Jornal Evangélico Luterano

Ano 2014 | número 778

Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 18:56

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos

   O que um hino pode falar para a nossa fé? É uma instigante pergunta colocada como ponto de partida para este artigo. Ao lado desta, poderíamos acrescentar outra: O que um hino pode falar sobre a nossa fé?

   Conta-se que, nos dias da Reforma, as ideias do Monge de Witt enberg, Lutero, teriam chegado também à Igreja da cidade de Lemgo. Na Prefeitura, espalhou-se uma inquietação, pois havia boatos na cidade de que aquilo que se fazia agora na Igreja necessitava de atenção, que estavam sendo inseridas práticas diferentes e desconhecidas. As ideias de Lutero poderiam tomar grande vulto, por isso era necessária atenção aos fatos. Precisavam ser tomadas atitudes! No entanto, para tal, deveria ser planejada uma estratégia. O Prefeito precisava saber com certeza em que pé as coisas estavam e mandou à Igreja um funcionário, que deveria observar tudo e fazer um relatório. Depois de algum tempo, o funcionário voltou. ‘Então?’ – perguntou o Prefeito. ‘Senhor, eles já estão todos cantando!’ – teria dito o funcionário. O Prefeito comentou laconicamente: ‘Tarde demais. Está tudo perdido!’.

   Se é real ou apenas simbólica tal história, não o sabemos, mas dela retiramos algo essencial para a nossa vida como Igreja de confissão luterana. Esse Prefeito e o seu funcionário sabiam algo importante sobre a Reforma: cantar os hinos significava compreender, entender, absorver. Significava fazer parte!

   Cantar hinos é, desde o princípio, uma atividade evangélica! A Reforma é também um movimento musical. Lutero compreende que, nos tempos da Reforma, ‘Deus tem pregado o Evangelho também por meio da Música’, por isso ele dedica atenção pessoal ao assunto.

   Em Romanos 10.17, está escrito que a fé vem pelo ouvir e o movimento da fé evangélico-luterana está firmemente ancorado na oralidade. O Evangelho é, assim, um evento sonoro. Aquilo que imprimimos em livros e papel é apenas um lembrete, uma ajuda para os nossos cérebros, para a nossa memória, já que não conseguimos reter completamente a Bíblia. A Palavra se torna viva quando ela soa! O ouvir tem um significado muito importante para a fé, que Lutero captou muito bem, quando chega a afirmar, nas suas exposições sobre o Gênesis, que ‘os milagres que se apresentam aos nossos olhos são muito menores do que aqueles que apreendemos com os nossos ouvidos’.

   Lutero se refere à música como dádiva e criação de Deus, para o louvor da Sua glória, mas esse é somente um lado. Como o próprio Lutero menciona, temos aí um caminho de duas mãos, pois, com a mesma música, que é instrumento para a glória de Deus, as pessoas são conduzidas, aperfeiçoadas e fortalecidas na sua fé. Os hinos transportam a mensagem evangélica, são meio do Evangelho. Deus vem em sua Palavra, para tanto, pode fazer uso da voz de qualquer pessoa!

   O objetivo era que a Palavra de Deus estivesse entre as pessoas – também em forma de música. Para serem efetivos, os hinos precisavam ser (re)escritos em Alemão, que o povo poderia entender. Ele convidou mestres de renome e com reputação para compor, como Ludwig Senfl , e tinha no seu círculo próximo Johann Walter, o primeiro Chantre (Mestre de Coro) luterano, e Georg Rhau, maior Editor de música da Reforma. Com eles, trocava ideias sobre música e sempre de novo convocava a ‘habilidade’ de tais pessoas para colocar-se a serviço da propagação da Palavra. Lutero não somente encomendou material de outros compositores, mas ele mesmo se pôs à tarefa de compor novos hinos e revisar antigos hinos legados pela tradição, corrigindo-os onde necessário.

   O seu interesse era que a música fosse compreensível. Então, o conteúdo textual precisava ser simples. Ao mesmo tempo, o vocabulário tinha que ser genuíno e apropriado, leve e fl uente, como deve decorrer da graça, por isso também alegre. As notas deveriam estar em harmonia com o texto e ambos deveriam expressar a mesma ideia. Lutero mostra mais de uma vez a diferença entre a música composta por obrigação e devedora da lei e a música fluente, que provém da graça de Deus.

   É por isso que os seus hinos são caracterizados por simplicidade e força. Neles se expressa a alegria da justifi cação, que era o coração que batia na sua Teologia. Mais que tudo, no entanto, Lutero tinha extraordinária habilidade com as palavras: pensamentos profundos em palavras bem claras. Ele não deixou dúvidas quanto ao que quis dizer, usando a palavra certa no lugar certo.

   Mesmo que a Palavra que soa seja realmente o Evangelho, como já dito, nós necessitamos da Palavra escrita para ajudar a nossa memória a não perder tesouros. Entre 1524, data do primeiro hinário, e a morte de Lutero, em 1546, estima-se que mais de cem hinários foram impressos e produzidos na Alemanha. Isso demonstra a importância dos hinos para a Reforma.

