1 Samuel 2.18-20,26

Auxílio Homilético

27/12/2015

 

Prédica: 1 Samuel 2.18-20,26
Leituras: Lucas 2.41-52 e Colossenses 3.12-17
Autoria: Marivete Zanoni Kunz
Data Litúrgica: 1º Domingo após Natal
Data da Pregação: 27/12/2015
Proclamar Libertação - Volume: XL

 


 A graça no crescimento espiritual da pessoa cristã

 

 

 

1. Introdução

Já passamos alguns dias de uma grande celebração: a festa de Natal. Os reflexos desse momento ainda pairam no ar e são lembrados por todos. Mas essa celebração deve fazer-nos pensar sobre como queremos que sejam todas as outras celebrações do ano, ou até mesmo como queremos que sejam todos os outros momentos em que participaremos de uma celebração ao Senhor.

O texto da prédica bem como as outras leituras mostram que não importam a idade ou a época, todos os momentos em que estamos em alguma celebração ao nosso Deus são importantes e significativos, pois nos fazem crescer. Samuel, ainda menino, ministrava perante o Senhor (v.18); Jesus participava de uma celebração anual, interrogando e ouvindo os doutores da Lei. Tanto os pais de Samuel como os pais de Jesus estavam na mesma celebração junto com seus filhos e conduziam suas famílias ao local de adoração ao Senhor. Assim todos cresciam diante do Senhor e das pessoas.

Nesse sentido, cada pessoa cristã pode perguntar-se como está seu crescimento espiritual diante do próximo e do seu Senhor bem como o que individualmente tem feito para alcançar esse crescimento.

A atitude desses personagens, tanto de Samuel como de seus pais, tanto de Jesus como de seus pais, revela que há possibilidades de um novo começo espiritual. Mas é preciso participar dos momentos de celebração e estar em lugares que nos façam ou tragam tal crescimento. É preciso sensibilidade para buscar o crescimento. Aqueles que o buscam alcançam.

2. Exegese

A história de Samuel marcou um momento de grande mudança na forma de liderança do povo hebreu. Ele foi usado pelo Senhor no momento em que houve a transição do período dos juízes para a monarquia. A vida espiritual de Samuel foi extremamente importante para o Senhor usá-lo, pois foi especialmente pela autoridade espiritual que ele possuía que a mudança aconteceu.

Samuel, ainda criança, foi levado ao sacerdote Eli como cumprimento de um voto feito por sua mãe. Assim ele serviu a Deus no santuário, sendo instruído por Eli, um bom homem, mas que tinha difi culdades com seus filhos. Os filhos de Eli, Hofni e Fineias, tinham uma vida moral comprometida, pois tinham relacionamentos ilícitos com mulheres que serviam na entrada do tabernáculo. Além disso, eles também eram glutões, pois fi cavam com a melhor parte do sacrifício que deveria ser entregue ao Senhor. Em contraste com a vida irregular dos fi lhos de Eli, temos a vida de Samuel. Isso revela que, independentemente da situação espiritual que houver, é possível crescer espiritualmente.

V. 18 – Diferentemente dos filhos de Eli, Samuel ainda criança já aprendia com o sacerdote Eli o trabalho no santuário em Siló e até ministrava. A imagem de um menino fazendo a ministração é algo que instiga a imaginação; não dá para chegar a uma total avaliação do que isso pode representar. Também usava vestes de linho, uma estola, que para alguns autores seriam de sacerdotes e levitas adultos e para outros seriam roupas de sacerdotes não tão graduados. Mas certamente o fato de tais vestes serem citadas revela algo diferenciado.

V. 19 – A mãe de Samuel, de ano em ano, quando vinha a Siló, trazia roupas novas para Samuel. Wiersbe comenta: “Nas Escrituras, é comum as vestes se referirem à vida espiritual (Is 61.10; Zc 3.1-5; Ef 4.22-32; Cl 3.8-17; 1Pe 5.5), e mudar de roupa simboliza um novo começo (Gn 35.2; 41.14; 45.22; 19.10; Ap 3.18). As vestes novas de cada ano representavam não apenas o crescimento físico de Samuel, mas também seu crescimento espiritual (1Sm 2.21), o que nos lembra como crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens (Lc 2.52)” (p. 207).

