Jornal Evangélico Luterano

Ano 2013 | número 759

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2021

Porto Alegre / RS - 13:50

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   Este tema pode ser abordado por diversas perspectivas e envolve palavras como ‘serviço’, ‘comunidade’ e ‘missão’. Seguindo por este caminho, certamente estaremos na contramão do espírito do mundo contemporâneo. Não é exatamente este o desafio profético da Igreja de Jesus Cristo? Vamos nos arriscar e seguir por aí. A essência missionária da Igreja cristã é que permitiu o seu crescimento por meio da evangelização e do serviço no mundo. Os erros e os equívocos de empreendimentos passados não deveriam nos imobilizar no presente. Devemos, sim, aprender com os erros, procurando evitar que se repitam.

Missão
   De quem é a responsabilidade da missão? Da Igreja! Quem é a Igreja? Antes de nos referirmos à Igreja como um templo, uma denominação ou mesmo uma comunidade, Igreja é gente. Igreja somos nós, você e eu. A Igreja é feita de pessoas que creem em Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Portanto, a responsabilidade pela missão da Igreja é de todos nós, cristãos batizados que vivemos em comunidade. Isso porque, acima de tudo, a missão é ação de Deus que age por meio da sua Igreja na força do Espírito Santo. A Teologia da cruz deve nos inspirar no caminho da missão, missão de Deus, porque é Ele quem primeiramente se revela como aquele que ama o mundo, um amor capaz de se esvaziar, de se compadecer pela condição humana. A missão da Igreja é a missão de um Deus que se encarnou, identificando-se com o pecador.
   O significativo documento Missão em Contexto, da Federação Luterana Mundial (FLM), nos auxilia na reflexão a respeito do ‘Deus em missão’ (‘Missão em Contexto: transformação, reconciliação e empoderamento’. FLM e Departamento de Missão e Desenvolvimento. Curitiba: Encontro, 2006. p. 26 e 29).
   Aprendemos sobre um Deus que age em misericórdia e graça contra alienação, morte e depravação. A partir da Trindade, nos é revelado um ‘Deus em missão como sendo um Deus para os outros; a saber, toda a humanidade, o mundo todo e a criação inteira. A Trindade é uma comunhão em missão, empoderando e acompanhando Aquele que foi enviado, o amado, para impactar o mundo com a transformação, a reconciliação e o empoderamento. Para a missão contínua de Deus, o Pai e o Espírito enviam o Filho, o Pai e o Filho espiram o Espírito, e o Filho e o Espírito revelam a glória do Pai até aos confins do universo’. Este Deus criador, redentor e santificador cria espaço para a Igreja na sua missão. Participar da missão de Deus é a razão de ser da Igreja, uma Igreja que ‘não vive para si mesma, mas para Deus e para o mundo’.
   Um dos equívocos que podemos cometer como Igreja é pensar que a responsabilidade pela missão é apenas do Ministro ordenado. Nós temos a tendência de facilmente nos compreendermos dentro de uma instituição hierarquizada. De certa maneira, isso é cômodo, pois assim nos entendemos no direito de responsabilizar alguns poucos que ocupam determinadas posições que chamamos de ‘cargos’ na Igreja. No entanto, será que a missão é ‘coisa para especialistas’? O sul-africano David J. Bosch (1929-1992), Professor de Missiologia, nos lembra que o sacerdócio foi dado ao povo de Deus, não a indivíduos selecionados (David J. Bosch. ‘Missão Transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão’. 3 ed. São Leopoldo, RS: EST, Sinodal, 2009).

Participar da missão de Deus é a razão de ser da Igreja, uma Igreja que não vive para si mesma, mas para Deus e para o mundo.




