Mateus 21.23-32

Auxílio Homilético

28/09/2008

Prédica: Mateus 21.23-32
Leituras: Ezequei 18.1-4,25-32; Filipenses 2.1-13
Autor: Jair Holzschuh e Clarise Holzschuh
Data Litúrgica: 20º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 28/09/2008
Proclamar Libertação - Volume: XXXII


Não é vida a vida que se vive por engano...
... viver a vida é muito mais do que aparência...
... vida é a vida que em Jesus nós alcançamos
quando junto a ele o mundo injusto transformamos...
Jaci C. Maraschin (O Povo Canta, p. 158)

1 Introdução
Ao defrontar-me com a delimitação do texto de pregação, perguntei: Por que duas perícopes? Analisando a questão, percebemos que a parte do texto de Mateus 21.23-27 tem paralelos em Marcos e em Lucas. Mas os v. 28-32 são material exclusivo de Mateus.
Sendo o Evangelho de Mateus motivado pela pergunta “Quem somos nós e qual a nossa missão?”, vemos que a segunda parte do texto (v. 28-32) quer iluminar a vida da comunidade a partir do tema cristológico abordado anteriormente (v. 23-27), o qual já fora escrito pelo Evangelho de Marcos e que é motivado pela pergunta: “Quem é Jesus de Nazaré e como segui-lo?”.
Mateus interpreta a divergência acerca da autoridade de Jesus (v. 23) à luz da prática da justiça (v. 32). Jesus Cristo é o Mestre da Justiça. Esse é um tema central no Evangelho de Mateus e é insistência exclusiva desse.
No Evangelho de Mateus, encontramos vários títulos cristológicos, como Messias, Filho de Deus, Emanuel, Rei, Filho de Davi, Filho do Homem, Servo de Deus; mas, acima de tudo, Mateus quer apresentar Jesus como o Mestre da Justiça. Jesus é o único Mestre (Mt 23.8) e veio cumprir toda a justiça (Mt 3.15). Cumprir a justiça é realizar a vontade do Pai, que se expressa na sua lei.
Mateus 21.23-32 declara que a prática da justiça dá autoridade para questionar leis e práticas seletivas que vangloriam algumas pessoas e depreciam outras e para propor novas atitudes, coerentes com a palavra e que promovem vida.
A prática da justiça também é tema central na leitura de Ezequiel 18.1-4, 25-32: quem conhece o caminho da justiça e não a pratica morrerá (v. 26); e quem anda na perversidade, mas se converter à prática da justiça, viverá (v. 27).
A leitura de Filipenses 2.1-13 sublinha a dualidade entre os questionados em Mateus (principais sacerdotes e anciãos do povo) e os enaltecidos (publicanos e meretrizes). Viver a justiça de Jesus é viver em humildade e solidariedade. Critica a arrogância dos que se dizem justos e enaltece a humildade e a valorização do próximo. Justiça é, portanto, o tema que liga os três textos de nossa perícope.

