Tiago 2.1-10(11-13)14-17

Auxílio Homilético

06/09/2015

Prédica: Tiago 2.1-10(11-13)14-17
Leituras: Isaías 35.4-7a e Marcos 7.24-37
Autoria: Aline Danielle Stuewer e Joel Haroldo Baade
Data Litúrgica: 15º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 06/09/2015
Proclamar Libertação - Volume: XXXIX

 

1. Introdução

Fazer diferença entre pessoas, infelizmente, é uma prática muito comum, também na igreja. Quantas pessoas olham as outras de cima a baixo e as julgam segundo as suas vestes, o seu gênero ou cor da pele. Obviamente, somos diferentes, e a diferença não é um problema em si, mas se torna problema quando a diferença é transformada em juízo de valor; quando, segundo alguns critérios, algumas pessoas são consideradas melhores ou mais importantes do que outras.

O texto de Tiago, aqui analisado e objeto de pregação, reflete justamente sobre essa prática tão corriqueira em nossos dias, mas também presente entre as primeiras comunidades cristãs. Sugere, mais do que uma aceitação interior das diferenças, que elas sejam efetivamente vivenciadas em práticas concretas, pois a fé sem obras, nos termos de Tiago, é morta.

Uma relação com o texto da mensagem pode ser encontrada no texto de Marcos, que narra a história do encontro de Jesus com a mulher siro-fenícia que pede pela cura de sua ilha. Jesus, inicialmente, mostra-se relutante afirmando de que não é certo tirar o pão dos filhos para dá-lo aos cachorrinhos, mas, diante do testemunho de fé daquela mulher, concede-lhe a cura de sua ilha. Esse texto, assim como a perícope de Tiago 2.1-10,14-17, reflete uma prática de diferenciação de pessoas, sendo que as duas mensagens sugerem a necessidade de superação dessa prática.

A fim de comparar duas versões distintas do texto, fez-se uso das versões de Almeida Revista e Atualizada (RA) e Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), considerando que são as versões mais usadas no contexto da IECLB.

2. Exegese

A Carta de Tiago é um dos escritos polêmicos do Novo Testamento. Aparentemente, ela está em contradição com os escritos de Paulo, pois enfatiza a ação dos cristãos, as obras, enquanto as cartas paulinas ressaltam a necessidade da fé. Pode-se perguntar, nesse sentido, se ela seria uma recaída no legalismo judaico ou uma tentativa de correção de uma possível interpretação equivocada dos escritos de Paulo. Lutero também não foi simpático à Carta de Tiago por essa ênfase nas obras (HÖRSTER, 1996).

A Epístola de Tiago não tem uma estrutura determinada, sendo que os temas são abordados sem ligações intencionais. O capítulo 2, do qual foi recortada a perícope para esta reflexão (2.1-10,14-17), debate duas temáticas: sobre os pobres e os ricos na igreja (2.1-13) e sobre a fé e as obras (2.14-26) (BULL, 2009). Percebe-se, a partir disso, que o texto de pregação faz uso das duas temáticas, propondo uma correlação entre a coexistência de pessoas diferentes dentro da igreja e as obras da fé.

Quanto à autoria da carta, é certo que a referência a Tiago diz respeito ao irmão de Jesus (Mc 6.3). Contudo é muito discutida a autenticidade dessa autoria, pois o texto está redigido em linguagem formal do helenismo; também se fala da “liberdade da lei” (1.25), o que aparentemente seria pouco esperado de um autor tão próximo do judaísmo como o irmão de Jesus. De qualquer forma, uma afirmação definitiva a esse respeito não é possível (BULL, 2009).

