1 João 2.21-25

Auxílio Homilético

27/12/1981

Prédica: 1 João 2.21-25
Autor: Wilfrid Buchweitz
Data Litúrgica: 1º. Domingo após Natal
Data da Pregação: 27/12/1981
Proclamar Libertação - Volume: VII


l — Pano de fundo

A comunidade à qual se destina esta epístola se destaca por duas características importantes. Seus membros são gente a quem o Evangelho foi pregado, o Evangelho os venceu, convenceu, e eles continuam firmes a ponto de provocarem uma manifestação de confiança ti alegria de parte do remetente da carta. Ao mesmo tempo, há nessa comunidade, ou houve no passado, pessoas que a integraram, que estão na lista de membros, mas que na verdade dela não fazem e nunca tiveram parte. A epistola não fala especificamente desse segundo grupo de pessoas. Apenas se refere a ele de passagem em diversas oportunidades. Dessas referências e de alguns outros dados conclui-se que fio trata de gente ligada ao gnosticismo.

Os gnósticos valorizavam o espírito em detrimento do corpo e a vida espiritual em desfavor da vida física e material. A partir daí tinham dificuldade com a encarnação de Jesus. Não conseguiam ou não queriam aceitar que Deus pudesse encarnar-se num ser humano. Criam que Deus pudesse ter tomado emprestado um ser humano para sua revelação na terra, que Deus pudesse ter pousado num ser humano durante sua permanência na terra, mas não que pudesse ter vindo a ser homem através da encarnação. Aceitavam a dimensão divina em Jesus Cristo, mas não a dimensão humana. Analogamente se consideravam uma comunidade espiritual, superior a uma comunidade humana e terrena, uma comunidade de Cristo, não uma comunidade de Jesus.

Com essa posição, o grupo não é realmente comunidade cristã. Na verdade, nunca pertenceu à comunidade cristã (2.19). Mesmo se denominando comunidade cristã, na realidade não é. É, isto sim,uma comunidade de mentira, envolvida pela mentira, embasada na mentira. São cristãos falsos e que vivem e propagam falsa doutrina. São anticristos (2.18), são enganadores (2.26).

Nesse sentido, a epístola, ao lado de expressar confiança e alegria por causa da fidelidade e firmeza da comunidade, também revela alguma preocupação. A comunidade cristã poderia ser envolvida pelo grupo dos falsos cristãos. Por isso a carta encoraja-a a permanecer na palavra que ela ouviu e aprendeu desde o início, e isso será base para permanecer no Filho e no Pai.

II — Exegese

A chave para discernir entre verdade e mentira está em Jesus. O critério para distinguir a verdadeira fé da falsa fé está em Jesus. Ele faz e é a diferença entre a comunidade cristã e outro tipo de comunidade.

Jesus é Cristo. Jesus é muito mais que Jesus. Ao mesmo tempo que ele é Jesus, ele é Cristo. Ao mesmo tempo que ele é o homem Jesus, ele é Cristo, o Enviado de Deus. Jesus Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus ao mesmo tempo. Em Jesus Deus se encarnou. Justamente esta é a intenção de Deus, a de encarnar-se no homem Jesus. Deus não se degrada quando se encarna no homem Jesus. Jesus não é um portador indigno do Espírito de Deus. Jesus não é apenas cavalo que incorpora, encarna Deus. Em Jesus, Deus se torna,homem. Jesus é, ao mesmo tempo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Jesus é Cristo.

Quem nega que Jesus é Cristo nega igualmente o Pai. Não se pode confessar o Pai sem confessar que Jesus Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Mente quem, para resguardar a dignidade de Deus, confessa que ele apenas usou Jesus para vir ao mundo. Mente quem confessa que o Deus Espírito só usou de maneira passageira o corpo de Jesus. Mente quem alega que Deus revela sua substância, seu conteúdo, sua vida apenas na dimensão espiritual de Jesus e que apenas a dimensão espiritual de uma comunidade é importante. Isso não é apenas negação do Filho, desprezo ao Filho, mentira para com o Filho, mas é também negação do Pai, desprezo ao Pai, mentira para com o Pai. Valorizar apenas a dimensão espiritual do homem, em detrimento da dimensão física e material, também é negar o Filho e o Pai. Considerar-se um grupo espiritual — que, por causa disso, despreza os outros membros — em uma comunidade é falta de amor ao próximo; e quem não ama o próximo também não ama a Deus. A epístola insiste neste ponto. Quem crê apenas num Cristo espiritual vai dar valor apenas a uma igreja espiritual. A imagem que se tem de Jesus terá seus reflexos imediatos sobre a imagem da igreja. Um Cristo não encarnado levará a uma igreja não encarnada. Um Jesus sem a dimensão escatológica levará a uma igreja sem a dimensão escatológica. A visão que se tem de Jesus tem reflexos diretos sobre a visão que se ganha da comunidade. O milagre da revelação de Deus em Jesus Cristo consiste justamente na encarnação, em ter Jesus abandonado o seu lugar junto ao Pai para assumir um lugar junto ao homem, em meio ao pecado e consequências do pecado em que vive o homem. A mesma atitude, o mesmo amor, Deus espera daqueles que são convencidos pelo Evangelho da encarnação de Deus em Jesus Cristo. Qualquer tentativa de elevação a um nível espiritual no sentido de um nível superior, mais puro, mais perto de Deus, é antievangélico, é anticristão, é atitude de anti-cristo, vai no sentido inverso do caminho de Jesus, que é de cima para baixo, para junto das profundezas do sofrimento e morte do homem. Por isso essa tentativa é uma negação do próprio Jesus, é uma negação da verdade revelada em Jesus e é, consequentemente, uma mentira.

