A revelação

Jesus é apresentado como nunca antes havia acontecido

02/03/2019

Cristo Redentor - Rio de Janeiro - Autora: Ricarda Heine
foto Yasuyoshi Chiba - site Sou do Rio
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Lucas 9.28-36 Aproximadamente oito dias depois de dizer essas coisas, Jesus tomou consigo a Pedro, João e Tiago e subiu a um monte para orar. Enquanto orava, a aparência de seu rosto se transformou, e suas roupas ficaram alvas e resplandecentes como o brilho de um relâmpago. Surgiram dois homens que começaram a conversar com Jesus. Eram Moisés e Elias. Apareceram em glorioso esplendor, e falavam sobre a partida de Jesus, que estava para se cumprir em Jerusalém. Pedro e os seus companheiros estavam dominados pelo sono; acordando subitamente, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. Quando estes estavam se retirando, Pedro disse a Jesus: Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias. ( Ele não sabia o que estava dizendo. ) Enquanto ele estava falando, uma nuvem apareceu e os envolveu, e eles ficaram com medo ao entrarem na nuvem. Dela saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho, o Escolhido; ouçam a ele! “ Tendo-se ouvido a voz, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram isto somente para si; naqueles dias, não contaram a ninguém nada do que tinham visto.

A revelação

Prezada comunidade.
O texto que lemos sempre me causou, ao mesmo tempo, empatia e rejeição. Acho que isso não foi muito diferente com Pedro, João e Tiago, os três melhores amigos de Jesus.

Quase sempre me deparo com este texto justamente na época do carnaval. O texto me atrai porque fala de retirar-se. Nada melhor que sair da muvuca do carnaval e ter um tempo de meditar, de repensar a vida e de oração. Mas me causa rejeição porque é inevitável que se diga: não esqueça de cair na real. A montanha existe por apenas alguns momentos. Hoje, p.ex., estão reunidos milhares de jovens em retiros espirituais Brasil afora. Estão na montanha. Estão vivendo uma espécie de revelação de Cristo. Mas tem a volta.

Um exemplo vintage: Como num filme fotográfico que é banhado no escuro absoluto em diferentes bandejas de produtos químicos até que revele o conteúdo da película. Esta, depois, vai iluminar o papel fotográfico. Novamente uma série de processos químicos se sucedem no escuro até que o papel revele a imagem fotografada sabe-se lá quanto tempo antes. Uma maravilha de processo.

O local da fotografia

O texto diz que haviam se passado oito dias (Mateus e Marcos falam em seis dias). Uma semana. A fotografia foi tirada para documentar a inusitada confissão de Pedro. Nunca ninguém antes e em nenhum lugar tinha reconhecido que Jesus é o Messias. “Pela primeira vez no evangelho, os discípulos testemunharam reconhecer que Jesus é o cumprimento das promessas de Deus (no Antigo Testamento) ; o ungido (Messias/Cristo) que Deus enviara para restaurar aquilo que se rompeu no Éden, quando Adão e Eva pecaram; [restaurar] a paz e harmonia com Deus, a paz e harmonia do ser humano consigo mesmo, a paz e harmonia entre os seres humanos, a paz e harmonia com a criação de Deus”. (Pr. Marcelo Jung, PL 43, p.104)

A notícia de que acabara de se ouvir aquilo sobre o que se aguardava há milênios, precisava ser documentada. Ainda não estava revelada, mas já guardada.

(Parece ter havido uma influência do evangelista Marcos em Lucas, naquela tendência de deixar as coisas escondidas. Nem tudo deveria ser mostrado às claras naquele momento. Somente algumas pessoas escolhidas tinham acesso às informações privilegiadas.)

Jesus é revelado

Antes que Jesus possa ser revelado na transfiguração, precisa haver um “banho de realidade” para os discípulos. Festejar o Cristo implica em carregar sua própria cruz, realça o contexto. Esta dura notícia não deixa de ser uma decepção. O ufanismo a respeito do Cristo deveria passar por uma tão cruel prova como a cruz? E não apenas isto: diz que “se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (v.23), ou seja, envolve todas as pessoas que lhe seguem?

Então vem a transfiguração. Jesus sabia que aquela gente, ao mesmo tempo em que estava afetivamente envolvida com o Cristo, continuava desconfiada de Sua atitude. Um Messias falando em morrer a pior morte conhecida na época, a pena capital da intervenção romana?

