2 Coríntios 9.6-15

Auxílio Homilético

29/06/1986

Prédica: 2 Coríntios 9.6-15
Autor: Silvio Meincke
Data Litúrgica: Festa da Colheita
Proclamar Libertação - Volume: XI


I — O texto

Os caps. 8 e 9 de 2 Co tratam de uma coleta que Paulo pede para a comunidade de Jerusalém. Como sabemos, 2 Co se compõe de várias cartas. Os caps. 8 e 9, talvez, não foram escritos na mesma data. O cap. 8 relaciona-se com o início da campanha pelas coletas e o cap. 9 a reenceta, depois que o entusiasmo parece ter esfriado. Paulo trata a coleta como um assunto da fé e a insere na sua teologia da graça. Isso se mostra claramente, quando usa o mesmo termo para designar a misericórdia de Deus para com os coríntios e a coleta destes. Descreve a coleta como graça (8.8-9) e bênção (9.5).

Em 9.6-7 encontramos o tema central para o assunto da coleta, O apóstolo distingue claramente entre dois tipos de doadores: o que semeia pouco, com tristeza e por obrigação e que, por isso, pouco ceifará; o que semeia em abundância, com alegria e confiança em Deus e que, por isso, muito ceifará.

Em 8-15 o apóstolo diz como alguém vem a ser um doador alegre: 1) Diz-nos como surge o semear com alegria (8-10), 2) como se apresenta (11 a) e 3) como se efetiva em múltiplas formas(11b-14).

1. Deus mesmo cria nas pessoas a possibilidade de semear (dar) alegremente. Nele e não nas pessoas está a origem dessa ação. O apóstolo coloca o acento nessa ação de Deus (8-10). A dádiva de Deus é motivo e condição para as dádivas da comunidade. Paulo ressalta também a abundância das dádivas com que Deus presenteia a comunidade (8,10,14). No início da ação humana está, portanto, a grandiosa ação de Deus, que se manifesta na graça não só suficiente, mas também superabundante.

2. À dádiva de Deus corresponde o dar dos que se sabem presenteados (11a). Esse dar se apresenta alegre e sem cálculos medrosos. Nessa alegria e generosidade despreocupadas espelha-se um pouco da maneira de como Deus dá.

3. A partilha das dádivas divinas se efetiva em múltiplas formas: Na gratidão a Deus (11 b, 12b, 13a), no suprimento das necessidades dos que são ajudados (12a), na intercessão pelos doadores (14), na saudade dos beneficiados por fraterna comunhão com os benfeitores (14).

Dentre essas múltiplas formas, Paulo ressalta a gratidão e a ação de graças a Deus. E assim, o alegre dar tanto tem em Deus a sua origem quanto a ele conduz. A incondicional referência, tanto de benfeitores quanto de beneficiados, ao doador primeiro que é Deus, une a todos em grande comunidade de fé e amor.

Prevendo essa riqueza multiforme da coleta, confiando na comunhão de todos os envolvidos e na ação de graças a Deus que a todos unirá, os beneficiados ex-judeus e os benfeitores ex-pagãos, o próprio apóstolo vê-se envolvido pela gratidão (15).

II — A meditação

1. A festa da colheita.

A Festa da Colheita convida para agradecer. O texto bíblico, todavia, convida para dar, para contribuir. Como se relacionam o agradecer e o dar?

Entendo que a maior motivação para o dar seja a gratidão. A gratidão a Deus cria a vontade de ajudar e capacita para tanto. Ela não nos deixa quietos, mexe conosco, quer expressar-se e encontra expressão na ação do dar, do contribuir, do ajudar. Assim, o agradecer toma forma no dar.

A Festa da Colheita quer expressar a nossa gratidão. E nós a expressamos com nossas pequenas contribuições, que levamos ao altar, quer em dinheiro, quer em frutos do nosso trabalho. O nosso dar é um agradecer. Naturalmente, o que trazemos ao altar, na Festa da Colheita, quer ser não mais do que um pequeno sinal, um gesto simbólico, tanto do nosso agradecimento, quanto da nossa disposição de dar.

