1 Tessalonicenses 2.1-8

Auxílio Homilético

23/10/2011

Prédica: 1 Tessalonicenses 2.1-8
Leituras: Levíticos 19.1-2,15-18 e Mateus 22.34-36
Autora: Marivete Zanoni Kunz
Data Litúrgica: 19º Domingo após Pentecostes
Data da Pregação: 23/10/2011
Proclamar Libertação - Volume: XXXV 

1. Introdução

Os textos para este domingo refletem as boas atitudes que um período como este, após o derramamento do Espírito, deve gerar em todo cristão. São textos que conduzem ao agir cotidiano, pois num mundo que tem prezado o individualismo e as realizações pessoais, somos exortados a agir diferentemente, amando a Deus e ao próximo. Os textos contrastam com alguns ensinamentos ou pensamentos errôneos vigentes na sociedade; por isso é importante, na celebração, trabalhar esse momento, enfatizando injustiças que são cometidas contra vidas inocentes. Tanto quando se refere a pessoas mais chegadas, como àquelas que não fazem parte do círculo íntimo. Também é importante mostrar a importância dessas ações estarem ligadas ao amor que sentimos em primeiro lugar pelo Senhor, sendo essas ações reflexos dos ensinamentos bíblicos vividos. Os textos complementam-se nessa direção. No primeiro (1Ts 2.1-8), Paulo mostra que tudo o que fez foi motivado pelo amor a Deus, sem se preocupar com bajulações às pessoas ou com ganâncias pessoais, razão pela qual ele foi amado por todos. O texto de Levítico 19.1-2,15-18 vem em concordância, pois mostra que tudo deve ser feito por amor a Deus e ao próximo. Finalmente, o texto de Mateus 22.34-46 revela que contra isso não há contestação e disso dependerão todas as outras questões da vida.

2. Exegese

V. 1 – Paulo e seus amigos buscam lembrar os irmãos do motivo por estar em Tessalônica. Fica claro que a missão era a tarefa de proclamação da Palavra, e a mesma foi cumprida. Isso se evidencia quando é afirmado que aconteceram muitas conversões ao Senhor; houve resultados e, em razão disso, o trabalho ali não foi algo em vão. Aqui, além de se buscar explicar a razão que os fez estar em Tessalônica, eles lembram ainda que os cristãos não deveriam se vangloriar de suas atitudes; pelo contrário, devem ficar atentos aos frutos que são colhidos a partir do trabalho em algo tão considerável no reino de Deus.

V. 2 – Paulo deixa claro que sua motivação bem como a de seus companheiros para realizar as atividades provinha de Deus e não de forças humanas. Por isso não desistiram diante de dificuldades. O teor do texto expressa que, mesmo tendo sofrido maus-tratos por amor à palavra de Deus, foram ousados e corajosos. Esse versículo enfatiza o propósito de Paulo e seus amigos na estadia em Tessalônica; ele mostra que esse propósito foi cumprido devido às forças que provinham de Deus, mesmo que tivessem que passar por muitas lutas.

V. 3 – Esse versículo enfatiza que tudo o que fizeram ou falaram era relevante, pois foi feito a partir da vontade do Senhor. Nega-se que realizaram suas atividades baseando-se em “engano, impureza e dolo”, como era comum a alguns pregadores.

V. 4 – Esse versículo mostra que Paulo e seus amigos tinham algo a proclamar que não lhes pertencia, mas lhes foi confiado por Deus. Isso não pode ser comparado a algo obtido por prazer; ao contrário, só tinham o que tinham porque foi entregue pelo próprio Senhor, que, como diz o final do versículo, conhecia o “coração” dos seus. O verbo grego dokimazo revela que Paulo e companheiros foram examinados interiormente antes de receber o evangelho para anunciar. Pode-se perceber que, diante da prova pela qual passaram, e sendo aprovados, não poderiam fazer outra coisa senão falar para agradar aquele que os comissionou. E a forma de fazer isso seria transmitindo a mensagem conforme ele solicitou.

