1 Coríntios 10.16-17 (18-19)

Auxílio Homilético

13/04/2006


Prédica: 1 Coríntios 10.16-17 (18-19)
Leituras: Êxodo 24.3-11 e Marcos 14.12-26
Autor: Valério Guilherme Schaper
Data Litúrgica: Quinta-Feira Santa
Data da Pregação: 13/04/2006
Proclamar Libertação - Volume: XXXI


1. Quinta-feira santa: uma chance missionária!

O nosso texto está previsto para a quinta-feira da semana santa. Na semana santa, há um clima que envolve as pessoas e as impulsiona a procurar a igreja. Elas vêm motivadas por um sentimento que mistura resquícios de cristandade e de busca real por fundamento. Por ser menos suscetível ao processo de “espetacularização” que rege as mídias, a semana santa tem conseguido manter seu significado a salvo das investidas dessa lógica de mercado.
As comunidades ainda se enchem nessa ocasião e, em parte pelo persistente efeito inercial dos séculos de cristianização, temos a chance de acolher esses visitantes periódicos, apresentar-lhes de forma relevante o significado dessa semana e despertar o interesse pela vida comunitária. Essa tarefa exige preparo da comunidade e do obreiro. A organização é fundamental. Vale lembrar, contudo, que missão não se resume a um ato de vontade. Ela só é possível na força do Espírito.

O texto previsto para a quinta-feira é muito apropriado, pois é rico em sentidos para a nossa vida e para a nossa vivência em comunidade. É funda- mental, pois, que se resgate o evangelho contido no texto. Não significa, contudo, que se ignore o que há ali de juízo ou de lei. Importante é que o púlpito não seja, nessa ocasião, oportunidade para criticar os que têm anda- do distantes da vida comunitária.

2. Divisões e contendas: a situação da comunidade de Corinto

A primeira Carta aos Coríntios – deixando aqui de lado todas as discussões sobre a composição dessa carta e, sobretudo, sobre a integridade do bloco temático que vai dos capítulos 8 a 11 – é um painel rico da vida de uma comunidade cristã. O painel é tanto mais interessante quanto mais graves são os problemas que ali surgem. Graças às “divisões e contendas” – é preciso agradecer –, pudemos conhecer questões práticas da vida de uma comunidade urbana, aclimatando-se à cultura greco-romana, e Paulo pôde nos proporcionar um variado cenário de sua teologia, exercitando seu melhor estilo de escrita: a diatribe.

O texto previsto para a quinta-feira santa encontra-se no grande bloco que vai do capítulo 8 ao início do capítulo 11. Todo esse bloco estabelece uma profunda reflexão sobre alimentos consagrados aos deuses pagãos – ídolos – e a liberdade cristã. Essa reflexão procede de maneira curiosa, pois é como se Paulo fosse refletindo em círculos concêntricos. Obviamente, o nosso texto está no núcleo do qual irradiam os demais círculos. Ele é como a pedra atirada ao lago. Da incidência de seu impacto sobre o espelho d´água surgem as ondas (reflexivas) que vão formando os círculos. Examinemos, pois, a estruturação do bloco 8-11 (FOULKES, p. 225; MEEKS, pp. 152-7).

A Comida sacrificada aos ídolos: comida aceitável e responsabilidade (8.1-9.27)

a Coríntios: conhecimento e responsabilidade
     a Conhecimento: O saber e o amor. O amor edifica.
       Tudo procede de Deus (1-6)
     b Conduta: a liberdade não pode representar tropeço para os fracos (7-13)
            7 – Não há este saber em todos.
            8 – A comida não recomenda a Deus nem desrecomenda.
            9-13 – Conduta recomendada: limitar-se para não escandalizar o irmão.
b O exemplo do apóstolo: liberdade e responsabilidade (9.1-27)
   a1 Afirmação de um apostolado livre (1-18)
            19-23 – A submissão por amor ao evangelho
   b1 Exortação e exemplo (24-27)
            24-27 – A imagem do atleta: autodomínio para atingir a meta

