Jornal Evangélico Luterano

Ano 2013 | número 761

Domingo, 20 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 04:35

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

Conceito de sacerdócio no Cristianismo Antigo
   No ensino do Novo Testamento, consta que cada pessoa que crê em Cristo pertence ao sacerdócio espiritual. Paulo deixou claro em 1Coríntios 12 que cada cristão recebeu um dom de Deus, com o qual deve servir aos outros.
   O apóstolo Paulo descreveu o seu serviço aos gentios como sacerdócio santo, através do qual eles são apresentados a Deus como sacrifício aceitável, uma vez santificados pelo Espírito Santo (Romanos 15.16). Naturalmente, o sentido não é o mesmo do Antigo Testamento, onde o sacerdote servia de mediador entre o ser humano e Deus. No Novo Testamento, os sacrifícios são espiritualizados, se tornando em louvor e oração oferecidos a Deus. A base para a transformação do cristão em sacerdote foi a morte de Cristo por nós, o que nos libertou dos pecados e constituiu sacerdotes (Apocalipse 1.5 e 6, 5.10 e 20.6).
   Também a Igreja Antiga manteve esta visão de que os cristãos todos são um povo de sacerdotes que oferece sacrifícios santos a Deus. Isto pode ser visto naquilo que Justino escreveu no século II, ele que acabou perdendo a vida por causa do testemunho de Cristo que deu em plena cidade de Roma. Também Orígenes, mais importante Teólogo do século III, e Agostinho, que influenciou toda a história da Igreja do século V em diante, falaram de todos cristãos como sendo sacerdotes.
   Foi somente durante a Idade Média que o Catolicismo Romano deixou de entender os que criam em Cristo como sacerdotes, fixando este termo a uma pessoa especialmente convocada e ordenada para esta função. Assim limitou-se o sacerdócio ao clero. A estes foi reservado o poder de ofertar e perdoar pecados.

O revolucionário na proposta de Lutero foi colocar todos os cristãos em pé de igualdade e responsáveis
pela situação da Igreja e da sociedade. 




O Espírito Santo em Lutero
   A ação do Espírito Santo na vida de Martim Lutero fez com que ele se voltasse contra esta visão do Catolicismo Romano para retornar ao que se cria no Cristianismo Primitivo e Antigo. Para Lutero, a obra do Espírito Santo tem justamente esta função de tornar a obra realizada por Cristo na Cruz e na Ressurreição atual para cada cristão. Para Lutero, o Espírito Santo é que faz que o ser humano seja ligado à obra de Cristo, realizada lá no século I. O Espírito Santo é que torna a obra de Cristo atual para cada ser humano. O Espírito Santo é que faz com que a Cruz de Cristo seja a minha cruz. Ele nos conforma à Cruz de Cristo. O cristão não vive imitando a Cruz, mas ele reconhece que está crucificado juntamente com Cristo e, agora, para ele, o viver é Cristo, sendo que vive pela fé (Gálatas 2.19-20). O Espírito Santo faz com que a obra de Cristo não fique presa ao passado, mas sim seja atual e valorosa na vida dos que creem em Cristo.
   A partir da ação do Espírito Santo no ser humano, este passa a querer o verdadeiro bem. Este é o Espírito criador de Deus, aquele que faz tudo novo, aquele que cria vida a partir da morte. O Espírito Santo é a garantia de que Deus completará a sua obra em nós. O Espírito Santo, através da Palavra, cria nova vida.