2. Dar é semear.

Para o apóstolo, o dar é um semear. O semear, por uma vez, leva ao colher. Assim, seria de se esperar que o cristão tivesse prazer em dar, na esperança de que esse dar frutificasse de muitas formas. Por que esse não é sempre o caso? Em 9.6 encontramos a resposta. Há dois tipos de doadores: os que semeiam pouco e com tristeza ou por obrigação e os que semeiam com alegria e em abundância. Com isso temos o tema e as partes da prédica:

a) O que semeia pouco, certamente, será uma pessoa preocupada com a sua segurança, com o seu futuro. Ele faz o que a cautela recomenda. Sobretudo, ele pensa nas suas próprias necessidades e no seu sustento. Ele ama, antes de tudo, a si mesmo e esse amor não permite partilha.

b) O que semeia com abundância o faz com confiança (podemos aqui seguir os passos acima referidos, explicando como Deus cria as possibilidades de semear com alegria, como isso se mostra e como se efetiva de formas múltiplas. A prédica encontrará aqui o seu ponto central).

Podemos realçar a comparação dos dois tipos de doadores com o seguinte resumo: Quem semeia pouco, a si mesmo se ama. A quem semeia com alegria, Deus ama.

Não é tarefa do cristão e nem do pregador apontar um e outro tipo de doador, mas sim, olhar para si mesmo, uma vez que, na simultaneidade da nossa situação de iusti et peccatores, os dois tipos moram dentro de nós.

3. Receber e dar.

Não será preciso dizer que se deve tomar o maior cuidado para fugir da exortação legalista, uma tentação muito próxima, quando a prédica trata do estímulo ao dar e do dinheiro. Somente o Evangelho pode despertar a alegria no dar. A lei pode apenas obrigar e, com isso, despertar revolta ou tristeza. Quem dá motivado pelo Evangelho o faz em gratidão pelo muito que já recebeu. A prédica dará, antes de tudo, testemunho da grandiosa dádiva de Deus. É a gratidão por essa dádiva que liberta, motiva, inquieta e procura expressar-se em ação. Nesse sentido, o dar, em última análise, só é possível a partir do que antes se recebeu. A pregação deverá despertar essa gratidão na comunidade. Toda pregação e exortação na base da auto-disciplina, do esforço próprio, do treinamento poderá apenas ser um instrumento da graça, como consequência e segundo momento. No momento que perder essa base, essa origem, essa fonte da graça, torna-se lei e hipocrisia, que mudará a aparência exterior apenas, mas não o íntimo (Mt 7.16-20). A graça muda a árvore, não apenas os frutos. Mais uma vez, portanto, se evidencia que o receber precede ao dar. Por isso, o dar não é aquela coisa terrível que assusta e entristece. Muito antes, é resposta grata, alegre e espontânea ao receber. Além disso, como já vimos acima, é um semear. Não um semear como investimento, que calcula lucro e correção monetária, mas um semear que traz a bênção multiforme que acima referimos: estimula a intercessão pelos doadores, desperta gratidão a Deus nos beneficiados, supre suas necessidades, cria a saudade da comunhão com os doadores. Desta forma, nenhum grama de amor semeado se perde, mas retorna com muitos frutos que novamente poderão ser semeados.

4. A eficácia de dar.

Como seria bela a nossa convivência humana, se fosse inspirada na graça e na gratidão que ela desperta! Como seriam justos os princípios que norteiam a organização da nossa sociedade se brotassem dessa fonte do receber e dar, do dar e receber!

Infelizmente, o que determina a nossa convivência são os princípios do rico insensato (Lc 12.15-21). É o princípio de quem não confia ou só confia nos bens que acumula; o princípio de quem crê que só de pão viverá o homem. É justamente esta tentação de pensarmos que vivemos só do pão que tira o pão de tantos. Essa compreensão errada da vida desperta em nós o medo que quer acumular. E, na corrida competitiva do acumular, o forte acumula tirando do fraco. Tanto o forte quanto o fraco tornam-se vítimas desse jogo: O forte, por procurar o tesouro oculto no campo na direção errada, o fraco, por se ver roubado dos elementos básicos para o seu sustento. A humanidade está profundamente perdida nessa distorção e é aí que reside a origem dessa cruel miséria que estamos cansados de ver, presenciar e lamentar.

O passo imediato dessa distorção é a organização da sociedade pela união dos fortes, que criam leis, ideologias, teologias e estruturas para legalizar, justificar e legitimar o seu acumular injusto. Em outras palavras: Legaliza-se e estrutura-se a distorção, ou seja, o pecado do acumular.