B Comida sacrificada aos ídolos: comida proibida (10.1-22)
     b O exemplo de Israel (1-13)
         a1 Narrativa de um fato passado: Deus pune Israel por idolatria (1-5)
         b1 Advertência para o presente: quem está em pé que não caia (6-13)
     a Coríntios: conhecimento e responsabilidade (14-22)
        a Conhecimento: participação é comunhão (15-18)
        b Conduta: Não participar das comidas pagãs (19-22 e 14)


A1 Comida sacrificada aos ídolos: comida aceitável e responsabilidade (10.23-11.1)
         a1 Coríntios: conhecimento e responsabilidade (10.23-10.32)
              a Conhecimento: Nem tudo que é lícito (comer de tudo) edifica (23, 25-30) )
              b Conduta: Edificar o irmão. Critério: o interesse do outro (24, 31-32)
        b1 O exemplo do apóstolo: liberdade e responsabilidade (10.33-11.1)
             a1 Descrição do modelo de serviço (10.33)
             b1 Exortação e exemplo (11.1)

A reflexão acerca da carne sacrificada aos ídolos é complexa. Na ver- dade, era praticamente impossível viver em uma cidade de cultura greco- romana sem ter contatos com o mundo religioso da época. Especificamente no tocante ao consumo de carne sacrificada a ídolos, isso era especialmente difícil. Não se conhecida, nesse contexto, carne que não tivesse sido sacrificada. Portanto, essa era, em grande parte, a carne encontrada nos açougues, que adquiriam dos templos o excedente. Além disso, as ocasiões para que se consumisse esse tipo de carne eram inúmeras: visitas a parentes pagãos, festividades religiosas públicas, compromissos sociais com fartos banquetes, compras regulares em açougue etc.

O impacto teria sido minimizado não fossem as diferentes percepções da questão dentro da comunidade. Alguns, por uma familiaridade com seu passa- do religioso, ainda comem essas carnes e, sendo fracos, tendem a contaminar- se (8.7). Outros, porém, dotados de “conhecimento”, “saber”, participam sem problemas desses banquetes. Outros tantos, provavelmente, estão confusos e inseguros. É preciso que Paulo encontre uma linha de argumentação satisfatória para todas essas percepções. Ele apresenta-a em raciocínios que partem dos círculos mais afastados do centro (A) – e por isso mais visíveis – para o centro (B) e volta ao mais afastado (A1) para fechar a sua argumentação.

A estrutura demonstra com clareza o caráter concêntrico da reflexão paulina. Do bloco B, argumento central de Paulo, a reflexão abre-se em dois círculos (A, A1). No bloco A (capítulos 8 e 9), Paulo afirma que há um “sa- ber”, um “conhecimento” que atesta que, de fato, os ídolos não representam nada no mundo (vv. 1 e 4). Esse “saber” está ciente de que há um só Deus e d´Ele procedem e para Ele convergem todas as coisas. Esse “saber”, adverte Paulo, comporta o risco da soberba ao “não saber como convém” (8.2). É um saber orgulhoso de si mesmo. Além disso, não há esse conhecimento em todos (8.7). É verdade, diz Paulo, que comer ou não comer não nos torna mais ou menos agradáveis a Deus. Há, portanto, espaço para a liberdade de consciência. Contudo, esse saber pode converter-se em “pedra de tropeço” para outros, pois não se deixa reger pelo critério edificador do amor (8.1).

Liberdade significa, nessa passagem, a auto-imposição de limites para não escandalizar irmãos fracos (vv. 9, 10, 11, 12). No capítulo 9, Paulo ilustra essa conduta apresentando o seu próprio exemplo de contenção e submissão a tudo e a todos por causa do evangelho. Encerra com a bela imagem do atleta que em tudo se domina para atingir o alvo.

