O nosso Pai que está no céu

Auxílio Homilético

31/07/2015

Prédica: Mateus 6.9
Leituras:Salmo 103 e Gálatas 4.1-7
Autor: Verner Hoefelmann
Proclamar Libertação - Volume: XXXIX

 

1. Introdução geral à oração do Senhor

Nos anos 80 da era cristã, duas versões do Pai-Nosso circulavam pelas comunidades. A primeira encontra-se em Mt 6.9-13, e a segunda, em Lc 11.2-4. Elas possuem quase a mesma estrutura: a uma introdução segue a invocação, as preces pela causa de Deus (formuladas na segunda pessoa do singular) e as preces pela causa humana (formuladas na primeira pessoa do plural). Uma comparação mais cuidadosa pode encontrar outras semelhanças, mas também algumas diferenças, como se constata no quadro abaixo.

Introdução
9 Assim, pois, orai vós:
2... Quando orardes, dizei:
Invocação
Pai nosso, que estás nos céus,
Pai,
 
Preces pela causa
de Deus
santiicado seja o teu nome;
santiicado seja o teu nome;
10 venha o teu reino;
venha o teu reino;
faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu;
 
 
 
Preces  pela causa
humana
11 o pão nosso de cada dia dá-nos hoje;
3 o pão nosso cotidiano dá- nos de dia em dia;
12 e perdoa-nos as nossas dí- vidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores;
4 perdoa-nos os nossos peca- dos, pois também nós perdoa- mos a todo o que nos deve;
13 e não nos deixes cair em tentação;
e não nos deixes cair em ten- tação.
mas livra-nos do mal.
 
Doxologia
Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém!
 
 
– Em ambas, Deus é invocado como Pai, mas, em Mateus, a invocação é ampliada;
– as duas primeiras preces pela causa de Deus são iguais, mas, em Mateus, há uma terceira;
– as duas primeiras preces pela causa humana são semelhantes, mas Ma- teus possui duas a mais;
– a versão de Mateus possui uma doxologia, ausente na versão de Lucas;
– nas partes em comum, há pequenas diferenças, sobretudo nas preces so- bre o pão e o perdão.
 
Uma terceira versão circulava em ins do primeiro século num catecismo primitivo chamado Didaqué (8.2-3). Ela é muito semelhante à versão de Mateus e parece depender dela. Na introdução consta: “Também não oreis como os hipócritas, mas como o Senhor mandou no seu Evangelho”. A doxologia é mais breve: “Pois teu é o poder e a glória pelos séculos”. A instrução conclui com uma exortação: “Assim orai três vezes por dia”.
 
Como explicar que o Pai-Nosso tenha circulado com essas diferenças? O contexto dos evangelhos fornece pistas importantes. Em Mateus, a oração está inserida num bloco em que Jesus adverte contra algumas práticas piedosas dos fariseus (a esmola, a oração e o jejum), abusadas para ostentação e vaidade pessoais (6.1-18). A instrução sobre a oração (6.5-15) é dividida em quatro partes:
 
a) Jesus recomenda que os discípulos não imitem os fariseus, que nos horários de oração encontram-se “casualmente” em locais públicos para poder ostentar sua piedade à multidão. Os discípulos, ao contrário, devem buscar na oração apenas a comunhão com Deus, razão pela qual devem estar a sós em sua presença (6.5-6)
 
b) Assim também não se deve imitar a loquacidade dos pagãos, pois o Pai celeste conhece as necessidades de seus ilhos melhor do que eles mesmos (6.7-8).
 
c) O Pai-Nosso serve de exemplo para uma oração breve e ao mesmo tempo de guia para o conteúdo de outras orações (6.9-13). d) Uma palavra inal de Jesus, baseada na quinta prece, indica a disposição necessária para uma boa oração: pode pedir o perdão divino apenas quem está disposto a perdoar (6.14-15). Como se vê, Mt 6.5-15 gira em torno da forma e do conteúdo da oração. Não é difícil imaginar que esse bloco fazia parte de um pequeno catecismo comunitário sobre a oração, composto a partir de palavras de Jesus e destinado a instruir neóitos na fé cristã.
 