V. 5 – O apóstolo e seus amigos evidenciam que, em nenhum momento, agiram com o coração voltado a bens ou com o coração cheio de ganância – palavra que no grego indica cobiça de todos os tipos –, usando assim de enganos ou segundas intenções para com os outros, a fim de alcançar algo pessoal. Pois isso era uma atitude comum naquele período. Muitos viajantes usavam de artimanhas, como falas agradáveis aos ouvintes, para conseguir favores pessoais. Eles, Paulo, Silvano e Timóteo, estão cientes de que muitas pessoas poderiam confundi-los com tais pregadores e por isso trazem tal explicação. Eles também sabem o quão importante é a tarefa que possuíam, razão que também os leva a falar com as mais sinceras motivações e não com interesses particulares. Disso Deus é testemunha. Em momento algum, aconteceram tentativas de enganar as pessoas, pois, acima de tudo, estava a fidelidade a Deus.

V. 6 – Diante de honra tão maravilhosa de ser aprovado pelo Senhor para levar o evangelho, buscar a honra das pessoas seria algo irrelevante. Paulo e seus amigos acreditavam que seu trabalho não era algo apenas rotineiro, mas algo grandioso e muito digno. Diante desse fato, esqueceram inclusive os direitos à honra que poderiam ser reivindicados, visto que ocupavam uma posição de liderança nas igrejas fundadas e tinham o direito de ser honrados por tal razão.

V. 7 – O sentimento que Paulo e seus companheiros tinham pelo povo é comparado ao sentimento de amor que uma mãe tem por seu filho. Esse amor era a base para que todo trabalho pudesse ser desenvolvido; sem ele a missão fracassaria. O amor de mãe é algo desinteressado. Era esse o sentimento desses mensageiros quando transmitiam a mensagem ao povo. Assim eles agiam por ter em mente o bem da igreja. Apesar do termo no original ser “ama”, a ideia é de uma mãe, pois o termo vem em conexão com a expressão “próprios filhos”. A etimologia da palavra “ama” possivelmente expressa o elemento “nutrir”, que desempenha uma ama.

V. 8 – O amor de Paulo e seus amigos pelo povo era algo que os motivava inclusive a entregar suas vidas ou almas, caso preciso fosse. Isso revela que aquilo que eles realizavam era algo especial. Eles não viam isso somente como um mercado de trabalho, mas o empenho em tal atividade era total. O envolvimento com o povo era completo. E era assim que deveria ser, pois tal atividade necessita ser realizada com entrega total. No original, há a palavra grega homeiromai, que revela um profundo anseio que eles tinham de compartilhar e oferecer algo que também tinham como importante para si mesmos. Paulo usa a figura da própria vida, algo que é de muito valor a todos, para mostrar o quão precioso era a Palavra que tinham para anunciar. A palavra “vida” no texto grego é psyche, que também expressa o íntimo de seu ser. Ou seja, era isto que eles ansiavam compartilhar: coisas do mais profundo de seu ser. Esse anseio também provinha do fato de eles amarem muito os tessalonicences, amor que, na verdade, era o amor de Deus, expresso ali através de suas vidas.

3. Meditação

Na passagem de 1 Tessalonicenses 2.1-8, percebe-se que havia oposição contra a vida dos missionários. Assim, Paulo defende seu ministério e o de seus colegas, baseado nas atitudes e no testemunho que deixaram quando passaram em Tessalônica. Primeiramente, esse texto é um encorajamento pastoral, mas pode ser usado como um bom exemplo para mostrar a todo cristão a importância de deixar um bom testemunho e como agradar a Deus através disso. Após mostrar que se preocupavam e queriam estar junto deles, Paulo e seus colegas descrevem coisas que gostariam de dizer. Eles falam de problemas que a igreja tinha para viver conforme a Palavra e das dificuldades externas enfrentadas pelos membros. É possível que pessoas de fora estivessem tentando prejudicar a imagem de Paulo e de seus colegas. Por isso eles se defendem, afirmando que não usaram métodos enganosos, os quais eram conhecidos por todos. Assim, fica o exemplo de como o cristão pode agradar a Deus.

