1 Timóteo 1.12-17

Auxílio Homilético

11/06/1978

Prédica: 1 Timóteo 1.12-17
Autor: Klaus van der Grijp
Data Litúrgica: 3º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 11/06/1978
Proclamar Libertação - Volume: III


l - Considerações exegéticas

A perícope parece formalmente um testemunho autobiográfico do apóstolo Paulo. É feita referência a seu antigo status como perseguidor da comunidade cristã, e ao modo como ele se tornou um instrumento eleito para a conversão dos gentios. Todavia o verdadeiro protagonista não é Paulo; é Cristo mesmo. Ele é, nestes versículos, o sujeito das formas verbais mais significativas; aquele que me fortaleceu, me considerou fiel, designando-me para o ministério (v.12); transbordou a graça do Senhor (v. 14); ele evidenciou a sua longanimidade (v.16). Paulo aparece duas vezes na forma passiva: obtive misericórdia (ËLEÊTHËN, vv.13,16), como objeto da ação de quem lha concedeu. É importante ver claramente esta ênfase. O texto nos ensina algo sobre Cristo, enquanto que a experiência do apóstolo é um simples paradigma que nos mostra quanto a graça de Cristo pode alcançar na vida das pessoas.

Pois sabe-se que, nas Cartas Pastorais, Paulo não aparece como autor de um modo direto. Escritas sob inspiração paulina e num espírito de profunda veneração ao apóstolo dos gentios, estas cartas refletem uma situação histórica posterior à morte daquele. O uso da primeira pessoa para respaldar um escrito com a autoridade de um personagem do passado era, na Antiguidade, um procedimento comum. Nós hoje devemos compreender que nenhum escrito bíblico é menos autêntico por ter uma história literária mais complicada do que julgávamos a primeira vista. O que decide sobre a autenticidade de uma mensagem é o seu conteúdo, não a pessoa do mensageiro. Não há inconveniente em esclarecer a comunidade sobre este ponto no decurso da prédica, sempre que isso seja feito em palavras sóbrias, que não desviem a atenção de assuntos mais essenciais. Mas mesmo quem faz questão de reivindicar para as Cartas Pastorais a autoria direta de Paulo, deveria evitar qualquer ênfase no aspecto autobiográfico desta perícope.

Porque, evidentemente, o episódio da conversão de Paulo é apresentado aqui numa forma esquematizada, estilizada para fins edificantes. Termos exclusivamente negativos como blasfemo, perseguidor, insolente, ignorância, incredulidade, não condizem com os enunciados das cartas diretamente paulinas, como Gálatas e Filipenses. Ali Paulo afirma que foi extremamente zeloso das tradições dos pais (Gl 1.14)e irrepreensível quanto à justiça que há na lei (Fp 3.6). Aquela fase da sua vida não era ruim em si; era-o somente em comparação com a nova vida de Cristo, que convertia em perda os pretensos lucros do passado. Na nossa perícope, porém reconhecemos a preocupação de esboçar a conversão-modelo (HYPOTYPÕSIS, v.16) do primeiro entre os pecadores (PRÕTOS, v.15, na qual pudessem espelhar-se todos os que viriam após ele.

O acontecimento da conversão é relacionado com uma verdade objetiva, com uma daquelas máximas que as Cartas Pastorais costumam alegar quando invocam a autoridade da tradição apostólica: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores. A fórmula introdutória fiel é a palavra é usada nestes escritos nada menos que cinco vezes (l Tm 1.15; 3.1; 4.9;2 Tm 2.11; Tt 3.8; cf. Tt 1.9) para citar uma verdade normativa da fé crista. Em comparação com as cartas diretamente paulinas, que também conhecem o recurso da tradição apostólica (verbos receber l Co 11.23; 15.1,3; Gl 1.9; Fp 4.9; entregar Rm 6.17; l Co 11.2; alusão a palavras do Senhor l Co 7.10,25; 9.14; 1 Ts 4.14), as Cartas Pastorais se mostram singularmente interessadas na tradição de fórmulas fixas, normativas, aptas para dar á fé uma base de certeza formal. Daí vêm algumas expressões típicas destes escritos, assim como a boa doutrina (l Tm 4.6), a sã doutrina (2 Tm 4.3; Tt 2.1), as sãs palavras (2 Tm 1.13), linguagem sadia (Tt 2.8), a palavra da verdade (2 Tm 2.15), guardar a fé (2 Tm 4.7), guardar o depósito (2 Tm 1.12) ou o bom depósito (2 Tm 1.14), guardar o que nos foi confiado (l Tm 6.20), permanecer naquilo que já aprendemos (2 Tm 3.14), etc.

