1 Coríntios 15.50-58

Auxílio Homilético

02/11/2001

Prédica:1 Coríntios 15.50-58
Leituras: Isaías 35.1-10 e Mateus 22.23-33
Autor: Valdemar Lückemeyer
Data Litúrgica: Dia de Finados
Data da Pregação: 02/11/2001
Proclamar Libertação - Volume: XXVI

1. O texto

O texto de l Co 15.50-58 já foi estudado em Proclamar Libertação (PL), a saber, no volume XIX, por Valdemar Witter. Recomendo o estudo e a leitura do mesmo.

l Co 15 é um longo tratado no qual o apóstolo responde a perguntas inquietantes em relação à ressurreição de Jesus Cristo e, conseqüentemente, à ressurreição de todos os crentes. Embora Paulo já tenha abordado anteriormente o assunto quanto à forma do corpo ou não-corpo na ressurreição (v. 35 ss), agora (v. 50-58) ele responde a perguntas como: Como serão ressuscitados os vivos? E o que acontecerá com os que já morreram? Afinal, alguém tinha semeado dúvidas entre os coríntios, dizendo, por exemplo, que a ressurreição de Jesus Cristo refere-se apenas a esta vida, aos vivos. Como, pois, ficarão os que já morreram? E os que não tiverem morrido quando da vinda de Cristo?

“A ressurreição de Cristo - de amplitude cósmica - havia sido reduzida em sua consequência à vida aqui e agora, o que resultava em valores éticos dúbios. A vida/ressurreição havia sido separada da morte/ sofrimento. Estes não foram vencidos por aqueles. Vida/ressurreição ficam restritos ao âmbito da morte e do sofrimento. Assim, não se teria aberto, de fato, nenhuma perspectiva nova de vida; estaríamos sem esperança como antes (Nélio Schneider, PL XVII, p. 109).

2. Comentários exegéticos

V. 50 - O apóstolo corrige a compreensão errônea de que a ressurreição é a continuidade da vida do corpo humano, terrestre, mortal. O corpo humano é carne e sangue e, como tal, não continuará existindo. Ávida nova, da ressurreição, é criação nova de Jesus e não é, de forma alguma, continuidade do que agora há. A morte total da pessoa toda é condição para o ingresso no Reino de Deus, na nova criação. A morte é o fim de tudo e não apenas uma janela para que alguma parte do corpo natural passe para o novo. Deus criará de novo. A criatura humana, com seu corpo natural e terrestre, não cabe no novo que Deus criará. Também não há nenhuma possibilidade de aperfeiçoar o corpo e a mente e, assim, lentamente se aproximar do Reino de Deus.

V. 51 - O apóstolo já descreveu nos v. 42-49 o milagre da transformação: o corpo terreno, natural, será transformado, a fim de que os que ainda estiverem vivendo por ocasião da parúsia possam herdar da nova criação de Deus. Não haverá continuidade de forma alguma do que agora existe. Chama atenção que o apóstolo contava com a possibilidade da parúsia ocorrer em breve, aguardando-a em vida.

E por que isto é mistério? Porque não é compreensível com e através da razão humana. Não é possível apresentar provas ou fundamentar esta afirmação cientificamente.

Isto apenas pode ser visto pelos olhos da fé! Justamente por isso o apóstolo chama à obediência e à confiança naquilo que foi ensinado e pregado aos coríntios desde o início - e antes já pelos apóstolos: Que, assim como Cristo foi ressuscitado, também nós o seremos.

Com a ressurreição acontece a criação, que não mais será passageira, mas sim eterna, definitiva.

V. 52 - A ressurreição dos mortos e a transformação dos vivos é, para o apóstolo, algo que acontecerá concreta e realmente. Não se trata apenas de mentalização ou de espiritualização. O soar da trombeta lembra o início de um novo tempo (= último tempo, tempo final), que iniciou com a ressurreição de Cristo. Certamente a figura da trombeta lembra a caminhada do povo de Israel pelo deserto (Nm 10.2-10); era o sinal para a marcha, o convite para a caminhada, a lembrança para o novo que estava à frente.

V. 54-55 - Na vitória de Deus sobre a morte o apóstolo vê o cumprimento do anúncio profético (Is 25.8 e Os 13.14): Agora não mais a morte se oporá à vida, vencendo-a, mas sim a vida vence a morte. Deus concedeu a vitória!

V. 56 - Curiosa a figura que o apóstolo usa: a lança, a vara pontiaguda para tocar o animal! A morte é cutucada, é aguilhada pelo pecado. O pecado a faz andar/vir mais depressa.

Aqui é mencionado rapidamente o que o apóstolo aprofundou detalhadamente em Rm 7.

V. 57 - A ameaça do pecado e a consequente morte continuam rondando o crente, mas já foram vencidas por Deus: Agora, com a ressurreição de Cristo, o crente já participa desta vitória da vida sobre a morte, isto é, para o crente a morte perdeu seu poder!

V. 58 - Chama atenção que Paulo não encerra suas ponderações com a última afirmativa forte e clara de que a morte foi vencida e que o novo mundo/Reino de Deus é realidade que marca a vida do crente, já agora e aqui. Paulo emenda e conclui com uma recomen¬dação prática, comunitária. Certamente o faz, porque a vida que se alimenta da mensagem da ressurreição não é apenas um ideal vago, mas sim ela é concreta e real; manifesta-se diariamente na comunidade através da firmeza de fé e da abundância na prática de boas obras. A obra do Senhor é a própria edificação da comu¬nidade: Nele a fé age e se concretiza sinalizando para o novo que Deus criou em Jesus Cristo ao ressuscitá-lo.