A carta é endereçada “às doze tribos que se encontram na dispersão” (1.1, versão RA). Uma interpretação literal faz supor que os destinatários sejam cristãos-judeus da diáspora. Entretanto, se for levado em conta que cristãos-judeus estariam pouco predispostos a interpretar de forma equivocada a mensagem de Paulo, então se poderia interpretar de forma mais ampla o cabeçalho, de modo que as doze tribos são, na realidade, toda a igreja de Jesus Cristo em todos os lugares (HÖRSTER, 1996; BULL, 2009). Essa parece ter sido a interpretação na NTLH, na qual se fala em “todo o povo de Deus espalhado pelo mundo inteiro”. A generalidade do cabeçalho e a falta de referências específicas sobre alguma comunidade levaram alguns estudiosos a se perguntar se Tiago é de fato uma carta ou se deveria antes ser caracterizada como uma epístola, que é um ensaio literário em forma de carta. Sendo assim, “Tiago é um escrito didático com exortações para os seus leitores” (HÖRSTER, 1996, p. 98).

Em 2.1-13, Tiago dirige-se enfaticamente contra qualquer comportamento que faça a diferenciação de classes na comunidade. Os pobres são os eleitos de Deus. “Os ricos, ao contrário, são opressores e blasfemadores. O mandamento do amor deve ser o princípio de comportamento na comunidade. Se o juízo é feito segundo a aparência das pessoas, a lei da liberdade é transgredida” (BULL, 2009, p. 130).

A partir disso, o texto de Tiago parece sugerir que, entre os primeiros cristãos, já havia algumas pessoas que faziam diferenciação entre os membros da comunidade. Tiago, por sua vez, posiciona-se explicitamente contra essa prática. No texto 2.13 isso é ressaltado enfaticamente: “Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo”.

Nesses termos, Tiago rejeita a afirmação de que unicamente a fé pode salvar. Como comprovação veterotestamentária, a carta refere os exemplos de Abraão e da prostituta Raabe (2.21-26). A afirmação central do texto está em 2.17: “Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta” (BULL, 2009). O comentário de Lutero ao texto 2.17 é elucidativo: “Sim”, tu dizes, “mas a fé não justifica e salva sem as obras?” Realmente, isso é verdade. Mas onde está a fé? Que acontece com ela? Como ela se manifesta? “Pois a fé não deve ser algo preguiçoso, inútil, surdo ou morto; ela deve ser como uma árvore viva e fecunda, repleta de frutos. Portanto esse é o teste e a diferença entre a fé genuína e a fé falsa e maquiada: onde a fé é genuína, ela se manifesta também na vida. É verdade que uma fé falsa tem o mesmo nome, emprega as mesmas palavras e jacta-se das mesmas coisas, mas dela não resulta coisa alguma” (Bíblia Sagrada com Reflexões de Lutero; OS 11, 292).

Para a leitura, sugere-se a adoção da NTLH, considerando sua linguagem mais acessível e menos prolixa. Contudo, em sendo esse o caso, é melhor que os v.11-13 sejam omitidos, pois na NTLH o v.13 refere o “Dia do Juízo Final”, o que pode desviar a atenção da temática aqui proposta e não corresponde ao texto grego, em que se fala apenas numa prevalência da misericórdia sobre o juízo. Caso se deseje ler também esses versículos, é melhor que se use a tradução de RA.

3. Meditação

No mundo em que vivemos, é comum as pessoas serem avaliadas pela forma de se vestir, de falar ou pelos bens materiais que ostentam. Somos bem avaliados se estamos vestindo uma roupa ou um sapato de marca, se temos muitas roupas para vestir, bastante influência, um emprego de destaque, uma boa casa, um bom carro etc. Se alguém for a uma concessionária, a uma festa ou a um banco e estiver bem vestido, bem “arrumado”, poderá receber um atendimento e tratamento diferenciados.

Frequentemente, as pessoas costumam tratar melhor alguém bem vestido e de aparência vistosa. A sociedade é assim... o mundo é assim... Mas na igreja deveria ser diferente. Todas as pessoas, ao entrarem na igreja, deveriam sentir--se incluídas, nem menores nem maiores do que ninguém; nem mais nem menos importantes do que ninguém. Se no dia a dia experimentamos a realidade de ser avaliados pelo que temos e não pelo que somos, na igreja deveríamos experimentar algo diferente: o de ser aceitos e acolhidos.

Infelizmente, nem sempre é assim. Também entre nós, pessoas cristãs, há discriminação e diferenciação. Será que todas as pessoas se sentem acolhidas em nossa igreja? Será que todas sentem que têm a mesma importância?

