1 Coríntios 12.27-13.13

Auxílio homilético

01/02/2004

Prédica: I Coríntios 12.27-13.13
Leituras: Salmo 71.1-6,15-17 e Lucas 4.21-30
Autor: Vera Cristina Weissheimer
Data Litúrgica: 4º Domingo após Epifania
Data da Pregação: 1/02/2004
Proclamar Libertação - Volume: XXIX
Tema:

É porque Deus nos ama que devemos nos amar.
(Simone Weil)

1. Observações gerais

Não é a primeira vez que Paulo se dirige aos coríntios (cf. 5.9). Já lhes escrevera antes. Dessa primeira carta temos somente algumas poucas referências. Conforme lemos em 7.1, Paulo está respondendo as perguntas que lhe haviam sido enviadas por escrito. E essas respostas dão origem à Primeira Carta aos Coríntios.

Na época paulina, Corinto era um grande centro portuário, com muitos quarteirões de proletariado. Soma-se a isso o “modernismo” que o helenismo vinha experimentando e que assolou a cidade com situações sociais, que tiveram graves influências sobre a comunidade cristã — por exemplo, uma imoralidade exacerbada. Além disso, a influência da gnose (do grego gnosis – conhecimento místico da divindade), que vinha distorcendo e interpretando a seu modo colocações do Evangelho, faz com que Paulo tome posições radicais em sua exortação. Os gnósticos dizem: “quem sabe experimenta”. A tradição judaico-cristã diz: “quem experimenta sabe”. O Evangelho não é exclusividade de sábios ou iniciados: é para todos — os pequenos, as crianças, os pobres, os marginalizados...

Com sua postura, Paulo volta-se contra os falsos conceitos sobre dons que a comunidade acabou amalgamando em sua vivência. Conceitos como profecia e glossolalia têm seu valor questionado nessa primeira parte de nossa perícope.

Se tudo parece difícil, o próprio apóstolo propõe um caminho:

“Aspirem por dons mais altos. Aliás, vou indicar para vocês um caminho que ultrapassa a todos” (v. 31). Ou conforme a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB): “... eu vou indicar-vos um caminho infinitamente superior”. Então, a partir deste versículo, podemos olhar para o texto 13.1-13 como um caminho de meditação.

2. Considerações sobre a perícope

Em Corinto, devido a essas diversas influências, havia o perigo de que os dons espirituais fossem considerados mais importantes do que o próprio Evangelho. Toda a Primeira Carta aos Coríntios é uma exortação para que a comunidade volte ao centro da mensagem evangélica.

O apóstolo não combate os carismas, mas teme que a comunidade passe a considerar seus carismas mais importantes do que o serviço ao povo de Deus. Diaconia sem amor não é possível (e vice-versa). O v. 13 resume todo o pensamento paulino: “Assim, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém, o maior destes é o amor”. Fé e esperança são dons espirituais, não têm caráter permanente. A fé se transformará em contemplação (cf. II Co 5.7), e a esperança experimentará o cumprimento do que vinha esperando. O amor, no entanto, permanecerá sendo o que é: a realidade da salvação1. Se não tenho amor, nada sou.

O amor é o leitmotiv dessa perícope. O texto não faz referência à Trindade. Estudos verificam que Paulo recorre a formulações e paralelos existentes entre textos gregos e judeus. Isto nos mostra que o apóstolo estava atento ao mundo de seus ouvintes2. Milton Schwantes (PL XI) convida para que não nos percamos em racionalismos na pregação, mas sim que nos deixemos tomar por essa poesia. Ele propõe uma estrutura para o texto que o desdobra em três subunidades: v. 1-3; v. 4-7; v. 8-13. O texto culmina com o v. 13.

Na primeira unidade, tudo se decide no amor. “Sem o amor nada sou.” O amor é critério e pedra de tropeço para nossa vida comunitária. Paulo é radical em sua exortação: as mais exuberantes obras religiosas não têm valor em si. Diante do amor, ou da falta dele, caem aos pedaços.

Vale repetir: sem amor, tudo o que fizermos é nada. É em vão, cinzas e poeira que se perdem. Não há espaço para meios-termos ou subterfúgios: “nada serei”, “nada disso me aproveitará”, diz Paulo.

