Jornal Evangélico Luterano

Ano 2013 | número 767

Domingo, 20 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 18:21

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   Para apresentar a relação entre a fé cristã e a economia, é preciso, antes, definir os termos, pois são comumente usados de uma forma que produzem equívocos.

   Para o termo fé cristã, tomamos por base os ensinamentos de Jesus. Ele ensinou a, primeiro, confiar em Deus, mas também disse que era preciso sentar e planejar se os recursos disponíveis garantiriam uma obra. Portanto, é legítimo que a pessoa cristã se ocupe com assuntos de ordem econômica. O termo economia não é de tão pacífico acordo. Economia não é um sistema econômico somente. A discussão é muito mais ampla, mas, no caso específico, por tratar-se de previdência, devemos usar o filtro da economia pessoal, quando cada indivíduo é o centro, o foco.

   Voltando um pouco ao passado, ainda no século XVI, para explorarmos o nascedouro, a eclosão e os tempos da Reforma, houve algumas tentativas de recuperação e resgate da essência do cristianismo dentro da Igreja. Infelizmente, todos os que propunham essas mudanças relacionadas às autoridades eclesiais estavam comprometidos com a estrutura religiosa, o que os impossibilitava de uma ruptura com a Igreja, mesmo dela divergindo.

   Na idade medieval, a compreensão era de uma economia fechada e autossuficiência dos feudos. O comércio era apenas coadjuvante. A Teologia tradicional condenava a obtenção do lucro excessivo, da usura, incorporando ao seu discurso a prática do preço justo.

   Com a expansão marítima e comercial, ocorre tensão e choque de pensamentos quanto ao modelo defendido pelo alto clero. O sistema começa a sofrer pressão e colide frontalmente com a atividade da burguesia, que se valeu de uma vertente do protestantismo para fortalecer o seu projeto de sociedade, ainda que nem todos os líderes protestantes compartilhassem das práticas ao incentivo do capitalismo.

   Trazendo para os dias atuais, percebemos que as coisas não mudaram tanto assim. Obter lucros ainda carece de explicações. Grandes grupos econômicos, bancos e Empresários, para ficarmos por aí, têm constantemente atraído sobre si olhares através dos óculos e lupas dos mais críticos. O sistema se reorganiza e, de tempos em tempos, passa por ajustes.

   A questão central, depois de estabelecida a diferença, mesmo que minimamente, entre fé cristã e economia, passa pelo indivíduo. O cristão de hoje é o cristão de outrora, com angústias, medos, inseguranças, necessidades básicas. Aliás, na pirâmide de Maslow (Abraham Harold Maslow, Psicólogo americano, 1908-1970), que estabelece hierarquicamente as necessidades que os seres humanos buscam satisfazer, já na resolução das primeiras necessidades, que são as fisiológicas, recursos financeiros são indispensáveis, portanto a solução passa também pelo desafio econômico.

   Sob essa perspectiva, para tornar o sistema harmônico e, principalmente, ético, as individualidades precisam ser respeitadas, inclusive as econômicas. O cristão na economia carrega as responsabilidades do contexto no qual está inserido. Se ele é um pai de família, lhe serão cobrados ética e postura que permitam o trânsito desses valores para os seus. Se for um Empresário, a sua área de abrangência será maior, pois a sua responsabilidade transcende o seio familiar, mas os seus valores precisam continuar inalterados. Assim ocorre nos mais diferentes setores de uma sociedade.

   Isto corrobora com a afirmação de que a fé cristã dialoga com a economia. Seria ingênuo pensar que os cristãos deveriam preocupar-se apenas em ajudar materialmente os mais pobres. Da fé nascem desafios no sentido da busca de estruturas que assegurem a dignidade das pessoas. Esta afirmação encontra amparo em dados reais. Onde o cristianismo se estabeleceu verdadeiramente e seguindo as orientações bíblicas, houve melhora não só dos pobres, mas da economia como um todo.

   Para ficarmos no exemplo do Reino Unido, no início do século XVIII, em um movimento liderado por John Welsley (Teólogo britânico, 1703-1791), algo em torno de quatro milhões de pessoas viviam em estado de pobreza absoluta. Além de problemas de grandes dimensões sociais, como alcoolismo, crianças abandonadas, analfabetismo e promiscuidade, entre outros, as pessoas não sabiam nem mesmo se teriam algo para alimentar-se no dia seguinte. O estabelecimento de novas Igrejas proporcionou uma mudança significativa na qualidade de vida das pessoas, ajudando a criar uma classe média no Reino Unido, evitando inclusive o surgimento de uma guerra, como ocorreu em outros países na mesma época.

   São as ações comunitárias que geram maior efeito, capazes de transformar a realidade de uma região ou mesmo de um país, postura percebida na prática de ensinar a pescar e não apenas dar o peixe.