3.1 – Servindo com compaixão ao próximo e sendo exemplo na conduta

Isso se dá através de atitudes e comportamentos, pois tais coisas falam mais alto do que palavras. Nesse sentido, o ser humano precisa agir e comportar- se tendo em vista o bem-estar do próximo. É preciso não querer coisas apenas para si, mas estar preocupado com as pessoas e suas necessidades. A fama, o prestígio, os bens materiais, por vezes, levam pessoas a fazer exigências de interesse particular. Entretanto, Paulo e seus colegas, como exemplo, estiveram dispostos a trabalhar para se sustentar, a fim de não parecer que estavam realizando sua missão com interesse em bens materiais. Foi por viver assim que eles puderam exortar o povo a ser exemplo. Esse é o modelo de líder que o povo quer, além de também ser um modelo de vida para todo cristão. Diante das oposições, Paulo e seus colegas não poderiam ter se defendido caso não tivessem tido um bom comportamento quando passaram em Tessalônica.

O v. 4 mostra que Deus examina o coração do ser humano para verificar se ele está apto a realizar certas funções. Esse exame ocorre constantemente e não apenas uma vez, o que pode ser verificado no texto original através do uso do verbo no particípio presente. Deus sabia que, no coração de Paulo e seus amigos, estava constantemente o querer servir e agradá-lo, e isso dirigiria sua missão. Não ter o coração voltado para coisas particulares é almejar cumprir a vontade de Deus e servir ao próximo em detrimento de vontades pessoais. De modo algum, eles fizeram uso de posição de destaque para benefício pessoal, mas serviram aos outros sendo mordomos da Palavra que lhes foi entregue: através da proclamação da Palavra, cuidando do povo como uma mãe cuida de seus filhos, ensinando e amando-o.

O v. 7 mostra que o cristão deve agir com o próximo de forma amorosa. Isso é possível quando há no coração um anseio sincero de compartilhar o que se tem de melhor. Em tudo o que fazemos precisamos dar do mais precioso que temos. Assim, devemos dar ao próximo o Cristo vivo e ressurreto. Isso Paulo e seus amigos queriam fazer pelos tessalonicenses. Muitas vezes, atividades feitas ao próximo são desencorajadas. Entretanto, nunca deveríamos esquecer que Deus prova o coração e somente quando agirmos com compaixão pelo próximo, sem egoísmo, seremos considerados dignos diante de homens e de Deus. Foi por agirem em prol do próximo que Paulo e o próprio Cristo, conforme o texto de Mateus, estavam em condições inquestionáveis perante os homens. Que cada um se pergunte até que ponto tem servido e sido exemplo ao próximo em atitudes e condutas.

3.2 – Não buscando a glória de homens, mas a honra de Deus

Independente de quem sejam as pessoas que você considera importantes, sua preocupação não deve ser a de ter importância diante delas, pois isso não passa de mera ilusão. A admiração das pessoas pode vir a encantar; entretanto, digno de ser considerada é a busca da aprovação divina para nossas atitudes. O reconhecimento diante das pessoas é algo motivador, não podemos negar. Mas esse reconhecimento, conforme o texto, não deve ser “buscado ou procurado”. Isso deve vir como expressão natural dos que nos rodeiam, devido a nossas atitudes. A tentação de receber o reconhecimento de seres humanos acontece em todos os âmbitos da vida, até mesmo em áreas da espiritualidade.