   Convido você a fazer um exercício: procure o hinário Hinos do Povo de Deus 1 e o abra no hino de número 155, Cristãos, alegres, jubilai. Em tal hino, Lutero escreve a respeito da graça e da ação de Deus na sua vida. Em melodia e texto, está expresso o espírito de Lutero, de proclamação da obra de Deus na vida humana. Na missa alemã, há a prescrição de cantá-lo entre a pregação e a confi ssão de fé. Diante da pergunta sobre um apanhado geral daquilo que Lutero crê, chega-se a este hino. Leia atentamente tal hino e, se possível, cante-o!

   Uma definição de culto, bastante conhecida, foi formulada por Lutero para a dedicação da Igreja de Torgau. O seu desejo é que naquele prédio não aconteça outra coisa, ‘além de que o nosso querido Deus pessoalmente converse conosco por meio da sua Santa Palavra e nós, em contrapartida, conversemos com Ele em oração e cantos de louvor’.

   Superficialmente, poderíamos supor, a partir de tal definição, que Ministros e Ministras reservam para si a tarefa de dizer a Palavra de Deus e a Comunidade, junto com Musicistas, responde, entre outros modos, pelo canto. Quando observamos os hinos que cantamos, nos damos conta de que os cantos estão em ambos os lados da comunicação litúrgica. Temos muitos hinos que expressam gratidão, louvor, súplica ou clamor. Quando os cantamos, estamos realizando exatamente tais ações. Da mesma forma, hinos não são somente a palavra daqueles que as proferem, respondendo a Deus. São também a Palavraoutra, que, paradoxalmente, nos nossos próprios lábios, nos sobrevém de fora de nós. Ali, o próprio Deus nos fala. ‘Ao Filho disse o Pai no céu: o tempo está chegado; à terra desce, ó Filho meu e salva o condenado! Liberta-o de pecado e dor, morrendo, sê-lhe o Redentor: que tenha nova vida’. Quem canta tais versos não é simplesmente ele mesmo, mas é mais. Na sonoridade da voz humana, o próprio Deus fala! Observe: nas últimas estrofes do hino Cristãos, alegres, jubilai, quem fala é Cristo! Quais outros hinos do hinário apresentam a mesma característica? A título de sugestão, indicamos a primeira estrofe do hino 151, Não quero, diz-nos o Senhor, e o hino 177, Segui-me, diz Cristo.

   A via dupla da música, expressa por Lutero, também é corroborada pelo Compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Para ele, a música servia para glória de Deus e recreação do temperamento. Música Sacra é música para a alma, Palavra, pregação e faz o papel profético e de cura d’almas, por isso, mais uma vez, torna-se necessário o devido cuidado com o repertório escolhido. Quando a Comunidade cantar, ouça e reflita sobre o que se canta: podemos afi rmar que o que temos ouvido contemporaneamente é sempre o Evangelho?

   O que cantamos tem um importante papel na identidade confessional. Ali se ‘prendem’ e ‘dependuram’ conceitos muito centrais à fé evangélico-luterana. Ali está uma grande parte da herança. Como saber para onde queremos ir se desconhecemos de onde viemos? Por outro lado, o canto comunitário desejado por Lutero fala à nossa fé na medida em que nos esvazia da nossa autossuficiência e nos coloca em Comunidade, interdependentes, soando juntos e juntas. A música, que, originalmente, estava aí para congregar a Comunidade, muitas vezes, hoje, serve para diferenciá-la e dividi-la...

   Os hinos que cantamos não são nossa propriedade pessoal – nem dos Compositores. São um legado de fé, contam a história da nossa fé e nos colocam ao lado de cristãos que neles encontraram, em outros tempos, força, consolo e a própria Palavra. Para concluir e ilustrar, trazemos palavras de Lutero, encontradas no Tratado sobre as últimas palavras de Davi: ‘Santo Ambrósio compôs muitos hinos da Igreja. Eles são chamados Hinos da Igreja porque a Igreja os aceitou e os canta simplesmente como se a Igreja os tivesse escrito e como se eles fossem os cantos da Igreja, por isso não é costume dizer: ‘Assim canta Ambrósio, Gregório, Prudêncio, Sedúlio’, mas ‘assim canta a Igreja Cristã’, porque estes são os cantos da Igreja, que Ambrósio, Sedúlio, etc., cantam com a Igreja e a Igreja com eles. Quando eles morrem, a Igreja sobrevive a eles e prossegue cantando as suas canções’.

   Em Romanos 10.17, está escrito que a fé vem pelo ouvir e o movimento da fé evangélico-luterana está firmemente ancorado na oralidade. O Evangelho é, assim, um evento sonoro. Aquilo que imprimimos em livros e papel é apenas um lembrete, uma ajuda para os nossos cérebros, para a nossa memória, já que não conseguimos reter completamente a Bíblia. A Palavra se torna viva quando ela soa!

   Mus. Dra. Soraya Heinrich Eberle, Bacharel em Regência Coral pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Mestre e Doutora em Teologia pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, é Professora na Faculdades EST e no Colégio Pastor Dohms, em Porto Alegre/RS, e Coordenadora de Música da IECLB

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