2 Exegese
O Evangelho de Mateus foi escrito no final dos anos 80, editado por comunidades em que as pessoas vindas do judaísmo eram a grande maioria.
Com a guerra judaico-romana (66-73 d.C.) houve uma dispersão em direção à Galiléia, à Síria e outros lugares. Por volta do ano 85, houve um concílio na cidade de Jâmnia, onde os fariseus e os escribas, juntamente com os líderes do antigo Sinédrio, buscaram reformar e reorganizar a religião de Israel.
Entre as diversas decisões tomadas em Jâmnia, uma foi muito dura. Buscando preservar a identidade judaica, os líderes judeus fecharam-se totalmente aos diferentes grupos e correntes dentro do judaísmo da época. A conseqüência foi a expulsão das sinagogas de todas as correntes contrárias aos ensinamentos dos fariseus, entre elas as pessoas que aceitavam Jesus de Nazaré como Messias prometido por Deus e esperado por tantas gerações.
Esses judeu-cristãos sentiam-se parte do povo de Israel e, por isso, não conseguiam entender por que foram expulsos pelas autoridades da sinagoga. Essa expulsão gerou sérios problemas de identidade nas comunidades de judeu-cristãos, que tinham que ir em busca de uma nova identidade, uma nova casa, uma nova comunidade.
Toda essa situação gerou a necessidade de adequar o evangelho à nova realidade, buscando, sobretudo, responder à pergunta: “Quem somos nós e qual a nossa missão?”
O Evangelho de Mateus traz em seu conteúdo central quatro aspectos:
1) Jesus é o único Mestre e é Mestre da Justiça. Como Mestre da Justiça, Jesus é apresentado fazendo grandes discursos e seu ensino tem autoridade (7.28-29), a tal ponto de propor alterações na lei (5.21-48).
2) O evangelho é para todos os povos, desde que o centro dessa universalidade seja o judaísmo (8.11).
3) Valorização da herança de Israel, a sua tradição. Para Mateus, as comunidades cristãs são o verdadeiro Israel e, com o evangelho, quer ajudar a devolver a identidade aos judeu-cristãos em crise por terem sido expulsos e rejeitados por seu próprio povo.
4) Jesus é Emanuel – Deus conosco. Vai nascer Emanuel (1.23), é Deus vivo (16.16) e promete estar sempre conosco (28.20).
No Evangelho de Mateus, as comunidades judeu-cristãs encontravam uma fonte de consolação, de revelação e a indicação de uma nova prática. No momento difícil pelo qual passavam, sendo expulsos das sinagogas e perseguidos por seus “irmãos na fé”, Mateus surge reafirmando a fé de que Jesus era o Messias, dando a garantia de que estavam no caminho certo. Mateus revela que Jesus é aquele que veio cumprir toda a Escritura. Ele é apresentado como o novo Moisés. Assim, as comunidades cristãs eram continuadoras da caminhada iniciada por Abraão. Portanto elas também eram povo de Deus. Como luz para o caminho a seguir, as comunidades devem buscar a verdadeira justiça. Jesus é o verdadeiro mestre da justiça, ensinando que a prática do amor é o maior dos mandamentos. As comunidades devem revelar essa novidade praticando as palavras de Deus.
Quanto à eclesiologia, Mateus destaca as relações na comunidade eclesial. Insiste na vivência fraterna, na reconciliação e na solidariedade. Os relatos sobre Jesus misturam-se com as narrativas sobre a vida das comunidades. Em todas as passagens está presente a memória do Jesus histórico e, ao mesmo tempo, como essa memória se concretiza na vida das igrejas.
Quanto à estrutura, o Evangelho de Mateus divide-se em cinco livros menores, como se fossem o conjunto de uma nova lei (Pentateuco). Cada livro é composto por uma parte narrativa e um discurso de Jesus:
Mateus 1-2: apresentação do “novo legislador”;
Mateus 3-7: 1º livro – a justiça do reino no Deus;
Mateus 8-10: 2º livro – uma justiça que liberta os pobres;
Mateus 11.1-13.52: 3º livro – a justiça do reino provoca conflitos;
Mateus 13.53-18.34: 4º livro – o novo povo de Deus;
Mateus 19-25: 5º livro – a vinda definitiva do reino;
Mateus 26-28: promulgação da nova lei.
O texto em questão, Mateus 21.23-32, está inserido no quinto livro – a vinda definitiva do reino, na subdivisão da narração (cap. 19-23) e defende que no reino de Deus há lugar para todos.