Ainda que o reconhecimento humano seja algo legítimo em alguns casos, como no de Paulo e seus amigos, essa não deve ser a motivação de nossas atitudes e comportamentos. A nossa motivação, além de ajudar o próximo, deve ser a convicção de que podemos ser para esse a expressão do amor de Deus. E isso será realidade quando fizermos as coisas com o coração voltado a glorificar Deus e não querendo reconhecimentos dos homens. É nesse momento que receberemos a honra que nos cabe, e essa virá do próprio Deus.

4. Imagens para a prédica

As ilustrações abaixo ajudam a compreender melhor o que é agradar a Deus na prática.

4.1 – Amor ao próximo

Quando Sundar Singh, um célebre cristão indiano, viajava com seu guia pelo Himalaia, foi atingido por uma violenta tempestade de neve. Arrastando-se pelo caminho, ele e seu companheiro tropeçaram num homem semicoberto pela neve. O guia insistiu para que prosseguissem, dizendo que, ao socorrer a vítima, poriam em perigo sua própria segurança. Enquanto o guia prosseguiu sozinho, Sundar ergueu aquele corpo inconsciente aos ombros e enfrentou a tempestade, parecendo estar em desvantagem. Assim que a noite caiu, a boca de uma caverna se abriu à frente numa promessa de descanso seguro. Sundar, que se conservava aquecido pela carga extra que carregava, tropeçou no corpo gelado de seu guia. De acordo com o sentido do texto acima, a grande missão de nosso Senhor é a missão de cada cristão em relação aos outros. Embora não estejamos no serviço cristão por tempo integral, temos de ser cristãos integrais.

4.2 – Pecado contra o próximo: indiferença

Bernard Shaw, grande escritor irlandês, ganhador do prêmio Nobel de 1925, é o autor da seguinte frase realista: “O maior pecado para com o próximo
não é odiá-lo, mas lhe ser indiferente; essa é a essência da desumanidade”.


5. Subsídios litúrgicos

A pergunta “Como agradar a Deus vivendo na sociedade atual?” pode ser um tema a ser desenvolvido. É recomendável destacar aquilo que Paulo fez e, a partir disso, ver o que a igreja pode fazer hoje, bem como cada cristão, tanto em termos de levar alento espiritual como do agir social.
É importante fazer alguns apontamentos, indicando coisas práticas já realizadas e lançando novos desafios, a fim de levar cada ouvinte a analisar o que ele tem feito e até mesmo se tem cumprido com sua missão, assim como Paulo e seus amigos fizeram.

É possível listar algumas coisas práticas a serem realizadas, mostrando como realizá-las em benefício da propagação da Palavra e auxílio à comunidade. Através disso pode-se destacar a esperança que nasce para muitos com o conhecimento da Palavra de Cristo. Também que a igreja e cada cristão podem ser uma porta de esperança para muitos que sofrem e não conhecem o amor de Jesus.

É possível levar nomes de pessoas que agiram de forma exemplar na comunidade ou a nível mundial, bem como listar as atividades que essas pessoas desenvolveram e a diferença que isso causou. Pode-se trazer ainda alguém para testemunhar de atividades que tem realizado e dos benefícios das mesmas. Isso pode ser feito como uma forma de incentivo para o engajamento da comunidade em atividades práticas. É bom incentivar e lembrar que, no mundo moderno, muitas são as oportunidades para aqueles que querem ser testemunhas da graça salvadora do Senhor, basta que se tome isso por propósito.

Bibliografia

BOOR, Werner de; BÜRKI, Hans. Carta aos Tessalonicenses, Timóteo, Tito e Filemom. Curitiba: Esperança, 2007. 453 p.
MARSHALL, I. Howard. I e II Tessalonicenses: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1993. 270 p.

 





 


Autor(a): Marivete Zanoni Kunz
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 19º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Tessalonicenses I / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 8
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 2010 / Volume: 35
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 25067
REDE DE RECURSOS
+
Não sei por quais caminhos Deus me conduz, mas conheço bem o meu guia.
Martim Lutero
© Copyright 2021 - Todos os Direitos Reservados - IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Portal Luteranos - www.luteranos.com.br