Jubileu dos 500 Anos da Reforma



ID: 2929

Liberdade: chave para a teologia luterana - Entrevista com Elaine Neuenfeldt

31/10/2017

Liberdade: chave para a teologia luterana

Márcia Junges | Edição: João Vitor Santos


Elaine Neuenfeldt destaca a “ênfase na liberdade e graça acolhedora de Deus” num protestantismo que deve aceitar todos, independentemente de gênero, classe social ou etnia

O conceito de liberdade é evocado por muitos como básico para se compreender a teologia concebida a partir de Martinho Lutero. “Mas esta liberdade é da pessoa cristã, e não liberdade de indivíduos. Os reformadores não defendiam o que nós conhecemos hoje como liberdade de consciência, no sentido de liberdades de sujeitos individuais”, explica a teóloga feminista Elaine Neuenfeldt. “Os reformadores estavam preocupados com a liberdade dada pela fé cristã”, completa. E é dessa mesma liberdade que se dá outra chave para compreender o papel ocupado pelas mulheres, pois, como destaca a professora, não há uma doutrina concebida de forma diferente para cada gênero. “A graça, que é presente de Deus a partir da fé, é concedida a pessoas, independentemente de seu gênero”, reforça.

Entretanto, na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Eliane reconhece que ainda há muito o que fazer, pois experiência de reformadoras femininas ainda está “escondida entre as sombras da história, precisando esforço e criatividade para descobrir onde estão as mulheres, quais papéis desempenharam, quais contribuições para o movimento”. Assim, vê as comemorações como mais uma oportunidade para movimentos de inclusão. “Recordar as mulheres do passado, implica, necessariamente, num movimento de deslocamento do lugar atribuído às mulheres no presente. Conhecer criticamente a nossa história é fundamental para que a nossa percepção e análise da realidade, tanto social, política, econômica, e eclesial sejam igualmente permeadas por perguntas pelos sujeitos invisibilizados, mas que tiveram papel fundamental ”.

Elaine Neuenfeldt possui graduação em Teologia pela Escola Superior de Teologia - EST, e mestrado e doutorado em Teologia pelo Instituto Ecumênico de Pós-Graduação - IEPG. É pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - IECLB, secretária-executiva da Secretaria de Mulheres na Igreja e na Sociedade, da Federação Luterana Mundial - FLM. Entre suas publicações, destacamos The LWF Gender Justice Policy, disponível em http://bit.ly/2yITdn1, The Participation of Women in the Ordained Ministry and Leadership in LWF Member Churches. A baseline assessment in LWF member churches (disponível em http://bit.ly/2gDjoVP) e Gender Justice: challenging gender roles and fighting GBV (In: Religion and development. Dialogue on gender rights and sensitive issues. NORAD & UNFPA, Oslo, 2016).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como compreender o espaço da mulher no cristianismo?
Elaine Neuenfeldt
– Na verdade, esta é uma pergunta bem ampla – o espaço das mulheres no cristianismo é diverso e plural, assim como o cristianismo é diverso e plural. Há uma pluralidade de manifestações do cristianismo, e o lugar que as mulheres ocupam nestas manifestações obedece ao contexto e realidades nas quais estas se expressam. Há formas de entender o cristianismo que restringem a posição das mulheres à subordinação, especificamente ao homem, usando aqui especialmente a interpretação do texto sagrado – a Bíblia como fundamento desta subordinação. O texto da criação é a fonte primeira deste entendimento, pois se ancora no texto onde o homem é criado primeiro e a mulher depois, como gerador de uma hierarquia, onde o homem é criado à imagem de Deus e a mulher, à imagem do homem. Esta, em traços bem gerais, é uma possibilidade.

Outra possibilidade é entender o cristianismo como expressão orientadora de igualdade e justiça entre os seres humanos. Uma hermenêutica crítica e libertadora de textos bíblicos é fundamental para este entendimento. O texto sagrado, nesta perspectiva, apresenta uma narrativa de igualdade, onde o relato da criação traz o princípio básico da imago dei – ou seja, o ser humano é criado à imagem e semelhança do divino – homem e mulher são criados em igualdade e semelhança a Deus.

Em Jesus Cristo, sua prática e vivência é outro critério para falar do lugar da mulher no cristianismo. Os relatos nos evangelhos trazem narrativas de ações protagonizadas por mulheres na história da salvação. A relação de Jesus com as mulheres que participam da caminhada na Palestina daquele tempo é de diálogo e respeito. Jesus quebra com modelos de exclusão e discriminatórios, que relegavam mulheres a pessoas de segunda categoria. As mulheres são recebidas por Jesus, caminham com ele, dialogam, atuam como sujeitos e interagem com seus ensinamentos.