A importância daquilo que vem até nós a partir da conversão de Paulo é salientada mais uma vez na doxologia com que a perícope termina. Esta doxologia, como também o seu paralelo em l Tm 6.15-16, demonstra, pela solenidade inusitada do vocabulário, a sua procedência litúrgica. São palavras familiares aos leitores cristãos, pelas quais é exaltada neste contexto a providência divina, que, começando pelo apóstolo dos gentios, tornou a salvação extensiva a quantos após ele creriam em Jesus Cristo.

II - De perseguidor a servidor

Uma maneira de atualizar l Tm 1.12-17 na situação do nosso país é projetar o paradigma da conversão de Paulo naqueles que hoje se comportam como blasfemos, perseguidores e insolentes. Vivemos numa sociedade onde vigora o direito do mais forte. A HYBRIS (= insolência; talvez melhor: arrogância, altivez) é um fator demasiado conhecido na nossa história e no nosso presente.. Quem é dono da situação, pode torcer a lei e manejar os meios de comunicação em prejuízo dos outros: isso é blasfêmia, ou calúnia. Ou então, ele pode ir ao extremo de negar ao outro o direito a uma existência humana: isso é DIOGMOS, ou perseguição. O que devemos fazer diante dessas tristes realidades? Haverá algum processo histórico capaz de eliminá-las? Se nos negamos a acreditar na possibilidade da sua eliminação revolucionária, inclinamo-nos facilmente a coonestar as estruturas existentes. Uma mão dura, de vez em quando, pode evitar males maiores... E sem sabê-lo, interiorizamos certas atitudes que em teoria tínhamos rejeitado. Tornamo-nos altivos, caluniosos e perseguidores para com os nossos dependentes.

Aí o modelo da conversão de Paulo cobra uma surpreendente atualidade. A misericórdia de Cristo é capaz de renovar as atitudes humanas. Ela pode transbordar na pessoa do perseguidor até ao ponto de torná-lo apto para servir a comunidade (v. 12: DIAKONIA = ministério, ou simplesmente serviço). Fé e amor produzem nele uma maravilhosa conscientização: acabam com a sua ignorância (v.13, fazendo-lhe ver o mal que havia no seu relacionamento com os outros, e manifestam a graça de Cristo na cura desse relacionamento. Mediante o protótipo-do-pecador que era Paulo, Jesus Cristo quer nos evidenciar a sua completa longanimidade (v. 16). Isso é: não cabe perder o ânimo diante da presença de qualquer perseguidor, mas também não cabe coonestar a sua atuação no nosso meio. É escusado recorrer a medidas de desespero, como aquelas do terrorismo, mas nem por isso devemos pactuar com a calúnia, a perseguição e a altivez que corrompem a nossa sociedade. A longanimidade de Cristo é a tensão existente entre a sua ira e a sua graça. Ser cristão é aprender a viver nessa tensão.

III – A natureza do ministério eclesiástico

Outros enfoques da perícope podem igualmente dar acesso a uma hermenêutica contextual. Há muitas comunidades evangélicas onde a legitimidade do ministério está em discussão. A convivência com cristãos de uma linha pentecostal pode estimular a reflexão sobre a validez do ministério carismático; a confrontação entre comunidades da IECLB e comunidades livres pode criar um clima de rivalidade entre os ministros; e ainda temos, em algumas áreas, o tradicional problema dos pseudo-pastores... Perante estes fatos vemos que o apóstolo Paulo não nos dá apenas um modelo normativo quanto à sua conversão, mas também quanto à sua designação para o ministério. Ou melhor: a conversão e a designação para o ministerio foram, na vida do apóstolo, como as duas caras da mesma moeda.

Consta, em primeiro lugar, que o ministério eclesiástico remonta a um ato da soberana vontade de Jesus Cristo, com exclusão de quaisquer outros motivos. Mesmo a fidelidade do apóstolo não é condição prévia para a sua alta missão. Antes ela é consequência do fato de que Cristo o considerou fiel. A designação para o ministério é como a própria conversão, uma graça imerecida. Portanto a autoridade do ministro aponta, por cima dele mesmo e da sua comunidade eclesiástica, para o Senhor da Igreja. Em segundo lugar podemos constatar que o ministério se torna operante a partir da experiência da conversão. A menção do ministério no v.12 é seguida logo na mesma frase, num contraste intencional, pela negra recordação do passado e pela declaração jubilosa: Mas obtive misericórdia!... Transbordou a graça do nosso Senhor! A fórmula confessional Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores (v.15) não resume apenas a pregação do apóstolo, ela constitui também a verdade central da sua própria vida. Essa mútua complementacão de experiência e pregação é essencial para todo ministro do Evangelho. Nem todos nós percorremos o nosso Caminho de Damasco, nem todo pregador pode ser um antigo blasfemo, perseguidor e insolente, e muito menos o principal dos pecadores; mas para todos nós vale que só a graça por nós vivida valoriza graça por nós pregada. Em terceiro lugar o exemplo de Paulo nos ensina que a vocação ao ministério não é um fim em si, uma distinção honorífica como os poderosos deste mundo as costumam conferir, mas que o ministério é, antes de mais nada, instrumental para evidenciar ao mundo a longanimidade de Cristo. A partir daí é apreciado o valor do ministério eclesiástico. Ele será funcional na medida em que, pela sua mediação, forem atingidos aqueles que hão de crer em Cristo para a vida eterna (v.16).

