1 Coríntios 1.26-31

Auxílio Homilético

17/08/1980

Prédica: 1 Coríntios 1.26-31
Autor: Carlos F. R. Dreher
Data Litúrgica: 11º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 17/08/1980
Proclamar Libertação - Volume: V


I — Quem somos nós? — Primeiras reações ao texto

Tenho certa dificuldade de decidir-me a pregar sobre um texto que não me indica claramente onde se encontram os meus ouvintes e onde estou eu. Presentemente estou colocado diante do problema de minha (nossa ) identidade. Quem são, entre nós, os sábios, os poderosos e os nobres? Quem são, os loucos (tolos), fracos, humildes, desprezados e os que não são?

Somos nós uma comunidade urbana, de classe média, na qual os humildes nem participam? Por que não estão aí, conosco? Nós os marginalizamos? - Ou somos uma comunidade urbana em que justamente os sábios e poderosos não mais participam?

Somos uma comunidade rural ou suburbana, onde ainda participam pessoas das mais variadas condições de vida, em coexistência pacífica? Qual é a base dessa paz? O amor cristão ou a indiferença mútua? Qual tem sido o meu papel como pregador, o de pregar uma mensagem neutra para que as diferenças sociais não caiam em vista? A paz aparente pode também esconder o desprezo mútuo, que secretamente existe.

Ou somos mesmo uma comunidade humilde que Deus escolheu para envergonhar os nobres?
Sinceramente, diante de um texto que me apresenta uma variedade tão grande de diferenças na vida humana, não posso ignorar as diferenças e injustiças que existem entre nós. E mais insistentemente impõe-se a pergunta: Quem somos? Onde estamos? O texto é um desafio - a fé cristã é um desafio!

Felizmente a perícope não apresenta somente questionamento e juízo. Ela é determinada pelo indicativo: vós sois dele, em Cristo Jesus. E daí se deduz o imperativo: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor. Depois de vermos o que isso significa, poderemos descobrir qual é a mensagem atual para nós e nossos ouvintes.

II - A mensagem do texto

A unidade da comunidade em Corinto está ameaçada (1.10ss). Há indícios evidentes de formação de grupos em torno de diferentes líderes espirituais. Não está bem claro se essa formação de grupos tem causas teológicas ou advém de aspectos externos, como, p.ex., o estilo arrebatador da pregação de Apoio. Paulo não se detém em caracterizar detalhes de cada corrente; também não desenvolve admoestações ou argumentos contra este ou aquele grupo; nem mesmo tenta provar que o grupo dos seus próprios simpatizantes está correto. Ao contrário, valoriza positivamente a atuação de outros pregadores.

Paulo concentra-se numa coisa: que em tão pouco tempo a comunidade tenha esquecido a base de sua existência. Se são alguma coisa, o são por causa de Cristo (1.30); não existe glória no próprio homem (1.29 e 31). Paulo vê a origem das desavenças no andar segundo o homem (3.3-4), na jactância humana e no descaso ao conteúdo central do evangelho: o Cristo crucificado.

Por isso, o apóstolo desenvolve uma argumentação profunda e ampla sobre o sentido da crucificação de Cristo (theologia crucis) como negação de qualquer tentativa de engrandecimento próprio do homem (1.18-3.23). Nessa argumentação surge uma controvérsia entre sabedoria de Deus ( = loucura) e sabedoria dos homens. Em paralelo está a contraposição: fraqueza X poder. O termo SOPHIA e derivados aparecem nada menos que 18 vezes nestes poucos capítulos. Sabedoria dos homens torna-se um termo geral para designar qualquer forma de jactância que despreza a cruz de Cristo como fraqueza e loucura. Sabedoria segundo a carne (1.26) quer dizer: a sabedoria que passa com o homem.

Paulo atinge o primeiro ponto da sua argumentação em 1.25 e passa a desenvolver essa ideia da loucura e da fraqueza de Deus mais sábia e mais forte do que os homens, em dois exemplos práticos: 1. a composição da comunidade em Corinto (1.26-31) e 2. o caráter da sua própria pregação (2.1-5).