3 Mensagem
Na palavra de Mateus 21.23-27 (paralelos em Mc 11 e Lc 20), Jesus é questionado pelas autoridades religiosas e do povo acerca de sua autoridade e de quem lhe confere essa autoridade. Jesus responde com uma nova pergunta, trazendo à memória João Batista, que veio preparar o caminho da autoridade de Jesus. Ambas as perguntas ficam sem resposta evidente. É necessário ler as entrelinhas. O evangelista Mateus acrescenta uma parábola para aproximar o assunto da vida da comunidade, trazendo o exemplo de dois tipos de comportamento: aquelas pessoas que dizem que se comprometem a fazer algo e não o fazem; e aquelas que não se comprometem, mas acabam fazendo. O desfecho traz novamente João Batista e indica o centro da mensagem: o caminho da justiça.
A prática da justiça dá autoridade para questionar leis e práticas, propondo novas atitudes aos crentes. Portanto, o que dá autoridade é a prática da justiça, e essa é dom de Deus. Toda autoridade vem de Deus. É Deus quem confere autoridade a nós para que a usemos de forma responsável para promover a justiça.
No Batismo, recebemos de Deus a autoridade para viver e ensinar o evangelho, para divulgá-lo até os confins da terra (Mt 28). Viver o Batismo significa viver em arrependimento e novidade de vida. Não é por acaso que João Batista é lembrado nessa passagem do evangelho. Ele pregava o arrependimento dos pecados por causa da proximidade do reino de Deus. Para poder crer em Deus, é necessário passar pela experiência do arrependimento. Jesus declara que publicanos e meretrizes (grupos de pessoas totalmente à margem na época de Jesus) precederão os principais sacerdotes e anciãos do povo (autoridades) no reino de Deus, porque esses não se arrependeram das injustiças que cometeram e não acreditaram no anúncio da vinda do reino de Deus.
Para viver em novidade de vida, são necessárias atitudes de justiça. Não basta dizer “Eu creio”, estar sempre presente nos encontros da igreja, cantar, celebrar, se no dia-a-dia minha prática me condena, a lei me domina, o lucro financeiro dita as regras, o relacionamento com as pessoas está alicerçado em interesses pessoais e egoístas.
No reino de Deus, há lugar para todas as pessoas. Todas são chamadas. Aquelas que se arrependerem de suas atitudes injustas e passarem a ter uma vida de justiça serão as primeiras a entrar no reino (cf. também leitura de Filipenses). O evangelho não exclui as demais, mas essas precisarão primeiro se arrepender e passar a viver a justiça de Deus (cf. também leitura de Ezequiel). O que determina a participação no reino de Deus é o que se passa no coração e se torna realidade na prática pessoal e comunitária.
É maravilhoso dar-se conta da infinita bondade e misericórdia de Deus. Ao mesmo tempo, é preocupante, pois somos como o primeiro filho. Somos aquele que diz “sim” e não vai trabalhar na vinha. Poucas vezes somos como o segundo filho, que diz “não quero”, mas depois se arrepende e vai.
Pensando no Batismo, por exemplo, quantos “sim” são ditos nos altares das igrejas, cujo eco não chega nem até a porta de saída. Quantas promessas de ser exemplo de vida de fé, de ensinar o evangelho e o caminho do reino de Deus, mas aos batizandos não se ensina nem sequer uma palavra, uma oração conjunta ou um exemplo de vida a ser seguido. Errar, todas as pessoas erram; mas nunca acertar é falta de vontade e, sobretudo, falta de fé.
Com que responsabilidade dizemos “sim” para Deus? Com qual dos dois filhos nos identificamos?
E os matrimônios? O “sim” no matrimônio é ainda mais flagrante. Diz-se “sim” a qualquer custo, sem responsabilidade alguma com a palavra. Na primeira dificuldade, quando o “eu” precisa dar espaço para o “nós”, o “sim” é esquecido, é jogado na lixeira.
Enquanto o “eu” sentar no trono de meu coração, não há lugar para o arrependimento, para a justiça, para o amor ao próximo. Não há lugar para Deus.
É necessário abrir o coração e deixar Jesus sentar em seu trono. Deixar a fé nos questionar, corrigir e orientar a nossa vida. Quando Jesus ocupar o seu lugar em nossa vida, teremos autoridade para falar, questionar, propor, lutar por justiça promotora de vida. Essa autoridade vem de Deus e a recebemos ao praticar o amor, a solidariedade, a misericórdia, a paciência, enfim a justiça do Criador.
Deus é Emanuel – Deus conosco. Ele dá-nos autoridade quando recebemos seu Santo Espírito no Batismo. Isso nos torna povo de Deus. O Espírito dá-nos força na fé para andar no caminho da justiça de Deus, vivendo a sua palavra à luz do evangelho de Jesus Cristo. Esse é o caminho do reino de Deus para o qual todas as pessoas são chamadas pela graça e misericórdia de Deus. Essa é a nossa identidade onde quer que andemos, o que quer que façamos. Seremos conhecidos e reconhecidos por nossa prática, mais do que por nossa confissão pública de fé, mesmo sabendo que ambas são inseparáveis.

