1 Pedro 1.3-9

Auxílio Homilético

25/04/1993

Prédica: 1 Pedro 1.3-9
Leituras: Atos 2.14ª,22-32 e João 20.19-31
Autor: Clemente João Freitag
Data Litúrgica: 2º Domingo da Páscoa
Data da Pregação: 25/04/1993
Proclamar Libertação - Volume: XVIII


1. Primeira parte

l Pedro é uma carta compilada, criada, difundida e lida no chão da Ásia Menor (Roma). Ela foi logo aceita e integrada no rol da Palavra de Deus devido a seu grande poder exortativo e sua imensa capacidade de consolo no círculo cristão. De autoria desconhecida, recebe o apadrinhamento de Pedro. Nem o voar dos tempos fez a pesquisa optar por determinado autor. Sendo assim, sua autoria segue em aberto. Pode, portanto, ser hoje lida, criada e confessada como sendo de Pedro, o apóstolo. Seguindo o debate da autoria, o tempo da redação também é um dilema sem consenso. Imaginam-se os anos desde 60 d.C. até 100 d.C. como período de seu surgimento. Os destinatários e sua vida sócio-religiosa determinam tempos diferentes. Assim l Pe 1.6 fala de uma possível perseguição; l Pe 4.16;5.9 supõe uma perseguição organizada. Pode estar ocorrendo numa região e noutra ainda não. Os(as) destinatários(as) são pessoas, grupos ou comunidades não constituídas nos moldes atuais. São qualificados como renascidos para uma esperança viva (batizados?!). Vale reforçar que o escrito é destinado a quem topou o chamado de Deus e é vocacionado para viver e crer diferente, aqui neste mundo.

A perícope de l Pe 1.3-9, indicada para o 2° Domingo da Páscoa, é escoltada por Atos 2.14a,22-32, que fala da ação de Jesus neste mundo, do agir de Deus em Cristo, das testemunhas da ressurreição com um rebuscar do AT. Também Jo 20.19-31 ajuda a nossa marcha diante da incredulidade crescente e dos choques na vida distante de Deus com o conteúdo Bem-aventurados os que creram e não viram. Além disso, a perícope faz parte do corpo da epístola (1.3-5.11), tendo 1.1-2 e 5.12-14 como moldura. Praticando o loteamento textual, chegamos em l Pe 1.3-9. A meu ver, é a base de toda a produção, de toda a argumentação epistolar acerca dos conflitos, dúvidas e dificuldades vividas pela cristandade de então. Pois encontramos em l Pe 1.3-9 um relato da ação de Deus até a ressurreição de Cristo em favor dos vocacionados, da humanidade; o surgimento da criatura renascida (1.3-5); os dramas e conflitos vividos neste mundo pelos vocacionados (1.6b-8), até chegar no alvo, a grande promessa feita no dia do chamamento, como a esperança viva que é a salvação das almas (1.9).

Dignos de nota e contrastando com aquilo que estão sofrendo na carne, que ainda não foi renascida, mas que está sendo purificada, estão sendo inseridos na pe¬rícope os convites ao louvor, à alegria e ao exultar por causa da ação de Deus. O trinômio louvor — alegria — exultar, ligado ao sofrimento e à ressurreição de Cristo, é a chave de leitura usada para desmistificar o sofrimento e a situação de incredulidade que estava crescendo nas comunidades. Nesta, a promessa e a ação de Deus já são motivos mais do que dignos para o louvor, conforme o autor. Louvor, alegria e exultar não são usados para fugir da realidade vivida, mas para superá-la e fortalecer a chama da parusia e suas manifestações deste tempo. Isto tudo num hino.

