Comunicação


ID: 2771

O Espírito Santo e o abraço

24/05/2019

 

Prédica de João 14.23-29 – 6º Domingo da Páscoa

Um poeta chamado Bráulio Bessa escreveu o seguinte poema.
E se ninguém me der força. E se ninguém confiar. E se eu for invisível. E se ninguém me enxergar. E se eu perder a fé. Se eu não ficar de pé. Se eu voltar a cair. Se a lágrima escorrer. E se por medo de sofrer eu pensar em desistir.
E se quando eu cair ninguém me estender a mão. E se quando eu perder sem rumo sem direção. Se eu não achar o caminho. Se eu estiver sozinho no labirinto da vida. E se tudo for escuro. Se eu não ver um futuro na estrada a ser seguida. E se esse tal futuro for pior que o presente. E se for melhor parar do que caminhar pra frente.
Se o amor for dor. E se todo sonhador não passar de um pobre louco. E se eu desanimar e se eu parar de sonhar. Queda a queda. Pouco a pouco. Se quem eu mais confio me magoar. Se a ferida for grande. Se não cicatrizar.
Se na hora da batalha minha coragem for falha. Se faltar sabedoria. Se a derrota chegar. E se ninguém me abraçar na hora da agonia e se for tarde demais e se o tempo passar.
E se o relógio da vida do nada se adiantar. E se eu avistar o fim chegando perto de mim impiedoso e veloz sem poder retroceder me fazendo perceber que o Se foi meu algoz.
E se eu pudesse voltar. E se fosse diferente. E se eu dissesse pra mim mesmo: Se renove se enfrente. Se arrisque se prepare. Se cair jamais pare. Se levante se refaça. Se entenda se reconheça. E se chorar agradeça cada vez que achou graça. Se desfaça da preguiça, do medo, da covardia.
Se encante pela chance de viver um novo dia. Se ame e seja amor. Se apaixone, por favor. Se queira e queira bem. Se pegue e desapegue. Se agite e desassossegue. E se acalme também.
Se olhe se valorize se permita errar. Se dê de presente a chance de pelo menos tentar. Se o Se for bem usado o impossível sonhado. Pode se realizar.

Medo. Angústia. Vazio. Insegurança. Tristeza. Uma despedida é capaz de provocar esses e tantos outros sentimentos. Quem de nós nunca sofreu por causa de uma despedida? Um filho ou uma filha que sai da casa dos pais pela primeira vez para estudar fora. Uma amizade que termina depois de um tempo. Um relacionamento que chega ao fim. Uma pessoa querida que morre.

Quantos de nós já não sentimos frio na barriga ao pensar em nos despedir de algo ou alguém? Quando eu era mais novo e também algumas semanas antes de ir estudar teologia, minha mãe sempre dizia uma coisa: “É muito ruim se apegar a um pastor. Porque quando a gente começa a se acostumar, criar uma amizade, eles vão embora para outra comunidade. E a gente fica aqui sofrendo”. Quando me despeço de uma pessoa, de um lugar, de um emprego ou de um sonho, algo de mim perde identidade. Um vazio se abre. É preciso se readaptar. Certamente era assim que os discípulos de Jesus estavam se sentindo – com borboletas no estômago de imaginar ter que se despedir de Jesus, perde-lo após anos de convivência.

Para entender melhor essa passagem bíblica de hoje precisamos voltar um pouco no tempo, ao capítulo 13. Ali inicia uma série de discursos de despedida de Jesus. Era preciso acalmar os corações dos discípulos e oferecer uma solução. Mostrar-lhes o Caminho.

Após lavar os pés dos discípulos e alertar sobre a traição de Judas, Jesus prepara os discípulos: “Meus filhos, não vou ficar com vocês por muito tempo”. Simão Pedro se dispõe ir junto e até arriscar a sua própria vida. Tomé diz que não sabe para onde vai Jesus. E Filipe afirma não conhecer o Pai. Eles já se encontravam em situação de medo, angustiados por saber que Jesus não estaria mais com eles. Portanto, queriam saber o paradeiro de Jesus. Para onde ele iria? Por que não os levava junto? Quando retornaria? Como seria o mundo sem Jesus?

O sentimento pode ser comparado com o de uma mãe ou de um pai que vê o seu filho ou a sua filha saindo de casa, indo morar sozinho – “Será que está comendo direito?” “E se ficar gripado, quem vai cuidar?”, “O dinheiro vai dar?”. Também poderíamos comparar o sentimento dos discípulos com o nosso sentimento hoje, quando nos deparamos com tanta violência, tanta tragédia, guerras, desemprego. Com esse ciclo de coisas ruins, que parece nunca ter fim. E aí nos perguntamos: Onde está Jesus? Por que não volta logo para acabar com tudo isso? Esse será o fim de tudo?

Os discípulos não ficariam abandonados. Jesus promete o Espírito Santo para estar no meio deles. O Espírito Santo Consolador. Aquele que dá sabedoria, criatividade, consolo, que estabelece comunhão e que dá clareza para a nossa caminhada. Ilumina nossa mente com a luz que indica o alvo certo desta estrada e ao mundo novo com certeza nos conduz. Mas, afinal, o que é o Espírito Santo?

Durante muito tempo, o tema do Espírito Santo ficou à margem da Igreja. Vemos isso nas confissões de fé da igreja antiga. No Credo Apostólico, por exemplo, uma pequena parte é dedicada a sua explicação. Nós, pessoas luteranas, sempre ouvimos das outras igrejas que em nossas igrejas não temos a presença do Espírito Santo. Não falamos em línguas estranhas, não presenciamos fenômenos paranormais. Nossos louvores não parecem alegres. E nossas orações não são verdadeiras e fervorosas.