IV - A palavra fiel

Uma terceira abordagem interessante de l Tm 1.12-17 seria a partir do versículo central : Fiel é a palavra e digna de toda a aceitação... (v. 15). A frequência deste tipo de expressões nas Cartas Pastorais e a sua importância para o clima teológico das mesmas justificaria plenamente tal enfoque da nossa perícope. Começamos então sondando o contexto em vista de uma melhor compreensão do v. 15. O contexto nos evoca uma igreja cristã atingida pela plenitude da misericórdia divina. Através do seu venerado apóstolo, e seguindo o modelo patenteado na vida daquele, a graça de Cristo está se manifestando profusamente a quantos crêem nele para a vida eterna. Abriu-se diante destes cristãos uma visão da longanimidade de Cristo. Eles estão vivendo um episódio transcendente da história salvífica, circunstância esta que se reflete também na solenidade da doxologia com que a passagem termina (v. 17). Pois bem, em vez d eincorrerem num espiritualismo entusiástico, eles são convidados a relacionar suas experiências com uma sentença que todos já conhecem, uma verdade da fé expressada em palavras: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores.

Semelhantes fórmulas são de grande importância para a vida cristã. Elas constituem um ponto fixo na nossa experiência religiosa. O espírito de Deus, a sua força, a sua graça, servem-se explicitamente do invólucro da palavra. É nesse invólucro que elas se tornam comunicáveis, passando de boca a boca, de geração a geração. As fórmulas fixas chegam a funcionar como sinais de continuidade através da história. O Brasil é um país onde as emoções religiosas florescem abundantemente. Igrejas, seitas, novas religiões expandem-se à porfia. Todas elas prometem satisfação. O Brasil é também um país onde as rápidas transformações causaram uma certa descontinuidade histórica. Há uma dupla descontinuidade para os grupos de imigração recente, cuja terra de origem se lhes tornou quase legendária. Aí a tradição de uma palavra fiel revela toda a sua força. Pode ser a palavra de um Credo, de um catecismo histórico ou de um hinário. A esse respeito as comunidades de tradição luterana possuem verdadeiros tesouros. Há palavras fiéis que nos presenteiam a verdade objetiva do Evangelho frente à subjetividade das nossas emoções; ou então, presenteiam-nos a inteireza do agir de Deus em meio à fragmentação da nossa história. Ora estas mesmas fórmulas podem tornar-se letra morta, se elas não ganham o seu lugar adequado na vida eclesial. No momento em que elas servem apenas para fundamentar uma ortodoxia formal ou para justificar determinada política eclesiástica, no momento em que elas apenas nos amarram ao passado sem transmitir-nos a sua riqueza, essas fórmulas perdem o seu aroma de vida. A palavra fiel deve funcionar na comunicação humana, como ela funcionava em l Tm 1. Deve funcionar como palavra vivida, palavra aceita e crida. Daí porque ela é qualificada como digna de toda aceitação.' O conteúdo dessa palavra, que é de salvação para o pecador, deve ressoar na vida dos pecadores remidos.

V - Observação final

Nestas páginas a perícope foi abordada em três ciclos diferentes. Fica claro que nem todos eles poderão ser harmonizados na mesma prédica. O pregador terá que fazer uma escolha conforme a receptividade dos ouvintes, o posicionamento social, confessional e ecumênico da comunidade, e sobretudo conforme as suas próprias convicções. Quem já optou por um ciclo dentre os aqui apresentados, poderá eventualmente incluir na prédica alguma consideração pertencente aos outros dois, sempre que isso não prejudicar a coerência da argumentação.

VI - Bibliografia

- BROX, Norbert. Die Pastoralbriefe . 4ª. ed . , Regensburg, 1969.
- DIBELIUS, Martin. Die Pastoralbriefe. Neu bearbeitet von Hans Conzelmann. 3a. ed., Tubingen, 1955.
- DAUBER, Heinz. Art. em Für Arbeit und Besinnung , ano 20,(1966), pp. 277-282.
- MEZGER, Manfred. Art. em Göttinger Predigtmeditationen, ano 26 (1971 -72),pp. 277-2l .


Autor(a): Klaus van der Grijp
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 4º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Timóteo I / Capitulo: 1 / Versículo Inicial: 12 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978 / Volume: 3
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18157
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