2. Segunda parte

Na leitura de l Pedro, percebe-se que os interlocutores são pessoas vocacionadas, chamadas e renascidas. Renascidas não por qualquer filosofia ou prática religiosa. Renascidas pelo Pai de Jesus Cristo, mediante, a ressurreição deste. Renascidas não em corpo. É-lhes concedida, de forma palpável, uma esperança viva na ressurreição de Cristo Jesus. Não é o mesmo que uma vida nova. Apenas um viver e ser diferente. A ressurreição de Cristo é o alimento, o protótipo desta nova vida que há de acontecer conforme o alvo da fé, e que hoje é só esperança de fé. Neste renascer ocorre um rompimento com o que se vive. O presente sofre mudanças, gerando conflitos de grande envergadura. Renascem para uma esperança viva, mas a luta diá-ria tornou-se mais árdua ainda. Tudo o que cerca a vida e o seu acontecer não renasceu ainda. O fim dos tempos, a grande parusia, estava escapando por entre os dedos da fé. As provações, as situações de conflito, a possibilidade e a realidade em sofrer e passar por sofrimento eram crescentes e duros por demais. Os interlocutores sofriam com a não concretização da promessa salvífica. O adiar da promessa salvífica em vida certamente estava levando a uma profunda consternação e dúvida pública. Todo o prometido estava demorando, e o sentimento de abandono e ilusão aumentava dia a dia. A esperança viva, que ainda não é a vida nova da ressurreição estava em conflito. A herança não estava evidente. Na mentalidade não renascida, louvor, alegria e exultação não combinavam com o que estavam passando na carne (vv. 6-7). O crer, o amor sem ver o esplendor da divindade não ajudava na transformação da vida (v. 8). Aí, a esperança viva deixava de perseguir o alvo, a salvação na ressurreição de Cristo. Diante das provações e da vida em chama dos (as) irmãos(ãs), o autor oferece um hino com mensagem dura na exortação e forte no consolo; renovando e dando outra conotação ao sofrimento e à demora. Provações, sofrimentos, desprezo, perseguições, tristezas, demora em receber a herança, o não ver o salvador, o não presenciar a parusia em vida, os conflitos carnais e de fé receberam o grau de uma purificação e eram sinal da presença de Deus em vida e não ausência. O louvor, a alegria e a exaltação fazem o sofrimento ser pequeno e passageiro diante do eterno amor de Deus.

Chamativo ainda é o fato de o autor não questionar o rito do renascer (batismo) e nem o jeito de proclamar o Evangelho. O autor ocupa-se com a reação e a ação dos(as) renascidos(as), suas dificuldades, seus conflitos a partir do chamado do anúncio da ressurreição. Hoje, diferentemente, em grandes círculos da Igreja cristã, a discussão maior está no rito (batismo) — chamar, vocacionar, batizar adultos ou infantes? Achamos que o problema do marasmo das Igrejas e a incredulidade é o batismo de infantes. Nesta epístola, fica evidente a semelhança da reação dos cristãos de hoje, vocacionados como infantes, com os de então, vocacionados em sua maioria como adultos. E a ação dos vocacionados de hoje, adultos e por decisão própria, não é diferente da dos vocacionados como infantes, respeitando o tempo, a situação e as pessoas diferentes. A reação da cristandade segue dando espaço ao mundo sem Deus. O viver a demora da parusia, compreender o sofrimento na vida atual, a imensa liberdade de culto, a incredulidade apesar de vocacionados, o necessitar de milagres na vida atual, a identificação do sistema de vida com a vontade de Deus, a aceitação da ideologia dominante como imutável e cristã são alguns dos muitos aspectos que impedem uma ação cristã diferente hoje. Aliado a isto, o instrumental da carta — louvor, alegria e exultação — é usado de uma forma não concreta, espiritualista, ausente do mundo, causando um descompromisso nosso com a vida atual.
Conforme a perícope de l Pe 1.3-9, algumas categorias cristãs e sua não-concreticidade estavam perturbando a rota dos renascidos(as). Para a cristandade de hoje, as dificuldades igualmente são imensas, contudo não maiores do que a oferta de salvação em Cristo. Nesta perspectiva, os dois textos auxiliares (Jo 20.19-31 e At 2.14a,22-32) são uma excelente complementação. Também partem da ação de Deus em nosso favor. Reforçam essa ação com a presença do próprio Cristo e de testemunhas da história da salvação. Bendizendo as gerações que não viram, mas creram. O que é a nossa situação! Para ajudar no fortalecimento da fé, foi escrita, lida e distribuída esta epístola, como uma chave de leitura diferente do que são o louvor, a alegria e a exultação, ligados ao sofrimento e à ressurreição de Cristo. Isto é completamente diferente do que o louvor, a alegria e a exultação ligados ao sucesso, ao poder, à boa aceitação e a uma glória divina.

