Jornal Evangélico Luterano

Ano 2013 | número 766

Sexta-feira, 07 de Agosto de 2020

Porto Alegre / RS - 21:00

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

Vocação - Beruf

   A palavra Beruf é uma tradução para o Alemão do Latim vocatio, que, em Português, significa vocação. Em cada uma destas línguas, esta é uma palavra carregada de muita história e significado. O que pretendemos fazer nesta breve reflexão é tentar examinar o sentido da palavra Beruf em sua conexão com as raízes da fé cristã, os seus desdobramentos práticos na história e a sua implicação (ou implicações) para a vida atual. 

   o Beruf e a Bíblia O sentido contemporâneo de Beruf (vocação), como expressão técnica associada a uma atividade profissional, é desconhecido pela Bíblia. A palavra grega klésis (1Co 7.20), traduzida por Lutero como Beruf, e pura e simplesmente o chamado para tornar-se cristão. Deus, quando chama o ser humano por intermédio de Jesus Cristo, o agracia com esta condição. Ele o faz participante da sua promessa (Ef 1.18 e 4.4), o que traz consigo também um compromisso (Ef 4.1 e 2Pe 1.10). Este chamado é santo (2Tm 1.9). Ele é celestial (Hb 3.1 e Fp 3.14). Estas descrições bíblicas do chamado à condição cristã, para a qual Deus nos leva, apontam para o ato soberano de Deus. Ele é quem chama e não o ser humano se eleva à condição cristã. O apóstolo Paulo demonstrou a grandeza deste ato em 1Co 1.26ss, quando ele lembra os membros da Igreja de Corinto de que, entre os chamados, poucos eram sábios segundo os padrões humanos; poucos poderosos; poucos eram de nobre nascimento.

   A escolha de Deus recai, de acordo com Paulo, junto àqueles que são considerados tolos, fracos, insignificantes e desprezados. A soberania de Deus, quando se trata de chamado, ultrapassa as barreiras sociais e étnicas (1Co 7.18ss). Neste sentido, pode-se con-cluir que a vocação de Deus não está presa a uma atividade profis-sional ou religiosa, como se tornou habitual dizer. Vocação (klésis), segundo o Novo Testamento, é o chamado para tornar-se cristão. 

História da interpretação do Beruf 

   Permanece mérito de Karl Holl (1866-1926), renomado Pesquisador de Lutero, ter escrito uma história da palavra Beruf que ainda hoje é referência para este assunto. Holl nos lembra neste escrito que a vocação tornou-se uma exclusividade de alguns cristãos, já nos primeiros séculos de existência do cristianismo. Esta distinção entre vocacionados e não-vocacionados consolidou-se no corpo social cristão. Os que se autodesignavam vocacionados desejavam, neste tempo, que a fé cristã rompesse completamente com o modo de vida da sociedade existente. Eles propunham um seguimento de Jesus Cristo conforme as regras do Sermão da Montanha (Mt 5-7). Os demais cristãos interpretavam que o cristianismo deveria achar caminhos de inserção e de diálogo com o mundo da sua época, procurando, pela força da fé, transformar a cultura. 

   Esta distinção provocou uma ruptura social de longa duração entre os cristãos. A partir do surgimento do movimento monástico, nos séculos III e IV da nossa era, estabeleceram-se dois modos distintos de vida cristã. Os monges e monjas formaram, então, uma espécie de elite, de aristocracia, na qual procuravam representar o que significava ser cristão. Por intermédio de técnicas especiais de oração, de meditação e de disciplina, eles interpretavam-se como os legítimos seguidores de Jesus Cristo e da sua nova lei, o Sermão da Montanha. Eles eram os realmente vocacionados, os que tinham o Beruf. Os demais cristãos viviam no mundo, seguindo as normas dos Dez Mandamentos, contudo, sem ter mais uma vocação, um Beruf. 