   Como consequência, as pessoas abandonaram hábitos antigos. Os maus costumes foram substituídos por outros, mais saudáveis. Pessoas até então transtornadas por vícios foram 'transformadas' e começaram uma nova vida, tornando-se produtivas, capazes de usar melhor o seu dinheiro, com uma nova esperança e expectativas de vida bem diferentes.

   Contribuir no sentido de possibilitar o bom uso de recursos financeiros e de assegurar condições de existência digna na aposentadoria é também o propósito da Luterprev. É importante salientar que é uma empresa sem fins lucrativos, mas não sem fins econômicos. A escolha pelo modelo sem fins lucrativos converge com os ensinamentos cristãos. Desde a sua idealização até a concepção e o seu pleno funcionamento nos dias atuais, traz no seu DNA informações de amparo e planejamento de longo prazo sim, mas a mensagem vai mais além.

   Captar recursos financeiros para uma companhia é determinado originalmente na sua estratégia e objetivos, mas como ficam a missão e os valores? A fé cristã – ou o cristão – está presente desde os primeiros ensaios ou 'rabiscos' de seguridade e previdência privada de que se tem notícia na Igreja, feitos no Asilo Pella Bethânia, em Taquari/RS. Ali estão a parte mais nobre e os desejos colocados em prática da razão da existência da Luterprev. Aquela casa foi concebida para o amparo dos mais necessitados da época, viúvas, órfãos e todas as pessoas que necessitassem de cuidados especiais. Eclode o sentimento de cuidar e prover as pessoas, mas sem esquecer-se do que tinham como certeza: educar e ensinar é preciso. A intenção era de gerar conhecimento para os que ali estavam (residentes), a fim de lhes garantir soberania no dia que de lá partissem. Sob essa orientação, conservando a ética, o preço justo e o olhar para o ser humano, e não para um número que venha apenas a gerar rentabilidade, é que se vem conduzindo e norteando a Luterprev no seu trabalho.

   Essa postura é percebida na prática: ensinar a pescar e não dar o peixe. Sem dúvida, para uma aposentadoria digna, sem surpresas desagradáveis, é necessário um esforço ao longo de boa parte da vida. Não é possível aposentar-se sem que se faça frente financeira por um período, mas nem sempre isso está muito claro para as pessoas. Impulsionadas pelo bombardeio diário do consumismo, o 'guardar um pouquinho para o amanhã' é facilmente esquecido. Como empresa com inspiração cristã, a Luterprev nunca se furtou no sentido de colaborar, não só com incentivos à cultura do
'poupar', mas também no ensinar a fazer. O seu braço social, o Programa de Educação Financeira (PEF), e o Programa de Comunidades Autossustentáveis (ProCas) são a tradução mais nobre e a certeza da continuidade do desejo dos seus idealizadores.

   Ensinar educação financeira nas escolas é, acima de tudo, acreditar em um futuro melhor, apostar na condição de seres humanos mais livres no amanhã. Quantas pessoas conseguem, a partir desses ensinamentos, mudar a história da sua vida? Quantos tinham, talvez, um futuro comprometido ou, então, sem grandes perspectivas? No entanto, com conhecimento, educação, novos valores e, agora, com mais elementos para tomarem as suas decisões, percebem novas oportunidades. Sim, o resultado é fruto do esforço individual, como já defendido anteriormente, mas o vetor, neste caso, é coletivo. As ações e a prática precisam estar alinhadas com o que se prega.

   O cristão na economia não pode olhar somente para o seu umbigo. São as ações comunitárias que geram maior efeito, capazes de transformar a realidade de uma região ou mesmo de um país. Um belo exemplo é um Empresário cristão que se preocupa com os seus colaboradores, ajudando-os a poupar com um programa de previdência privada. Um belíssimo exemplo que vai nesse sentido é o Encontro dos Empresários Cristãos, que ocorre anualmente, no mês de agosto, em Florianópolis/SC. Percebem-se pessoas preocupadas com a conduta, a moral e a ética nesse mundo corporativo, que, muitas vezes, não é tão pacífico assim. Esse sentimento deveria aparecer em mais alta conta nas prioridades de cada um. Não há como viver isoladamente. Ser cristão na economia requer a observância desses valores.

   Da fé nascem desafios no sentido da busca de estruturas que assegurem a dignidade das pessoas. Esta afirmação encontra amparo em dados reais. Onde o cristianismo se estabeleceu verdadeiramente e seguindo as orientações bíblicas, houve melhora não só dos pobres, mas da economia como um todo.

 

Evandro Raber, graduado em Marketing pela Universidade Paranaense (UNIPAR), com MBA em Marketing, com Ênfase em Vendas, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), trabalhou durante 13 anos no Grupo Bradesco, há quatros está na Luterprev Previdência Privada, com sede em Porto Alegre/RS no momento, ocupando o cargo de Diretor Geral

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