2 Samuel 12.1-10,13-14

Auxílio Homilético

02/09/1984

Prédica: 2 Samuel 12.1-10,13-14
Autor: Geraldo Graf
Data Litúrgica: 11° Domingo após Trindade
Data da Pregação: 02/09/1984
Proclamar Libertação - Volume: IX


I - Estrutura do texto

V.1a - Deus envia Natã;

Vv.1b - 4 a história do homem rico e do homem pobre;

Vv.5 - 6 Davi julga a atitude do homem rico;

Vv.7 - 12 Deus julga a atitude de Davi;

V.13a - confissão de pecados de Davi;

V.13b- o perdão;

V.14- o preço do perdão.

A perícope baseia-se na transgressão de Davi contra o Quinto e o Sexto Mandamentos. Mas não se limita apenas a isto. É fundamenta! que o pregador não desvie a atenção dos ouvintes para o julgamento moral dos atos de Davi e, quem sabe, indiretamente, dos membros adúlteros da comunidade. Uma pregação moralista deturparia a preciosidade (tanto de conteúdo quanto de estilo) deste texto.

II — Contexto

O pregador precisa ligar a perícope ao contexto. Só o contexto explica o que se passa. Os ouvintes devem ser informados sobre os acontecimentos que provocaram a intervenção de Deus através de Natã. É preciso relatar o conteúdo do cap. 11. E bom também informar sobre os acontecimentos subsequentes (acentuar os vv. 14ss do texto).

O todo encontra-se no bloco que trata da sucessão real, o qual inicia em 2 Sm 6 e vai até 1 Rs 11 (morte de Salomão).

III – Meditação

O texto emprega uma tática bastante conhecida; muitos pregadores usam este método para atingir os ouvintes por tabelinha. Fala-se de um acontecimento ocorrido com terceiros. Os ouvintes, ao tomarem posição, certamente vão colocar-se ao lado dos injustiçados e condenar o erro. O desfecho é cheio de impacto: o ouvinte descobre que o terceiro é ele mesmo. O julgamento proferido é para si próprio. Os ouvintes são transferidos do banco dos jurados para o banco dos réus.

É isso o que acontece na nossa perícope. Nata narra algo ocorrido com terceiros, ressaltando a injustiça do homem rico. Davi se exalta e julga os atos do homem rico: merece morrer! Mas Davi acaba enxergando a si próprio como o réu da história. Se, por sua vez, a Bíblia nos relata a história de Davi, então pretende que nós nos flagremos como pecadores e transgressores dos mandamentos de Deus.

O crime de Davi é bárbaro. Até hoje, há julgamento muito severo para crimes premeditados. Justamente Davi, o ungido de Deus, o salmista, o líder do povo de Deus, ele é apresentado aqui bem humano, com todas as suas fraquezas. Este talvez seja um aspecto fundamental da Bíblia: ela jamais deixa de mostrar as pessoas como verdadeiramente são. Se estes capítulos fossem deixados de lado, ninguém saberia das fraquezas de Davi.

Nata mostra aqui ser uma pessoa perspicaz. Ele sabe como fazer Davi calçar o sapato. Normalmente, em situações semelhantes, a tendência da pessoa é negar o crime. Aliás, é o que Davi faz diante de Deus até a intervenção de Natã. É uma mentalidade bastante comum, esta de achar que o desequilíbrio entre pessoas nada tem a ver com a relação Deus-homem. Davi se torna adúltero, manda matar, mas finge que vai tudo bem entre ele e Deus.

Mas, a partir do momento em que é desmascarado por Deus, Davi volta a ser um exemplo para nós. A reação de Davi é de arrependimento, reconhecimento de sua situação diante de Deus.

Ao lermos 2 Sm 7.11 -13, vamos compreender a amplitude do preço para o perdão de Davi. Davi perde o filho numa situação em que havia promessa de eternidade para a sua descendência. Davi precisa compreender que, a partir do agir divino, deve acontecer o obedecer humano.

Davi desobedeceu e precisou sentir as consequências naquilo que lhe era mais caro. O acontecido com o filho faz lembrar a conclusão dos Dez Mandamentos.

Mas é nesta parte da perícope que o pregador pode desenvolver mais o assunto: Para que Davi, o transgressor dos mandamentos divinos, possa ser perdoado, morre alguém em seu lugar — uma criança (criança sempre faz lembrar inocência). Na confissão dos pecados, Davi atesta que merece a morte. Mas, porque se arrepende, ele é poupado e outro paga com a vida, em seu lugar. Algo assim se repete uns mil anos depois, valendo agora, não só para uma pessoa, mas para toda a Humanidade, em todos os tempos. Nós só podemos falar do perdão de Deus, porque alguém já pagou o preço — Jesus Cristo, morto como cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Mas, para sermos merecedores do perdão de Deus, é necessário que sejamos humildes e nos reconheçamos como transgressores dos mandamentos divinos. A perícope procura mostrar que, apesar da escolha de Deus — Batismo — não estamos vacinados contra pecado. Davi é um exemplo de fé, mas não é incólume contra tentações. Jamais poderia dizer que já estou salvo, mesmo sendo o ungido de Deus. O texto mostra que os eleitos de Deus têm o compromisso de viver na comunhão com outras pessoas, conforme os preceitos de Deus. Qualquer desequilíbrio entre as pessoas è sinal de uma atitude contra Deus (mesmo se inconsciente). Não existe um vinculo com Deus, desligado da convivência com pessoas. A nossa relação com Deus tem consequências coletivas. Para todos nós vale a pergunta que Deus fez a Caim: Onde está o teu irmão?.

