1 Coríntios 2.1-5

Auxílio Homilético

09/02/1997

Prédica: 1 Coríntios 2.1-5
Leituras: Êxodo 34.29-35 e Marcos 9.2-9
Autor: Baldur van Kaick
Data Litúrgica: Último Domingo após Epifania
Data da Pregação: 09/02/1997
Proclamar Libertação - Volume: XXII
Tema: Epifania

 

1. Considerações Exegéticas

Corinto. Ciudad capital de la província romana de Acaya en el território de Grécia. Se encontraba en la parte oriental del istmo que separa el mar Jónico del Egeo. Tenía dos puertos, Lejaión a 2.5 km al O y Cencrea a 14 km al E, muy traficados debido al temor que tenian los marineros de las fuertes tempestades que continuamente azotaban la costa del Peloponeso al S. El procônsul romano residia em Corinto, ya que esta era la ciudad más opulenta e importante de Grécia. (Diccionarío Ilustrado de la Bíblia, p. 132.)

O apóstolo Paulo residiu em Corinto por volta de 51 d.C. Ele não foi o primeiro cristão a caminhar nas ruas de Corinto. Ao chegar lá, encontrou Áqüila e Priscila (At 18.2). No decorrer de um ano e seis meses (At 18.11), tomou corpo a comunidade integrada entre outros por: Crispo, Estéfanas, Gaio, Cloe (l Co 1.11,14,16), Fortunato e Acaico (16.17). Conzelmann, em seu comentário de l Co, aponta para a quantidade de nomes latinos entre eles. A cidade era desde 44 a.C. colónia e residência de veteranos romanos. Paulo chegou a Corinto em sua segunda viagem missionária. Esta Primeira Carta aos Coríntios foi escrita em 54 d.C., quando o apóstolo se encontrava em Éfeso.

Porque, de fato, foi crucificado em fraqueza, contudo vive pelo poder de Deus. (Paulo em 2 Co 13.4.)

Em l Co 2.1-5 o apóstolo menciona os começos em Corinto e destaca a decisão que tomou de não pregar o evangelho com ostentação de linguagem ou de sabedoria (v. 1). Ele exclui dois tipos de ostentação, portanto: ostentação através de linguagem e através de sabedoria. No v. 4 ele volta a enfatizar que não pregou o evangelho em linguagem persuasiva de sabedoria (v. 4). Enquanto que no início ele diz como não foi sua pregação, na sequência reconstrói o conteúdo da mesma: ele pregou Jesus Cristo crucificado. Vamos ver depois por que o apóstolo põe a ênfase no crucificado. Já agora observamos, no entanto, que Paulo realça desde o início da carta que o conteúdo de sua pregação era Cristo crucificado (1.23). Também na Carta aos Gálatas ele salienta que lhes expôs Jesus Cristo como crucificado (Gl 3.1). Sua decisão teológica consistiu em não expor o evangelho com palavras bonitas e sábias, mas em anunciar somente Jesus Cristo. Paulo excluiu tudo que podia parecer um apoio humano à pregação.

Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós sábios em Cristo; nós fracos, e vós fortes; vós nobres, e nós desprezíveis. (Paulo em 1 Co 4.10.)

Paulo recorda que, quando morou entre os coríntios, viveu em fraqueza. Ele não menciona seus dons nem qualidades. Como antes fez questão de mostrar que não pregou com sabedoria, agora realça que sua presença pessoal entre os coríntios foi fraca (2 Co 10.1), desprezível. Na Carta aos Gálatas ele menciona uma enfermidade da qual padecia (4.13). Deus não dependeu de suas qualidades. Deus usou a sua fraqueza para construir comunidade.
Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos! (Is 6.5.)

O apóstolo narra também que se apresentou em Corinto com temor e grande tremor, não diante dos coríntios, mas diante de Deus. Este detalhe de sua existência apostólica lembra o tremor de Isaías diante de Deus e de Pedro diante de Jesus Cristo: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador! Lutero inicia cada explicação dos mandamentos com: devemos temer e amar a Deus. Não há amor a Deus sem temor de Deus. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria... (Pv 9.10). Existe uma diferença entre Deus e o ser humano: Deus é santo, nós, pecadores e pecadoras, pessoas de lábios impuros, também nós, pregadores e pregadoras.

Creio que por minha própria razão e força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele, mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho... (Martim Lutero, Catecismo Menor, 3o artigo.)