No texto hebraico, o termo traduzido como túnica pode referir-se a um manto usado pelos reis (1Cr 15.27), profetas (1Sm 15.27), mulheres da sociedade (2Sm 13.18) e outros. Alguns autores, como Hamilton Victor, informam que essa túnica poderia ser uma roupa utilizada pelo sumo sacerdote para cobrir a estola sacerdotal. A mesma era utilizada por pessoas de “reputação”, tais como Saul (1Sm 24.5), Davi (1Cr 15.27), Esdras (Ed 9.3), Jó (Jó 1.20) e outros.

V. 20,26 – O termo traduzido como crescer é holēk no texto hebraico. Conforme Coppes Leonard, essa palavra denota “movimento em geral”, sendo que o termo pode ser utilizado com várias conotações e em vários contextos. No final do v. 21, temos a indicação de que o menino crescia diante do Senhor. Conforme Moody, esse termo que ali aparece, a saber, gedol, pode indicar desenvolvimento mental e moral, além de crescimento físico. Pode-se facilmente compreender o crescer em estatura. Mas o que significa crescer na graça? Graça é algo que nós recebemos, mesmo não a merecendo, e da qual nós podemos tornar-nos cheios.

3. Meditação

Estamos vivendo um momento em que tudo é permitido. Mas infelizmente isso não é tão real para aqueles que buscam uma vida espiritual de valor. Assim, os textos de hoje servem de incentivo para todos os que ainda anseiam e valorizam a vida com seu Deus. Olhando para esses exemplos, é possível entender alguns aspectos importantes da vida espiritual da pessoa cristã.

3.1 – A vida espiritual precisa ser constante e é influenciada pelo convívio e pelo exemplo familiar: o v. 19 do texto principal enfatiza a atitude dos pais. Ana, mãe de Samuel, cujo nome significa “graça”, era uma mãe adoradora de Deus, que soube levar seu filho a também crescer em “graça” diante do Senhor e dos seres humanos. Foi amparado pelos cuidados especiais de sua mãe que Samuel desenvolveu-se física e espiritualmente. Ana entregou ao Senhor o que tinha de melhor. A bem da verdade, tanto Ana como seu esposo Elcana tiveram muita coragem quando entregaram aos cuidados de Eli o maior bem que possuíam, pois Eli e sua família viviam em situação de complicada corrupção. Mas os pais de Samuel eram exemplos de pessoas de grande caráter. Ana não esqueceu de cumprir seu voto ao Senhor, e certamente no período de aproximadamente três anos em que esteve com Samuel a seu lado, ensinou-o a amar e servir ao Senhor, bem como deve tê-lo ensinado a orar, pois era uma mulher de oração (1Sm 1.27). Elcana, como esposo que a amava, permitiu que ela cumprisse o voto. Sabe-se que o marido poderia anular o voto da esposa caso não concordasse com ele (Nm 30) e que o fi lho primogênito poderia ser resgatado com um sacrifício (Nm 13.1113). Mas não foi isso que Elcana fez. Elcana permitiu e levou seu filho para que desse início a um novo momento espiritual na vida de uma nação. Assim, vemos que a atitude dos pais foi importante para o desenvolvimento espiritual de toda a nação. Existem momentos de celebração que são especiais, mas o crescimento da pessoa cristã acontece todos os dias. A celebração não pode cessar, e o papel dos pais é significativo nessa caminhada. Os lares e as famílias servem de ponto de partida para o crescimento espiritual.

