Jornal Evangélico Luterano

Ano 2014 | número 779

Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 19:36

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos O Ano da Igreja

   Observando a natureza, enxergamos nela elementos interessantes de analogia com o Ano Eclesiástico. As mudanças, a cada estação, mostram a sua dinamicidade (frio e calor, chuva e sol, vento e tempestade, folhagens e flores). Ao mesmo tempo, ela se caracteriza por ritmos e repetições (noite e dia, vida e morte, lua cheia, nova, crescente e minguante).

   O Ano Eclesiástico, com os seus ciclos, as suas festas, os seus domingos, os seus símbolos, as suas cores e a sua liturgia, também se desenrola entre ritmo e repetição, assim como nos apresenta elementos dinâmicos.

   Podemos dizer que o Ano Eclesiástico, embora marcado pela repetição, é uma moldura por onde passam coisas novas, aspectos diferentes da vida de Jesus e do Reino de Deus por ele proclamado e vivido.

O Ano Eclesiástico

   O Ano Eclesiástico (também conhecido como Ano litúrgico ou Ano da Igreja) é a forma como a Igreja estrutura o seu tempo, organiza as suas festas e os seus dias de culto. Assim como o calendário civil, que faz a sistematização do ano, com os seus dias, as semanas, os meses, os feriados e as festas, com o mesmo objetivo, na Igreja, estabeleceu-se um Calendário Eclesiástico ou litúrgico. A diferença deste em relação ao calendário civil é que o Ano da Igreja inicia no Primeiro Domingo de Advento, quatro semanas antes do Natal.

   Jesus Cristo é o centro da pregação do Evangelho e da fé cristã. É a sua vida, com as suas estações, que determina a organização do Calendário Eclesiástico. O seu nascimento marca o início do Ano da Igreja e assinala a primeira grande festa do nosso calendário, mas é a Páscoa a mais importante festa cristã, o núcleo em torno do qual giram todos os demais eventos. A Páscoa ilumina todas as demais festas do Ano Eclesiástico.

A centralidade do Ano Eclesiástico

   Após a morte de Jesus, a Comunidade cristã se manteve unida por causa da fé na ressurreição do seu Senhor. Confi ante que Jesus estava presente em seu meio pelo poder do Espírito Santo (Atos 2), ela perseverava na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações (Atos 2.42).

   Conforme lemos em Atos 20.7 e confirmamos em outros escritos dos primeiros séculos da história cristã, a reunião comunitária em torno da Palavra de Deus e do partir do pão acontecia no primeiro dia da semana, o Domingo. Na reunião semanal, a cada Domingo, a Comunidade cristã dava testemunho da sua fé no Cristo ressurreto. Cada Domingo era uma pequena Páscoa! Portanto, a primeira e mais importante festa da Comunidade cristã foi (e continua sendo) a Páscoa.

   Aos poucos, a Páscoa foi se tornando uma festa anual, ocasião em que a Comunidade cristã celebrava todos os fatos ocorridos em torno da morte e da ressurreição de Jesus: a sua subida para Jerusalém, a sua traição, a sua prisão, a sua condenação, a sua cruz, a sua morte e a sua ressurreição. A celebração de cada um desses acontecimentos redundou no surgimento da Semana Santa. Era importante para a Comunidade cristã preservar na sua memória todos os acontecimentos que envolviam a festa da Páscoa: a morte de Jesus na cruz e a sua ressurreição. Celebrar a ressurreição sem ter presente quem é o ressurreto é perder o significado da própria ressurreição. O ressurreto é o Cristo da cruz!

Outras festas

   A partir da festa anual da Páscoa, se desenvolveram as demais grandes festas: Pentecostes e Ascensão, Epifania e Natal. A Comunidade cristã ampliou a sua busca pelo conhecimento da vida de Jesus e passou a refletir sobre cada acontecimento relacionado a ele e a celebrá-los. Em torno das suas principais festas, a Comunidade cristã agregou, ao longo dos anos, outros temas importantes da Igreja, como, por exemplo, a Trindade. Além disso, cada Igreja incorporou comemorações próprias, como o Dia da Reforma, na Igreja Luterana.

Os ciclos do Ano Eclesiástico

   Considerando as festas centrais que celebram a vida de Jesus Cristo, o nascimento da Igreja cristã e as festas específicas de cada Igreja, o Ano Eclesiástico se divide em três grandes ciclos: a) Ciclo do Natal, b) Ciclo da Páscoa e c) Ciclo do Tempo Comum.

   Ciclo do Natal: Advento, Natal e Epifania.

   Ciclo da Páscoa: Quaresma, Semana Santa, Páscoa, Ascensão e Pentecostes.

   Ciclo do Tempo Comum: Domingos após Epifania, Trindade, Domingos após Pentecostes, Ações de Graças (Festa da Colheita), Reforma e Domingo da Eternidade ou Cristo Rei.

Importância do Ano Eclesiástico

   O Ano Eclesiástico (ou litúrgico), com os seus ciclos e as suas festas, nos ajuda a refletir sobre vários aspectos:

- por meio da repetição, a Igreja assegura que os grandes feitos de Deus realizados ao longo da história da salvação sejam mantidos e lembrados reiteradamente.