O sacerdócio geral de todos os crentes em Lutero
   As transformações sofridas no conceito de sacerdócio durante a Idade Média são questionadas por Lutero na volta ao ensino do Novo Testamento. Foi em um dos três escritos chamados de ‘tesouro da Reforma’, publicados em 1520, que ele tematizou isto, no seu livro intitulado À nobreza cristã da nação alemã. Ali é defendido que toda pessoa que experimenta Batismo, Evangelho e Fé foi tornada um sacerdote de Cristo. A partir dai, está proibida uma diferenciação entre clero e leigos. Todos os cristãos têm o mesmo poder espiritual, o mesmo valor e não necessitam de mediador entre eles e Deus além de Cristo. Neste livro, é negado o poder do papa de querer ter algum privilégio no ensino da Bíblia e dos concílios da Igreja Católica Romana. Para Lutero, as diferenciações dentro da Cristandade provêm da função exercida e não das condições sociais de cada um. Todos são chamados por Deus a servir de acordo com o dom recebido por Deus. O sacerdócio de todos significa que cada um pode falar diretamente com Deus em oração e entender a mensagem de Deus para sua vida através da Palavra.
   Lutero questionou a base usada pelo papa para manter o monopólio do poder sobre a Igreja e a sociedade da época, bem como as situações de corrupção daí decorrentes. Como na história da Igreja, as decisões não foram tomadas somente por uma pretensa hierarquia da Igreja, Lutero pediu à nobreza alemã também uma ação ativa para a mudança da Cristandade. Ele tinha como exemplo o imperador Constantino, que durante a tensão em torno da divindade de Cristo, que levou à realização do Concílio de Nicéia (em 325), interveio a favor da adoção da fórmula teológica que defendia que Cristo era feito da mesma substância que Deus-Pai, portanto não inferior a Ele. Lutero queria que os príncipes e os demais nobres também agissem a favor da Reforma da Igreja e da Sociedade alemã.
  Nenhum escrito de Lutero manifesta mais claramente a combinação de ousadia revolucionária e de conservadorismo prudente, que o caracterizavam. Lutero queria a renovação da Igreja e da sociedade da sua época, mas fez isto pedindo aos nobres alemães que tomassem a frente do processo de transformação. Ele esperava que as autoridades da sociedade procedessem à modificação da Igreja. Ele entendia as autoridades como de origem divina e meio ordenado por Deus desde a criação do mundo. Vendo as autoridades como ordem instituída por Deus e preservada por Deus, neste ponto Lutero foi ingênuo e conservador, pois não percebeu a corrupção pode atingir determinada autoridade.
   O revolucionário na proposta de Lutero foi colocar todos os cristãos em pé de igualdade e responsáveis pela situação da Igreja e da sociedade. O sacerdócio geral deve conduzir a Igreja a uma organização descentralizada. Para Lutero, os cristãos devem optar por um estilo de vida simples, a fim de todos terem uma vida mais digna. Os líderes da Igreja devem, segundo Lutero, coletar auxílio para suprir a necessidade dos mais pobres, fazendo tudo para que o ofício de mendigo deixe de existir. O sacerdócio de todos os crentes sublinha a dignidade de todos os cristãos.
   O sacerdócio geral também valoriza todas as profissões, pois o cristão é sacerdote através de e em meio ao exercício do seu chamado profissional. Quando o cristão é alguém que atua profissionalmente visando, em tudo que faz, a glorificar a Deus, ele age como sacerdote em meio ao mundo, testemunhando o amor de Deus e exercendo a missão cristã no mundo. A Teologia de Lutero é, portanto, uma provocação para que os cristãos saiam do comodismo missionário.

O sacerdócio de todos os crentes sublinha a dignidade de todos os cristãos.