O que de fato é o Espírito Santo? Como explicá-lo? Como experimentá-lo? No Antigo Testamento é muito raro encontrarmos a expressão Espírito Santo. Encontramos mais facilmente as expressões “Espírito de Deus”, “Espírito do Senhor”, “Espírito lá do alto”, “Bom Espírito”. O Espírito é visto como uma força que cria e mantém a vida. Como uma força dinâmica e temporária, que é dada apenas às lideranças para exercerem suas atividades. Ele também é uma força estática que é concedida e que permanece com os reis, aqueles que são ungidos. No Novo Testamento não temos uma definição precisa do seria o Espírito Santo, porém, encontramos uma rica simbologia para descrever a sua manifestação. Ele é como o vento que preenche o ambiente. Uma presença que não se vê, mas que se sente e que não pode ser controlada. Ele é como o fogo que aquece e ilumina. Como uma língua que possibilita comunicação e entendimento. É como uma pomba após o dilúvio - sinal de uma nova criação que se inicia.

Ah! Outro detalhe importante: O Espírito Santo não possui gênero: o hebraico ruach é feminino; o grego pneuma é neutro; o latino spiritus é masculino. Ele não é, portanto, nenhum monopólio masculino, assim como não se restringe a certa idade ou classe social – e nem a uma igreja. Podemos dizer o Espírito Santo é a força/energia dinâmica de Deus. No contexto da Trindade se pode dizer que o Espírito Santo não é uma “pessoa” autônoma ao lado de outras, e sim, a uma forma específica de Deus se manifestar: assim como Deus se revela como criador e salvador, ele também se revela como santificador. O Espírito Santo não está preso a algo e nem a ninguém. Não podemos possui-lo, é Ele que nos possui.

Quando Jesus promete o Espírito Santo aos discípulos, ele está querendo dizer que continuará no meio deles, porém, manifestado de outra forma - não fisicamente – de carne e osso. Tudo isso faz parte do plano de Deus para salvar as pessoas. Mas os discípulos não conseguem compreender. Quando Jesus promete a nós o Espírito Santo, Ele está querendo nos provocar a uma reflexão – Onde eu enxergo Deus? O versículo 23 nos dá pistas para essa pergunta e nos oferece uma solução: “A pessoa que me ama obedecerá à minha mensagem, e o meu Pai a amará. E o meu Pai e eu viremos viver com ela”. É preciso enxergar a Deus através dos óculos do amor.
Certa vez, Lutero contou uma história que dizia o seguinte: Era uma vez um homem muito piedoso. Ele queria já neste mundo chegar ao céu. Por isso se empenhava em fazer mais e mais obras de piedade, de caridade e de humildade. Assim que chegou, em fim, ao alto da escada da perfeição. Num certo dia, depois de grande devoção, subiu tanto que sua cabeça penetrou no céu. Olhou em volta e ficou muito decepcionado.

Pois o céu estava escuro, vazio e frio. É que Deus estava na Terra, numa manjedoura, tremendo de frio e no meio de animais. Lição da história: devemos buscar Deus lá onde Ele verdadeiramente está, no meio dos pequenos, dos pobres e dos invisíveis. E onde ele está, lá é o céu mesmo que seja num estábulo, de noite e no frio junto com animais.

O teólogo Sandro Galazzi diz que “Para nós, cristãos, tempo sombrio é Kairós, tempo oportuno.”. Assim, Deus também se encontra ali nas situações que parecem não ter luz, só escuridão. Em situações de desespero. É ali que se encontra Deus. Peço licença para ainda completar que tempo oportuno é um abraço. Encontrar a manifestação do Espírito Santo dentro de um acolhedor, curador e consolador abraço é uma das formas mais ricas e simples de sentir a presença de Deus. Em 2017 tive uma das experiências mais emocionantes da minha caminhada na teologia. Juntamente com um grupo de pessoas fomos a uma estação de trem para distribuir abraços. Abraços gratuitos para quem o quisesse. Abraços para jovens, idosos, mulheres, homens, crianças. Pessoas cansadas e animadas, felizes e entristecidas. Certamente o Espírito Santo se fez presente ali. O Espírito Santo também é como um abraço. 

Termino essa reflexão trazendo as palavras do teólogo e poeta Rubem Alves: “Acho que Cristo enche todos os espaços do universo. Lutero falava que Cristo está presente até na menor folha, muito embora nas folhas o nome dele não esteja escrito. Quem ama uma folha ama a Cristo. Quem tem amor respira Cristo mesmo que não fale o nome dele. Quem ama, mesmo que não cite as Escrituras nem saiba o nome de Cristo, está nele”.

Por isso, amados e amadas irmãs. Antes de nos perguntarmos por que Cristo ainda não voltou ou por que Deus permite que coisas ruins aconteçam. Façamos outra pergunta: É Deus que se afastou de nós ou nós que não o enxergamos mais?

Que a paz de Deus, que supera todo o nosso entendimento, guarde os nossos corações e mentes. Que o Espírito Santo Consolador nos abrace fortemente e calorosamente e preencha o nosso coração com a esperança e a certeza do Cristo Ressuscitado, que está no meio de nós. Amém.
 


Autor(a): Lohan S. Tesch - estagiário em BH
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Belo Horizonte (MG)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Área: Comunicação / Nível: Comunicação - Programas de Rádio
Testamento: Novo / Livro: João / Capitulo: 14 / Versículo Inicial: 23 / Versículo Final: 29
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 51970
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