Jornal Evangélico Luterano

Ano 2015 | número 783

Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019

Porto Alegre / RS - 22:48

Unidade

Lutero - Reforma: 500 anos Palavra de Deus: lei e Evangelho

   Aquilo que o movimento de Reforma, no século XVI, entendeu como central na vida da Igreja preserva toda a sua atualidade, a saber, o anúncio da salvação por graça mediante a fé. Sobre este fundamento ergue-se o edifício da existência cristã. A Palavra de Deus, que dá testemunho desta mensagem, alcançanos como Palavra que desmascara e denuncia todo o mal e a injustiça que há em nós e na nossa sociedade e nos anuncia um caminho novo, um recomeço que o próprio Deus fez e faz conosco, a partir do perdão que restitui-nos a possibilidade de sermos felizes. A Palavra de Deus é lei e Evangelho. Fosse ela somente lei, ela nos destruiria, pois não conseguimos cumprir toda a lei. Fosse ela somente Evangelho não promoveria o arrependimento a que somos chamados e chamadas. A consciência humana é atribulada pela lei, que desmascara qualquer pretensão de uma pessoa se julgar melhor que outras, mas, no Evangelho, encontra alívio e renovadas forças para abraçar a vida com gratidão!

   No século XVI, as pessoas se preocupavam muito com a pergunta: ‘Como alcançarei a salvação?’ ou ‘O que posso fazer para me tornar justo perante Deus?’. Estas perguntas existenciais levaram o Reformador Martim Lutero a desistir de uma carreira profissional no campo do Direito para tornar-se monge. No mosteiro, ele seguia todas as normas que lhe eram ensinadas. Em tudo procurava ser perfeito para merecer a salvação, mas nunca sabia ao certo se já tinha feito o suficiente. A descoberta libertadora para Lutero foi que não é preciso fazer algo, pois, em Cristo, Deus mesmo nos faz pessoas justas e salvas. É pela fé na obra de Cristo em nosso favor que podemos ter paz em nossos corações. Deus nos reconcilia consigo não pelo mérito das nossas obras, mas por sua graça.

   É difícil dizer o quanto, hoje, as pessoas ainda se importam se Deus as salva ou não e se Ele o faz por graça ou não. A indiferença, mais do que a descrença, é um dos males do nosso tempo. As pessoas já não temem mais o juízo de Deus. Na época de Lutero, era difícil livrar-se da imagem de um Deus juiz, pronto para castigar. A misericórdia de Deus tinha sido deixada em segundo plano.

   Hoje, abusa-se da graça e da bondade divinas e desejase que Deus atenda aos caprichos da gente. Esquecemo-nos que devemos prestar contas dos nossos atos e agimos como se nada mais fosse pecado e como se nossas vidas estivessem nas nossas mãos apenas. Desta forma, para muita gente, a vida se torna um fardo pesado, pois é desesperador pensar que a minha vida depende apenas de mim mesmo, que sou pessoa falha e limitada! Há conforto em saber que Deus cuida da minha vida, pois Ele me criou e me sustenta, justamente também quando experimento a cruz e o sofrimento. Não é por nosso merecimento nem por nossas obras nem por nossa piedade que Deus nos reconcilia consigo e nos dá paz, mas porque nos ama (Romanos 5). Ele vem ao nosso encontro. Desse encontro com Deus brotam alegria e novo sentido para a vida.

   A Boa Notícia é que Cristo morreu em favor de pecadores e de pecadoras. Somos nós os alvos do amor de Deus. Não precisamos mais fugir dele como quem foge de um carrasco. Também não precisamos viver como se este mundo estivesse irremediavelmente fora de rumo e ninguém mais precisasse prestar contas dos seus atos. Podemos nos achegar a ele, pois o Pai de Jesus Cristo é o Deus que procura quem está longe e traz para perto de si. Somos amparados e amparadas por um Deus que trabalha pela nossa salvação! Crer nisso foi libertador para Lutero e para tanta outra gente que aprendeu a confessar que a salvação é obra de Cristo em nosso favor.

   A Palavra de Deus, na forma de lei e Evangelho, é caminho  de vida na medida em que aprendemos a con ar inteiramente na graça, na misericórdia e no amor de Deus. 

   A certeza que somos amparados e amparadas por Deus nos dá liberdade, nos faz mais alegres e permite que vivamos exercitando solidariedade. Cristo identificou-se com os pequenos e fracos (Mateus 25). É a ele que servimos quando servimos aos que de nós necessitam. É disso que também nos lembra Lutero: ‘Cristo nos ensina para quem devemos fazer boas obras, mostrando-nos quais são boas obras. Todas as outras obras, com exceção da fé, devemos fazê-las para o próximo, pois Deus não exige de nós que lhe façamos uma obra, a não ser unicamente a fé, por meio de Cristo. Com a fé, Ele tem o suficiente. Com ela, o honramos como aquele que é benévolo, misericordioso, sábio, bom, verdadeiro...