Evidencia-se sempre aqui o pecado de Adão, de querer ser igual a Deus ou, ao menos, de querer ficar mais perto de Deus, de querer ser mais que simples criatura. O querer valorizar o espiritual em detrimento da concreticidade da criação revela essa compreensão.

Para que possa proteger-se contra esse pecado, para que ocorra renovação constante em meio a essa tentação, a epístola exorta a comunidade a permanecer naquilo que ouviu, a permitir que nela persista o que desde o principio ouviu, que nela tenha lugar a palavra, através da qual a comunidade foi criada, à qual a comunidade deve seu início e a continuação de sua existência. Se a comunidade permanecer na palavra, permanecerá também no Pai e no Filho.

A promessa que a palavra, o Pai, o Filho fazem é a vida eterna. A comunidade que permanece na palavra, no Pai, no Filho, na verdade, tem a promessa da vida eterna, de uma vida sólida, substanciosa, que nem a mentira, nem o pecado, nem uma falsa comunidade, nem falsos membros de uma comunidade, nem, afinal, a morte podem estragar e destruir.

III — Meditação

Surpreende que este texto central do Novo Testamento não tenha, até agora, constado nas séries de perícopes da Igreja. Entre centenas de prédicas impressas não há nenhuma sobre este texto — embora existam, é verdade, exegeses e prédicas sobre textos de conteúdo idêntico ou semelhante.

Jesus é Cristo! A verdade que resulta da relação adequada entre dois nomes, na medida em que se tornam um nome só, esta verdade tem que ser constantemente descoberta e confirmada, também nas igrejas de hoje. Também entre nós há grupos, nas igrejas e comunidades, com tendências de adorar um Jesus espiritual, espiritualizado, que está presente na esfera espiritual da comunidade e do cristão, no culto, na hora da leitura da Bíblia, no momento de oração; às vezes, um Jesus que aparece através de visões. Pertence a essa tendência a compreensão unilateralmente escatológica. Esses grupos, às vezes, têm tendência discriminatória, uma atitude de julgamento para com outros grupos ou membros da comunidade; às vezes, uma atitude intolerante, até arrogante. Não me refiro aqui àqueles cristãos ou grupos que, a partir de uma posição definida e séria diante da palavra, questionam pessoas, grupos, a própria Igreja. Refiro-me a uma postura de estar acima da realidade deste mundo, fora da limitação, da realidade do pecado, do sofrimento humanos. A fuga do mundo não é rara em grupos religiosos, inclusive na comunidade cristã.

Uma outra postura que se encontra é a que vê Jesus como grande homem, um exemplo para a humanidade, um mestre, um revolucionário, o Jesus em carne e osso, mas sem a dimensão da encarnação de Deus e também sem a dimensão da ressurreição e realidade escatológica. Este grupo, às vezes, também se coloca — mesmo que isso pareça contra-senso — acima da comunidade, e chega a ser extremamente intolerante e até arrogante. Também aqui não me refiro àqueles que com muita seriedade questionam a Igreja quando ela não cumpre seu papel junto ao homem neste mundo.

É difícil entender Jesus, o Cristo, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem ao mesmo tempo. O próprio Jesus confirma isso, quando diz que para a carne e o sangue é impossível reconhecê-lo, e que Deus mesmo precisa revelá-lo (Mt 16.17; 1Co 12.3).

Às vezes, há um reconhecimento teórico de Jesus, o Cristo, mas não há nenhuma evidência dessa realidade na vivência do membro da comunidade ou da comunidade toda. Jesus, então, é Cristo em palavra e teoria, mas não o é de fato e no concreto. Jesus diz que isso não basta (Mt 7.21; 25.31ss). Às vezes a confissão Jesus é Cristo vira fórmula vazia, vira rotina, perde o caráter de confissão de fé, perde a sua relação com a vida de fé.

