Jornal Evangélico Luterano

Ano 2013 | número 765

Sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020

Porto Alegre / RS - 05:07

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   “Cidadania” é uma palavra que se tem sido muito usado ultimamente e isso por uma boa razão. Ela quer enfatizar a dignidade de casa pessoa humana na sociedade e, mais ainda, a sua participação ativa na defesa de direitos fundamentais das pessoas e também a sua participação ativa nos destinos da coletividade. O exercito da cidadania, por exemplo, por meio do voto, nas eleições, mas também pelo acompanhamento critico dos processos e das decisões políticas, contribuem eficazmente para qualidade de vida de um povo. Inversamente, quando a cidadania abdica do seu direito (e dever) de participar ativamente na sociedade, pode estar contribuindo para que o âmbito da política seja aproveitado por pessoas inescrupulosas que buscam benefícios próprios ou apenas dos seus grupos.

   A bem da verdade, cidadania se constitui em boa medida também de grupos de interesse que, muitas vezes, tendem a não apenas apresentar de mandas legitimas, mas também a extrapolar as suas demandas, prejudicando outros grupos ou a coletividade. Temos observado isso nas recentes manifestações de massa, particularmente de jovens, no Brasil. Reivindicaram melhorias na saúde, na educação e na segurança e uma diminuição na corrupção, mas se misturaram também demandas muito corporativistas, que, muitas vezes, não estavam voltadas para a melhoria geral das condições de vida da população.

   Devemos, portanto, nos perguntar por critérios e valores éticos sob cuja direção e juízo, queremos colocar o exercito da cidadania.

   A comunidade cristã tem algo a ver com tudo isso? Há quem pense que não. Quem segue a Jesus Cristo deveria se ocupar exclusivamente com questões espirituais, a salvação em Cristo. Há quem, talvez, cite Hebreus 13.14: Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir. O fundo de verdade neste argumento é que, de fato, o alvo maior e decisivo para a comunidade cristã e as pessoas que crêem em Jesus Cristo são o Reino de Deus e a salvação. Isso não significa que , enquanto aqui vivermos, não tenhamos responsabilidade para com o nosso próximo e, portanto, também para com a sociedade como um todo.

   Seguimos a Jesus Cristo, que foi o próprio Deus entre nós (João 1.14). Ele não apenas pregou o Reino de Deus, conclamando à conversão a Deus, mas também praticou muitos atos de amor e misericórdia, como, por exemplo, curas e distribuição de alimentos, mas também solidariedade com pessoas discriminadas ou desvalorizadas,ou desvalorizadas, inclusive as mulheres. Na parábola do grande julgamento ou ‘dos cabritos e das ovelhas’, Jesus até mesmo coloca como critério no julgamento como as pessoas se comportaram diante de pessoas com fome e sede, pessoas forasteiras, carecendo de roupas, doentes ou presas, Foram essas pessoas assistidas com amor e gestos concretos ou foram discriminadas e desprezadas?O profeta Jeremias exorta até mesmo o povo no exílio babilônico: Procurei a paz da cidade para onde vos desterrei e orais por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz (Jeremias 29.7). Jesus resumiu e radicalizou tudo isso, quando exortou os seus discípulos a amar até mesmo os seus inimigos: Eu porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem (Mateus 5.44). 

   Quanto a lutero? Bem, Lutero falou sobre dois reinos, um, o espiritual e outro, o secular, mas o segredo está em como o espiritual e o secular se relacionam. Como entender isso? Vejamos, primeiro, algumas distorções graves.

   Primeira distorção: nos tempos modernos, a relação pode ser entendida como uma rígida separação entre o secular e o espiritual, como se um não tivesse nada a ver com o outro.

 

As igrejas luteranas se caracterizam por envolvimento nas áreas educacional e diaconal e, em nível de comunhão luterana global, no cuidado a refugiados e pessoas marginalizadas

 

 

Secular / Espiritual

   Uma modalidade é, então, ver tudo com muito positivo. O mundo secular seria autônomo. A política e a economia teriam leis próprias e não se poderia vir por assim dizer ‘de fora’ com preconceitos evangélicos. Dever-se-ia deixar a política e a economia desenvolverem-se livremente, que tudo sairia bem. A Igreja deveria limitar-se a pregar o Evangelho da salvação dos indivíduos e estes, privadamente, viver a sua fé. Entretanto, nesse caso, a comunidade cristã estaria aceitando também passivamente as injustiças que existem no mundo e que podem ser combatidas.

   A outra modalidade de separação do secular e do espiritual é demonizar todo o âmbito secular. A política seria simplesmente suja, todas as pessoas que entram na política seriam corruptas ou se corromperiam, pois o mundo estaria dominado pelo mal, pelo diabo. Então, quem quiser seguir a Jesus Cristo não deveria se deixar contaminar e precisaria ficar ’de fora’. No entanto, nesse caso, estranhamente, também se aceitariam as injustiças no mundo, desistindo de combatê-las.

Segunda distorção: ao longo da historia, houve ou forma de conceber a relação, a saber a aliança entre o secular e o espiritual.
 