4 Imagens para a prédica
Tendo no horizonte a justiça de Deus e suas implicações práticas, teríamos conteúdo suficiente para mais de um culto. O desafio é traduzir para dentro da realidade da comunidade a centralidade da justiça de Deus e suas implicações para a comunidade e a vida de cada pessoa em particular. Tudo isso sem perder de vista que a autoridade Deus nos dá por meio da prática do amor na vida diária. Só tem autoridade aquela pessoa que se colocar sob a direção e orientação de Deus. Em Jesus, a justiça de Deus tornou-se carne (realidade) e veio morar entre nós.
Sugerimos que o texto abaixo seja usado para atualizar Mateus 21.23-32, enfatizando o nosso compromisso com Deus e o próximo. Em toda a pregação deveria transparecer a importância do “sim” e do “não”, do abraçar a fé cristã com todas as suas conseqüências.
Sem amor é tudo em vão
Se eu aprender inglês, francês, espanhol, alemão e chinês e dezenas de outros idiomas, mas não souber me comunicar como pessoa, de nada valem todas as minhas palavras.
Se eu concluir um curso superior, andar de anel no dedo e freqüentar cursos e mais cursos de atualização, mas viver distante dos problemas do povo, minha cultura não passa de uma inútil erudição.
Se eu morar numa cidade do interior, mas desconhecer os sofrimentos de minha região e fugir nas minhas férias para a América ou até para a Europa e nada fizer por meu semelhante, não sou cristão.
Se eu possuir a melhor casa de minha rua, a roupa mais moderna e o sapato da moda e não me lembrar de que sou responsável por aqueles que moram em minha cidade, que andam de pé no chão e se cobrem com jornais sujos, sou apenas um manequim colorido.
Se eu passar os fins de semana em festas, boates, farras e programas, sem ver a fome, o desemprego, o analfabetismo e a doença, sem escutar o grito abafado do povo que se arrasta à margem da história, não sirvo para nada.
O cristão não foge dos desafios de sua época. Não fica de braços cruzados, de boca fechada, de cabeça vazia. Não tolera as injustiças nem as desigualdades gritantes de nosso mundo. Luta pela verdade e pela justiça com as armas do amor.
O cristão não desanima nem desespera diante das derrotas e das dificuldades, porque sabe que a única coisa que vai sobrar disso tudo é o amor. (autor desconhecido)

5 Subsídios litúrgicos
Confissão de pecados:
Ó Deus da misericórdia! Na tua presença reconhecemos que não temos andado nos teus caminhos. Somos rápidos em dizer sim diante do teu convite, mas lentos em agir. Somos rápidos em reivindicar melhorias para nós mesmos, mas lentos em lutar pela melhoria da vida de nosso próximo. Perdoa-nos, ó Deus, por andar tão temerosos no caminho da justiça. Perdoa-nos por não assumir a autoridade que vem de ti e por não nos erguer diante de injustiças em defesa de quem já não tem mais força para lutar sozinho. Estamos arrependidos, ó Deus, e pedimos o teu perdão: Perdão, Senhor, perdão.

Anúncio da graça:
Deus fala através do profeta Ezequiel (18.27-28): “Quando um homem mau pára de pecar e faz o que é certo e bom, ela salvou a sua vida. Ele compreendeu o que estava fazendo e deixou de pecar; por isso é certo que ele não vai morrer, mas continuará a viver”. Anúncio do perdão. Amém.

Gloria in excelsis:
Deus aproxima-se de sua criação de diversas maneiras. Ele se aproxima por meio da palavra lida e interpretada. Vem através dos sacramentos e trouxe-nos aqui. Dele vem toda a autoridade, e ele mesmo nos capacita para a prática do amor e da justiça neste mundo. Por tudo isso louvemos seu nome. Louvemos todos juntos.

Oração do dia:
Querido Deus! Tu que tiveste compaixão de Adão e Eva e preservaste sua vida mesmo em pecado; que continuaste protegendo teu povo mesmo depois de ter negado a ti e nos reconciliaste contigo através da morte e ressurreição de Jesus Cristo, nós te pedimos: Fica conosco, abre nossos ouvidos e corações para acolher a tua palavra de vida e sabedoria. Que teu Santo Espírito ilumine nosso falar e nosso ouvir. Por Jesus Cristo... Amém.

Bibliografia
MESTERS, Carlos et al. Travessia – Quero misericórdia e não sacrifício. A Palavra na Vida, CEBI, n. 135/136.
KÜMMEL, Werner. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas.


Autor(a): Jair Holzschuh e Clarise Holzschuh
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 20º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Mateus / Capitulo: 21 / Versículo Inicial: 23 / Versículo Final: 32
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2007 / Volume: 32
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 24328
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