Jornal Evangélico Luterano

Ano 2015 | número 780

Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 18:45

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos Cruz e ressurreição - a Palavra de Deus

   A Igreja cristã se baseia em relatos, em palavras que contam acontecimentos objetivos, bem como experiências pessoais com Deus. A Bíblia é a fantástica coleção desses textos. A sua riqueza é inestimável, mas não deixa de ser palavra, com toda a sua fragilidade. Hoje, mais do que em qualquer tempo, vivemos uma inflação de palavras que vão perdendo o seu valor e a sua credibilidade. Com que facilidade se afirma uma coisa hoje e o contrário amanhã, sem, ao menos, enrubescer!

   A Igreja, no entanto, tem apenas a Palavra e o desafio é dizê-la de forma tão convincente, autêntica e comprometedora a ponto de ela não ser simplesmente atropelada pela enxurrada de palavras ocas e sem compromisso que se fazem ouvir por aí. Embora a Palavra bíblica tenha um poder inerente dado pelo próprio Deus, ela continua em sua fragilidade, em sua roupagem humana. Entretanto, nunca é tarde para lembrar que muitos dos artifícios que imaginamos e aplicamos para reforçar a Palavra e para impressionar pessoas podem levar a sérios descaminhos do espírito bíblico. Para falar a Palavra de Deus, é preciso ouvi-la assim como ela nos é testemunhada na Sagrada Escritura. Ocorre que tantas vezes pensamos que já sabemos de antemão o que está escrito ou o que deveria estar escrito. Boa parte das nossas divisões tem aí a sua origem!

   Por que insistimos tanto na palavra, na mensagem? Não teríamos instrumentos mais eficazes? Aliás, a Igreja cristã, em sua história, muitas vezes se deixou fascinar pela força, quer em cruzadas, quer em alianças com os poderosos ou em guerras religiosas! Boa parte de uma herança maldita nos persegue até hoje. Por que palavra? Uma resposta está na menor história de Natal que conheço: O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (João 1.14). A Palavra assumiu forma de gente, encarnou e foi reconhecida, identifi cada como glória [...] do unigênito do Pai. Dito de outra forma: a Palavra é concreta, palpável, eficaz.

   A resposta à nossa pergunta, na verdade, já é dada bem antes na Bíblia. Na primeira página, lemos que a Criação acontece por meio do falar de Deus: Deus fala e acontece! Os profetas nada mais têm do que palavras. Jeremias, por exemplo, acha que nem sabe falar e Deus lhe coloca as palavras na boca; Ezequiel recebe o encargo: Tu lhes dirás as minhas palavras, quer ouçam quer deixem de ouvir. Em seguida ele vê um texto e recebe a ordem: Come este rolo, vai e fala à casa de Israel. Palavras contra uma casa rebelde que não costumava aceitar certas palavras pacificamente. João Batista usa palavras, Jesus usa palavras, os apóstolos usam palavras..

   As nossas palavras, na verdade, nem nossas são. A mensagem que temos a divulgar é qualifi cada, determinada e avalizada pelo próprio Deus em Cristo. Mais precisamente, na morte e ressurreição de Cristo. O apóstolo Paulo o diz assim: ...nós pregamos o Cristo crucifi cado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios (1Coríntios 1.23). A cruz era e é escândalo. Antes de tudo, como instrumento de execução de criminosos e inimigos do regime. Ela era tão escandalosa e degradante que um criminoso romano – a cruz era dos romanos! – não devia ser crucificado.

   A Igreja é desafiada a pregar, divulgar e viver a partir da cruz! Não esqueçamos que também os discípulos se sentiram derrotados e desarrumados diante disso. A caminho de Emaús, eles tentaram voltar aos seus afazeres (Lucas 24.13s). Eles até tinham ouvido algumas mulheres do grupo relatarem fenômenos inusitados quando foram ao túmulo (o corpo não estava lá, havia anjos ‘os quais afi rmam que ele vive’), mas havia um ponto fraco em tudo isso: o testemunho era de mulheres, que, na época, nem ao menos podiam depor em juízo. Nos demais relatos nos Evangelhos, em descrições diferentes, são as mulheres que – em primeira mão – anunciam a ressurreição. Os homens, até os mais chegados a Jesus, ficam céticos e desconfiados, sendo Tomé o exemplo mais bem acabado (João 20. 24s).