Há outras formas de evitar, contornar, adulterar o Jesus è Cristo da epístola. Cada crente, cada comunidade, cada igreja, cada época, cada situação geográfica, cada momento histórico, cada realidade eclesial, cada situação social tem que perguntar quem é Jesus Cristo e qual o papel que ele desempenha.

O texto menciona duas coisas importantes a respeito da confissão. Trata-se de uma confissão comunitária. É claro que ela tem que ser confessada por cada indivíduo também, mas sempre dentro de uma comunidade, não fora de uma comunidade. A outra coisa é que a confissão tem que ser sustentada pela palavra. Se a palavra permanecer em alguém e na comunidade, então também permanecerá a confissão Jesus é Cristo. A palavra pode ser a palavra lida, transmitida por escrito, pode ser a palavra transmitida verbalmente, pode ser a palavra informativa, a palavra ensinada, pode ser a palavra proclamada com o fim de despertar reação em atitudes, pode ser a palavra que traz o anúncio do amor e do perdão de Deus, pode ser a palavra que traz a denúncia, quando a justiça de Deus é esquecida, abafada, omitida, pode ser a palavra vivida na realidade concreta do dia a dia, sem que verbalmente se usem palavras. Uma coisa está certa: sempre a confissão Jesus é Cristo acontece na comunidade e a partir da palavra.

Que é que Jesus é Cristo significa para mim como pastor? Onde estou eu diante dessa confissão?

IV — Prédica

Há diversos enfoques possíveis para a prédica, dependendo da comunidade e da situação em que vive no momento:

a) A prédica pode ser informativa, instrutiva. A verdade Jesus é Cristo precisa ser pensada, debatida, clareada de tempos em tem¬pos um cada comunidade.

b) A prédica pode se ocupar com o lugar da confissão, das confissões de fé e de sua importância na comunidade.

c) A prédica pode se ocupar com a confissão de fé e a concretização dessa confissão no dia a dia.

d) A prédica pode se ocupar com o papel da palavra e da comunidade para a confissão e vivência da fé.

e) A prédica pode se ocupar com a dimensão da encarnação de Jesus neste mundo e/ou a dimensão escatológica de Cristo. Pode, além disso, explorar a relação entre ambas as dimensões.

A situação da comunidade deve pesar na escolha de uma destas ou de outras perspectivas. O ideal seria o pastor decidir em conjun¬to com membros ou um grupo na comunidade.

V — Subsídios litúrgicos

1 Confissão de pecados: Pai Celeste, agradecemos-Te pela encarnação de teu Filho Jesus Cristo. Ajuda-nos a continuar reservando lugar para ele, em nossas vidas, em nossa Igreja, em nosso mundo. Ajuda-nos a crer nele e a viver esta fé. Protege-nos contra a tentação de querer moldar teu Filho de acordo com nossa conveniência. Perdoa e converte-nos quando rejeitamos o amor de Jesus Cristo. Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Agradecemos-te. Pai Celeste, que nesta comunidade podemos continuar a festejar e a viver o acontecimento de Natal. Ajuda que este Natal continue verdade no dia a dia desta comunidade e de seus membros Amém.

3. Assuntos para a oração final: que a comunidade possa ser instrumento da encarnação de Jesus Cristo neste mundo; que a comunidade possa crer em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem; que a comunidade possa se libertar da propaganda de consumo na época de Natal e possa ficar livre para repartir e dar: que faça tempo bom para as lavouras que estão se desenvolvendo: que os jovens que fazem vestibular nesta época possam escolher as faculdades com o espírito de servir, e que possam superar a tentação de escolher as faculdades de acordo com a compensação financeira.

VI — Bibliografia

- BULTMANN.R. Die drei Johannesbriefe. In: Meyers Kommentar. Vol.14. 14a ed. Göttingen, 1967.
- HAUCK.F. Die Kirchenbriefe. In: Das Neue Testament Deutsch. Vol.10. 5a ed. Göttingen, 1949.
- SCHLATTER.A. Briefe und Offenbarung des Johannes. In: Schlatters Erlaeuterungen zum Neuen Testament. Vol.10. 6a ed. Stuttgart, 1938.

Sugestões para leitura: o Credo Apostólico, especialmente o 2° Artigo, nos catecismos Menor e Maior de Lutero; confissões de fé de teólogos, concílios, igrejas, em nossos dias.


Autor(a): Wilfrid Buchweitz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: 1º Domingo após Natal
Testamento: Novo / Livro: João I / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 21 / Versículo Final: 25
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1981 / Volume: 7
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 14628
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Ó Deus, meu libertador, tu tens sido a minha ajuda. Não me deixes, não me abandones.
Salmo 27.9
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