Catecismo semelhante encontramos também em Lc 11.1-13:
a) No prelúdio, o texto menciona a prática da oração do próprio Jesus, o pedido dos discípulos para que ele os ensine a orar e a resposta de Jesus (11.1-4).
b) Segue a parábola do amigo importuno, que exorta a perseverar na oração, mesmo que ela não seja logo atendida (11.5-8).
c) Segue uma exortação semelhante na forma de um imperativo (11.9-10).
d) O bloco conclui com a comparação do pai que dá coisas boas a seus ilhos, que ilustra a disposição do Pai celestial de presentear seus ilhos com as suas dádivas e com o Espírito Santo (11.11-13).
 
O contexto específico de cada versão ajuda a explicar as diferenças entre elas: o catecismo de Mateus destina-se a cristãos de origem judaica, que sabem orar desde a infância, mas correm o risco de cair na rotina e fazer mau uso da oração. A versão de Lucas dirige-se a pessoas que nada sabem sobre a oração e precisam ser encorajados a praticá-la, ou seja, é uma catequese para gentios convertidos à fé cristã.
 
Qual teria sido a versão original? Para responder essa pergunta, uma ob- servação é decisiva: a versão curta de Lucas está integralmente contida na versão longa de Mateus. Conforme as regras de transmissão das tradições, é mais prová- vel que Mateus (ou a tradição na qual se baseia) tenha ampliado a invocação e a quantidade de preces do que Lucas (ou a tradição antes dele) tê-las reduzido. Essa tendência pode ser comprovada no caso da doxologia, que foi secundariamente acrescentada à versão de Mateus. Ela não consta em importantes manuscritos e em outros aparece com diferentes formulações, como no exemplo da Didaqué. Era costume no judaísmo concluir as orações com uma doxologia, livremente escolhida por quem orava. No processo de transmissão escrita, uma delas era copiada no manuscrito de Mateus, até que a doxologia atual se impôs.
 
Mas também em relação a outros casos há explicações razoáveis para afirmar que Mateus apresenta uma versão ampliada. A invocação curta de Lucas (pater em grego, abba em aramaico) encontra similaridade em outros contextos de oração (Mc 14.36; Rm 8.15; Gl 4.6). A invocação longa e solene de Mateus, por seu turno, corresponde ao uso corrente da piedade judaica. A sétima prece (mas livra-nos do mal) pode ser vista como a versão positiva da sexta (e não nos conduzas em tentação). O conteúdo da terceira prece já está incluído nas duas anteriores, pois a santificação do nome de Deus e a vinda de seu reino são inconcebíveis sem o cumprimento de sua vontade.
 
A pesquisa resume da seguinte forma a questão: Lucas deve ter preser- vado o teor original no que concerne à invocação e ao número de petições. Mas Mateus, na parte comum, teria preservado melhor a formulação. Os acréscimos refletem a versão corrente do Pai-Nosso na igreja judaico-cristã, que por viver num ambiente mais rico de tradições litúrgicas enriqueceu a oração de Jesus com novos elementos. Essa parece ser a explicação mais convincente, embora não se possa excluir totalmente a hipótese de que Jesus tenha ensinado o Pai-Nosso em diferentes ocasiões.
 
2. Exegese: Pai nosso que estás nos céus
 
Nossa tarefa aqui é interpretar a introdução e a invocação do Pai-Nosso. Vamos utilizar como base o texto de Mateus. Por ser o mais elaborado, ele logo se impôs na igreja em relação à versão de Lucas. As sete petições serão interpretadas em outros dois auxílios homiléticos neste volume de Proclamar Libertação.
 
No Catecismo Maior de Lutero, a relexão sobre o Pai-Nosso ocupa um espaço considerável. Sobre ele o reformador airma: “Não se encontra na face da terra oração mais nobre, uma vez que tem o testemunho excelente de que Deus gosta muito de ouvi-la. Não dá para trocá-la por nada no mundo”. Nela “estão contidos, em sete itens ou preces sucessivas, todas as necessidades que constantemente nos atingem, cada qual tão grande que deveria motivar a pedir em função delas a nossa vida inteira”. Sobre a invocação não se encontra ali alguma relexão especial. Mas no Catecismo Menor ele diz: “Deus quer atrair-nos com estas palavras para crermos que ele é nosso Pai de verdade e nós somos seus ilhos e ilhas de verdade. Portanto, podemos pedir a ele sem medo e com toda a confiança, como ilhos queridos ao seu querido pai”.
 