   É inegável que o movimento monástico preservou uma boa dose da identidade cristã. Com a sua crítica inicial ao acomodamento do cristianismo à cultura e à sociedade greco-romana, os monges e monjas evidenciaram que a fé cristã não é mais uma simples expressão de espiritualidade de uma época. Eles destacam que ela tem uma identidade própria, que faz parte de uma escolha pessoal e que ultrapassa a cultura religiosa estabelecida. Em sua busca pela obediência da fé, eles queriam se 'revestir de Cristo (G1 3.27), sinalizando com isto a concretização da vocação no cotidiano.

   Contudo, este encolhimento do âmbito de ação da vocação cristã, visto como um privilégio de uma aristocracia religiosa com as suas regras próprias e como uma desapropriação dos demais cristãos do chamado à vocação, foi veemente condenado pela Reforma Evangélica no século XVI. Tanto Lutero como Calvin°, juntamente com os demais reformadores, rejeitaram esta compreensão, vendo nela um gritante equívoco. Como seria possível falar na Igreja de 'um só corpo e um só Espírito' (Ef 4.4), quando nela se cultiva a ruptura mais fundamental, qual seja, a da existência de uma elite de vocacionados, posta acima dos demais cristãos, e estes sem vocação? 

   Em consonância com a Bíblia, a Reforma rompeu com a visão elitista e religiosa do Beruf, possibilitando assim novamente a oportunidade a todos os cristãos de abraçarem e viverem a sua vocação. Este bom propósito da Reforma foi e é um ganho irretornável, por isso Beruf deixou de ser uma exclusividade religiosa, que pertencia a alguns poucos. Ele é o chamado feito por Deus, em Jesus Cristo, para toda e qualquer pessoa que queira viver a obediência da fé. Esta, por sua vez, pode ser vivida nos mais diversos espaços da vida, tais como casamento, família, profissão e sociedade em geral. Esta 'democratização' do conceito Beruf está bem expressa na Confissão de Augsburgo (1530). Nela consta que 'perfeição cristã é temer seriamente a Deus e, ao mesmo tempo, ter grande fé e confiar que, por causa de Cristo, temos um Deus reconciliado, pedir e esperar, com certeza, auxílio de Deus em todos os deveres da nossa vocação e, entrementes, praticar, com diligên-cia, boas obras na vida externa e servir a vocação' (artigo XVII). 

Em consonância com a Bíblia, a Reforma rompeu com a visão elitista e religiosa do Beruf, que deixou de ser uma exclusividade religiosa. Ele é o chamado feito por Deus, em Jesus Cristo, para toda e qualquer pessoa que queira viver a obediência da fé

 

 Esta percepção da Reforma, de que todos os cristãos são chama-dos à obediência da fé, para viverem 'com auxílio de Deus em todos os deveres da nossa vocação', tornou-se o ideal de vida pública do protestantismo, seja ele de natureza histórica ou pentecostal. Com o passar do tempo, a compreensão de Beruf no protestantismo foi acomodada, de maneira crescente, à visão moderna de profissão. Esta apregoa a desvinculação da atividade profissional de qualquer fundamento religioso. Este processo é o que se costuma designar de secularização da vocação, do Beruf. A trajetória histórica deste processo, que foi acelerado a partir do século XVIII, vai muito além do que estas linhas autorizam. Importa, contudo, neste momento observar que o ganho da Reforma, de que todos têm uma vocação, tornou-se basicamente uma intenção pessoal, cuja regra de ação não é mais concedida pelo Evangelho, mas, sim, pela exigência e autonomia da atividade profissional.