No bloco B (10.1-22), Paulo avança então para o cerne de seu argumento. Como tratava de um exemplo concreto, Paulo apresenta um novo exemplo para mostrar a conduta contrária. O povo de Israel gozava da intimidade de povo apreciado e escolhido por Deus. Por intermédio de criativas analogias Paulo diz que eles também tinham um Batismo (10.1-2) e uma Eucaristia (10.3-4), mas isso não foi suficiente para guardá-los da idolatria (10.7-8). Paulo tem aqui em vista tanto a auto-suficiência do saber como a falsa segurança gerada por uma compreensão mágica dos sacramentos. Por isso, quem está em pé deve ficar atento para não cair (v. 12). As tentações existem, são reais e ninguém, nem o povo de Israel tampouco os coríntios, está a salvo. Paulo procura colocar em justa perspectiva a vida cristã. Ela não é um estado adquirido, mas uma promessa de livramento em meio a constantes ameaças e tentações. Deus é fiel e não há sentido em pô-lo à prova (10.9-10, 13). É preciso evitar, fugir da idolatria. Nesse ponto, Paulo apresenta todo o peso de seu argumento. Os cristãos, comunidade de batizados, fazem a experiência regular de uma comunhão com o Senhor da Igreja, fundada na participação eucarística (10.16-17). Paulo reafirma: não se trata de atribuir qualquer existência real aos ídolos das ceias pagãs. Entretanto, segundo Paulo, ocorre nos rituais festivos pagãos uma associação com “daimônios” (v. 20).

O imaginário religioso judaico (Lv 17.7, Dt 32.17, Is 65.11, Sl 106.37) e greco-romano atribuía, de forma diversa, poder a forças espirituais intermediárias. Segundo a compreensão greco-romana, essas forças/daimônios (boas e más) compartilhavam a realidade material humana e exerciam go- verno sobre esse âmbito caído e contaminado. Essas forças podem personificar a natureza ou algo mais abstrato, como destino ou sorte (FOULKES, pp. 268-9; LANG, pp. 128-89). Nesse arranjo cósmico não há garantias de ordem ou de bondade nos desígnios. A magia, a astrologia e os cultos de mistérios prometiam formas de controlar as contingências e de transcender o caos e os determinismos. Na compreensão de Paulo, os “daimônios” são seres espirituais inferiores e subordinados a Deus (4.9) e aos seres humanos (6.3, 8.5, 8.35-9). Assim, a idolatria significa que o ser humano concede po- der a forças subordinadas e más. O ser humano atenta contra a própria dignidade de sua natureza e contra Deus (FOULKES, pp. 266, 268-70; LANG, pp. 128-9). Daí a força com que Paulo insiste que não é possível associar-se com “daimônios” (v. 20). Não é possível, portanto, partilhar o cálice e a mesa do Senhor e o cálice e a mesa dos “daimônios” (v. 21). Essa participação concede-lhes poder, pois é sinal de que as velhas lealdades socioeconômicas não foram rompidas e, permanecendo esse cordão umbilical, há intercâmbio ideológico (FOULKES, pp. 272-3).

No bloco “A1”, Paulo retoma os argumentos do bloco “A” de forma resumida e acentuada por meio de afirmações fortes. Paulo afirma de saída que todas as coisas são lícitas (10.23). Portanto, é possível comer de tudo o que se encontra no mercado e tudo o que for oferecido em uma refeição pagã (10.25-27). Então vale toda a liberdade. Contudo, nem tudo o que é lícito edifica a comunidade. Vale, então, um outro raciocínio: se for informado da procedência ritual da carne, deve-se evitar comê-la para que não ocorra que se escandalizem judeus, gentios, em suma, a “igreja de Deus”. O critério, segundo Paulo, é abandonar o interesse próprio em função do interesse do outro (10.24). Paulo encerra com um exemplo de conduta pessoal (10.33-11.1).

