Jornal Evangélico Luterano

Ano 2014 | número 769

Quinta-feira, 28 de Outubro de 2021

Porto Alegre / RS - 15:03

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   Em qualquer sistema religioso, a comunicação entre as pessoas e Deus é um elemento importante. No âmbito da comunidade cristã, o principal lugar dessa comunicação é o culto. O que é o culto? Por que as pessoas vão ao culto? O que elas buscam no culto? Quanto à liturgia? Para que serve a liturgia?


Culto como atividade central da vida comunitária

   Na linguagem religiosa, 'culto é uma palavra de uso genérico. Ela tem a sua origem na palavra latina colere, que significa 'cultivar', um sentido extraído do contexto da agricultura. Podemos estabelecer uma relação interessante entre a palavra 'culto' e o seu significado etimológico 'cultivar'. O Agricultor depende da terra e necessita 'cultivar' o campo. É por meio do 'cultivo' da terra que ele garante o alimento.

   A terra possui todo o potencial para gerar a vida e oferecer vida aos que nela trabalham. 'Cultivar', pois, é estabelecer uma relação entre Agricultor e terra. Algo semelhante acontece no culto. No culto, Deus e as pessoas se encontram e estabelecem uma relação. Como seres humanos, necessitamos dessa relação com Deus para viver. Em uma pesquisa sobre 'culto e cultura', as pessoas entrevistadas disseram que 'Culto é a busca e o cultivo de contato pessoal com Deus, da sua proximidade, da sua amizade estreita, íntima e carinhosa'. Por que necessitamos desse 'cultivo de contato' com Deus no culto? O que nos leva ao culto?

   No dia a dia, nos deparamos com situações que mostram a fragilidade e a finitude humana. Diante disso, o ser humano se vê em busca de algo maior, uma força superior, transcendente. Não temos a vida nas nossas mãos, não temos o controle do nosso destino. Sobretudo em situações de vulnerabilidade, nos vemos dependentes de Deus e buscamos a relação com Deus. O culto é, por excelência, o lugar desse encontro, um espaço no qual identificamos respostas para as nossas angústias e tensões cotidianas, em que nos alimentamos, abastecemos e recarregamos as nossas energias.


No culto, Deus vem ao nosso encontro!

Deus nos conhece, sabe das nossas limitações e entende as nossas necessidades. Por nos conhecer tão bem e saber da nossa total dependência, Deus se antecipa, se põe à nossa disposição e se oferece para  se encontrar conosco. Deus é como aquela mãe que, mesmo à distância, não perde o seu filho, a sua filha de vista e se prontifica a ir ao seu encontro, socorrer e ajudar. O culto é um espaço no qual essa presença de Deus se faz atuante na nossa vida. Essa certeza nos foi dada por Jesus, que prometeu estar com os seus discípulos e as suas discípulas todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28.20) e se fazer presente onde estiverem dois ou três reunidos em seu nome (Mt 18.20).

   Reunir-se em culto é agarrar-se nessa promessa de Jesus, uma palavra não só consoladora, mas motivadora. A comunidade cristã se reúne em culto porque Deus promete estar em seu meio. Ninguém precisa fazer nada para garantir a presença de Deus no culto, porque Deus já se antecipou e se colocou ao nosso serviço. Deus é o primeiro Liturgo do culto (leitourgos).

   Lutero, ao discorrer sobre o culto, diz assim: 'Para que o ser humano lide com Deus e dele receba algo, é necessário que não seja o ser humano quem principie e deite a primeira pedra. Antes, Deus somente, sem qualquer solicitação e desejo do ser humano, tem que antecipar-se e fazer-lhe uma promessa. Esta palavra de Deus é o primeiro, o fundamento, a rocha, sobre a qual são edificadas, posteriormente, todas as obras, palavras e pensamentos do ser humano (Obras Seleciona-das, 2, p. 267).

Liturgicamente, a presença de Deus na reunião comunitária é atestada, confirmada, sempre no início de cada culto por meio do voto inicial ou invocação (Em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo), ou da saudação apostólica (A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espirito sejam com vocês). No culto, Deus vem ao nosso encontro, porque, como suas criaturas, Deus sabe da necessidade que temos de ouvir a sua voz, receber o seu perdão, a sua aceitação e o seu consolo, reafirmar a nossa esperança de vida e nutrir a nossa fé.


Culto como ação de Deus em nosso favor

   O que acontece no culto? Lutero defende que, no culto, acontece o puro beneficio de Deus em nosso favor. Na missa, diz o reformador, 'nós nada damos a Cristo, apenas recebemos dele'. Este dar exclusivo de Deus a nós acontece, sobretudo, nos Sacramentos, (Ceia e Batismo), mas também a pregação é uma dádiva divina.
 

O culto é um espaço no qual a presença de Deus se faz atuante na nossa vida. No culto, Deus fala a nós por meio da sua santa Palavra e dos Sacramentos e nós falamos com Deus por meio de oração e canto de louvor.