Há uma diferença entre sabedoria e fé. Sabedoria é fruto de discurso persuasivo, fé provém do agir de Deus mediante sua palavra. O apóstolo considera: não é ele quem converte, mas é o Espírito Santo quem, mediante o evangelho, chama, congrega, ilumina e conserva a comunidade na verdadeira e única fé. Ninguém pode dizer que Jesus é Senhor, a não ser pelo Espírito Santo (l Co 12.3). Deus usa a mensagem do Cristo crucificado e a fraqueza do ser humano para criar fé.

2. Meditação e Considerações Homiléticas

Pergunto pela razão da ênfase do apóstolo na cruz de Cristo. Tudo indica que entre os coríntios havia uma supervalorização da sabedoria como caminho para obter conhecimento de Deus. Em contrapartida, Paulo acentua o aspecto mais escandaloso da obra de salvação, exatamente a cruz. É na fraqueza da cruz que Deus se revela. Jesus Cristo, sendo Deus, não se agarra ao ser-igual-a-Deus, mas assume a forma de servo e é obediente até a morte, e morte de cruz. Sendo rico, se faz pobre, é esbofeteado e humilhado.

É claro que Paulo anuncia o Jesus Cristo ressuscitado. Mas a sua ressurreição não elimina a cruz como acontecimento central da salvação. Já os quatro evangelhos põem em evidência a paixão e morte de Jesus Cristo. Conforme Kähler, o Evangelho de Marcos, por exemplo, hão é nada mais do que a história da paixão e morte de Jesus Cristo com uma introdução detalhada. Com a ressurreição, a cruz não passa a ser um acontecimento superado, mas pode ser anunciada. Na cruz Deus reconciliou o mundo consigo mesmo.

Recentemente vi o filme A Montanha da Morte. No final da película vem o helicóptero e salva os dois alpinistas perdidos na montanha. Contudo, não é o helicóptero que será lembrado por um deles, mas o que o seu amigo fez por ele, não o deixando sozinho na montanha quando se acidentara e ficara ferido. O amigo o arrastou com suas últimas forças e não o abandonou, correndo o risco de morrer. Na montanha o alpinista ferido conheceu o coração do amigo que tinha a fama de ser egoísta. O que o amigo fez por ele não é esquecido com a vinda do helicóptero, mas o helicóptero salvador possibilita que aquele aconteci¬mento central seja lembrado constantemente.

A cruz representa, no entanto, um escândalo. No panteão romano havia deuses de beleza e perfeição estética. Um deus crucificado era inconcebível para um romano. Vemos a satirização da pregação cristã naquele grafite encontrado no muro do Palatino, em Roma, descoberto em escavações, que mostra um cristão adorando Jesus Cristo crucificado, mas pregado à cruz está um homem com cabeça de burro e abaixo está rabiscada a sátira: ''Alexamenos adorando seu Deus. Contudo, é da pregação do Cristo crucificado que nasceu a Igreja.

A cruz representa a crise de toda sabedoria humana. Ela põe em xeque os ídolos através dos quais o ser humano quer aproximar-se de Deus. Quando o ser humano se despe de toda sabedoria, submetendo-se à cruz como juízo sobre todos os caminhos humanos, e na fé aceita a graça de Deus que vem a nós na cruz de Cristo, é que ele é libertado. A sabedoria humana como meio para alcançar a salvação faz parte do tesouro que a ferrugem e a traça corroem e os ladrões escavam e roubam.

O texto, é em sua essência, boa nova para líderes de Escola Dominical, orientadores de estudo bíblico, obreiros e obreiras, pregadores e pregadoras, bispos e os mais humildes colaboradores na comunidade de Jesus Cristo. Por quê? Porque ele revela a maneira de agir de Deus. Deus chama pessoas simples e Cracas, construindo com elas a sua comunidade, para espanto de sábios e letrados. Tal como a fraqueza é a forma do Crucificado e do cristão de Corinto (1.26ss.) (e de cada cristão!), a fraqueza é também a forma do obreiro usado por Deus. Parece absurdo que a Igreja cristã começou com aqueles pobres coitados c com a escandalosa pregação de Jesus de Nazaré, crucificado, ridicularizado, cuspido, caluniado, maltratado do modo mais vergonhoso e afinal pregado na cruz e morto como agitador e blasfemo... E através desta pregação começa o reino de Cristo e a Igreja cristã. (Martim Lutero, Castelo Forte 1983 [23-05].)