3. Terceira parte: pistas para pregação

Aparentemente, não vivemos uma perseguição aberta e declarada. Contudo, a situação de miserabilidade em que a grande maioria vive e a que está submetida, o grau de impunidade para determinada classe social e a fragilidade da justiça nos levam a crer que existe uma perseguição dura e cruel para e na vida de muitos. O trinômio louvor-alegria-exultação foi e é usado na Igreja para camuflar, impedir e complicar mais ainda a vida dos fracos, fazendo crer que a situação de sofrimento é obra de Deus. Não permitindo o crer no agir, para experimentar já aqui o gozo eterno de uma vida digna. Louvor-alegria-exultação não são propriedades inerentes ao poder do mal, da exploração. Como tudo nesta vida sofrida, também estes elementos foram sequestrados e roubados da vida dos eleitos. Por infelicidade, ou caindo na armadilha dos poderosos, como Igreja, também excluímos a alegria da vida dos fracos. Preferimos entrar na discussão do vocacionar adultos ou infantes e da alegria eterna somente. Enquanto este texto mostra que louvor-alegria-exultação são como seiva na vida das plantas. São o cerne da vitória de Cristo — a alegria pela Páscoa — ressurreição. Nesta perspectiva convido para meditar.

— Recontar l Pedro 1.3-9.

— Na perspectiva do louvor-alegria-exultação, ligados ao sofrimento e à ressurreição de Cristo, ler e analisar os hinos do HPD 155,145,258, para descobrir o lugar e a função do louvor-alegria-exultação na vida dentro e fora da Igreja. Conforme o texto, são elementos motivadores da esperança viva e não inibidores da vida em busca da ressurreição.

4. Subsídios litúrgicos

1. Na entrada, distribuir o texto de l Pe 1.3-9, para ser lido antes do início, destacando o louvor, a alegria e o exultar, ligados ao sofrimento e ressurreição de Cristo.

2. Confissão: Pode acontecer uma motivação do(a) celebrante junto aos(as) participantes quanto à confissão e sua ação tonificante na vida de fé nos diferentes momentos da vida: no pensar, no falar, no agir. E depois orar o hino n° 150 (HPD).

3. Oração de coleta: Junto com a comunidade orar o hino n° 250 (HPD).

4. Oração final: Ler e orar o hino n° 136 (HPD), após cantar o hino n° 165 (HPD).

5. Bibliografia

- SCHWANK, Benedikt. A primeira Carta de Pedro Apóstolo. N° 20, Vozes, Petrópolis, 1967.
- MÜLLER, Ênio R.. 1. Pedro Introdução e comentário. Vida Nova — Mundo Cristão, São Paulo, 1988.
- DIETRICH, B. Meditação sobre 1 Pe 1.3-9. In PL, vol. 3, S. Leopoldo, 1978. STRECK, Edson E. Meditação sobre 1 Pe 1:3-9. In PL, vol. 11, S. Leopoldo, 1985.
- BARTH, G. A Primeira Epístola de Pedro, 2a ed., Sinodal, São Leopoldo, 1979.


Autor(a): Clemente João Freitag
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Páscoa
Perfil do Domingo: 2º Domingo da Páscoa
Testamento: Novo / Livro: Pedro I / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 3 / Versículo Final: 9
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1992 / Volume: 18
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13530
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