3. Reflexões sobre o texto a caminho da prédica

O apóstolo Paulo fala de forma bem clara sobre a vida e a morte e como a fé se desenvolve, como ela se manifesta e se expressa neste mundo. A morte é real, é verdadeira, existe. Ela é um desafio constante ao crente. O pecado é que faz a morte trotear, andar depressa. Por isso o cristão luta contra o pecado e, lutando contra o pecado, ele está lutando contra o poder da morte. A morte realmente é o último adversário que precisa ser vencido.

Como vencer este poderoso adversário? Não bastam boas palavras de incentivo e de ânimo. O apóstolo aponta para a ressurreição de Jesus Cristo e a futura ressurreição dos mortos. Deus já venceu o poder da morte. E Deus nos faz participantes desta vitória ao confiarmos no seu poder. Em meio à morte, em meio à experiência da finitude da vida aqui e agora, o crente sabe que, ao final, a morte será tragada, superada, vencida pela vida. Triunfará a vida; ela triunfará eternamente e permanecerá eternamente.

Este triunfo da vida sobre a morte se manifesta claramente através dos nossos corpos perecíveis, humanos e limitados na comunidade, no mundo, com todos os seus desafios.

Isto porque o poder de Deus, revelado na ressurreição de Jesus, não é algo fictício ou imaginário; é real. Concretiza-se na vida de fé e de confiança no poder criador do Deus vitorioso.

Quem fala da ressurreição de Cristo dos mortos não fala de um fato, mas de um processo. Ele fala ao mesmo tempo do fundamento, do futuro e da práxis da libertação da pessoa e da redenção do mundo por Deus. Crer na ressurreição não se esgota no fato de concordar com um dogma e aceitar um fato histórico. Fosse ela apenas um fato histórico, então diríamos pois bem e a aceitaríamos e continuaríamos vivendo como até agora. Mas se ela é um ato criador de Deus, então nós nascemos para uma nova vida, se realmente a aceitamos e entendemos. Tal fé é o início da liberdade. (...) Com ressurreição não se fala de um fato, mas de um caminho: a passagem da morte para a vida (Jürgen Moltmann, p. 69s).

4. A prédica

Dia de Finados. Muitos cultos/celebrações acontecem no cemitério, em meio aos túmulos. Os túmulos nos fazem lembrar: Este também será o nosso destino. De cada um de nós, sem exceções. A morte nos aguarda! Cada dia estamos indo ao encontro dela!
É este o caminho natural? Sim. E, no entanto, as pessoas procuram afastá-lo o quanto mais possível. Gostariam, até, de evitá-lo. Quais as tentativas das pessoas para evitar o caminho da morte? As ofertas são muitas! E as pessoas pagam um preço alto na ten-tativa de consegui-lo.

O destino da vida é mesmo a morte?

- Assim como é verdade que Jesus Cristo ressuscitou, assim também nós seremos ressuscitados por Deus.
- A ressurreição de Jesus iniciou um novo tempo; este se completará com a ressurreição de todos os crentes.
- A nova vida ilumina e orienta a nossa ação e o nosso pensar aqui e agora, em meio a morte e dor. Ela se sobrepõe e é determinante em tudo.

A proposta de Deus deve ficar clara: Ele pede de nós que acreditemos na ressurreição e nos preparemos para ela. Ele nos pede, com isso, que nos doemos como Cristo se doou e nos ponhamos a caminho sem ver adiante, a exemplo de Cristo.

Acreditar na ressurreição é deixar-se guiar por uma perspectiva encoberta aos nossos olhos. É pôr-se a caminho tal qual Abraão, apenas baseado na Palavra de Deus; é caminhar em direção ao Mar Vermelho, como os israelitas, mesmo não vendo as águas se abrirem para lhes dar passagem; é louvar a Deus pela libertação, mesmo que se tenha ainda o deserto pela frente (Êx 15); é entrar no deserto mesmo sem ter as fotos da terra prometida para mostrar como prova; e aceitar as palavras de Maria Madalena, Joana, Maria e das outras mulheres que foram ao sepulcro na manhã da Páscoa, sem desqualificá-las como 'boato' (Lc 24.9ss); é acreditar na mensagem do anjo: 'Ele não está aqui, ressuscitou!' (Lc 24.6), sem querer pôr o dedo nas feridas de Jesus.

Crer na ressurreição é saber das estruturas de morte do nosso tempo derrotadas, apesar de senti-las ainda em vida e vigor; é confiar que, repartindo e doando a vida - a exemplo de Cristo - ganhar-se-á a vida plena (Nélio Schneider, PLXVII, p. 109s).

Bibliografia

MOLTMANN, Jürgen. Wer ist Christus für uns heute? Gütersloh, 1994.
(Kaiser Taschenbücher).
SCHEFFBUCH, Winrich. Meditação sobre l Co 15.50-58. In: BORNHÄUSER, Hans et al. (Eds.). Neue Calwer Predigthilfen. Stuttgart, 1981. ano 4, v.
A, p. 253-261.
WENDLAND, Heinz-Dietrich. Die Briefe an die Korinther. Göttingen, 1982.
(Das Neue Testament Deutsch, 3).
WITTER, Valdemar. Meditação sobre l Co 15.50-58. In: STRECK, Edson E., KILPP, Nelson (Coords.). Proclamar Libertação. São Leopoldo : Sinodal, 1993. v. XIX, p. 286-290.


Autor(a): Valdemar Lückemeyer
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Dia de Finados

Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 15 / Versículo Inicial: 50 / Versículo Final: 58
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2000 / Volume: 26
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17373
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