Jornal Evangélico Luterano

Ano 2013 | número 764

Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2020

Porto Alegre / RS - 10:38

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   Refletir sobre a vida política em Lutero nos remete a pensar na época em que Lutero viveu, entre 1483-1546. Foi um período de grandes e significativas transformações no mundo ocidental e também de crises. Essas mudanças e crises afetavam diretamente a vida da comunidade. Naquele período, verificava-se o desgaste de um modelo de sociedade, a sociedade medieval, com a gradativa implantação de outro modelo de sociedade, a sociedade `moderna, e isto gerava certa insegurança, desconforto e muitas perguntas.

   Ao longo da sua vida, Lutero acompanhou de perto as várias mudanças que ocorriam, como, por exemplo:
-Na economia, em função da política de colonização, verificava-se uma prática mercantilista com o consequente enfraquecimento das antigas corporações de ofício. A avidez pelo lucro estava se impondo e assim iniciava a economia capitalista. Nesse contexto, Lutero se posicionava claramente contra a capitalização, a retenção de estoques de cereais para serem vendidos por preço abusivo em época de carência, deixando claro que eram práticas prejudiciais à vida em comunidade.

-No Governo, vivia-se a época da consolidação das grandes monarquias centralizadas, em oposição ao sistema medieval de pequenas soberanias regionais multifacetadas e, também aí, Lutero teve que se manifestar quanto á questão da obediência às autoridades políticas, dos limites da sua competência e da necessidade de lhes fazer oposição ( ou até a sua deposição) quando ultrapassados estes limites.

 

O mundo de Lutero, especialmente nas primeiras décadas do século XVI, foi um mundo de significativas mudanças, sendo ele mesmo o protagonista de mais uma, a mudança teológica, ao liderar o processo da reforma.

 

 

-Nas Artes e Ideias, o período assim chamado ‘Renascimento’ abria espaço para uma nova concepção de homem, de mundo e de Deus, na qual o ser humano gradativamente ocupava um espaço que havia perdido. O mundo passava a ser cada vez mais antropocêntrico e a razão tendia a predominar sobre a fé.

-Nas Ciência, o conhecimento se ampliava consideravelmente e as bases da sociedade científica eram lançadas.

-Na Geopolítica, o mappa mund estava sendo redesenhado em função das assim denominadas ‘grandes navegações’ e as ‘descobertas’ daí decorrentes. É importante levar em conta que Lutero foi contemporâneo de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e, parcialmente, de Cristóvão Colombo. A chegada dos espanhóis e portugueses á América impactava os europeus, colocando-os diante no novo, com o qual não sabiam lidar. 

   O mundo de Lutero, especialmente nas primeiras décadas do século XVI, foi um mundo de significativas mudanças, sendo ele mesmo o protagonista de mais uma, a mudança teológica, ao liderar o processo de Reforma. Tratava-se de uma espécie de ‘Renascimento’ no campo da Teologia, ao questionar concepções e práticas existentes na Igreja da época, enfatizar e propor o retorno da Igreja á base bíblica, processo também chamado de ‘redescoberta do Evangelho’.

   Esse retorno á base bíblica, essa redescoberta do Evangelho tinha implicações concretas no dia a dia das pessoas e no cotidiano da comunidade. A nova compreensão das escrituras implicava, também, em uma nova forma de viver em comunidade. A redescoberta do Evangelho tinha um profundo alcance político, sendo política entendida aqui não na perspectiva partidária, como normalmente a compreendemos hoje, mas política como a melhor forma de se viver em comunidade.

   Nesse sentido, portanto, a forma como Lutero compreendia a Bíblia implicava em uma postura política de como viver em comunidade, em harmonia com esta redescoberta. Não devia haver separação entre a vida religiosa e a vida em sociedade. A forma de viver deveria ser uma só, cuja matriz era o Evangelho e isto afetava cada detalhe das pessoas, desde o relacionamento doméstico, trabalho, negócio e o trato com as autoridades, levando em conta as diferenças, divergências e os conflitos. Em resumo, podemos dizer que Lutero interpretava o seu tempo à luz da Teologia.

   Vários foram os Governantes que solicitaram o seu parecer sobre assuntos políticos, a partir das escrituras. Deixando claro que não era versado nas formalidades palacianas, Lutero emite a sua opinião, sempre amparado na Teologia. Lutero também foi solicitado a emitir o seu parecer sobre assuntos econômicos, como, por exemplo, em relação à cobrança de juros, que, já naquele tempo, era extorsiva, prática que ele condenou Por entender que era prejudicial à comunidade. 

   Algo estava claro para Lutero: o mundo é Criação de Deus, no entanto, também é o espaço onde a vontade de Deus é desrespeitada e isto tornava a vida humana sofrível e muito aquém do que devia ser. A partir desta constatação, considerava o mundo como ‘coisa doente’, mas não recomendava aos cristãos que se afastassem da política, ao contrário: exatamente diante da realidade caótica do mundo, Lutero destacava a importância de se lutar e proteger o mundo contra as forças destrutivas. 

   É notório que Lutero tenha se ocupado majoritariamente com a dimensão teológica relativa à salvação (somente pela graça mediante a fé), mas nem por isso deixou de lado a questão do bem estar terreno. Na sua compreensão, o ‘pão nosso de cada dia’ tinha a ver com vestimentas, comida, campo, gado, trabalho, família, vizinhança, governo e tudo o que se relacionava com o dia a dia das pessoas. 

   Para que esse cotidiano pudesse ser bem vivido, de forma pacífica e agradável, era fundamental contar com bons administradores públicos, efetivamente interessados no bem-estar geral da comunidade. Pessoas cujo interesse privado estivesse acima dos interesses públicos, pessoas que dissimuladamente fizessem uso da política para beneficio pessoal ou de um determinado grupo, em detrimento do conjunto, não deviam ocupar cargos ou, se lá estivessem, deviam ser depostos. Afinal cargo político também era espaço de serviço de Deus e ao próximo e, quando isto não fosse observado, a comunidade tinha obrigação de se manifestar. No entanto, a comunidade não devia atribuir a responsabilidade apenas ao administrador. Ela própria tinha a função de zelar pelo bem-estar geral. 

   Para Lutero, os Dez Mandamentos têm uma dimensão política que precisa ser observada pelos cristãos, pois visa à honra de Deus e ao bem-estar do outro, portanto, ao convívio das pessoas em sociedade- e isto era política.

   Política: espaço da sujeira, da corrupção, do exercício de um poder perverso ou espaço de serviço, do respeito e da ajuda mútua, em benefício da comunidade? Com a palavra, Martim Lutero.

 

 

 

Dr. João Klug, professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, atualmente realizando pós-doutorado em Berlim, na Alemanha
 

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