A segunda subunidade, v. 4-7, descreve o amor em ação. O amor não é um conteúdo entre outros. É o fio condutor. O sujeito é o amor, e não a pessoa capaz de experimentá-lo. E a terceira subunidade, v. 8-13, vem nos falar da durabilidade do amor. Ao afirmar que “o amor jamais acaba”, o apóstolo remete à provisoriedade do que somente “é em parte”. E o que é em parte será aniquilado pelo que é perfeito. O v. 11 nos remete aos estágios de crescimento dentro da vida de fé, à época de imperfeição em que vivemos até a volta de Cristo. Há o período de imaturidade, que também a Igreja viveu ou vive e que nós vivemos como seres humanos imperfeitos e sempre com sede por sinais concretos.

O capítulo 13, lido isoladamente, pode ser interpretado como uma lista de potencialidades humanas. Se fosse o caso, Paulo teria usado, no lugar de agape, a palavra eros, termo grego para um objeto desejável, adorado — utilizado especialmente para o amor entre o homem e a mulher. Outro termo grego que se refere ao amor/amizade é phileo. A compreensão de amor embutida na palavra agape transcende a idéia de amor humano. É preciso atentar para isso, para não transformar a idéia de amor expressa no texto num ideal inalcançável ou numa exigência irrealizável.

3. Idéias para a pregação

A imagem do corpo sempre é muito forte para uma comunidade e pode ser explorada muito bem. Esta imagem sempre evoca unidade, diversidade e solidariedade, “temperos” indispensáveis para uma comunidade cristã. Mas sugiro que se encaminhe a pregação tendo em vista o v. 31b, quando Paulo propõe um caminho de meditação, isto é, o cap. 13. Para isso algumas traduções são mais claras do que outras.

Hoje, as pessoas enfrentam a competitividade em todas as áreas da vida, não só no trabalho ou no estudo. Também os aspectos privados e da individualidade, como padrões estéticos, vida familiar, relações afetivas etc., são objetos de comparação e muitas vezes fonte de frustração, porque não se atingem os níveis apregoados como ideais pelo mundo do consumo e da propaganda. Por isso é preciso mostrar que Paulo exorta para uma vivência fraterna. Cada qual coloca à disposição os seus dons, diferentes e únicos. Eles se complementam, não competem entre si.

As pessoas são diferentes, e cada uma com a sua originalidade contribui de forma indispensável para o crescimento de todos. Acima de tudo isso Paulo põe o amor. O cap. 13 revela o ponto alto da teologia de Paulo quanto aos dons espirituais e se sobressai ao capítulo anterior não por causa de sua construção literária e sua poesia, mas devido ao conteúdo. Para Paulo, o amor é muito superior aos dons espirituais, mencionados no cap. 12, os quais a comunidade de Corinto tinha em alta conta. Somente o amor pode dar sentido verdadeiro a tudo o que se vive em comunidade e, inclusive, aos dons espirituais. O amor é a medida última para nosso agir e nosso viver.

Mas o que vem a ser amor para a Bíblia?, pergunta-se Bonhoeffer. “Nós a conhecemos muito bem, só que, sempre de novo, a distorcemos. Ela diz: Deus é amor” (1 Jo 4.16). Esta frase precisa ser lida com a ênfase na palavra “Deus”; ao passo que nós nos acostumamos a acentuar a palavra “amor”. Deus é amor, ou seja, não um comportamento humano, uma mentalidade, uma ação, mas Deus mesmo é amor. Só sabe o que é amor quem conhece Deus, não o inverso: sabendo primeiro, e por natureza, o que é o amor, sabe-se então também o que é Deus. Ninguém conhece Deus a não ser que Deus se lhe revele. Conseqüentemente, ninguém sabe o que é o amor, a não ser na auto-revelação de Deus.3

Aliás, é conveniente lembrar a comunidade de que nosso amor é uma “faísca de Deus”4 (Edição Pastoral/Paulinas) ou um “raio sagrado” (TEB/Paulinas/Loyola), ou ainda “veementes labaredas” (Trad. Ferreira de Almeida/SBB). As duas primeiras traduções nos remetem mais claramente ao experimentar Deus quando amamos. No entanto, o que podemos vivenciar humanamente é só uma faísca, um raio. Faísca ou fogo de veementes labaredas, esse amor nos aquece o coração e nos põe a caminho em direção ao próximo e a Deus.