   Quanto a nós? Realizamos algo no culto? Nas palavras de Lutero, o que nós realizamos no culto é 'um exercício da fé'. Significa que nós nos dirigimos a Deus em oração (de confissão, de agrade-cimento, louvor e intercessão), cantos de louvor e damos ofertas às pessoas necessitadas. Em um desdobramento desse seu pensa-mento, Lutero escreve o seguinte: 'quando nos reunimos na missa para receber o testamento e o sacramento e para apascentar e fortalecer a fé, aí oramos unanimemente (essa oração pela obten-ção da fé, surgida dessa mesma fé, é uma boa obra) e distribuímos as esmolas aos pobres, como aconteceu outrora, quando os cristãos reuniam alimentos e toda espécie de gêneros que eram distribuídos após a missa aos necessitados, como aprendemos de S. Paulo, 1Co 11.21s. No entanto, essas obras e oração são uma coisa muito diferente do que o testamento e o sacramento, o qual ninguém pode ofertar ou dar nem a Deus nem aos seres humanos' (Obras Selecionadas, 2, p. 264).

   Em resumo, no Culto, Deus fala a nós por meio da sua santa Palavra e dos Sacramentos e nós falamos com Deus por meio de oração e canto de louvor.

Oculto como centro e essência da vida da comunidade

   Culto é acontecimento comunitário. Qual, então, é a importância do culto para a vida comunitária? A importância do culto para a comunidade cristã é descrita pelo Teólogo suíço Jean-Jacques von Allmen por meio da metáfora do coração. Diz ele: 'o que o coração é para a vida animal, o culto o é também para a vida da Igreja'. Assim como o coração, por meio do movimento de sístole e diástole, recebe e distribui ritmicamente o sangue pelas artérias do nosso corpo, mantendo-nos a vida e nos fornecendo energia, assim também o culto congrega a comunidade, fortalece as pessoas e as envia renovadas para a vida diária. É a partir do culto que a Igreja se dissemina no mundo e se mistura a ele, como levedura na massa. É ao culto que as pessoas - a Igreja - retornam do mundo, como Pescadoras que recolhem as redes ou Agricultoras que colhem a safra. Neste recolhimento, todas buscam descanso e reposição das suas energias para lançar-se, no novo dia, aos novos desafios cotidianos. Qualquer atividade comunitária é realmente justificável se surge a partir do culto e para ele retorna. Do culto sai o desafio para a tarefa da educação cristã, da diaconia, da liderança comunitária, da visitação e do engajamento social. É a fé que nos motiva para o serviço. É pelo culto que pulsa a vida da Igreja. Se o culto cessa, a comunidade morre. Do culto também sai o fortalecimento pessoal e familiar para enfrentarmos dores, angústias e crises existenciais. A Bênção e o Envio no final do culto salientam este sair motivador e esperançoso para o mundo: Vão e sirvam com alegria' .


A liturgia como instrumento a serviço de Deus e da comunidade no culto

   O que é a liturgia e para que ela serve? Como qualquer outro evento, o culto tem início, meio e fim, é organizado de certa forma, segue uma lógica. A isso damos o nome de liturgia, 'um conjunto de atos, palavras e formas, carregados de significado, expressos de certo jeito, em uma certa sequência (Livro de Culto da IECLB).

   Todo culto tem uma liturgia que pode ser desenvolvida de diferentes formas, mas não há culto sem liturgia. A liturgia é uma ferramenta colocada ao alcance da comunidade de fé para que o culto aconteça, estabelecendo a comunhão e o diálogo de Deus com as pessoas, bem como das pessoas com Deus e delas entre si. Como Igreja luterana, entendemos que liturgia não é algo que se inventa a cada culto, nem segue a vontade de cada um, cada uma. Liturgia é herança, tem as suas raízes na história da comunidade cristã. É nesta história que a nossa liturgia está ancorada. Liturgia também é identidade, está relacionada à confessionalidade. Liturgia ajuda a dar rosto para uma Igreja, ajuda os irmãos e as irmãs que estão no culto a se sentirem 'em casa'.

   Além da característica eclesiológica, liturgia é também uma necessidade antropológica. Qualquer grupo de pessoas que se reúne precisa saber como se comportar em conjunto. No caso da comunidade religiosa, como orar em conjunto, como cantar em conjunto, como se dirigir a Deus em conjunto, como gesticular em conjunto, etc.

   Seguir uma determinada liturgia no culto não significa que cada culto seja igual ou que a liturgia seja mera repetição. Eis aí um grande desafio: saber usar a liturgia, um legado das origens cristãs, como instrumento de um culto que seja novo a cada domingo, significativo para cada pessoa que dele participa e contextualizado em cada comunidade. Liturgia não é apenas tradição e identidade, é também renovação e criatividade. O importante é que, a cada culto, a liturgia sirva como ferramenta a serviço de Deus e da comunidade, para que o contato e a proximidade que buscamos com Deus, no culto, possam de fato acontecer. 

É a fé que nos motiva para o serviço e é pelo culto que pulsa a vida da Igreja. Se o culto cessa, a comunidade morre.

 

 

Cat. Dra. Erli Mansk, graduada em Teologia, com ênfase no Pastorado e em Educação Cristã, com Mestrado Profissionalizante em Liturgia e Doutorado em Teologia Prática (A ritualização das passagens da vida: desafios para a prática litúrgica da Igreja), todos pela Faculdades EST em São Leopoldo/RS, é Coordenadora de Liturgia da IECLB 

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