Como ademais em toda a carta, no bloco 8-11 os problemas subjacentes aos argumentos de Paulo só se explicam plenamente se levarmos em consideração as tensões sociais presentes na comunidade. O tema do alimento sacrificado e as refeições cúlticas nos templos pagãos ou convites particulares refletem claramente a estratificação social da comunidade (THEISEN, pp. 159-61; MEEKS, p. 154; ELLIOT, pp. 268-71.). Os “fortes” (1 Co 1.27,4.10, 10.22), os que têm “conhecimento” são bem situados social e economicamente. Eles têm acesso regular a ofertas de carne e não têm problemas com isso. Têm uma vida social movimentada: por inserção social tomam parte nas festividades públicas nos templos, são convidados para banquetes particulares, podem comprar tudo o que precisam no mercado etc. Os que são social e economicamente menos favorecidos não tinham tantas possibilidades a seu alcance e as ofertas eram raras, como nos períodos de celebrações cultuais em que havia distribuição pública de carne consagrada (ELLIOT, pp. 269-70; DREHER, pp. 171-2; THEISSEN, pp. 137-9.).

Paulo então se dirige aos “fortes”, “sábios”, “bem situados”. Sua argumentação é complexa e parece oscilar entre a liberdade responsável e a proibição. O que para Paulo talvez esteja claro é que para os “bem situados” a participação nessas ceias sacrificiais ou a obrigação social de atender a convites para banquetes eram “formas de comunicação” necessárias. A restrição absoluta imporia impedimentos à comunicação, gerando problemas de convivência com a antiga sociedade. Paulo não pretende desestimular esse “intercâmbio social”, animando formas de separatismo e enquistamento. Assim, Paulo considera parcialmente a atitude “dessacralizadora” desses “bem situados” – uma espécie de secularismo pragmático a serviço da necessária navegação social (cf. THEISSEN, pp. 143-5, THEISSEN apud ELLIOT, p. 271) –, pois, de fato, era possível concordar teologicamente com isso: só Deus é Deus, os ídolos não são nada no mundo e a comida é indiferente para a salvação. Ele endereça seus argumentos aos “fortes” e argumenta a partir de sua compreensão “dessacralizadora” do cosmos. É importante dizer, entretanto, que Paulo não vê os conflitos da perspectiva deles. À perspectiva “de cima” (1 Co 7.1), dos “fortes”, Paulo contrapõe a perspectiva “de baixo”, dos “fracos” (1 Co 1.11, 11.18 [THEISSEN, pp. 145-6, 162]).

Paulo quer, a todo custo, evitar a abordagem da ideologia da “elite coríntia” no campo especulativo. Assim ele afirma, em princípio, a perspectiva dos “fortes” para renunciá-la na prática. Em cada caso, Paulo “circunscreve a validade teórica” do “conhecimento” dos “fortes” dentro das “constrições práticas da vida comum” (ELLIOT, pp. 271-2). O que de início soa como qualificação de princípio resulta, efetivamente, em restrição da liberdade, submetendo-a a critérios muito claros. A parênese paulina nesse caso não está baseada no estabelecimento de limites externos artificiais, mas na coesão interna a partir de uma conduta derivada de um fundamento e uma lealdade mais profundos (MEEKS, p. 157). Passemos, então, à análise desse fundamento, cujo “núcleo duro” são os vv. 16-17 do capítulo 10, o texto previsto para a quinta-feira santa.

3. A koinonia do corpo de Cristo” – Interpretando

Nos vv. 16 a 17 do capítulo 10, Paulo tece, com concisão impressionante, o cerne de seu argumento. No v. 16, Paulo, invertendo a ordem usual da ceia e valendo-se do linguajar da ceia pascal judaica, pergunta se o cálice da bênção – o terceiro cálice de vinho sobre o qual se proferia, na ceia judaica, a ação de graças pelas bênçãos recebidas – não é efetivamente koinonia (comunhão) do sangue de Cristo e se o pão partido não é efetivamente koinonia do corpo de Cristo. A pergunta é retórica, pois a intenção de Paulo é, pela pergunta, lembrá-los que, na ceia eucarística, os atos paralelos de comer e beber têm um efeito unitário: a koinonia do corpo e sangue de Cristo e o que tudo isso implica na compreensão paulina (ser crucificado com Cristo, morto, ressuscitado e viver “em” e “por” Ele). Essa experiência da mais íntima koinonia com Cristo é participação (LANG, p. 127, CONZELMANN, p. 171, ELLIOT, p. 281). Na participação eucarística, somos unidos a Cristo e somos, assim, “conformados” com Ele na sua morte e ressurreição (Fp 3.10, Rm 8.29, Gl 4.19). Theissen define essa imagem do “corpo de Cristo” como “cristologia participacionista” e afirma que ela tem grande alcance operacional em contextos de marcadas diferenças sociais (THEISSEN, pp. 175, 177-8).