   Uma reviravolta vai acontecendo e modifi ca até o sentido da cruz. Uma frase lapidar em Atos dos Apóstolos o diz assim: Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que este Jesus, que vós crucifi castes, Deus o fez Senhor e Cristo (2.36). Em uma linguagem muito simples: Deus inverteu o jogo. É o próprio Deus, por meio do seu Espírito Santo, que abre olhos e corações para aquilo que realmente tinha acontecido: o crucifi cado, desprezado, banido, estava vivo.

   A ressurreição não anulou a cruz nem a tornou menos escândalo e a sua mensagem é e será escandalosa. No entanto, ela ganha uma interpretação contrária a que tinham Pilatos e o povo que aplaudiu a execução. Entre outros, se encontra no profeta Isaías a prefiguração do sofrimento assumido em favor dos outros no sofrimento e na morte: Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por afl ito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos (53.4-6).

   Na cruz, o Filho de Deus é humilhado e aceita identificarse com as dores e os sofrimentos dos seres humanos. Não só isso: neste gesto, ele assume também toda a culpa que repousa sobre a humanidade que teima em se desencaminhar, para o seu próprio mal, o mal da humanidade, o mal de toda a Criação. Tamanha culpa é simplesmente impagável. O ser humano, ainda que criatura de Deus, não tem saldo a seu favor para quitar esta dívida. Na cruz, ela nos é tomada gratuitamente e depositada aos pés de Deus para que ele a desfaça. Desfazendo-a, Deus nos perdoa por graça, dando-nos nova chance para a vida, uma vida agora à luz da ressurreição que aponta para o Reino defi nitivo de Deus.

   Esta novidade de vida, este novo jeito de moldar e estruturar a vida no horizonte colocado por Deus no Cristo, é uma espécie de loucura, pois é viver contra a correnteza do mundo. Anunciar paz em um mundo sempre pronto para novas guerras é loucura. Falar em justiça em um mundo com tanta injustiça parece insensatez. Falar em honestidade e respeito de uns pelos outros em meio a tanta mentira e corrupção em todo lugar nos enche de revolta e, pior, de desânimo. Falar em comunhão e solidariedade interpessoal quando há tanto ódio e tanta destruição do tecido de relacionamento parece estupidez... O que fazer com a cruz e a ressurreição, que modifi caram tanto a vida dos primeiros cristãos?

   Sem querer dar espaço a qualquer ufanismo ou mérito por obras, é preciso lembrar que, no correr da história, milhares e milhares de pessoas foram alcançadas pela mensagem da cruz e ressurreição e se puseram a caminho em novidade de vida, se necessário contra a maré e pondo em risco a sua própria vida. Como afirma a carta aos Hebreus, temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas... (12.1). De todas elas, apenas como ilustração, destaco: Martim Lutero, que teve que nadar contra muitas correntezas, Friedrich von Bodelschwingh com seu empenho por pessoas com defi ciência na Alemanha, exemplo que se multiplicou pelo mundo, Martin Luther King nos Estados Unidos, Desmond Tutu na África do Sul, Dietrich Bonhoeff er, e com ele tantos outros, que enfrentaram o regime nazista. Qual a arma que tinham? A Palavra – a mensagem da cruz e ressurreição testemunhada na Bíblia e colocada em prática em momentos e formas diferentes.

   Ainda que a Palavra seja de Deus e ainda que não esteja em nossas mãos transformar a sua fragilidade em poder, é imperativo que cristãos, Igrejas e as suas instituições sejam bons despenseiros da multiforme graça de Deus (1Pedro 4.10), não apenas no cuidado do ‘sagrado’, mas no cuidado com a vida e o mundo. Tomo emprestadas palavras da Escritora e Filósofa francesa Simone Weil (1909-1943) para resumi-lo: ‘Eu não reconheço se uma alma passou pelo fogo do amor de Deus por sua maneira de falar de Deus, mas por sua maneira de falar das coisas do mundo’.

   Somos Embaixadores de Deus no mundo e para o mundo. A nossa ferramenta, por excelência, é a Palavra da cruz e ressurreição.

   O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (João 1.14). A Palavra assumiu forma de gente, encarnou e foi reconhecida, identificada como glória [...] do unigênito do Pai. Dito de outra forma: a Palavra é concreta, palpável, eficaz.

 

 

P. em. Harald Malschitz ky, formado pela Faculdades EST, em São Leopoldo/RS, foi Pastor em Mercedes/PR e Marechal Cândido Rondon/PR, Pastor Regional da 5a. Região Eclesiástica e Pastor na Paróquia Matriz, em Porto Alegre/RS, Professor na EST, Professor e Pastor em Cuba, Secretário de Formação da IECLB, Assistente da Presidência da IECLB e Coordenador do Proeduc, na área de apoio à formação e pós-graduação

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