Serviço
   Devemos a Martim Lutero a redescoberta do sacerdócio de todos os cristãos. No período medieval, tornou-se popular a ideia de que aqueles que possuíam funções clericais eram mais nobres ou espirituais do que as pessoas que trabalhavam na lavoura, como artesãos ou em serviço doméstico. O fato de as pessoas desempenharem tarefas diferentes no dia a dia não significa que isso faz de alguém um ser superior a outro. Lutero entendia que, mediante o Batismo, todo cristão é um sacerdote. Foi no texto de 1Pedro 2.9 que Lutero encontrou uma base bíblica que o deixou ainda mais convicto sobre isso: Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. Não há, portanto, uma hierarquia entre os cristãos. Ninguém precisa de um pastor, um padre ou mesmo um papa para intermediar a sua relação com Deus. Se há alguma distinção entre os cristãos, esta se dá tão somente no âmbito das diferentes funções que somos chamados a desempenhar em serviço no reino de Deus. No mais, pastores e ‘leigos’ estão em pé de igualdade, pois ‘o sacerdócio não é outra coisa que Ministério’ (Martinho Lutero. ‘Do cativeiro Babilônico da Igreja’. Obras Selecionadas, vol. 2. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989. p. 414), defendia Lutero, e, na Igreja, ‘todos os cristãos são sacerdotes’ (Martinho Lutero. Do cativeiro Babilônico da Igreja. Obras Selecionadas, vol. 2. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989. p. 93).
   O reformador chega a mencionar quais seriam os ofícios sacerdotais: ‘ensinar, pregar anunciar a Palavra de Deus, batizar e consagrar ou ministrar a Eucaristia, ligar e absolver, orar por outros, sacrificar e julgar todas as doutrinas e espíritos’ (Martinho Lutero. Do cativeiro Babilônico da Igreja. Como Instituir Ministros na Igreja. Obras Selecionadas. Vol. 7. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2000. p. 94). Lutero continua dizendo ainda que ‘o primeiro e mais sublime de todos, do qual dependem todos os demais ofícios, é ensinar a palavra de Deus’, pois é da Palavra que depende a existência da Igreja com os seus ofícios, sacramentos e ministério. ‘O Ministério da Palavra é comum a todos os cristãos’ (Martinho Lutero. Do cativeiro Babilônico da Igreja. Como Instituir Ministros na Igreja. Obras Selecionadas. Vol. 7. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2000. p. 95). Assim, conclui o reformador, baseado em 1Pedro 2.9, quando necessário, mesmo que não seja o seu ofício cotidiano, o cristão pode e até mesmo deve assumir tarefas consideradas eclesiásticas, pois todo serviço é uma atividade em favor do próximo. É pertinente lembrar, no entanto, a advertência de Lutero de que ‘ninguém pode arrogar-se o que é comum sem a vontade e a ordem da comunidade’ (Martinho Lutero. À Nobreza Cristã da nação Alemã, Acerca da Melhoria do Estamento Cristão. Obras Selecionadas, vol. 2. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989. p. 283). Vemos que, para Lutero, o Ministério, a pregação da Palavra e o sacerdócio geral dos cristãos deveriam ser exercidos na comunidade, uma comunidade sensibilizada com as necessidades do outro, uma comunidade de pessoas para pessoas.

Permaneçamos firmes, testemunhando o Evangelho de Jesus Cristo com demonstrações de amor a partir das nossas comunidades, pois é Jesus quem nos capacita a todos e todas, enviando ao serviço de anunciar o Evangelho ao mundo.




Comunidade
   Desta forma, a comunidade é valorizada e chamada a desempenhar os seus dons a serviço no mundo. Um testemunho concreto a partir do sacerdócio geral. Ali onde houver um cristão, seja na lavoura ou na fábrica, seja na universidade ou na associação de moradores, ali somos sal da terra e luz do mundo (Mateus 5.13-14). A vida em comunidade também servirá de sinal de comunhão, amor e solidariedade. A comunidade favorece o ambiente para o exercício dos dons para edificação mútua. São diversas as oportunidades de envolvimento por meio da diaconia, da evangelização, da liturgia e da comunhão. Podemos servir com o nosso tempo, o nosso talento e o nosso tesouro.
   A IECLB, por meio do seu Plano de Ação Missionária (PAMI), procura fomentar e incentivar a missão. Reconhecemos que a comunidade é fundamental no serviço de Deus por meio da Igreja no mundo. Cabe a nós, membros e lideranças comunitárias, empreender esforços para envolver a todos em um planejamento consciente. Conhecer o nosso potencial bem como as nossas limitações ajuda a sermos realistas. Assim, notaremos que há passos concretos que podem ser dados a partir da realidade local. Um olhar sobre o contexto em que estamos inseridos revelará qual é o clamor a que podemos responder. Que o Espírito Santo nos conceda a sensibilidade e o discernimento necessários para ouvir!
   A comunidade é portadora e agente da missão de Deus no mundo. A comunidade tanto vai ao encontro, como também acolhe. Serve de candeia, uma luz, um farol em meio a uma sociedade marcada pelo individualismo e pela superficialidade. Portanto, a comunidade é mais do que um simples CNPJ ou um clube social. A comunidade é um sinal profético que revela o reinado de Deus no mundo. É por que a comunidade reconhece-se pecadora, carente da graça e do amor de Deus, que ela pode permitir-se humildemente instrumentalizar como meio de graça ao outro. Deus se faz presente na comunidade (Mateus 18.20) e, por isso, ela se torna o espaço de acolhimento e restauração.
   Permaneçamos firmes, testemunhando o Evangelho de Jesus Cristo com demonstrações de amor a partir das nossas comunidades, pois é Jesus quem nos capacita a todos e todas, enviando ao serviço de anunciar o Evangelho ao mundo.

Miss. Ms. Rodomar Ricardo Ramlow, formado em Teologia pela Faculdade de Teologia Evangélica em Curitiba/PR (Fatev) e Faculdade Teológica Sul Americana de Londrina/PR (FTSA), é Mestre e, atualmente, doutorando em Teologia pelo Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdades EST, em São Leopoldo/RS. Também graduado em Tecnologia de Gestão Pública na Universidade Federal de Pelotas/RS (UFPel) e com especialização em Gestão de Pessoas pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel), integra o grupo de Assessores de Planejamento Estratégico do Plano de Ação Missionária da IECLB (PAMI) e, desde 2012, é o Coordenador deste trabalho junto à Secretaria de Missão, da Secretaria Geral da IECLB. Desde 2003, atua na Paróquia São João em Pelotas
 

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