2 Tessalonicenses 2.1-17

Auxílio Homilético

29/10/1978

Prédica: 2 Tessalonicenses 2.1-17
Autor: Ulrico Sperb
Data Litúrgica: 23º. Domingo após Trindade
Data da Pregação: 29/10/1978
Proclamar Libertação - Volume: III


l - Não, não desista deste texto! Apesar de ser um pouco assustador, vale a pena pregar sobre esta perícope. Tentaremos mostrar por quê. Mesmo que seja longo e aborde uma série de temas. E apesar de sua temática apocalíptica. O texto contém uma mensagem muito importante para o mundo atual. Por isso é muito necessário que se pregue sobre um tal texto.

II - Antes de abordarmos a mensagem da perícope, queremos mencionar um perigo para a pregação. É um erro, no qual incorrem as seitas e o pentecostalismo. Também é uma tentação, pois apesar de estar errado, obtém muita aceitação. E o pastor que prega neste sentido certamente terá ouvidos agradecidos e atentos. Mas ele estará deturpando o texto.

Portanto cuidado para não incorrer no seguinte erro: o de procurar na atualidade os sinais dos tempos. Interpretar apocalipticamente os acontecimentos atuais não é correto. Procurar exemplos atuais para os vv. 3 e 4 pode levar a um  beco sem saída. Pois na verdade a História está repleta de exemplos para tal. Vejamos:

- As grandes perseguições dos três primeiros séculos poderiam significar sinais para a próxima vinda de Cristo. Alguns imperadores romanos poderiam parecer o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus, ou seja, o adversário”.

- No século XVI Lutero chegou a chamar o Papa em de anti-Cristo. Para Martim Lutero o Papa poderia ser este tal de “filho da perdição”. (v.3) Ao passo que para a Igreja Católica o próprio Lutero poderia ser encarado como o “ homem da iniquidade”.

- O Racionalismo do século XVIII poderia ser interpretado como a época da apostasia. Principalmente certas direções francesas do Racionalismo que endeusavam a cultura e negavam a Deus, poderiam aparentar tempos apocalípticos.

- O nazismo sempre de novo foi encarado como si¬nal para a próxima vinda de Cristo. E nem precisamos procurar muito para encontrar uma série de exemplos. O próprio Hitler foi encarado como anti-Cristo.

- O comunismo materialista por muitos é encarado como sinal dos tempos. Ele nega a Deus e ao mesmo tempo endeusa o Estado.

- Também o capitalismo pode ser encarado como sinal apocalíptico, pois toma a si o direito de defender o cristianismo ocidental. Isto contra o materialismo dialético. Mas na realidade ele chega a ponto de assentar no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus (v.4).

Vemos assim que podemos tirar sinais apocalípticos das mais variadas situações e de diversos acontecimentos através da História. Este é o primeiro argumento que nos impede de procurarmos exemplos do mundo atual para atualizarmos os vv. 3 e 4.

O segundo argumento é histórico. Os ouvintes gostam das interpretações negativas, obscuras e pessimistas do momento atual. Gostam quando se fala dos tempos difíceis que estamos vivendo. Mas uma visão apocalíptica do momento, apesar de agradar, é uma supervalorização do sofrimento, do padecimento dos homens de hoje. Pois, como vimos acima, tempos iguais ou piores já aconteceram. E mesmo assim o dia final não aconteceu.


O terceiro argumento é de ordem teológica. Não podemos procurar no mundo de hoje - apesar de tudo - sinais apocalípticos. Apesar da secularização, por exemplo, e apesar do crescente ateísmo. E, por outro lado, apesar do aumento incrível de adeptos das filosofias orientais. Os pensamentos apocalípticos dos vv.3 e 4 contam com uma situação muito mais radical e global. E uma característica do Apocalipse é o fato de colocar os acontecimentos previstos para um futuro indeterminado. Futuro este que unicamente é conhecido por Deus.

Mas vejamos, então, como podemos atualizar esta perícope.

III - O ponto de partida são os vv.l a 3a e 6. A vinda de Cristo acontecerá em ocasião própria. E não é preciso a gente se impressionar com pregadores famosos, com interpretações bíblicas que supõem estar bem próxima a chegada de Cristo. Quem decide quando é chegado o momento é Deus. O tempo oportuno, o eschaton não pode ser determinado pelos homens.

O autor da epístola - existem dúvidas se foi Paulo ou se a carta é pós-paulina - no v.7 coloca uma visão do que é atual. O mal já opera e aguarda. Ou seja, o momento atual é pré-apocalíptico. A visão do mundo refletida é de um mundo presa fácil para o mal.

Este mal no entanto diante de Cristo é extremamente frágil. Com apenas um sopro será destruído(v.8). E aqui encontramos o quérigma. O Apocalipse prevê uma situação de completa maldade. E já agora podemos sentir seus sintomas. Portanto, os acontecimentos do mundo podem ser interpretados como sintomas, como prenúncios do apocalipse que está por vir. A maldade ainda terá seu reinado verdadeiro. Mas ela é infinitamente mais fraca do que Cristo. Eis o Evangelho: diante de Cristo o mal, por mais forte e dominante que seja, e destruído. Em Cristo termina todo mal.