V.26: Paulo aponta para a realidade dessa comunidade, como um exemplo para a maneira como Deus age: Deus não escolheu a elite da sociedade: Deus não se apoia na sabedoria, no poder e na nobreza dos homens para executar o seu propósito em Corinto.

Reparai na vossa vocação - quem são os que foram chamados para participar do mistério do evangelho? A comunidade de Corinto, como outras comunidades contemporâneas, era composta principalmente de pessoas com poucos recursos e sem influência (possivelmente admitiam-se também escravos). Exceções eram raras; se haviam representantes da elite intelectual e económica, eram tão poucos que Paulo mal os considerou - não foram chamados muitos.... Não há explicação direta para este fato. Por que não há muitos sábios, poderosos e nobres na comunidade? Quero crer que Isso seja assim justamente porque, a partir da sua posição segura e superior, a salvação por intermédio de um Cristo crucificado é escândalo e loucura (1.23). Contudo, Paulo vê nisso uma intenção divina.

Vv.27-29: Qual seria a intenção por detrás dessa seleção? A longa frase termina no v.29 e aí está a conclusão do pensamento. Deus age assim para que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Méritos e potencialidades humanas não têm valor perante Deus. Somente tem valor aquilo que, por graça, Deus reveste de valor. Os sábios, os poderosos em todos os sentidos, os que são alguma coisa, de acordo com os valores da sociedade humana, têm necessidade de se exaltarem a si mesmos e pretendem ser auto-suficientes. Não necessitam de Deus, muito menos crucificado. Há uma distorção dos valores reais e, no entender de Paulo, Deus promove uma inversão de valores justamente para mostrar o que tem valor. Deus escolheu as coisas loucas do mundo (= tolas) com a intenção de envergonhar os sábios, isto é, para desqualificar os que se engrandecem por sua sabedoria. O mesmo ocorre com a escolha dos fracos, dos humildes, dos desprezados e dos que não são. Paulo crê que a eleição destes é intencional, justamente para que se torne evidente a desqualificação daqueles que, por causa do seu poder - económico ou político - ou devido à posição social, a si mesmos engrandecem e, em fazendo isso, humilham e desprezam os demais.(É interessante notar que Paulo usa termos bem específicos: SOPHIA é característico do gnosticismo e o ser ', como predicado divino, é o conceito mais elevado da filosofia grega.) Neste confronto, Paulo enaltece a graça de Deus: ao que não dispõe de méritos Deus dá valor; aos que não têm prestígio na sociedade humana ( = os que não são), Deus dá uma nova existência, dá-lhes a maior possibilidade de ser: ser seus filhos.

Portanto, os coríntios apenas precisam reparar na sua vocação para a comunidade e compreenderão a peculiaridade da ação de Deus, que se encontra em franca contradição com a sabedoria e o poder dos homens.

Vv.29-31: Assim como nenhum ser humano tem valor em si mesmo e de nada lhe vale a tentativa de se engrandecer (v.29), assim também a sua única esperança está em Deus. O

v.31, que é inspirado em Jr 9.23-24, recebe o seu significado a partir do que foi dito anteriormente, especialmente no v.30: Vós sois dele, isto é, sois a partir dele, sois por sua iniciativa em Cristo Jesus. Pela ação salvadora de Deus a existência humana recebe o seu valor. Justamente na maneira humilde, fraca e tola pela qual aconteceu tudo na vida de Jesus - seu nascer, viver e morrer - é que se manifestou a sabedoria de Deus, seu poder que justifica, santifica e redime o homem.

Existe coerência entre o modo de Deus agir em Jesus Cristo e a vocação da comunidade. Por isso não há motivo, nem sentido, de o homem glorificar e justificar-se a si próprio. A única glória do homem é a que Deus lhe confere, a partir da sua glória, não reconhecida pelo mundo (cf. 2.7-9).

A glória dos coríntios está declarada na sua eleição para a comunidade. E a razão de tudo isso é Cristo. Portanto, não tem sentido o partidarismo na comunidade, a formação de grupos e o desprezo de uns pelos outros (cf. 3.18-23).