IV — Para quem prega em termos sociais

Nosso texto tem um interessante paralelo em 1 Rs 21

O agir de Davi contra Urias (perícope anterior) representa o agir do mais forte contra o mais fraco; do dominador contra o dominado; do explorador contra o oprimido. O forte vai até às últimas consequências para conseguir aquilo que está na posse do fraco. É a característica da ganância: onde eu coloco o sentido da vida em cima das posses, ali jamais estou satisfeito com o que possuo.

Uma pequena comunidade, do Distrito Eclesiástico Guandu (ES), era formada por pequenos agricultores. Ao lado, vivia um grande fazendeiro.Ele cobiçava as terras dos agricultores por causa das nascentes d'água que serviriam muito bem para os seus muitos rebanhos de gado. Ao ler o texto bíblico vi muitas semelhanças com a história do fazendeiro e dos agricultores. O fazendeiro é Davi; os agricultores, Urias, e a terra, Bateseba. O fazendeiro namora a terra dos agricultores. Ele a deseja para si. Procura comprá-la, mas é ele quem faz o preço. Os agricultores não querem vender, pois gostam dali e o preço é muito baixo. O fazendeiro, então, parte para outra tática. Manda, à noite, jagunços para intimidar os agricultores. Cercas são cortadas e o gado estraga as roças. Tiros são dados, fontes são envenenadas. Por fim começa-se a matar os mais teimosos de tocaia. É a gota d'água. Hoje, o fazendeiro é o dono da terra que desejou. Muitos agricultores mudaram-se para Rondônia, outros moram como meeiros na terra; além disso, há cruzes no cemitério, daqueles que ousaram contrariar o fazendeiro.

No texto bíblico destaca-se Natã. É aquele que, a mando de Deus, enfrenta Davi e faz enxergar o erro. Quem seria Nata, na situação social de opressão e exploração de hoje? Aqui se pode descobrir a tarefa (prioridade) da Igreja.

V — Frases

Se você não sentir mais pecados, então certamente já está amortecido por eles.(Lutero)

Este é o pecado de Davi que, neste ponto de sua vida, esquece do Senhor que o fez rei e o conduziu até esta altura. Agora está tão cego como mais tarde Acabe em relação a Nabote (1 Rs 21), pior do que seu neto Roboão (1 Rs 12), e muito pior do que ele mesmo em 2 Sm 24, quando da contagem do povo, o que também lhe é computado como pecado... (K. Barth)

Nós todos não somos Davi. Talvez tenhamos razão quando afirmamos que não temos preocupação com prestígio; que os que têm são os que ocupam lugar de destaque público. Não nos iludamos: no fundo cada um de nós é um pequeno rei no seu pequeno ambiente. Certamente gostamos muito mais daqueles que nos elogiam do que daqueles que nos lembram os mandamentos divinos. Procuramos preservar com unhas e dentes a nossa imagem pública. Como receberíamos um Nata em nosso meio? (G. Voigt)

VI — Subsídios litúrgicos

1. Intróito: SI 33. 12-22

2. Confissão de pecados: Senhor, Deus misericordioso' Reconhecemos e confessamos que somos transgressores dos teus mandamentos. Nosso relacionamento com o próximo está abalado, desiquilibrada está a natureza pela ação de nossas mãos. Ali onde agimos sem te obedecer, só podemos apresentar destruição, desamor, egoísmo, fome e morte. Confessamos-te a nossa fraqueza e reconhecemos a nossa dependência de ti. Tem piedade de nós e dá-nos a chance de recuperarmos a comunhão contigo, com o próximo e com a tua criação toda. Isso te pedimos em nome de Jesus, o único mediador entre nós e a tua infinita graça. Amém.

3. Oração de coleta: Senhor, todo-poderoso Deus! Nós estamos aqui para ouvir a tua Palavra. Dá-nos corações humildes para não acharmos que já sabemos tudo sobre ti. Queira a tua Palavra transformar nossas vidas, despertando-nos para a nossa tarefa no mundo. Ajuda-nos a enxergar o nosso próximo, recuperar a nossa comunhão com ele. Anima-nos para não desanimarmos na fé por causa de nossos fracassos, desobediência ou fraquezas. Ajunta-nos cada vez mais como verdadeira comunidade que ouse ser a tua luz no mundo. Amém.

4. Oração de intercessão: O pregador deve inteirar-se do que está acontecendo à sua volta, por ocasião do uso desta meditação. Em cima disso fazer a oração, pois assim será mais concreta.


Autor(a): Geraldo Graf
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 12º Domingo após Pentecostes
Testamento: Antigo / Livro: Samuel II / Capitulo: 12 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 10
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1983 / Volume: 9
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 13443
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