2.1 – Uma oração modelo
 
A introdução do Pai-Nosso (Assim, pois, orai vós) mostra como essa oração quer ser interpretada: ela é uma oração modelo, que serve de parâmetro para ou- tras orações. Isso não signiica que as orações não possam ser espontâneas ou que não possam expressar-se em outras palavras, e sim que a oração do Senhor deve orientar as preces dos seus discípulos. Não é indiferente o modo como oramos e o conteúdo que expressamos em nossas orações. Por isso o Pai-Nosso ensina-nos sobre o conteúdo principal de nossas orações. Não é qualquer oração que agrada ou comove Deus. Não é qualquer oração que ele ouve e atende. Através da oração piedosa também podemos expressar nossa hipocrisia e omissão, nosso egoísmo, pecado e orgulho. Através da oração podemos profanar o nome de Deus quando tentamos submetê-lo aos nossos caprichos ou quando abusamos de seu nome para justiicar o mal. Em nossa oração evidencia-se, de certo modo, o conceito que temos de Deus: quem Deus é para nós, isso se mostra no modo como oramos e naquilo que dizemos em nossas orações. Por isso nossa oração deve submeter-se ao iltro da oração que Jesus nos ensinou. Por isso é necessário pedir que Jesus nos ensine a orar, como izeram os discípulos na versão de Lucas (11.1). Por isso é preciso pedir que Jesus nos mostre a face de Deus e nos ensine a perguntar por sua vontade, para que estejamos em sua presença de maneira condigna e peçamos a ele aquilo que lhe agrada.
 
Na invocação do Pai-Nosso (Pai nosso que estás nos céus), Jesus informa-nos justamente sobre a natureza deste Deus a quem nos dirigimos na oração. O termo grego pater/pai reproduz, com certeza, o original aramaico abba. Mesmo que o Antigo Testamento conheça alguns textos em que Deus é visto como Pai (não mais que quinze, a exemplo de Dt 32.6; Sl 89.26; Is 63.16; 64.8; Jr 31.9; Ml 2.10), é signiicativo que em nenhum deles Deus seja invocado como Pai numa oração. No âmbito do judaísmo contemporâneo de Jesus, mesmo que as orações comunitárias conheçam muitas formas de invocação de Deus como Pai, surpreende que em parte alguma se utilize a palavra abba para essa inalidade.
 
Em relação a Jesus, chama a atenção, nesse contexto, que ele sempre invoca a Deus como Pai em suas orações. A exceção ica por conta do grito da cruz (Mc 15.34), onde ele faz uso de uma oração litúrgica (Sl 22.2). Esse traço aparece em todas as camadas da tradição evangélica: Marcos (14.36), Fonte Q (Mt 6.9/Lc11.2; Mt 11.25-26/Lc 10.21), matéria exclusiva de Lucas (23.34,46), matéria exclusiva de Mateus (26.42), João (11.41; 12.27,28;17.1, 5,11,21,24,25). Mc 14.36 permite supor que em todas as orações Jesus invocava Deus com a forma aramaica abba. Eco disso ainda se percebe na oração das comunidades (Rm 8.15; Gl 4.6). Abba era a forma carinhosa e respeitosa como as crianças pequenas e os adolescentes dirigiam-se a seu pai. Também era utilizado como tratamento respeitoso e carinhoso a pessoas maiores. O judaísmo palestinense evitava interpelar Deus dessa forma, por considerar irreverente e inimaginável invocar Deus com uma palavra tão familiar. Mas Jesus escolheu justamente essa palavra para dirigir-se a Deus. Ele falou com Deus como uma criança fala com seu pai: com intimidade aconchegante, confiança irrestrita, mas também com dependência absoluta, respeito inviolável e prontidão para a obediência. E assim ensinou os discípulos a fazê-lo também.
 