Sacerdócio geral e a Igreja-Comunidade
   O que passou a caracterizar o conceito de Igreja em Lutero foi a compreensão de que a Igreja (ou a Comunidade cristã) é criada pelo Evangelho. A Igreja nunca pode se colocar sobre a Palavra de Deus. A Igreja, que é convocada pela Palavra de Deus e vive esta Palavra, tem e estabelece uma relação de obediência com o Evangelho. A Igreja e a Comunidade testemunham a mensagem do Evangelho. Isto é o contrário de julgar-se dona do mesmo, como vários pregadores atuais na televisão fazem! Obedecer ao Evangelho deve gerar uma postura mais humilde no pregador, sem cair no pecado moderno de querer afirmar o que Deus deve fazer! A Igreja não pode exigir fé nela mesma nem cultivar a fama dos seus pregadores, mesmo que alguns grupos até usem fotos dos mensageiros na fachada dos seus templos. A igreja de Cristo serve ao Evangelho e não a si mesma!
   A autoridade da Igreja consiste no fato de ela continuar dando a conhecer Cristo ao mundo por meio do Espírito Santo! O único fundamento da Igreja é Cristo, testemunhado no Evangelho! A prática do Batismo e da Ceia é forma de testemunhar o Evangelho. A tarefa de testemunhar o Evangelho pertence a toda a Igreja ou Comunidade! É tarefa de todos os crentes no seu sacerdócio universal!
  Para Lutero, a comunidade evangélica tem o direito e o dever de julgar toda doutrina. Ela também chama alguns para Ministérios especiais de pregação e administração dos Sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor.
   A partir de 1530, com o reconhecimento do Luteranismo como Igreja territorial, onde a organização recaiu principalmente aos príncipes, o sacerdócio geral de todos os crentes foi sendo esquecido como ensino central na Reforma Luterana. Também nas Igrejas reformadas (calvinistas) ocorreu o mesmo, com os consistórios assumindo o controle, sem dar espaço a uma presença maior dos membros não ordenados e consagrados em um sacerdócio geral efetivo.
   Mesmo o movimento pietista, que insistiu na prática do sacerdócio geral, não conseguiu aplicar o princípio de uma forma abrangente. O movimento de reavivamento confessional luterano do século XIX retrocedeu novamente a uma posição centrada na figura do Pastor como sacerdote, bem próxima da visão católico-romana, esquecendo a Teologia do sacerdócio geral. A compreensão reformatória do sacerdócio geral de todos os crentes está hoje longe de ser praticada pelas Igrejas evangélicas luteranas da Alemanha, bem como do Brasil. Aqui cabe a pergunta se não tem sido esta uma das vulnerabilidades que possibilitam a evasão de tantos membros das nossas Comunidades, em especial nos espaços urbanos.
   Lutero queria a renovação da Igreja e da sociedade da sua época. A Teologia de Lutero precisa ser vista também como uma provocação para a Igreja toda, a fim de que haja um despertamento missionário! O que Lutero almejava era a colaboração mútua entre o Ministério Ordenado e o sacerdócio geral de todos os crentes em torno da tarefa comum de anunciar e vivenciar a Palavra de Deus. Eles se fortalecem mutuamente para o eficiente desempenho da sua missão. A ordem de pregar o Evangelho a toda criatura diz respeito a toda a Igreja. Cada cristão é para ser um Cristo para o seu próximo.
   Os dons espirituais são distribuídos a todos os membros da Igreja a fim de produzirem o bem de todos. Que Deus produza a revitalização das Comunidades evangélicas de confissão luterana por meio do exercício do sacerdócio geral.


Pastor Prof. Dr. Marlon Ronald Fluck, Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, com Especialização em Sociologia Urbana pela Unisinos, em São Leopoldo, Especialização em Serviço Social da Família pela Ulbra, em Canoas/RS, Mestrado em Teologia pela Faculdades EST e Doutorado em Teologia e História pela Universidade de Basiléia, na Suíça, é Professor da Faculdade Teológica Batista do Paraná, da Faculdade Evangélica do Paraná e da Faculdade Cristã de Curitiba/PR. Líder do Grupo de Pesquisa ‘Os evangélicos e a ética social’ (Cnpq), é Pesquisador do grupo de pesquisa ‘Organização e Cuidado Pastoral’, da Faculdade Teológica Batista do Paraná, além de membro do Núcleo Paranaense de Pesquisas e Estudos em Religião, da Associação Nacional de Professores Universitários de História e da Fraternidade Teológica Latino-americana

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