IV - Por isso o autor pode exortar sua comunidade a permanecer firme em Cristo (vv.13-15). Pois com Cristo a comunidade pode vencer o mal e ultrapassar a tentação de não poder mais esperar pela vinda de Senhor. Num mundo em que o mal prolifera, é grande a tentação de se seguir a qualquer um (vv. 9-l2). Mas diante de Cristo se decide a nossa fé, a nossa opção.

Nos vv. 13-14 encontramos uma visão e compreensão da vida: nosso viver é um ir para a salvação, para a ¨glória de nosso Senhor Jesus Cristo”. E isto se torna possível porque somos “escolhidos” por Deus e porque nos salva e nos concee a fé na verdade.

V – Pregar sobre este texto significa:

- Estar consciente de que a maioria dos ouvintes, ao contrário da situação da epístola, não espera a próxima vinda de Cristo. Não nos preocupamos com o dia do Senhor.

- Saber que a intenção primordial do texto, em sua época, é dizer que a vinda do Senhor deve ser precedida de acontecimentos, os quais ainda não aconteceram.

- Deixar de interpretar apocalípticamente os acontecimentos atuais.


VI - Sugestões para a prédica sobre esta perícope:

- Ponto de partida poderia ser a atualização dos vv.7-12. Existe muita confusão na fé dos membros de nossas comunidades. Com esta mania de se dizer que Deus é um só está se dando muito lugar ao diabo (como sinônimo de confusão). O que é feito em nome de Deus é bom, e não se pergunta por sua origem. A Igreja Católica na Bahia tem as maiores dificuldades entre a fé cristã e as superstições afro-brasileiras. Os membros em sua grande maioria escondem dos pastores - porque sabem que são contra - suas superstições. Mas a verdade é que ao surgir a primeira dificuldade procuram meios e métodos que pensam procederem de Deus ou até que já sabem que não provém de Deus.

A falta de uma pureza de fé leva a uma ética muito duvidosa. A dupla moral que existe em nossas comunidades faz com que seja possível compactuar-se com as maiores injustiças. Há pouco tempo uma pessoa me disse: Os luteranos aqui em N. N. são todos de uma classe muito fina. Será isto prêmio de Deus ou consequência do pacto com satanás (dinheiro)?

- O passo seguinte na prédica pode ser a atualização dos vv.13-15. De um modo geral dirigimo-nos a cristãos de berço, ou seja, a pessoas que foram batizadas enquanto eram crianças. Esta gente desde pequena esteve em contato com os ensinamentos do Evangelho. Mesmo que pudéssemos criticar a pregação do passado, não podemos negar o fato de que nossos membros foram ensinados a distinguirem entre o bem e mal. Eles devem ser admoestados a permanecerem firmes em sua fé. A ficarem do lado do bem. A não sucumbirem a tentação do mal. A optarem pela verdade.

- E então eu atualizaria da seguinte forma os vv.1-6: não sabemos quando acontecerá a próxima vinda do Senhor. Mas é em sua direção que vivemos. Vivemos ao encontro de Cristo. O autor da carta coloca antes da vinda de Cristo a aposta-sia, o tempo de total revolta contra Deus. Isto pode acontecer já amanhã. Trata-se, portanto, de verificarmos se não militaremos, ou se até já não estamos militando, ao lado do mal.

Por isso somos exortados a permanecermos firmes na fé cristã. Somente na fé podemos distinguir se aquilo que se faz no Brasil atualmente procede da verdade de Deus ou do mal que “aguarda” sua oportunidade total.

- Esta prédica cai na época do ano em que comemoramos a Reforma. Normalmente temos um orgulho de sermos luteranos e de não sermos católicos. Mas falta-nos um maior embasamento nas interpretações luteranas do Evangelho. As explicações, por exemplo, que Lutero dá aos 10 Mandamentos expressam justamente as tentações a que estamos expostos.

- Também sabemos que esta prédica será feita dentro de uma época de eleições. Quantas promessas vãs são feitas! Quantas mentiras. Quanto envolvimento com o mal. Quantos se deleitam com a injustiça. É muito importante permanecer-se firme na fé para não se compactuar e entrar em compromisso com forças e poderes, os quais não podemos controlar.

- O desejo nos vv.16-17 pode ser colocado também no final da prédica. Conclamando a comunidade para atentar na profundidade destas palavras, devemos realmente desejar - orar - que elas se concretizem. Devemos também esperar por seu efeito e confiar na sua eficácia. Estas palavras só podem ser ditas por quem ama realmente sua comunidade .


VII - Bibliografia

- MARXSEN, Willi. Einleitung in das Neue Testament. Gütersloh, 1963.
- KUNG, Hans. Die Kirche. Friburgo-Basiléia-Viena, l962.
- Auxílio Homilético sobre 2 Ts 2.1-12. In: Pfarrerblatt. Ano 1972.
- VELKD e editores. Evangelischer Erwachsenenkatechismus. Gütersloh, 1975.


Autor(a): Ulrico Sperb
Âmbito: IECLB
Natureza do Domingo: Pentecostes
Perfil do Domingo: 24º Domingo após Pentecostes
Testamento: Novo / Livro: Tessalonicenses II / Capitulo: 2 / Versículo Inicial: 1 / Versículo Final: 17
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1978 / Volume: 3
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Auxílio homilético
ID: 18174
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Ó Deus, meu libertador, tu tens sido a minha ajuda. Não me deixes, não me abandones.
Salmo 27.9
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