3.2 – A vida espiritual reflete-se diante do Senhor e do próximo: a coisa mais importante é nossa vida diante do Senhor. Isso não significa que não seja importante testemunharmos diante das pessoas, mas se estamos bem diante do Senhor, não precisa haver dúvidas de como está nossa situação diante das pessoas. Pode ser que nem todas as pessoas concordem com nossa postura, mas é uma questão de escolha e prioridade. Ou seja, o que é mais importante em questões espirituais na minha vida? Ser primeiro aprovado diante do Senhor ou das pessoas? Certamente crescer espiritualmente é necessário. Mas é muito interessante que tanto o texto de Samuel como o texto que fala de Jesus apontem primeiramente para o crescimento diante do Senhor e depois diante dos seres humanos.

Mas o que se quer dizer com crescer na graça diante do Senhor? Nossa vida espiritual certamente reflete-se a partir da graça que a nós foi manifesta através de Cristo e também daquilo que agora demonstramos ao próximo. Deus pode fazer abundar essa graça em nós, mas para isso é preciso crescer, desenvolver essa graça em nossa vida. Quanto à graça, nós a recebemos (Rm 1.5; 12.6; 2Co 8.1) e ela pode ser desenvolvida.

Deus pode fazê-la abundar em nós (2Co 9.8) a ponto de estarmos, como citado em At 6.8, “cheio de graça e poder” (como estava Estêvão). Certamente o melhor exemplo de alguém que cresceu na graça foi o próprio Jesus, conforme o relato de Lucas 2.52, e ele deve ser a nossa maior motivação na busca de uma vida espiritual que agrade a nosso Deus.

Vale considerar a fala de William Barclay referindo-se ao 2 Pedro 3.18: “Cristãos são pessoas que estão em constante desenvolvimento. Como cristãos deveríamos diariamente experimentar o milagre da graça e crescer naquilo que a graça nos proporciona. Diariamente deveríamos, como cristãos, penetrar mais a fundo no milagre de Jesus Cristo” (p. 331).

Em conclusão: num mundo no qual tantos valores e atitudes são questionados, é preciso firmeza para permanecer assíduo nas celebrações cristãs. Pois elas estão entre aquelas que nos fazem “crescer” espiritualmente, se não diante dos seres humanos, certamente diante do nosso Deus. A decisão é de cada qual, ou seja, cada pessoa escolhe como quer dar continuidade àquilo que sucede a celebração de Natal. Mas, além da decisão individual, o bom exemplo pode ajudar aqueles que estão ao nosso redor a tomar sua decisão.

Também é bom lembrar que não existe idade para buscar o crescimento diante do Senhor e do próximo. Tanto Samuel como Jesus mostraram isso. O mais impressionante é que os dois personagens de destaque foram pessoas que, ainda quando crianças, tinham uma vida espiritual significativa. E foram esses indivíduos que fizeram diferença para a realidade de suas épocas.

Assim, como bem diz o texto de 2 Pedro 3.18: Cresçam, porém, na graça e no conhecimento do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, agora e para sempre! Amém.

4.Imagens para prédica

Talvez uma ilustração ajude-nos a compreender melhor essa questão de crescer na graça: assim como grandes construções só podem ser levantadas sobre um fundamento sólido e somente árvores com raízes profundas podem crescer para o alto, assim também a vida do cristão só pode desenvolver-se para cima e para os lados se estiver alicerçada no fundamento sólido, ou seja, na graça de Deus (Barclay, p. 331).

5.Subsídios litúrgicos

Alguns versículos para auxiliar na liturgia do culto, que também falam sobre graça:

2Co 9.8: E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra.

1Pe 4.10: Servindo uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.

At 6.8: Ora, Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo.

1Co 15.10c: Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus que está comigo.

Bibliografia

BARCLAY, William. Auslegung des Neuen Testaments: Briefe des Jakobus und Petrus. Wuppertal: Verlag Gmbh, 1973.

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento. Santo André: Geográfica, 2006. 
 


Autor(a): Marivete Zanoni Kunz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Natal
Perfil do Domingo: 1º Domingo após Natal
Testamento: Antigo / Livro: Samuel I / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 18 / Versículo Final: 20
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2015 / Volume: 40
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 35162
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