Como igreja, muitas vezes temos selecionado quem queremos ou não que faça parte de nossas comunidades. Precisamos ser lembrados de que Jesus viveu, morreu e ressuscitou por “todas” as pessoas. Pelas ricas e pelas pobres, pelas que vestem roupas de marca e pelas que vestem roupas sem marcas, pelas que têm bolsa de couro e também pelas que nem sequer têm bolsa, pelas que são brancas e pelas que são negras. Por isso, como pessoas cristãs, somos desafiados a viver e testemunhar em palavras e ações esse amor de Jesus. A nossa acolhida e aceitação precisam transmitir o amor e a presença de Deus. Caso contrário, estaremos, na igreja e fora dela, vivendo e testemunhando aquilo que prega o mundo e não a palavra de Deus.

4. Imagem para a prédica

Um homem que vivia sua vida na roça começou a participar de um grupo de oração na igreja. No grupo, em determinado momento, cada pessoa colocava--se diante de Deus em oração. Cada pessoa fazia seus pedidos a Deus em voz alta. Como a igreja ficava num bairro nobre da cidade, as pessoas muito letradas elaboravam muito bem suas orações com palavras bonitas e difíceis. Até que chegava a vez do Zé. Ele olhava para o altar, onde tinha uma cruz e dizia: Jesus é o Zé! As pessoas da igreja sempre olhavam o Zé de um jeito estranho. Todos incomodavam-se com a presença do Zé e com sua oração. Todos ficavam longe
dele. Afinal, ele era de fora, gente estranha.

Um dia, o pastor daquela igreja perguntou àquele homem simples, analfabeto, por que ele sempre dizia isso quando era a sua vez de orar. O homem respondeu: É que eu não sei orar. Então venho aqui, olho para ele, ele olha pra mim, e eu digo: Jesus é o Zé.

Certo dia, esse homem simples adoeceu e ficou internado por alguns dias. As enfermeiras do hospital perceberam que o Zé tinha grande animação. Nada o deixava triste. Um dia, perguntaram ao Zé como ele conseguia ser assim, e ele respondeu: É por causa da visita que recebo todos os dias.

As enfermeiras não entenderam a resposta do Zé, pois ele não tinha família e nunca havia recebido uma visita. Então perguntaram ao Zé: Quem te visita todos os dias, sendo que nunca vimos?

E o Zé respondeu: Sabe aquela cadeira que está ali? Pois é, todo dia ele vem na mesma hora, senta ali e fala: Zé é Jesus. E depois vai embora.

5. Subsídios litúrgicos

Confissão de pecados:

Querido e amado Deus, chegamos em tua presença misericordiosa e acolhedora para confessar nossos pecados. Confessamos que os nossos olhos olham para nosso próximo com olhar de julgamento. Muitas vezes, temos julgado as pessoas pelos bens que elas têm, pelas roupas que vestem e pela influência que possuem. Confessamos que, diferente de ti, temos dificuldade de olhar para as pessoas com olhar de misericórdia. Temos dificuldade de acolher em nossas comunidades pessoas que são diferentes de nós. Perdoa-nos, Senhor, apesar de nossas bocas confessarem que tu és o nosso Senhor. Perdão, pois nossas ações muitas vezes não refletem que tu és Senhor.

Hinos:

Seguem algumas sugestões que contemplam a temática acolhida, comunhão e amor ao próximo para serem incluídas na liturgia: HPD I nº 117 (Jesus, pastor amado); HPD II nº 325 (Aqui você tem lugar); HPD II nº 327 (Unidos no Espírito).

Bibliografia

BULL, Klaus-Michael. Panorama do Novo Testamento: história, contexto e teologia. São Leopoldo: Sinodal, 2009.

HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. Curitiba: Esperança, 1996.


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Autor(a): Aline Danielle Stuewer e Joel Haroldo Baade
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 15º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Tiago / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2014 / Volume: 39
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 34274
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Portanto, estejam preparados. Usem a verdade como cinturão. Vistam-se com a couraça da justiça e calcem, como sapatos, a prontidão para anunciar a Boa Notícia de paz.
Filipenses 6.14-15
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