III - Procurando concretizar a mensagem

Como procurei frisar na introdução, é necessário refletir sobre a composição da comunidade à qual se prega. O nosso texto, com toda a temática profunda do contexto, poderá induzir-nos, facilmente, a uma pregação teórica. Isso acontece quando não levamos em conta a realidade em que vivemos, ou quando temos receio de magoar alguém e, por isso, deixamos de falar das suas deficiências e defeitos. Dependendo da situação em que nos encontramos, a pregação poderá ter caráter distinto: acusação e chamado ao arrependimento, convite à reconciliação de grupos ou pessoas em conflito, encorajamento para perseverar na humildade.

Imagino que a maioria das nossas comunidades tem algo em comum: não se contentam com simplicidade e humildade. Deseja¬mos ostentar construções grandes e bonitas. Gostamos de realizar grandes concentrações, reuniões brilhantes. E para o serviço caritativo não temos verbas. Muitas vezes ocupamo-nos em pôr em evidência pessoas que representam uma elite, enquanto que para pessoas simples não temos olhos nem tempo.

Em algumas comunidades não podemos nem de longe indagar qual é o seu compromisso com os que não são, porque igreja não se mete em política. Neste particular temos uma tarefa difícil: Como explicar que a ação de Deus, como descrita por Paulo em nossa perícope, é política, e ao mesmo tempo esquivar-nos de preconceitos e julgamentos maldosos? A unidade da comunidade é mera tolerância ou realmente fruto da consciência de que todos somos dele, em Cristo? Estas são apenas algumas facetas de nossas comunidades. Porém, creio que temos o dever de levar nossas congregações e os seus líderes a um questionamento de seus projetos prioritários e de sua prática comunitária, através do confronto com a mensagem do texto.

A pergunta básica deverá ser: Nossa maneira de ser igreja é um reflexo claro da ação de Deus por intermédio de Jesus Cristo? (Sempre lembrando que a maneira de Deus é o caminho da humildade e do serviço.)

A mensagem básica do nosso texto é evangelho puro: Deus procura e valoriza o homem, por mais insignificante que este pareça, e assim dá sentido à sua existência. A vida de uma comunidade cristã deve espelhar isso e não a vanglória humana.

Estou convencido de que nós, cristãos, daremos um testemunho mais convincente de nossa fé na graça de Deus, quando agirmos, conforme essa mesma graça: quando houver aceitação mútua entre todos, quando sairmos em busca do marginalizado e do desprotegido.

Eu começaria o sermão com a colocação básica da dimensão de evangelho contida no texto: O poder e a sabedoria de Deus se manifesta na fraqueza e em aparente loucura. - Cristo crucifica-do - A comunidade de Corinto.

Seguiria com uma verificação, por meio de exemplos concretos, da falência do poder e da mania de grandeza dos homens, e do valor relativo da sabedoria humana: Poder gera injustiça; sabedoria não salva. Como exemplo - hoje - citaria o desespero e a perplexidade de nossa sociedade, tão orgulhosa de sua tecnologia, frente a um problema como a falta de petróleo.

A parte principal do sermão iniciaria com a pergunta: Qual deve ser a nossa posição frente a um mundo com sua fabulosa, porém enganosa, sabedoria? E com isso introduziria um questiona-mento da maneira de ser da comunidade: Vós sois dele, em Cristo. Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor. - Nossa vida em comunidade reflete isso? Somos uma comunidade humilde que Deus escolheu para envergonhar a sabedoria do mundo? Ou somos confundidos com ou equiparados ao mundo e competimos com seu poder? Se for assim, os envergonhados somos nós. Essa análise deveria ser a mais concreta possível, abordando alguns poucos exemplos e indicando novos rumos a serem seguidos.

IV - Bibliografia

- BALZ, H. R. Christus in Korinth. Kassel, 1970.
- BOEHMER, U./GENG, A./MERCK, U. Meditação sobre I Coríntios 1.26-31. In: Predigtstudien. Vol.2/2. Stuttgart, 1974.
- LIETZMANN, H. An die Korinther I - II. Tübingen, 1931.
- WENDLAND, H. D. Die Briefe an die Korinther. In: Das Neue Testament Deutsch Vol.7. Göttingen, 1964.


Autor(a): Carlos F.R. Dreher
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 12º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 26 / Versículo Final: 31
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1979 / Volume: 5
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18286
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