Jubileu dos 500 Anos da Reforma



ID: 2929

A teologia luterana e o legado da Reforma

30/10/2017

“Mas agora Deus já mostrou que o meio pelo qual ele aceita as pessoas não tem nada a ver com lei. A Lei de Moisés e os Profetas dão testemunho do seguinte: Deus aceita as pessoas por meio da fé que elas têm em Jesus Cristo. É assim que ele trata todos os que creem, pois não existe nenhuma diferença entre as pessoas. Todos pecaram e estão afastados da presença gloriosa de Deus. Mas, pela sua graça e sem exigir nada, Deus aceita todos por meio de Cristo Jesus, que os salva.” (Rm 3.21-14)

O apóstolo Paulo diz que Deus aceita as pessoas por sua graça, sem exigir nada, pela sua infinita misericórdia e bondade. Essa descoberta Lutero fez num momento em que a Igreja ensinava justamente o contrário do que a Bíblia diz:

Era prática comum na Igreja cristã, a pessoa pagar por um pecado cometido, depois de fazer uma confissão de culpa. Fazendo isso, a pessoa estava perdoada e livre do erro cometido. Normalmente, depois da confissão, se pedia para dar alguma esmola, ou auxiliar num trabalho social, ou mesmo fazer uma doação. Essa prática era chamada de indulgência, ou seja, pelo pagamento, a pessoa recebia o indulto ou o perdão dos seus pecados.

E era sobre a validade dessas indulgências que o padre e professor Martim Lutero queria discutir. As 95 teses escritas por ele foi uma maneira de levantar uma discussão e reflexão sobre a venda da salvação pela Igreja, além de criticar duramente essa prática.

Lutero só não imaginou que as suas teses tomassem tamanha dimensão, atravessando fronteiras, ganhando simpatizantes pela Europa afora, provocando a ira do papado de Leão X, a ponto de ele ser excomungado pela Igreja.

Estudando a Bíblia, Lutero descobriu um Deus amoroso, que se mostra a nós através da cruz de Cristo. E esse Deus era diferente de tudo o que a Igreja pregava.

Descobriu que a justiça de Deus é diferente da justiça humana. Para Deus, o ser humano é justificado pela sua fé e não por suas obras. Deus até rejeita o pecado, mas não condena o pecador. Foi por isso que Deus lançou toda a nossa culpa sobre Jesus. E a cruz de Jesus passa a ser o grande sinal e certeza do amor incondicional de Deus por nós.

Lutero dizia que entre Deus e as pessoas não precisa de intermediários. Deus em sua infinita misericórdia acolhe, indistintamente, todas as pessoas. Porque Deus não olha para cima, pois não há ninguém acima dele. Deus também não olha para os lados, pois não há ninguém no mesmo nível dele. Deus só olha para baixo, para o ser humano, e o acolhe em seu sofrimento. Em Êxodo 3.7-8 está escrito: “Eu tenho visto como o meu povo está sendo maltratado no Egito; tenho ouvido o seu pedido de socorro por causa dos seus feitores. Sei o que estão sofrendo. Por isso desci para libertá-los do poder dos egípcios e para levá-los do Egito para uma terra grande e boa.”

As descobertas de Lutero fizeram-no ler a Bíblia de uma maneira diferente. E isto o fez experimentar a liberdade. Na sua compreensão, não é necessário cumprir determinadas leis para ter a salvação. Não é necessário adquirir cartas de indulgências para se salvar. Salvação se ganha pela graça de Deus e pela fé que tenho nele. Deus garante, pela morte de Jesus, que não vai julgar ninguém olhando só para os pecados cometidos. Se fôssemos julgados só pelas nossas ações, boas e más, já estaríamos condenados.

Com esse novo jeito de interpretar a Bíblia, a porta que a Igreja da época tinha fechado, se abre novamente. Não é mais necessário intermediários e cambistas entre o ser humano e Deus, pois a salvação é de graça. Jesus Cristo é o Deus que sai das alturas e vem em busca do ser humano para libertá-lo de todos os seus temores, da morte e do poder do diabo.

Mas não se pode confundir a teologia da graça com a falta de compromisso ou sinônimo de libertinagem. Não significa que agora posso ficar de braços cruzados sem fazer nada. Pelo contrário, a liberdade que a cruz de Cristo nos dá, traz consigo compromissos. O próprio Lutero já dizia: Não são as boas obras que fazem um bom cristão; mas um bom cristão faz boas obras. Ou seja, não são as boas obras que vão dizer se sou um bom cristão, pois posso praticar boas obras para alimentar o meu ego, para ter status. Mas se sou um bom cristão, então as boas obras vêm naturalmente, sem esperar nada em troca.

É como se Deus dissesse a nós: Agora você não precisa mais se preocupar somente com a sua própria vida. A sua vida está nas minhas mãos. A sua salvação depende de mim. Eu quero te salvar. Você só precisa ter fé, confiar em mim, e acreditar no meu amor. Vá e viva a sua vida – não se preocupando consigo mesmo – mas se preocupando com a vida do seu irmão e da sua irmã. Faça coisas boas – não com a intenção de salvar-se a si mesmo – mas com a intenção de ajudar alguém que precisa da sua ajuda. Faça o bem por amor ao seu próximo.

Esse é o jeito luterano de ser: a justificação por graça e fé nos chama ao auto esvaziamento e ao despojamento em favor do outro e da outra. A cara da fé luterana é a educação de crianças para sua autonomia; é a valorização das mulheres para o seu protagonismo; é o acolhimento dos jovens para que eles tenham o seu espaço na comunidade; é o cuidado com os idosos e doentes, para uma qualidade de vida melhor.

Hoje, passados 500 anos da Reforma da Igreja, a teologia luterana professa que a salvação vem pela fé e pela graça e misericórdia de Deus; e inspirados pelo mandamento do amor ao próximo e pelo compromisso do cuidado com toda a criação, a Igreja anuncia que as pessoas, os animais a natureza e o meio ambiente em que vivemos, devem ser cuidados e preservados.

Esse é o nosso compromisso: para que haja vida plena em todas as esferas da sociedade.

Que Deus nos ilumine e nos abençoe, hoje e sempre. Amém.


Autor(a): Pastor sinodal Joaninho Borchardt
Âmbito: IECLB / Sinodo: Espírito Santo a Belém
Área: História / Nível: 500 Anos Jubileu
Natureza do Texto: Artigo
ID: 44518

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