2.2 – Uma oração solidária
 
Na versão de Mateus, Jesus não apenas invoca Deus como Pai, mas acrescenta dois qualificativos a esse título. O primeiro é o pronome nosso. Isso significa: Jesus ensina-nos a aproximar-nos de Deus não apenas como indivíduos, mas como membros de um grupo ou de uma comunidade. Mesmo que a versão de Lucas não contenha esse acréscimo, é esse o espírito que domina toda a oração. Enquanto as preces relativas a Deus estão formuladas na segunda pessoa do singular, as preces relativas aos seres humanos estão todas formuladas na primeira pessoa do plural em ambas as versões. Isso signiica: mesmo quando alguém ora na solidão de seu quarto, deve fazê-lo na consciência de que é membro de uma comunidade, constituída por outras pessoas, que são ilhos e ilhas do mesmo Pai.
 
Essa paternidade comum transforma essas pessoas em irmãos e irmãs e estabelece entre elas uma relação solidária. Todas as pessoas que invocam Deus como Pai reconhecem-se como seus ilhos e ilhas e membros de uma grande família. Por isso ninguém tem o direito de buscar a presença de Deus para reivin- dicar um tratamento especial. E sobretudo ninguém pode querer de Deus uma dádiva que estabeleça privilégios e quebre a fraternidade e a solidariedade entre os irmãos e irmãs. Assim não corresponde ao espírito do Pai-Nosso quando alguém pede ou trabalha apenas pelo seu pão ou come seu pão à custa do sofrimento alheio. Também não corresponde ao espírito do Pai-Nosso quando alguém invoca o perdão de Deus, mas não está disposto a concedê-lo adiante, para restaurar a comunhão quebrada com um semelhante.
 
2.3 – Um Pai especial
 
O segundo qualiicativo que a versão de Mateus acrescenta ao Pai-Nosso é que ele está nos céus. A expressão mostra como a titulação deve ser entendida: ela não identifica Deus com um Pai, mas o compara a um Pai. Deus não é um Pai. Ele é como um Pai. Falar de Deus como Pai é um antropomorismo, ou seja, uma maneira humana de falar de Deus. Trata-se, pois, de uma metáfora. Por um lado, isso é inevitável. Não temos como falar de Deus a não ser com categorias humanas. Por outro lado, toda metáfora tem seus limites e envolve o risco de ser mal-entendida. Há pessoas que fazem boas experiências com uma igura pater- na. Para essas, a metáfora ajuda a entender a natureza de Deus. Mas, no caso de pessoas que izeram experiências negativas e traumáticas com a igura paterna, a metáfora pode atrapalhar.
 
Por isso é preciso qualiicar a metáfora para que ela preserve o sentido pretendido. Jesus já havia feito isso ao escolher a palavra: o Deus que ele proclama não é um pai ausente, distante, tirano ou autoritário, mas um abba, um pai querido e afável, do qual é possível aproximar-se com naturalidade e intimidade, com plena coniança e entrega. Esse pai querido, acrescenta-se agora, está nos céus.A expressão não quer apontar para a transcendência de Deus, e sim assinalar a peculiaridade do Pai de Jesus em relação ao pai terreno. Ele é um Pai especial, do qual as boas qualidades do abba terreno são apenas um espelho opaco.
 