Um dos momentos máximos desta valorização das mulheres e de ruptura com o modelo patriarcal, que na minha opinião há nos evangelhos, é a história da ressurreição. Jesus aparece para uma mulher, Maria Madalena , e com isso ela se torna a anunciadora da ressurreição. Esta é uma história que, de acordo com as pesquisas de interpretação bíblica, coloca mulheres nos círculos de discipulado de Jesus. Esta possibilidade é corroborada com as diversas menções do papel das mulheres nos textos posteriores do Novo Testamento: mulheres aparecem nos Atos dos Apóstolos e nas cartas paulinas em posições ativas de participação e liderança das primeiras comunidades. Basta lembrar de Romanos 16, por exemplo, onde uma extensiva lista de mulheres é citada em diferentes ministérios e funções, de serviço e liderança nas comunidades.

IHU On-Line – Quais são as proposições luteranas mais importantes para a questão da liberdade do sujeito e, mais especificamente, da mulher?
Elaine Neuenfeldt
– Liberdade é o termo chave da Reforma. Mas esta liberdade é da pessoa cristã, e não liberdade de indivíduos. Os reformadores não defendiam o que nós conhecemos hoje como liberdade de consciência, no sentido de liberdades de sujeitos individuais. Eles só reconheciam a consciência enquanto liberta pela Palavra de Deus, que era autoridade máxima.

Os reformadores estavam preocupados com a liberdade dada pela fé cristã – esta liberdade é o que faz a pessoa se relacionar com Deus, como filhos e filhas de Deus. Para Lutero, não havia liberdade isolada da fé. O aspecto da liberdade pessoal, tão importante para nós hoje em dia não era o que regia a conversa na época da reforma. Liberdade cristã significa a liberdade do pecado, uma vida de acordo com a vontade de Deus.

E aqui reside o diferencial para as mulheres – não há doutrina específica para homens e outra para mulheres. A graça, que é presente de Deus a partir da fé, é concedida a pessoas, independentemente de seu gênero. Claro que Lutero ainda tem rasgos em sua teologia que seguem as estruturas sociais, patriarcais da época. Não vamos encontrar, por exemplo, referência a um ministério ordenado de mulheres. Estas práticas e desenvolvimentos teológicos são posteriores, como muitas outras na teologia luterana. Entenderíamos, então, que a teologia luterana contextualizada nos tempos atuais nos ajuda a articular a fé, com ênfase na liberdade e graça acolhedora de Deus, que é ofertada a todas as pessoas, independentemente de seu status social, de sua identidade sexual e de gênero.

IHU On-Line – Qual é o papel das mulheres na Reforma Luterana?
Elaine Neuenfeldt
– Quero começar trazendo uma imagem: aqui em Genebra, na Universidade de Genebra, fundada por Calvino , há um muro em homenagem aos reformadores – todas as figuras representadas neste muro são homens. Há espaço para Zwingli e Lutero. Bem ao lado, muitas vezes coberto por galhos, encontra-se o nome de uma mulher: Marie Dentière .

Esta referência a esta mulher reformadora é paradigmática para tratar das experiências das mulheres com a Reforma: escondida entre as sombras da história, precisando esforço e criatividade para descobrir onde estão as mulheres, quais papéis desempenharam, quais contribuições para o movimento da reforma. Marie Dentière é exemplo de uma das reformadoras que fomos descobrindo neste processo de comemorar 500 anos. Ela atuou junto com Calvino, em Genebra. Dedicou-se aos estudos da sagrada escritura, e traduziu parte de textos bíblicos. Também escreveu sobre as mulheres testemunhas da ressurreição: “se Deus deu então a graça a algumas boas mulheres, revelando-lhes, pelas Santas Escrituras, algo santo e bom, não ousariam elas escrever, falar e declará-lo uma à outra? Ah! Seria uma audácia pretender impedi-las de fazê-lo. Quanto a nós, seria muita tolice esconder o talento que Deus nos deu”.