Humanamente conseguimos vivenciar o eros e phileo e continuamos tentando viver o agape. Enquanto tentarmos, estaremos abertos às possibilidades do Reino. O amor de Deus nos mobiliza, nos desassossega, nos põe a experimentar sapatos alheios para ver onde é que eles verdadeiramente nos apertam. Não nos cabe ficar em nosso marasmo, não nos cabe permanecer indiferentes. Porque, como canta Mercedes Sosa na música de Leon Gieco (versão em português de Raul Ellwanger): “Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente...”

Eu acrescentaria: só sabe o que é o amor quem experimentou Deus. Quem buscar meramente a realização pessoal ou a autogratificação viverá um “amor” insosso. O amor é doação, é gratuidade. Experimentar o amor é experimentar Deus. Amar não é ter Deus no coração, mas estar no coração de Deus.

4. Subsídios litúrgicos

Um poema de Caldas Barbosa (1738-1800) pode ser uma colaboração ainda melhor do que o conhecido texto de Camões, que, junto aos versículos de Coríntios, aparece na música “Monte Castelo”, do grupo Legião Urbana. O poema “O que é o amor?” pode ser preparado numa leitura dramatizada pelo grupo de liturgia ou pelos jovens para ser feita antes da pregação. E durante a pregação pode-se fazer a pergunta à comunidade: O que é o amor? Nós sabemos o que é o amor? Ela pode fazer a ponte com a pergunta arrolada anteriormente: O que é o amor para a Bíblia?

O que é o amor?
Caldas Barbosa

“Levantou-se na cidade
um novo e geral clamor:
todos contra amor se queixam,
ninguém sabe o que é o amor.

Dizem uns que ele é doçura,
outros dizem que ele é dor;
não lhe acertam nome próprio,
ninguém sabe o que é o amor.

Que importa que alguém presuma
nestas cousas ser doutor,
se ele ignora como os outros?
Ninguém sabe o que é amor.

Amor é uma ciência
que não pode haver maior,
pois, por mais que o amor se estude,
ninguém sabe o que é o amor.

(...)
Ao valente faz covarde,
ao covarde dá valor:
como é isto não se sabe,
ninguém sabe o que é amor.

Choram uns o seu desprezo,
outros cantam seu favor,
de amor choram, de amor cantam...
Ninguém sabe o que é amor:

Amor tem um ser divino,
não tem forma, corpo ou cor,
sente-se, mas não se vê...
Ninguém sabe o que é o amor.

Sugestão de hino: hino 399 do Hinos do Povo de Deus, vol. 2, que pode ser usado antes ou depois da pregação, ou a canção “Onde reina o amor”, encontrada na p. 224 do Manual do Culto Infantil de 2001. Esta canção pode ser cantada pelas crianças.

Notas bibliográficas

1 Heimbert Kunkel. 1 Coríntios 12.31b-13.13, PL V, p. 32-37.
2 Milton Schwantes. Meditação sobre 1 Coríntios 12.31b – 13.13, PL XI, p. 182-191.
3 Dietrich Bonhoeffer. Ética, p. 33.
4 Cântico dos Cânticos, capítulo 8, versículo 6 b.

Bibliografia

BONHOEFFER, Dietrich. Ética. São Leopoldo: Sinodal, 1988.
LÜCKEMEYER, Waldemar. Meditação sobre 1 Coríntios 12.27-13.13. Proclamar Libertação XVII, p. 52-56.
KUNKEL, Heimbert. Meditação sobre 1 Coríntios 12.31b-13.13. Proclamar Libertação XI, p. 32-37.
SCHWANTES, Milton. Meditação sobre 1 Coríntios 12.31b-13.13. Proclamar Libertação XI, p. 182-191.
WEIL, Simone. A gravidade e a graça. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

Proclamar Libertação 29
Editora Sinodal e Escola Superior de Teologia


Autor(a): Vera Cristina Weissheimer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 12 / Versículo Inicial: 27 / Versículo Final: 31
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2003 / Volume: 29
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 7201
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