Em meio àquele brilho todo surgem dois dos maiores líderes para o povo. Quem não falava com gratidão dos feitos de Moisés e Elias? Ambos representam a lei e as palavras proféticas. Estavam, no entanto, longe da importância daquilo que ainda veriam.

A glória é manifestada

Incomparavelmente maior é a glória de Deus revelada no Cristo. Deus, muitas vezes, se mostra através do que se chama teofanias. São percepções sobrenaturais de Sua presença, como é o caso aqui neste alto monte. O brilho indescritível do Messias é o que atrai os discípulos para estar próximo de Jesus. O céu se abre e se mostra muito próximo de todas as pessoas que ficam no monte com o Senhor.

Moisés e Daniel tiveram seus momentos de comunhão sobre o monte. Os discípulos com Jesus, várias vezes. Elias e Eliseu da mesmo forma tiveram revelações especiais ao se retirarem para estar em comunhão com Deus. Martin Luther relata sua experiência na torre, em Wittenberg, onde reconheceu - e tomou posse - a presença sobrenatural da graça de Jesus em sua vida.

É hora da Igreja de Cristo voltar a ter visões, de perceber a presença de Deus muito além dos casuísmos que distorcem a vida de todos nós. Estamos vivendo de forma cada vez mais materialista e não temos espaço, mesmo em nossa fé, para perceber o que está muito além do nosso alcance de visão. É tempo de vislumbrar as coisas do céu, ter consciência da glória de Cristo. É momento de buscarmos, por fé e graça, uma espiritualidade viva e contagiante em nossa Igreja, caso contrário seremos reduzidos a pedras frias que não mudam a vida de ninguém.

Voltando à realidade

Tão rápido e fugaz é o momento da vivência da glória. A tentação óbvia é eternizar, tanto quanto possível, esta experiência deslumbrante. No entanto, todos devemos voltar do nosso retiro sobre o monte - também os milhares de jovens que escolheram aproveitar as várias ofertas para se retirar, vão precisar voltar. O que pode parecer frustrante - ter que encarar novamente a realidade - tende a se tornar uma experiência de confiança e amadurecimento.

A ilusão de que as coisas se resolvem quando o astral é bom, quando estamos cercados apenas de pessoas boas, quando os problemas estão longe, permanece sendo uma ilusão. E este é o primeiro propósito neste episódio com Jesus.

O segundo aprendizado que esta experiência ímpar vivida por estes três discípulos traz é que o caminho da cruz nos amadurece e enche de confiança. Nosso caminhar não se limita ao que vivemos no “aqui e agora”, mas sempre nos deverá erguer os olhos para vermos aquilo que ainda não vemos.

Conclusão

Cara comunidade de fé.

A revelação de Jesus muitas vezes vai acontecer no quarto escuro da nossa dor, da nossa desconfiança ou mesmo da nossa desobediência. É nos quartos escuros das mentes pervertidas, sem Cristo, que acontecem as violências contra crianças e mulheres. É na escuridão da consciência que pessoas se tornam insensíveis e indiferentes para com o próximo. É nesta escuridão que Jesus quer mostrar seu rosto.

A escuridão com suas várias caras deve ser definitivamente destruída pelo testemunho amoroso e consistente de todas as pessoas batizadas e envolvidas pela luz do Cristo. E, percebam, isso não é privilégio para algumas pessoas seletas. Você pode ver o brilho de Cristo e ser a pessoa que reflete este amor e cuidado para outras muitas pessoas.

Amém!

 

Fotografias: Mosaico da Basílica da Transfiguração no Monte Tabor - Galileia - Israel

                    Cristo Redentor - Rio de Janeiro - autora: Ricarda Heine
 


Autor(a): Pr. Rolf Rieck
Âmbito: IECLB / Sinodo: Sudeste / Paróquia: Rio de Janeiro - Martin Luther (Centro-RJ)
Área: Confessionalidade / Nível: Confessionalidade - Prédicas e Meditações
Testamento: Novo / Livro: Lucas / Capitulo: 9 / Versículo Inicial: 28 / Versículo Final: 36
Natureza do Texto: Pregação/meditação
Perfil do Texto: Prédica
ID: 51093
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A Deus, aos pais e aos mestres, nunca se poderá agradecer e recompensar de modo suficiente.
Martim Lutero
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