Mulheres participaram ativamente da reforma. Umas, por serem filhas da nobreza, apoiavam o movimento economicamente. Outras, por terem tido a chance de estudar e estar reclusas na vida monástica, ao abandonar e integrar-se à reforma, eram formadas em teologia e, por isso, participaram das elaborações teóricas, teológicas do movimento. Assim temos nomes como Argula von Grumbach , Katharina Zell , Elisabeth von Rochlitz , Olimpia Morata (na Itália) .

Muito pouco se conhecia destas mulheres. Foram necessários 500 anos para que descobríssemos a presença destas mulheres. Espero que não sejam necessários outros 500 para integrar o estudo de suas biografias e especialmente de sua teologia, nos currículos dos cursos de teologia, ou de história eclesiástica ou do pensamento religioso.

Visibilização distorcida

Outras vezes há ainda uma visibilização distorcida, como as que ficaram atrás das cortinas, nas cozinhas, como benfeitoras, ou como apoiadoras. Esta é uma visão que ainda é determinada pelas construções de gênero que temos hoje em dia. Ou seja, lê-se a história com as lentes carregadas, embaçadas pelos estereótipos de gênero que temos hoje em dia.

Recordar as mulheres do passado, implica, necessariamente, num movimento de deslocamento do lugar atribuído às mulheres no presente. Conhecer criticamente a nossa história é fundamental para que a nossa percepção e análise da realidade, tanto social, política, econômica, e eclesial sejam igualmente permeadas por perguntas pelos sujeitos invisibilizados, encobertos, mas que tiveram papel fundamental no desenvolver dos fatos. Trazer à luz estes fatos e os sujeitos é fazer jus a uma grande parte da humanidade que muitas vezes não se sente refletida nos livros oficiais de história, na forma seletiva de narrar a história. Este é um movimento de inclusão e de justiça, que traz consequências positivas no papel que mulheres podem ter hoje em dia tanto na sociedade quanto na igreja.

IHU On-Line – Qual é a importância das mulheres no luteranismo hoje? Quais são os limites e desafios ainda enfrentados na ocupação de protagonismo na Igreja e na sociedade?
Elaine Neuenfeldt
– As tradições e confessionalidades luteranas são diversas e plurais, de acordo aos contextos geográficos e culturais nos quais as igrejas estão inseridas. Vou me restringir à realidade da Comunhão de igrejas que se filiam à Federação Luterana Mundial – são 145 igrejas membro, com aproximadamente 74 milhões de pessoas cristãs, em 98 países .

Na Comunhão Luterana (FLM) há uma maioria de igrejas que integra mulheres no ministério ordenado pastoral, da palavra e sacramentos: mais de 80%. Há igrejas que consagram mulheres nas funções de bispas e ou presidentes, muitas ocupam funções de liderança como secretarias gerais, presidentes de sínodos ou assembleias gerais. Mulheres estudam teologia e são professoras de cursos de teologia, fazem estudos de pós-graduação e são ativas na produção de recursos e reflexões teológicos. Mas, apesar de todas estas manifestações de presença e participação de mulheres em cargos e funções de liderança, ainda há desafios a serem superados. Há uma minoria de igrejas que não ordena mulheres, e o desafio constante é trabalhar na superação de barreiras culturais e teológicas que impedem mulheres de ocupar espaços de liderança.

Outras vezes, quando mulheres são ordenadas pastoras e ocupam cargos de direção, como bispas e presidentas, há resistência e questionamentos da sua capacidade de liderar. Muitos destes questionamentos são baseados em argumentos culturais, que tardam em serem transformados. Mas aos poucos os câmbios podem ser percebidos. Outras vezes, os argumentos são bíblico-teológicos, e aqui reside um esforço que a teologia da reforma, a confessionalidade luterana tem de riqueza: o acesso à leitura e estudo da bíblia é para todas as pessoas crentes – todas pessoas são capacitadas em sacerdócio universal de fomentar a sua fé através do estudo das sagradas escrituras. A capacidade de interpretação usando métodos histórico-críticos e a inserção comunitária ajudam na superação de leituras fundamentalistas e fomentadoras de discriminação.