- o Ano Eclesiástico, por meio da repetição, é uma ferramenta de formação cristã, pois ajuda a repassar a herança da fé para as novas gerações e a preservar a memória dos fatos históricos e eventos salvífi cos fundamentais da nossa fé.

- a celebração da Igreja cristã, a partir do seu núcleo (a Páscoa) e das suas principais festas, nos possibilita permanecer em sintonia com boa parte das Igrejas cristãs no mundo, ou seja, por meio do Ano Eclesiástico nós nos unimos a outras Igrejas para celebrar, na mesma época, os mesmos eventos da fé em Jesus Cristo.

   Assinalamos que o Ano Eclesiástico não é simples repetição ou mera lembrança do passado. Ao celebrarmos o Ano Eclesiástico, vivenciamos, hoje, o Evangelho vivo e a mesma salvação que Deus efetuou no passado. Celebrar é reatualizar, é tornar válido para as pessoas que participam da celebração, no preciso momento, aquilo que já aconteceu.

A diversidade do culto no Ano Eclesiástico

   O nosso culto é permeado de cores e símbolos. Os ciclos e as festas do Ano Eclesiástico possuem cores e símbolos que ajudam a tornar mais comunicativa a mensagem do Evangelho. Os ciclos são caracterizados por uma cor principal. Tradicionalmente, as cores púrpura, cinza, preta e azul (em suas tonalidades escuras e claras) são usadas para os tempos litúrgicos de caráter penitencial e reflexivo, como a Quaresma e o Advento. O branco é usado para as festas cristológicas, como Natal e Páscoa, mas o amarelo e o dourado também são válidos para esta ocasião. O vermelho é reservado para as festas relacionadas ao Espírito Santo (Pentecostes, Ordenações, Dia da Igreja, Dia da Reforma). Já o verde, em tonalidades diversas, é usado para o ciclo do Tempo Comum.

   Essas cores são, em geral, utilizadas nos tecidos dos paramentos, mas também podem se expressar nas velas, nas flores e outros símbolos.

   O que são os paramentos? Parte da ornamentação do templo, a casa de Deus, os paramentos são ricos em signifi cados simbólicos e fazem parte da nossa linguagem tão diversifi cada. Os paramentos compreendem tanto os antepêndios (peças coloridas que pendem diante da mesa do altar, do púlpito, estante de leitura), quanto as vestes litúrgicas dos Ministros e das Ministras. A palavra ‘paramento’ deriva do Latim parare e signifi ca preparar. Este significado remete para a função dos paramentos nos templos. Eles servem para preparar o ambiente do culto. Contudo, não são ‘peças decorativas’. Os paramentos são recursos visuais e simbólicos da Igreja, componentes importantes do nosso culto e contribuem para ele na medida em que ajudam a comunicar a mensagem do Evangelho.

   As cores correspondentes aos ciclos, às festas do Ano Eclesiástico, são as que defi nem as cores dos paramentos em cada culto. Pela cor dos paramentos sabemos a época do Ano litúrgico em que estamos. Os símbolos, por sua vez, remetem para algum aspecto significativo da Teologia do Ciclo Litúrgico, apontam para a mensagem do Evangelho do período específico.

Refletindo sobre o Ano Eclesiástico

   O Ano Eclesiástico serve para organizar a vida de culto da Igreja e orientar a sua pregação. Ele ajuda a Igreja a não se desviar daquilo que lhe é decisivo e o mais importante - ao colocar a Páscoa como festa central, o Ano Eclesiástico preserva o fundamento da nossa pregação: o Cristo crucifi cado e ressurreto. Isto signifi ca que é a partir desse núcleo que devemos olhar para todas as demais festas da Igreja. O Natal só tem sentido se enxergamos no menino da manjedoura o Cristo da cruz. Esse foi o caminho construído pela Comunidade cristã dos inícios. Ela olhou para trás, para a vida de Jesus, a partir do que ela experimentou na morte, na cruz e na ressurreição do seu Senhor.

   O Ano Eclesiástico não é simples repetição ou mera lembrança do passado. Ao celebrarmos o Ano Eclesiástico, vivenciamos, hoje, o Evangelho vivo e a mesma salvação que Deus efetuou no passado. Celebrar é reatualizar, é tornar válido para as pessoas que participam da celebração, no preciso momento, aquilo que já aconteceu.

   Com base na experiência da cruz e da ressurreição, a Comunidade seguidora de Jesus foi em busca da história do seu mestre e, à luz dessa sua experiência, interpretou todas as passagens da vida de Jesus: nascimento, Batismo, milagres, pregação, toda a sua vida. A história do Natal está tão relacionada com a história da Páscoa que a Igreja, ao organizar o seu calendário, colocou um período semelhante antes da Páscoa e antes do Natal, a Quaresma e o Advento, respectivamente, com o objetivo de preparar a festa de Cristo, o crucificado e ressurreto e a criança da manjedoura: o Salvador do mundo, o príncipe da paz.

 

   Cat. Dra. Erli Mansk, graduada em Teologia, com ênfase no Pastorado e em Educação Cristã, com Mestrado Profi ssionalizante em Liturgia e Doutorado em Teologia Prática (A ritualização das passagens da vida: desafi os para a prática litúrgica da Igreja), todos pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, é Coordenadora de Liturgia da IECLB

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