A idéia de participação no corpo de Cristo tem também desdobramentos eclesiológicos inegáveis em Paulo. A unidade com Cristo serve à unidade do “corpo de Cristo”. Portanto, ela não está a serviço da edificação de indivíduos, mas da união de indivíduos para formar o “corpo de Cristo”, a igreja. (CONZELMANN, p. 172). Esse desdobramento eclesiológico (corpo de Cris- to) da compreensão da Eucaristia é clara teologia paulina (LANG, p. 128).

O v. 17 reforça, por outro ângulo, as idéias acima mencionadas. A multiplicidade dos crentes é reduzida pelo efeito unitário do pão (do comer e do beber) a um corpo, a uma comunidade com Cristo. A participação no único pão transforma a multiplicidade e a diversidade em unidade. A unida- de é recebida como dádiva por meio da participação sacramental. A unidade não se impõe por uma decisão particular ou por uma coerção moralizante, gerada pela necessidade de delimitação de fronteiras religiosas (DREHER, p. 174). A unidade nasce da comunhão do corpo e do sangue de Cristo. Ela brota de dentro. Ela é dom! Evidentemente, essa coerência interna, a unida- de e a igualdade entre os cristãos, também protege as fronteiras de outras participações cúlticas (MEEKS, p. 238).

O deslocamento da reflexão é claro. Em sua interpretação, Paulo vai do caráter teológico do sacramento a uma intenção social: uma transformação das relações sociais em que de uma multiplicidade divergente deve surgir uma unidade, uma comunhão de irmãos (MEEKS, p. 237, THEISSEN, p. 165). Simultaneamente, as tensões sociais são situadas dentro do universo simbólico maior da Eucaristia: tornam-se parte de um “drama escatológico” (MEEKS, pp. 236-7, THEISSEN, pp. 163-4). Como diz Theissen (THEISSEN, pp. 165-6; conforme também reflexões mais amplas em MEEKS, pp. 238-9 e ELLIOT, pp.
261-2.), as ações sacramentais são “representações dramáticas de processos sociais”, traduzindo em sua linguagem simbólica o que se deseja que efetivamente ocorra: “o pão que partimos não é comunhão no corpo de Cristo”? Executa-se simbolicamente, na ação performativa da ceia, a integração social: dos muitos surge a unidade. As tensões sociais intra-humanas são representadas e vencidas e sanções são estabelecidas. Ações fisicamente verificáveis tornam-se reais. A comunhão tem, então, respaldo também externo. A comunhão, como diz Schökel, prolonga-se num antes e num depois. Antes porque os meios que proporcionam a comunhão com Cristo supõem comunidade. Para haver comunhão, é preciso haver comunidade, partilha de muitas coisas. A comunhão experimentada na ação sacramental reflui sobre a comunhão comunitária, alargando e aprofundando seu fundamento (FOULKES, p. 265, SCHÖKEL, p. 120). Estabelece-se assim uma tensão entre o ideal da comunhão, representado dramaticamente e vivenciado pelo crente na ação sacramental, e a comunidade que buscava exercitar sua distinção para com o mundo, por um lado, e as estruturas normativas da sociedade que contaminavam ideologicamente a comunhão real da comunidade, por outro (ELLIOT, p. 261).

A ação sacramental permite justamente que a experiência do “limiar” (da comunhão íntima do corpo de Cristo como unidade radical) flua para a vida da comunidade (MEEKS, pp. 238-9, ELLIOT, pp. 261-2.). Assim, a partir da unidade batismal e da unidade eucarística estabelecem-se conexões insuspeitáveis: o batismo interliga judeus e gentios, escravos e libertos. A ceia, por sua vez, une pobres e ricos (MEEKS, p. 177, ELLIOT, pp. 261-2). Vale frisar mais uma vez que o critério dessa unidade é o “fraco”.