IHU On-Line – No que diz respeito às questões de gênero, quais são as grandes pautas atualmente na tradição ou doutrina, ou nas igrejas luteranas que precisam ser aprofundadas?
Elaine Neuenfeldt
– O aspecto da graça que é a oferta e dom de Deus para todas as pessoas é uma das riquezas tão grandes e profundas da teologia luterana, que ainda foi pouco discutida desde uma perspectiva teológica feminista. A pergunta que precisa ser mais discutida é: se a salvação é graça e dom, quais são as implicações desta teologia para as mulheres, que estamos acostumadas a vencer na vida por méritos e provas de nossa capacidade nas mais diferentes áreas de conhecimento? Nos foi ensinado e sentimos no dia a dia, como mulheres, teólogas, pastoras, profissionais em todas e mais diferentes áreas, de que precisamos sempre dar o passo a mais, não só ser boas no que fazemos, temos que ser melhores, mais qualificadas, com mais formação, e ainda assim recebemos menor salário, somos menos promovidas, somos mais questionadas sobre o status de nossa vida familiar quando somos avaliadas em nossa performance de trabalho. Ora, onde está a graça nisso tudo? Onde e como mulheres vivem a graça de ser e do saber? Me parece que para aquelas que estamos inseridas nas igrejas que se fundamentam na teologia da reforma, com a propagação da graça e da liberdade como fundamento básico da fé, esta formulação teológica oferece argumentos para contrapor todo um arcabouço teórico e prático que se usa de méritos, da meritocracia para medir a fé, para qualificar o ser cristão.

Outra possibilidade que experimento como pastora e parte de uma igreja que se junta em comunhão luterana é a capacidade de ler e interpretar criticamente os textos sagrados. A leitura da bíblia e mais, uma interpretação contextualizada, pode muito bem ser exercício que se desdobra no contexto da Reforma Luterana. Lutero já dizia que há que se traduzir e interpretar textos sagrados olhando para boca das pessoas que andam nos mercados, e buscar palavras que fazem sentido, que são conhecidas das pessoas. Interpretações literalistas, fundamentalistas, podem ser desafiadas a partir do instrumental crítico que a teologia luterana nos fornece. O mesmo foco na importância e acesso a educação, tanto de meninos quanto de meninas, que Lutero insistia ser tarefa das igrejas, pode ser relido como elemento fundamental que a teologia luterana pode dar para o pensamento teológico e para a articulação do papel das igrejas como interlocutoras do poder público e político no contexto atual.

Teologia e teorias de gênero

Não vejo nenhuma incompatibilidade entre ser pastora e teóloga luterana e usar o instrumental crítico das teorias de gênero. Pelo contrário, vejo problemas em usar esta ideia tão pouco crítica, tão cheia de intenções ideológicas não ditas, encobertas de posições que se utilizam da fé e religião para propagar a sua verdade única, tão cheia de si, que hoje se insere no que tem se chamado de “ideologia de gênero”. Eu sempre deixo claro que o que me orienta na minha articulação teórica, teológica é a Justiça de gênero. Quem chama isso de ideologia tem que rever o que define e usa como justiça.

A FLM adotou em 2013, após amplo estudo e discussão, num processo participativo de todas as igrejas membros, em contextualizações regionalizadas, uma política de justiça de gênero. Nesta política se define justiça de gênero como:

Justiça de gênero implica na proteção e promoção da dignidade das mulheres e dos homens que, sendo criados na imagem de Deus, são corresponsáveis cuidadores da criação. A justiça de gênero se expressa através da igualdade e através do equilíbrio nas relações de poder entre homens e mulheres e na eliminação de sistemas institucionais, culturais e interpessoais de privilégio e opressão que sustentam discriminação.

A teologia feminista e a perspectiva de justiça de gênero contribuem para as necessárias rupturas teológicas – afirmando uma igreja e teologia sempre em reforma ou em contínuo processo de reforma. A teologia feminista como base teórica e prática para trabalhar as injustiças de gênero vai necessariamente quebrar as hierarquias e ordens sagradas onde uma maioria de homens têm poder sobre todas as coisas, assim como Deus tem poder sobre, determinando limites e impondo o a sua vontade, lei e ordem, punindo e salvando.

O que estou reivindicando nesta celebração de 500 anos de Reforma protestante, resgatando as histórias e experiências das mulheres é uma teologia, uma igreja, uma prática de religião que dá sentido às nossas vidas fragmentadas, quebradas, doloridas, sofridas... Que contribua a transformar estruturas e relações injustas que produzem exclusão e marginalização. Que nossa concepção de graça, de seres agraciados em Deus, justificados pela fé nos faça livres para abraçar e ir ao encontro do outro, da outra.