Diante dessa realidade, penso que a espontaneidade do dar cristão compreende dois níveis:

a) Certamente a experiência da graça nos estimula para a coleta, a esmola, a campanha do agasalho, a construção de creches e asilos. São formas do dar para o alívio imediato dos necessitados, que Cristo espera de nós.

b) Olhando, no entanto, para o intrincado das leis, das estruturas e dos sistemas montados para o enriquecimento dos fortes sobre o empobrecimento dos fracos, o nosso bom senso e a nossa prudência (Mt 10.16) nos incentivam (justamente na sociedade terceiromundista e brasileira) a uma caridade mais eficaz, a um dar mais radical. A caridade eficaz exige de nós mais do que dar as sobras, porque o determinante é despojar-se das garantias legais de um sistema que assegura estruturalmente os nossos privilégios. Fácil é dar esmolas, quando, em nossos posicionamentos, em nossas opções políticas, em nossa teologia conservamos uma forma de organização da sociedade que, constantemente, bombeia sobras, privilégios e fortunas para o nosso bolso. A espontaneidade do dar, para ser eficaz, requer, nesta situação, a solidariedade decidida com os empobrecidos, através dos nossos posicionamentos, da nossa pregação, da nossa teologia, da nossa ação solidária, do nosso apoio às suas reinvindicações, à sua organização. Poderíamos comparar essas duas formas de dar, dizendo que a esmola é o amor em migalhas e a solidariedade com os grupos sociais empobrecidos é o amor em doses maciças.

A experiência da graça nos libertará para a doação não só das sobras, mas também das leis e garantias de uma estrutura social que quer perpetuar a divisão entre, por um lado, os doadores que tiram, via estrutura, via lei, via mais-valia, as sobras que depois doam e, por outro lado, os empobrecidos, mil vezes mais roubados do que beneficiados pelas doações. A experiência da graça, portanto, criará em nós essa abertura, essa disposição, esse sonho de colaborar na criação de uma organização social de partilha que dá direito à participação no bolo, desde sua origem, e não apenas às migalhas, depois que alguns poucos já se adonaram do bolo.

Se não for assim, estaremos colocando vinho novo em odres velhos.

III — Subsídios litúrgicos

1. Confissão dos pecados: Senhor! O amor em nós ainda não cresceu o suficiente para cumprir atua vontade. Pedimos pelo teu perdão por esse nosso pecado. Tu semeias riquezas generosas com a tua bondosa mão. Perdoa-nos a nossa falta de generosidade. Acima de tudo, tu nos enviaste o teu Filho que é o verdadeiro pão da vida. Perdoa-nos se procuramos o pão da vida longe dele. Tem piedade de nós, Senhor!

2. Oração de coleta: Senhor! Chegamos a este culto com pequenas dádivas para expressar a nossa gratidão por tudo que nos concedes. Desde a nossa infância, sempre tivemos quem cuidasse de nós e nunca faltou alimento e vestimenta conforme nossas necessidades. Tu colocaste vida nas sementes e fertilidade na terra. Também nos deste inteligência e forças para criar toda sorte de coisas e desempenhar o nosso trabalho. Sobretudo, enviaste teu Filho, que morreu para a nossa salvação. Faze com que a tua bondade renove em nós a disposição de repartir. Amém.

3. Assuntos para a oração final: Oração pelo povo faminto, para que possa organizar-se e influir na organização de uma sociedade que tome em conta o seu direito à vida. Que todos possam ter parte na abundância das riquezas com que Deus brindou a nossa terra. Que as nossas pequenas ofertas da Festa da Colheita sejam um símbolo da nossa disposição de organizar uma sociedade de partilha. Que sejamos generosos o suficiente para dar não somente as sobras, mas também as leis que garantem os privilégios da nossa classe social. Que nossa igreja se solidarize decididamente com as classes populares empobrecidas e apoie as suas reinvindicações. Que os governantes governem a partir das necessidades dos pobres e não a partir dos interesses dos mais fortes. Que bebamos da fonte da graça para que ela nos transforme e desperte em nós o sonho de uma convivência humana fraterna, onde as riquezas são socializadas e não acumuladas individualmente pelos mais rápidos e mais fortes. Amém.

IV — Sugestão para leitura

- BONINO, José Miguez: Ama e faze o que quiseres. São Paulo, Imprensa Metodista, 1982.
- LUTERO, Martim. Da Liberdade Cristã. São Leopoldo/Sinodal.
- SANDRONI, Paulo: O que é mais-valia. Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 1982.

V — Bibliografia

- VOIGT, G. Meditação sobre 2 Coríntios 9.6-15. In: ___ . Das heilige Volk, Goettingen, 1979.
- WENDLAND, H.-D. Die Briefe and die Korinther. In: Das Alte Testament Deutsch, v. 7, Göttingen, 1965.


 


Autor(a): Silvio Meincke
Âmbito: IECLB
Testamento: Novo / Livro: Coríntios II / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 6 / Versículo Final: 15
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1985 / Volume: 11
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 17773
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