Paulo apela para unidade do corpo de Cristo e chama (sentido literal de ekklesia) para que se afastem do consenso autogratificante da polis. O problema da elite de Corinto, dos “fortes”, é não ter reconhecido como suas antigas lealdades são incompatíveis com a nova ordem de coisas inauguradas pela “comunhão do corpo de Cristo”. Eles devem viver como estrangeiros dentro da polis (ELLIOT, pp. 273-4). O corolário da unidade é, portanto, uma radical exclusão de todas as outras conexões religiosas, o que significa que a solidariedade de grupo acarreta fronteiras firmes (MEEKS, p. 237). O compromisso gerado pela participação na Eucaristia não é excludente, mas exclusivista. Todos os demais compromissos e lealdades precisam ser submetidos ao crivo do compromisso determinado pela comunhão eucarística, isto é, precisam ser claramente abandonados ou subordinados ao critério desse último. Essa lealdade radical ao Cristo crucificado subordina o “interesse próprio” ao “interesse do outro, do fraco”, o “saber” ao “amor” e determina o abandono de todas as lealdades que amesquinham a dignidade daqueles que são “conformados” à imagem de Cristo.

4. Embora muitos, somos um só corpo” – Refletindo

Não celebramos sozinhos a Ceia do Senhor. Cantamos algumas vezes: “Não é sozinho que venho ao altar ” (HPD 1, 141). A palavra de Deus arranca-nos da solidão para a comunhão. A Eucaristia insere-nos na comunhão, amarra-nos a Cristo e à comunidade. Ao chegarmos à presença de Deus, aproximamo-nos também dos outros. Assim a graça de Deus, que acolhe e aceita, sempre nos alcança na e pela comunhão. Na e pela comunhão somos libertados para a autêntica vida em comunidade. O encontro de todos diante do altar é como uma confissão pública de que sabemos que não somos perfeitos. Nós nos confessamos pecadores e necessitados do perdão. Somente quem confessa fraqueza, quem confessa suas falhas, quem se confessa necessitado é que se abre para a comunhão. As pessoas auto- suficientes acham que não precisam dos demais. As pessoas auto-suficientes acham que só os perfeitos podem ter parte na Ceia. A auto-suficiência não cria comunidade.

A Eucaristia é a grande “festa da reconciliação”, pois somos presenteados com a nova comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs. Na alegria dessa festa, corremos sempre o risco de transformar essa reconciliação, essa aceitação numa propriedade particular. Os nossos interesses e lealdades anteriores, os “daimônios”, ameaçam a todo momento a koinonia do corpo de Cristo. Em nossas celebrações da Ceia do Senhor, costumamos cantar que “(...) sendo aceitos por Cristo Jesus, (...) saiamos em busca do irmão” (HPD 1, 141). A comunhão que Deus inicia conosco não tem fim. Ela não sossega enquanto não incluir todos. Por isso a verdadeira comunhão é missionária e diaconal, pois é próprio da comunhão incluir e servir. A comunhão não é realidade auto-suficiente. Ela é exclusiva, mas jamais excludente.

Há um canto de Jaci Maraschin que diz: “O pão da Eucaristia é mais do que pura massa. É feito de alegria e dado a nós de graça” (O povo canta, p.
243). No pão e no vinho comemos mais do que massa e bebida. Ao comungarmos do corpo e do sangue de Cristo, tornamo-nos participantes de algo maior: tornamo-nos cúmplices da promessa de um mundo novo, renascido em Cristo. Os nossos sonhos de um mundo novo (nas formas múltiplas que cada um de nós sonha) são unificados em Cristo e, a partir de Cristo, são redimidos do pecado, que é a marca de cada um dos nossos sonhos e planos humanos e, assumidos por Cristo, tornam-nos cúmplices-participantes da benfazeja conspiração do novo éon, das “coisas novíssimas” (eschaton) que o Senhor está trazendo à luz e realizando em nosso meio.