IHU On-Line – Em relação ao ecumenismo, quais são os principais enfrentamentos e conquistas das mulheres luteranas? E quais as perspectivas que se abrem a partir de uma teologia feminista?
Elaine Neuenfeldt
– Vejo uma bela e frutífera colaboração e parcerias ecumênicas das igrejas e impulsionada pelas organizações de mulheres nas igrejas, no enfrentamento à violência contra as mulheres, violência baseada no gênero, violência doméstica. Há iniciativas ecumênicas, e há um esforço específico que gera uma ação conjunta das igrejas que denuncia a violência contra mulheres e de gênero como pecado, usando uma linguagem da fé, teológica. A Federação Luterana Mundial, junto com Conselho Mundial de Igrejas e outras famílias ecumênicas têm coordenado iniciativas globais nesta área, e tem produzido materiais e recursos relevantes, especialmente para a campanha dos 16 dias de superação da violência de gênero (de 25 novembro a 10 dezembro).

Iniciativas ecumênicas aqui no Brasil são inúmeras e que trazem a riqueza do que é a teologia feminista que, em articulação com os espaços e políticas públicas, traz para as mulheres e o movimento de mulheres não só na igreja, mas em toda a sociedade. Iniciativas de mulheres que trazem uma contribuição relevante no movimento de fortalecimento da democracia tão fragilizada hoje em dia no Brasil, ou da conversa sobre as implicações da liderança de mulheres, ou dos desafios que mulheres enfrentam quando ocupam cargos e espaços de poder, são alguns temas que têm sido levantados. O Conselho Nacional de Igrejas no Brasil tem se destacado neste campo.

IHU On-Line – Como feminista e militante da igualdade e justiça de gênero, como percebe a realidade das mulheres brasileiras em suas lutas cotidianas? Quais são as lutas comuns às mulheres de todo o mundo em nossos dias?
Elaine Neuenfeldt
– Vejo com profunda preocupação que há um crescimento mundial de discursos fundamentalistas e de extremismos violentos que, em nome de uma suposta preocupação de preservação da família e da tradição, relegam as mulheres para lugares e posições bem tradicionais, de submissão. O enfrentamento de fundamentalismos religiosos em suas diferentes expressões faz parte da vida cotidiana das mulheres no Brasil e no mundo. Há uma expressão fundamentalista que condena toda iniciativa que coloca mulheres em papéis protagonistas de liderança, tanto religioso como político. Esta expressão usa de subterfúgios e evasivas como a sobrevalorização da maternidade, do papel na família, do medo da diversidade da identidade de gênero como ameaças a uma suposta ordem social e cultural.

O que preocupa é que homens e mulheres têm repetido este discurso, de forma bem acrítica, especialmente no mundo das igrejas, sem no mínimo uma leitura ou conversa básica que amplie um pouco os horizontes. O medo e o rechaço às teorias de gênero, usando de forma superficial uma área de conhecimento como estas, são de fato, intencionalmente pejorativas como “ideologia de gênero”. Ora, vamos conversar sobre isso com quem pesquisa na área, vamos escutar vozes críticas, vamos escutar mulheres e homens que estão pesquisando sobre as teorias e as perspectivas de gênero por anos, como nas áreas da educação, da sociologia, da antropologia e mesmo da teologia. Estas pesquisas acadêmicas são sérias, com base de dados extensa, e estão sendo relegadas a um lugar de discriminação assustadora; pior que feito por quem leu artigo de revista, ou escutou algum político ou religioso que vocifera seu desconhecimento em forma de discriminação.

O que me parece comum no Brasil, como em muitos outros contextos com os quais trabalho, na África e na Ásia ou mesmo na Europa, é que parece que as mulheres e homens, além da luta diária de sobrevivência, de enfrentar situações de violência, de pobreza, de conflitos cotidianos de acesso à terra, alimentos, que desde muito seguem na agenda de movimentos e organizações, ainda há, hoje em dia, um movimento necessário de garantir conquistas e direitos que já pareciam estabelecidos. Há uma onda de questionamentos a leis de defesa de mulheres, de políticas positivas, como quotas, e de qualificação de violência sexual e ou física (femicídio), que vêm sofrendo tentativas sistematizadas de anulação, de revogação. Me parece que há um trabalho exaustivo no dia a dia de quem trabalha e milita em movimentos de mulheres, de justiça de gênero, feministas, de repetir o que parece óbvio, ou que tínhamos como agenda dada. Mas não. Há que renovar forças, juntar e cooperar a cada dia, para manter e para avançar passos mínimos neste mundo em que a intolerância e a falta de ética têm conquistado um lugar assustador de senso comum.

Fonte: Instituto Humanitas UNISINOS


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