   Depois disso, cuida apenas para proceder com o próximo como Cristo procedeu contigo e deixa todas as tuas obras com toda a tua vida visar ao teu próximo. Procura onde há pobres, doentes e débeis; ajuda-os; exercita neles a tua vida, para que tenham apoio, por tua parte, todos aqueles que precisam de ti; ajuda-os na medida das tuas capacidades com teu corpo, teus bens e tua honra... Sabe que servir a Deus não é outra coisa, senão servir ao teu próximo, fazendo-lhe bem, com amor, seja ele uma criança, uma mulher, um criado, um inimigo ou um amigo. Não faças distinções quaisquer. O teu próximo é aquele que necessita de ti em assuntos de corpo e alma. Onde podes ajudar corporal e espiritualmente, lá há serviço a Deus e boas obras’.

A Palavra de Deus sempre nos alcança como lei e Evangelho. A lei denuncia o pecado humano e revela a nossa condição de pessoas escravas do pecado. Não faço o bem que eu prefiro, mas sim o mal que eu não quero (Romanos 7), assim o apóstolo Paulo resumiu a nossa situação. Necessitamos do Evangelho, isto é, do anúncio de que somos pessoas amadas por Deus, ainda que a sua lei denuncie a nossa indignidade.

   Quando confiamos na obra que Jesus Cristo realizou em favor de nós, abre-se a possibilidade de sairmos do nosso egoísmo e de vencermos os nossos preconceitos. Deixa de haver lugar para o orgulho, que levanta muros entre as pessoas. Deus nos salva por sua graça mediante a fé e o fundamento disso é o seu amor, concretizado na cruz de Cristo. Esta é a forma como Deus promove vida para a eternidade e para o presente. Estar salvo, por isso, é também estar comprometido com essa promoção da vida. Estar em paz com Deus é também viver inconformado com o pecado na nossa vida pessoal, comunitária e social.

   Conta-se de Lutero que teria dito que, se soubesse que o mundo terminaria amanhã, ele aproveitaria o dia de hoje para plantar uma macieira e para pagar as suas dívidas, pois o cristão jamais entrega a boa Criação de Deus de mãos beijadas ao inimigo de Deus. A pessoa cristã planta esperança e age com retidão. Ela se deixa guiar pela Palavra de Deus na forma de lei e Evangelho. A lei nos diz o que devemos e o que não devemos fazer, mas não cria as condições para que o façamos. É o Evangelho da graça e do amor de Deus que nos socorre

   Lutero expressou essa realidade assim: ‘Acostume-se à expressão de que são duas coisas totalmente diferentes fazer as obras da lei e cumprir a lei. A obra da lei é tudo que a pessoa faz com a lei e pode fazer com ela, partindo da sua vontade livre e das suas próprias forças. Como, porém, sob e ao lado de semelhantes obras, permanecem no coração indisposição e coação em relação à lei, todas essas obras são perdidas e inúteis. Isto é o que Paulo quer dizer: ‘Ninguém será justifi cado diante de Deus por obras da lei’. [...] Como haverá de agradar a Deus a obra que provém de um coração indisposto e desobediente? Entretanto, cumprir a lei significa: realizar a sua obra com vontade e amor, levar uma vida reta e conforme a vontade de Deus livremente, sem a coação da lei, como se não houvesse lei ou punição. Semelhante disposição partindo do livre amor é o Espírito Santo quem a dá ao coração (Romanos 5.5). O Espírito, porém, não é dado senão em, com e por meio da fé em Jesus Cristo. [...] Assim, a fé não vem senão exclusivamente pela Palavra de Deus ou Evangelho que prega a Cristo como o Filho de Deus e pessoa humana, morto e ressurreto em nosso favor [...]’.

   Esta perspectiva nasce de uma compreensão de que a Palavra de Deus sempre nos alcança como lei e Evangelho. A lei denuncia o pecado humano e revela a nossa condição de escravos e escravas do pecado. Não faço o bem que eu prefiro, mas sim o mal que eu não quero (Romanos 7), assim o apóstolo Paulo resumiu a nossa situação. Enquanto houver a necessidade de uma lei que nos ordene ‘não matarás’, por exemplo, essa mesma lei denuncia quem nós de fato somos. Necessitamos do Evangelho, isto é, do anúncio de que somos pessoas amadas por Deus, ainda que a sua lei denuncie a nossa indignidade. A Palavra de Deus, na forma de lei e Evangelho, é caminho de vida na medida em que aprendemos a confiar inteiramente na graça, na misericórdia e no amor de Deus. 

 

P. Me. Osmar Luiz Witt , Professor na Faculdades EST e Pastor na Casa Matriz de Diaconisas, ambas em São Leopoldo/RS

 

 

 

 

 

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