5. “Fazei tudo para a glória de Deus” – Ação litúrgica

Levando em consideração o que foi dito no ponto 1, é preciso preparar a comunidade para essa quinta-feira santa. Esse culto costuma ocorrer à noite. O ambiente noturno favorece essa celebração. É preciso refletir com as pessoas a importância de abrir as portas e o coração para os distantes e afastados nessa noite. Dizer da importância de preparar o ambiente e os corações para receber, acolher.

É fundamental preparar o ambiente. Para isso é importante criar um mural com cartazes, fotos, relatos dos trabalhos que estão sendo realizados na comunidade, sobretudo os momentos fortes de solidariedade, de partilha, de diaconia (visitação, acompanhamento de doentes, de enlutados, de deprimidos, solitários, idosos, alcoólicos, apoio concreto a pessoas desempregadas, solidariedade com excluídos etc.). Dessa forma sugere-se que a comunidade ganha sua existência e força à medida que inclui e integra. A prédica pode ser partilhada anteriormente com o grupo que participará dessa preparação e acolhida para que as idéias centrais estejam claras.

Desde o século IV, associa-se à quinta-feira santa a idéia da instituição da Eucaristia por Cristo, no que se convencionou chamar de “última ceia”. Desde o século VII, o “lava-pés” (Jo 13) passou a integrar as cerimônias significativas desse dia. Essa cerimônia vem ganhando especial significado nas celebrações ecumênicas da semana santa. Todas essas referências podem enriquecer a celebração dessa quinta-feira.

Se a comunidade contar com um grupo de teatro, talvez seja oportuno montar uma breve peça em que a última ceia seja encenada, considerando o relato joanino, no qual o lava-pés esteja integrado. Pessoas, previamente preparadas, poderiam ser convidadas do meio da comunidade para tomar parte no lava-pés. Na representação dessa peça seria recomendável incluir a música “Jesus, tu reuniste teus amigos” (O povo canta, p. 261). A peça deve- ria encerrar com o início da celebração eucarística. A celebração eucarística poderia incluir a música “Semente caiu neste solo” (O povo canta, p. 252).


Bibliografia

BERNHARD, Rui. Quinta-feira Santa. 1 Coríntios 10.16-17. KIRST, Nelson. Proclamar Liber- tação. Auxílios Homiléticos. Vl. VII. São Leopoldo: Sinodal, 1981. pp. 107-12.
CONZELMANN, Hans. 1 Corinthians. A Commentary on the first Epistle to the Corinthians. Philadelphia: Fortress Press, 1975. 323 pp.
DREHER, M. N. Quinta-feira Santa. 1 Coríntios 10.16-17. In: MALSCHITZKY, H. e WEGNER, U. (Coords.). Proclamar Libertação. Auxílios Homiléticos. Vl. XIII. São Leopoldo: Sinodal, 1987. pp. 171-178.
ELLIOT, Neil. Libertando Paulo. A justiça de Deus e a política de Paulo. São Paulo: Paulus, 1997. 355 pp.
FOULKES, Irene. Problemas pastorales en Corinto. Comentario exegético-pastoral a 1 Corintios. San Jose: DEI, 1996. 432 pp.
LANG, Friedrich. Die Briefe an die Korinther. 2. ed. Göttingen: Vandenhoek & Rupprecht, 1994. 382 pp. (NTD).
MEEKS, Wayne A. Os primeiros cristãos urbanos. O mundo social do apóstolo Paulo. São Paulo: Paulinas, 1992. 327 pp.
ALONSO SCHÖKEL, Luis. Meditações bíblicas sobre a Eucaristia. São Paulo: Paulinas, 1988. pp. 110-21.
THEISSEN, Gerd. Sociologia da cristandade primitiva. Estudos. São Leopoldo: Sinodal, 1987. 211 pp.


Autor(a): Valério Schaper
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Quaresma
Perfil do Domingo: Quinta-feira Santa
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 10 / Versículo Inicial: 16 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2005 / Volume: 31
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 23631
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