3. Meditação
 
Enquanto reletia sobre a introdução e a invocação do Pai-Nosso, três ce- nas vieram-me à mente, que podem servir igualmente como imagens para a prédica. A primeira, uma cena cada vez mais frequente: jogadores de futebol fazendo o sinal da cruz antes de pisar no gramado; ajoelhando-se e levantando as mãos para o céu enquanto pronunciam uma oração silenciosa; apontando para o céu depois de fazer um gol em sinal de agradecimento; no vestiário, times inteiros fazendo uma roda para rezar o Pai-Nosso antes ou depois das partidas. Durante a Copa do Mundo no Brasil, a imagem correu o mundo: após a vitória suada nos pênaltis contra o Chile, vários jogadores da seleção brasileira ajoelharam-se em campo para agradecer a Deus e imputar a ele o triunfo. Um deles era o craque Neymar, que depois escreveu nas redes sociais: “Guerreiros não fogem da luta... Ninguém vai poder atrasar quem nasceu para vencer! E a caminhada continua... Obrigado, Senhor!” Na internet descobri até uma oração dos jogadores de futebol: “Meu Bom Deus, que, ao entrar no campo, eu demonstre o meu valor. E sempre quando eu for jogar, que eu jogue um bom futebol. E sempre ao driblar, que meu belo lance faça a bola passar, sem que a defesa alcance. Que na falta e no escanteio, do canto ou pelo meio, que ao gol eu possa chegar. Que em todos os jogos de com- petição, que a bola venha ao meu encontro, na hora certa da decisão. Que pelo amor à camisa, eu consiga fazer o gol. Que na hora decisiva de bater um pênalti, eu seja iluminado e faça a bola entrar no fundo da rede. Deus: que o meu time jogue com garra na capacidade de fazer o melhor em campo: gols. Que o nosso técnico faça alterações com sabedoria. Que a torcida se encante com o nosso futebol e ao mesmo tempo conviva em paz com as outras torcidas. Deus, meu bom pai, proteja-nos em campo. Obrigado, meu bom Deus!”.
 
Como avaliar a explosão da “mística” nos campos de futebol? Contando que possa haver crentes fervorosos nos dois times que se enfrentam, como Deus resolveria o dilema de atender as orações dos dois lados? Fora o simpático pedido para que as torcidas se encantem com o espetáculo e convivam em paz, como avaliar o conteúdo da oração dos atletas, alguns dos quais vão tornar-se pastores depois de pendurar as chuteiras? Quais as preces que passariam pelo filtro do Pai-Nosso? Qual a inalidade da oração expressa nesse contexto e como ela se relaciona com o sentido da oração modelo de Jesus?
 
Dos campos para as igrejas e programas religiosos na televisão: a propósito de Jo 14.13-14 (Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, afim de que o Pai seja gloriicado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei), o pregador explica que a palavra pedir também significa exigir. E complementa com aparência de erudição: “Segundo os entendidos na língua grega, esta palavra pedirdes está mal traduzida. A palavra pedirdes no grego é o verbo aiteo. Então ela teria sido melhor traduzida como determinardes. Esse pedirdes não tem nada a ver com mendigar algo. Então aqui está a primeira lição. Não precisamos pedir a bênção e sim determinar, exigir, mandar, ou seja: tomar posse daquilo que aprendemos pela Palavra que nos pertence”. A oração que segue vai exatamente nesta direção: o pregador determina que Deus cure os doentes, expulse os demônios, restaure os relacionamentos, conceda sucesso e prosperidade nos negócios... Fora a manipulação exegética do verbo pedir, o que dizer de uma oração em que os ilhos exigem e determinam o que o Pai deve fazer? Na educação familiar, crianças criadas dessa forma tomam conta dos pais e tornam-se adultos tiranos, arrogantes e manipuladores. E no campo da fé e da educação teológica, qual a consequência? Como falar de um Deus próximo e acessível sem tirar-lhe a soberania e a autonomia? Como falar de um Deus querido e afável sem que isso seja instrumentalizado para inalidades perversas?
 
Dos campos de futebol e igrejas para o interior das casas: é cada vez mais frequente, sobretudo no ambiente urbano, a existência de famílias sem a refe- rência paterna. Quem não conhece um exemplo à sua volta? Dados estatísticos indicam que se aproxima dos quarenta por cento o número de famílias comandadas por mulheres. Em caso de divórcio, geralmente são elas que assumem a responsabilidade pela manutenção da casa e educação dos filhos. São frequentes os casos de maridos e pais que simplesmente abandonam suas famílias. Isso sem contar aqueles que estão em casa, mas são omissos e não contribuem para a educação e formação dos filhos, não estabelecendo com eles uma relação afetiva e construtiva. Pesquisas indicam que a igura paterna (assim como a materna) é importante para a formação equilibrada das crianças. Sua ausência, caso não seja suprida de outra forma, pode gerar transtornos na formação da sua personalidade e na condução futura de sua vida. Como falar de Deus Pai a pessoas que têm ou tiveram uma experiência negativa, frustrante ou traumática com seu pai terreno? Como falar de um Deus paternal, acessível, carinhoso, que inspira confiança, proteção e segurança a pessoas que fizeram experiências negativas com o pai ausente, agressivo ou omisso? Algumas pistas sobre essas perguntas, que podem ajudar a estruturar a pregação, encontram-se na relexão sobre o texto.
 
