Qualquer pessoa poderia lhe matar, sem ser punido por isso. No entanto, durante a viagem de retorno de Worms para Wittenberg, a carruagem na qual Lutero viajava foi surpreendida. O Príncipe da Saxônia, Frederico, o Sábio, um grande simpatizante de Lutero e forte apoiador da Reforma, enviou os seus soldados para sequestrarem Lutero e o conduzirem a um lugar seguro. Este lugar era o castelo de Wartburg, em Eisenach, onde ele permaneceu escondido por dez meses. Neste curto período, Lutero traduziu em apenas dois meses o Novo Testamento do Grego para o Alemão. Mais tarde, Lutero e um grupo de amigos traduziram o Antigo Testamento, para que, assim, em 1534, pudesse ser publicada a primeira tradução completa da Bíblia em Alemão. Agora, também o povo simples poderia ser confrontado com o Evangelho e encontrar um Deus misericordioso.
   A partir do Evangelho, Lutero e os demais homens e mulheres que apoiavam a Reforma começaram a dar uma nova forma à Igreja. O culto ganhou novos contornos, a pregação da Palavra de Deus, em Lei e Evangelho, assume o centro do culto. Hinos ecoam das Igrejas, entoados pela comunidade. Os conteúdos essenciais e fundamentais da Igreja cristã, como os Dez Mandamentos, o Credo Apostólico, a oração do Pai Nosso começam a ser ensinados, por meio dos Catecismos, escritos em 1529, nas casas, pelos pais, nas escolas, por Professores e, na Igreja, por Pastores. Batismo e Santa Ceia, como os únicos sacramentos da Igreja, são entendidos e vividos a partir da fé e da promessa de Deus. Comunidades e Pastores são visitados e acompanhados poimenicamente. A Bíblia está na mão e na boca do povo. Também na área da educação ocorreram mudanças a partir do Evangelho: meninas podem ir à escola. Vocação não era mais um termo conhecido somente pelos Sacerdotes, mas agora o sacerdócio poderia ser exercido por todos os batizados. Nesse sentido, a profissão não é mais vista como uma simples carreira profissional, mas como vocação de Deus.
    No dia 13 de junho de 1525, Lutero casou-se com uma ex-freira chamada Catarina von Bora (1499-1552) ou, de forma carinhosa, por Käthe, uma verdadeira administradora do lar. Catarina fez do antigo mosteiro no qual moravam um grande empreendimento. Logo começaram a morar lá cerca de 40 pessoas, entre órfãos, estudantes de Teologia, servos e viajantes. Catarina construiu muros, escadas e um banheiro, arrumou o jardim, criava vacas, cabras e abelhas e mantinha um pequeno lago com peixes. Em junho de 1526, aos 43 anos, Lutero segurou em seus braços o seu primeiro filho, João, o mesmo nome do seu pai (Hans). O casal Lutero ainda foi abençoado com mais cinco filhos: Elisabeth (1527), Magdalena (1529), Martin (1531), Paul (1533) e Margarethe (1534). A casa de Lutero era um refúgio, um lugar alegre e hospitaleiro.
   Quem foi Lutero? Poderíamos ousar dizendo que Lutero foi um homem que viveu a transição de duas épocas, da Idade Média para a Modernidade, um homem que, apesar das suas dúvidas e fragilidades, quebrou paradigmas. Lutero foi um homem que não se conformou com a deformação da Igreja da sua época e, a partir da transformação do Evangelho de Jesus Cristo, ajudou a formar e a informar o povo simples e os nobres acerca da exclusividade da Palavra de Deus, da salvação pela graça, da justificação pela fé somente em Jesus Cristo, dando, assim, o tom certo ao processo da Reforma Protestante e forma a uma Igreja decididamente evangélica. Lutero foi um homem, como ele mesmo disse, pouco antes de morrer, no dia 18 de fevereiro de 1546, em Eisleben, a sua cidade natal, Nós somos mendigos, essa é a verdade. Lutero, nos seus encontros e confrontos, foi um homem, acima de tudo, encontrado e confortado pelo Evangelho de Jesus Cristo, que é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). Este Evangelho mudou a sua vida e mudou o mundo. Este mesmo Evangelho continua, hoje, transformando vidas e o mundo.
 

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