Secular + Espiritual

   A comunidade critã primitiva era pequena e, por alguns séculos, a Igreja se desenvolveu em comunidades que viviam a sua fé, fortaleciam a prática comunitária e o amor ao próximo. Essa Igreja cresceu muito e se tornou a religião oficial do Império Romano. Ela passou a dever privilégios e, em troca, abençoava os governantes. Foi assim na Igreja Católica, mas também aconteceu mais tarde com Igrejas Luteranas que foram protegidas e ‘beneficiadas’ por governantes. Em troca, lhe deram apoio. Assim, deixaram de ser uma voz critica a desmandos e a injustiças praticadas.

   A concepção de Lutero: melhor que falar sobre ‘dois reinos’ seria falar a respeito de ’dois âmbitos da atuação de Deus’. Deus é o Senhor de tudo, não apenas das pessoas que nele crêem, mas do mundo inteiro. No entanto, não é só Ele que age no mundo. Também o pecado humano se faz presente em todas as pessoas e em todos os espaços da realidade, sem exceção. Lutero usava a imagem de que o diabo disputa com Deus o Senhorio sobre as pessoas e o mundo.
 

Deus -> Mundo / Ser Humano <- Satanás

   Há aí uma tensão permanente. Prevalecerão os valores de Deus ou os do mal? Muitas vezes, tem-se a impressão de que o mal estaria vencendo, mas a fé cristã afirma que, ao fim, o amor de Deus prevalecerá. É o que o texto de Hebreus citado no início afirma: buscamos a cidade permanente que há de vir, em Deus e por Deus. Entretanto, por ora, há uma disputa em jogo.

No ser humano, prevalecerá a fé ou a descrença?

Na Igreja, ela será uma servidora da palavra de Deus ou uma instituição buscando benefícios próprios?

A política trará paz e justiça ao povo ou será ocupada por poderosos que exploram o povo?

Lutero identificou, sim, a principal incumbência da Igreja: proclamar a palavra de Deus. No momento, isso incluía também uma responsabilidade profissional, social e política e política. Assim ele defendeu que:

o trabalho, a profissão, era uma vocação, destinada ao sustento familiar e como serviço ao próximo;

as autoridades políticas deveriam instituir um sistema educacional para todas as pessoas, sem exceção;

o comércio seria desenvolvido como atendimento às necessidades básicas da população;

a política deveria ser instrumento para a paz e a justiça.

   Nesse espaço, as pessoas cristãs deveriam atuar sempre em um espírito de serviços e amor ao próximo. Assim, o exercício da cidadania é um ingrediente essencial do testemunho cristão, sempre que norteado pelo principio da dignidade humana e pelo espírito de serviço ao próximo.

   Em muitos escritos, Lutero expôs essas idéias. De forma programática, o fez já no ano de 1520, no escrito Á nobreza da nação alemã, acerca do melhoramento do estamento cristã. Aí, deixou também claro que entendia o empenho pelas necessárias reformas na Igreja e na ordem política como parte do exercício do sacerdócio universal dos crentes, baseado no batismo cristão. Isso é também o que caracteriza a diaconia: serviço ao próximo em suas necessidades.
   Podemos dizer que isso é a dimensão espiritual da responsabilidade publica de quem segue a Jesus.

   É por isso que as Igrejas Luteranas se caracterizam até hoje por forte envolvimento nas áreas educacional e diaconal e, em nível de comunhão Luterana global, no cuidado a refugiados e pessoas marginalizadas. Entretanto, não poucas vezes é necessário enfatizar mais fortemente o engajamento social e político, sempre no mesmo espírito. Emprega-se hoje o termo de diaconia profética ou diaconia transformadora, porque atender ao ser humano nas suas necessidades não se dá apenas por ações assistenciais a pessoas em necessidade, mas também por ações de cidadania, visando a superar as causas estruturais do sofrimento e contribuindo para programas que superem a violência e a injustiça.

 

Lutero identificou a principal incumbência da Igreja: proclamar a palavra de Deus.

 

 

P,Dr. Walter Altmann, Teólogo, Professor pesquisador na faculdade EST, em São Leopoldo/RS, ex-Pastor Presidente da IECLB E Moderador do conselho Mundial de Igrejas(CMI) 


 

Ultima edição

Edição impressa para folhear no computador


Baixar em PDF

Baixar em PDF


VEJA TODAS AS EDIÇÕES


Gestão Administrativa

Modelo de avaliação em vigência na IECLB

O XXIX Concílio da Igreja, realizado em 2014, aprovou o modelo de avaliação em vigência na IECLB, o que prevê a avaliação como parte integrante do Planejamento, de forma conjunta e integrada, envolvendo Campos de Atividade Ministerial (CAMs), lideranças, (+)



Educação Cristã Contínua

Histórias de vida e fé

Nasci no dia 4 de janeiro de 1933, em Ivoti/RS, na época, Bom Jardim. Fui batizada em 12 de fevereiro de 1933 e confirmada em 3 de dezembro de 1944, pelo Pastor Probst, na Comunidade Sião de Ivoti (hoje, Comunidade Trindade). Frequentei o Ensino Confirmatório na época da Segunda Guerra Mundial e o único material (+)

AÇÃO CONJUNTA
+
tema
vai_vem
pami
fe pecc
Tornai-vos, pois, praticantes da Palavra e não somente ouvintes.
Tiago 1.22
© Copyright 2020 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br