   Com outras palavras, a vocação, o Beruf tornou-se, em boa medida, algo apenas interior. Já a profissão mostra-se como algo exterior, que tem as suas próprias normas, a chamada ética profissional. Este encurtamento prático do conceito de vocação, gerado, de maneira geral, nas sociedades protestantes da Europa dos séculos XVIII e XIX, levanta algumas perguntas inquietantes: em que medida a marcante obediência da fé, presente na vida dos monges e monjas, encontrou espaço na vida concreta dos protestantes, quando se trata de vocação? Não teria o protestantismo deixado de trabalhara obediência da fé (1Pe 4.10) e permanecido apenas na 'teoria' de que todos têm um Beruf? Estas e outras indagações não colocam em dúvida o resgate da Reforma. Elas, na verdade, surgem do que temos perante os nossos olhos hoje em dia. Em uma rápida observação, podemos notar que, quando queremos vincular a obediência da fé, oriunda da vocação, com a nossa atividade profissional, seja de que natureza for, entramos em uma região de conflitos, alguns aparentemente insolúveis. Este quadro, por sua vez, não surgiu do nada. Ele tem uma história, que é a que procuramos, de maneira muito abreviada, aqui apresentar.

 Vocação – Beruf: desafios atuais

   É importante relembrar em nossos dias o que já afirmamos anteriormente: a vocação, o Beruf, é o chamado de Deus, em Jesus Cristo, para sermos cristãos. Ela vem 'do alto'. Isto é assim e assim P. Dr. Mário Francisco Tessmann, Doutor em Teologia pela Universidade Karl Ruprecht de Heidelberg, na Alemanha, atualmente é Professor e Vice-Diretor da Faculdade de Teologia Evangélica em Curitiba/PR (FATEV)  deve permanecer. O Beruf não deve ser confundido com alguma 'qualidade da alma humana'. Não é algo que temos naturalmente, mas, sim, que recebemos de Deus. É algo novo, e não algo antigo, que o ser humano — homem ou mulher — possa buscar dentro de si e afirmar para si mesmo. Ao mesmo tempo, a vocação não é nem nos coloca em uma bolha de vidro. Ela nos alcança e perpassa todas as dimensões da nossa existência, como podemos ver em 1Co 1.26ss e 7.18ss. O 'objeto' do chamado de Jesus Cristo é o ser humano, como ele é e não como ele não é. Neste sentido, toda vocação, Beruf, é um acontecimento histórico, que abraça o ser humano no mundo em que ele vive — e não fora dele.

   Dentro desta perspectiva, cabe salientar que a humanidade, quando chamada por Deus, não é para ser uma 'massa homogênea', como nos querem induzir algumas ideologias contemporâneas, tais como o consumismo. Por meio deste chamado, a humanidade concretiza-se de maneira diferenciada, marcada por uma multi-plicidade de expressões socioculturais. As parábolas de Mt 20.1ss e Mt 25.14ss ilustram este quadro. Esta vocação, que contempla distintas manifestações culturais, pode ser muito bem vista em um país como o Brasil. Nele, vamos encontrar muitas formas de ser cristão, inclusive dentro da nossa própria denominação. Esta pluralidade gera tensões e conflitos, certamente. Contudo, na medida em que ela é conduzida pelo Espírito de Deus nas diferentes formas de atuação, não há como negar que é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos (1 Co 12.6).

   Por fim, mas não por último, a vocação, o Beruf, é uma opor-tunidade e uma tarefa pessoal de viver o chamado: cada um exerça o dom que recebeu para servir os outros (1 Pe 4.10). Aqui cada cristão recebe o convite pessoal que Deus lhe tem oferecido, seja nas relações pessoais ou profissionais, de exercitar a obediência da fé. Em um contexto como o brasileiro, no qual a fé e a ética crescentemente se afastam, os cristãos luteranos têm a chance de sinalizar neste cenário que a vocação, o Beruf, é um caminho distinto. Ele inclui simultaneamente a livre dádiva da comunhão com Deus e a alegre e responsável vida com os que nos cercam. Que este caminho, Beruf, aponte para o novo ser humano já efetivado em Jesus Cristo.

 

P. Dr. Mário Francisco Tessmann,

Doutor em teologia pela universidade Karl Ruprecht de Heidelberg, na Alemanha, atualmente é professor e Vice-Diretor da Faculdade de Teologia Evangélica em Curitiba/PR(FATEV)
 

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