4. Subsídios litúrgicos
 
Versículo de entrada:
 
O Espírito de Deus vem nos ajudar em nossa fraqueza, pois não sabemos como devemos orar. Mas o Espírito de Deus, com gemidos que não sabemos explicar por palavras, pede a Deus em nosso favor. E Deus, que vê por dentro do coração, sabe qual é o pensamento do Espírito. Porque o Espírito pede em favor do povo de Deus e pede de acordo com a vontade de Deus (Rm 8.26-27).
 
Confissão de pecados:
 
Queremos te confessar, Senhor, que não sabemos orar como convém. Buscamos tua presença nos tempos de angústia e alição, mas nos esquecemos de ti quando estamos no controle de nossa vida. Giramos em torno de nós mesmos em nossa oração e não procuramos a ti. Oramos para que a nossa vontade se faça e não a tua. Fugimos de nossa responsabilidade por meio da oração, pois queremos que tu realizes aquilo que cabe a nós realizarmos. Ensina-nos a orar como convém, assim como teu Filho ensinou seus discípulos. Ensina-nos a buscar-te como a um pai querido e afável, no qual buscamos segurança e proteção e ao qual estamos dispostos a ouvir e obedecer. Por teu Filho Jesus Cristo, que nos mostrou tua face paternal. Amém.
 
Oração de coleta:
 
Obrigado, Senhor, que nos convidaste a este local de culto para ouvir tua Palavra e renovar nossa comunhão contigo e com nossos irmãos e irmãs na fé. Ensina-nos a buscar-te mais do que as tuas dádivas. Fala ao nosso coração através de tua Palavra, para que possamos responder-te através de nosso louvor e de nossa oração. Por Cristo Jesus. Amém.
 
Oração final:
 
Pai nosso que estás nos céus: queremos agradecer-te pelo conforto e ânimo que tua Palavra nos trouxe. Obrigado que pela oração podemos vencer a solidão que nos mantém distantes de ti. Como teu Filho Jesus Cristo nos ensinou, queremos aproximar-nos de ti como ilhos pequenos diante de seu pai bondoso e afável. Dá-nos aconchego, proteção e segurança. Infunde-nos teu Espírito e renova a nossa fé, para que queiramos fazer tua vontade e estejamos prontos a te obedecer. Tu és a fonte da vida e de ti provém tudo o que necessitamos para viver. Ensina-nos a receber as tuas dádivas com gratidão e a compartilhá-las com nossos irmãos e nossas irmãs. Anima a tua comunidade a acolher aquelas pessoas que não sabem o que é sentir a segurança de um pai e o aconchego de uma mãe. Lembramo-nos, em tua presença, das crianças abandonadas que perambulam sem rumo pelas ruas de nossas cidades. Lembramo-nos daqueles que não têm lar, comida e afeto. Lembramo-nos daqueles que precisam lutar além das suas forças contra adversidades e privações. Cria dentro de nós um coração sensível, para que através de nossa ação solidária tais pessoas reconheçam a ti e te gloriiquem como nosso Pai que está nos céus. Tudo o mais que temos em mente e que pesa em nosso coração queremos expressar através da oração que teu Filho nos ensinou: Pai nosso...
 
Bibliografia
 
BRAKEMEIER, Gottfried. Preleção sobre Mateus. São Leopoldo: Faculdades EST, s.d.
JEREMIAS, Joachim. O Pai-Nosso: a oração do Senhor. São Paulo: Paulinas, 1976.
LUZ, Ulrich. El evangelio segun San Mateo. Salamanca: Sigueme,1993.
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Autor(a): Verner Hoefelman
Âmbito: IECLB
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Luteranos em Contexto
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 6 / Versículo Inicial: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2014 / Volume: 39
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 34222
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