Não tenho o dom da oratória, disse uma pessoa convidada a colaborar num culto. Selecionando o material coletado através da exegese e procurando combinar com a sentença anterior e com uma prioridades da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), que é o sacerdócio geral de todos os crentes, posso imaginar uma prédica que destaque a boa nova que o texto contém para obreiros e obreiras e para todos os cristãos. Poderíamos partir da pergunta como Deus constrói a sua comunidade em nossas cidades e mencionar a sentença acima ou outras semelhantes. Em seguida podemos narrar o que o apóstolo recorda sobre os seus próprios começos em Corinto, sobre a mensagem escandalosa e sua fraqueza pessoal. Contudo, Deus usou sua fraqueza e mensagem tola aos olhos do mundo e construiu sua Igreja. Mostrar que Deus procede da mesma maneira hoje: também hoje ele cria comunidade não através de falas eruditas, mas de pessoas fracas, que dão testemunho de seu amor.

Ao ouvir o texto após a primeira leitura, mulheres da Comunidade da Cruz, onde atuo, observaram: Paulo foi a Corinto dar testemunho de Cristo, sem orgulho. Ele esteve em Corinto com temor e tremor, bem humilde. Ele não foi lá para mostrar sabedoria, o coração dele falava. Não adianta usar termos bonitos e ninguém entender.

Nós, pregadores e pregadoras, devemos nos lembrar, no entanto, que Paulo viveu em Corinto com temor e tremor. O temor de Deus é parte da existência cristã. O segundo mandamento diz que Deus não deixará impune aquele que abusar de seu nome. Como pregadores e pregadoras levamos o nome de Deus constantemente na boca e corremos o risco de adulterar a sua palavra. Podemos dizer, como Paulo em uma das leituras do domingo, que não andamos com astúcia, nem adulteramos a palavra de Deus, antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade (2 Co 4.2)? O temor de Deus é o princípio da sabedoria também para nós, pregadores e pregadoras, e para cada cristão. Temos medo da violência, do desemprego, da economia; nós, pregadores e pregadoras, temos medo da comunidade e fazemos pregações para agradar, mas devemos temer unicamente a Deus, que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo, conforme Jesus (Mt 10.28). Paulo decidiu, pelo bem da comunidade, para que sua fé não se baseasse em sabedoria humana, não fazer a vontade da comunidade, mas pregar unicamente o Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios, mas para aqueles que crêem poder de Deus e sabedoria de Deus.

Roberto Campos escreve sobre a religiosidade do povo brasileiro:

Em nossa religião camarada, Deus é quase um membro da família. Um pai tolerante, muito ocupado com outras coisas, mas a quem se recorre num aperto. O poeta alemão, o francófilo Heine, aprendeu bem este sentimento, mais latino que germânico: Deus me perdoará, c seu ofício. Os santos são uma espécie de conhecidos, a quem dá para pedir um dinheiro emprestado, e esquecer discreta-mente de pagar. (...) O ' 'castigo divino não está na índole. (Roberto Campos, p. 219s.)

A análise de Campos descreve também a nossa existência cristã? Vale a pena refletir sobre se o político conservador e militante contra padres com vocação política não detecta com precisão um déficit na vida cristã não só do latino, mas de nós, cristãos, e que consiste no esquecimento do temor de Deus, tão essencial na vida do apóstolo. Sem o temor de Deus o medo toma conta de nós, medo de arriscar, medo de pregar o que a comunidade não quer ouvir. Tornamo-nos então, como disse Lutero, pregadores sem dentes e sem sal, promo¬vendo nas comunidades apenas um ambiente pequeno-burguês, onde todos se sentem bem, mas não somos comunidade e cristãos confessantes que brigam contra os ídolos, sejam eles a sabedoria ou outros. É do temor de Deus que nasce a comunidade confessante que promove a vida.

3. Bibliografia

ALTMANN, Walter. Lutero e Libertação. São Leopoldo, Sinodal; São Paulo, Ática, 1994. (Em especial os capítulos 2: O Deus da Vida contra Toda Falsidade Enganosa dos ídolos da Morte e 3: Na Cruz de Cristo, Vitória sobre Todo o Mal.
CAMPOS, Roberto. Deus, Fé e Política. Veja; 25 Anos; Reflexões para o Futuro. 1993, p. 219-227.
JOSUTTIS, Manfred. Die Predigt. In: Der Traum der Theologen; Aspekte einer zeitgenössischen Pastoraltheologie. München, Chr. Kaiser, 1988. vol. 2


Autor(a): Baldur van Kaick
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Epifania
Perfil do Domingo: Último Domingo após Epifania
Testamento: Novo / Livro: Coríntios I / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 5
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1996 / Volume: 22
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17647
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